Mar de Heróis
Navio da Marinha do Brasil lança cargas de profundidade durante a Segunda Guerra Mundial
Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)
Ex-Comandante da Fragata Independência
“Acostume-se a estar onde a ação e os riscos existem, pois é lá que os homens do mar são forjados.”
A História Naval, parte integrante da História Marítima e Militar, trata da guerra no mar. A História Marítima abrange as demais atividades e fatos ocorridos no mar.
Apesar do hiato temporal existente entre os primórdios e os dias de hoje, o mar sempre despertou um grande fascínio e inspirou exploradores. Ao mesmo tempo, aqueles que labutam no mar estão quase sempre submetidos a diversas intempéries, bem como são testados quanto às suas capacidades de superação. Riscos, pressões, desconforto e o perigo são inerentes a atividade marítima.
O mundo como hoje conhecemos também foi construído com a bravura dos homens que ousaram desafiar os mares associada ao crescente domínio da construção naval e ao progressivo desenvolvimento da arte da navegação. Os primeiros marinheiros não dispunham das experiências, da tecnologia e do conhecimento que temos atualmente. Certamente, muitos pereceram na busca pelo desconhecido.
As precárias condições das primeiras embarcações exigiam muita tenacidade para lidar com o desconforto da vida a bordo.
Por que razões determinados povos se fizeram ao mar? Os motivos são diversos, no entanto, existem alguns que podem ser mencionados: condições geográficas, vocação marítima e a necessidade comercial. Os polinésios, por exemplo, povos arquipélágicos do oceano Pacífico, por volta de 10.000 a.C., iniciaram um longo processo de migração para o continente asiático, realizando longas viagens de exploração e colonização nas diversas ilhas daquele oceano. Fato motivado pela existência de diversas ilhas vulcânicas, onde as erupções eram possíveis, e ilhas com relevo montanhoso e árido, onde pequenas áreas eram aproveitáveis para a agricultura.
Napoleão Bonaparte certa vez afirmou que “a história de um país é a história da sua geografia”.
A vocação marítima dos ingleses foi um fator crucial e determinante na sua história, moldando a nação e permitindo-lhes estabelecer um vasto império. Essa vocação está diretamente relacionada a sua condição insular. Além disso, foi impulsionada pela elaboração de uma estratégia naval para garantir seus interesses comerciais.
O navegador genovês, Cristóvão Colombo, escreveu seu nome na história. Considerado imprudente quanto as suas pressuposições de que poderia atingir a Ásia pelo ocidente, foi questionado pela igreja e por reis. Após um longo período de negociações, Colombo conseguiu o apoio dos Reis Católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, para a realização do seu projeto ultramarino. Em 1492, Colombo com três embarcações se lançou numa aventura marcada por calmarias e incertezas, que foi finalmente coroada com a descoberta do novo mundo.

A solidariedade e a cooperação são valores essenciais para os marinheiros, pois são motivados pelas condições adversas do ambiente e pelas constantes necessidades de apoio mútuo.
Muitos navios afundaram e marinheiros morreram devido a graves acidentes causados pelo desconhecimento da longitude. Em 1707, navios de guerra da marinha britânica navegavam rumo ao Canal da Mancha. Os navios se perderam e naufragaram nas proximidades das ilhas Scilly (sudoeste da Inglaterra).
Não é de hoje que qualquer ponto na superfície terrestre ou no mar pode ser localizado por meio de duas coordenadas geográficas – a latitude e a longitude – que são linhas imaginárias que se cruzam num ponto. Mas nem sempre foi assim.
Em 1492, Colombo só navegava pelo cálculo da latitude (paralelos). Ele seguiu um caminho reto no Oceano Atlântico por um paralelo até encontrar o continente norte-americano.
O quadrante era o instrumento de medida angular utilizado, no século XV, para calcular a latitude pela altura do sol e medir o ângulo entre o horizonte e a estrela polar no hemisfério norte, à noite. O conceito de longitude já era conhecido, porém, a sua imprecisão ainda era um grande problema para os navegadores. Esse problema só seria resolvido no século XVIII.
Para navegar com maior precisão, é necessário estabelecer duas coordenadas geográficas que se cruzem em um ponto: a latitude e a longitude. A latitude é a distância em graus, minutos e segundos da linha do equador para o norte ou para o sul, podendo variar de 0° a 90°.
A longitude é a distância em graus, minutos e segundos medida entre qualquer ponto da superfície terrestre e o Meridiano de Greenwich. As longitudes variam de 0° a 180° no sentido oeste ou no sentido leste. A latitude era determinada medindo a altura da estrela polar. A altura da estrela polar em relação à linha do horizonte indicava diretamente o valor da latitude no hemisfério norte.

Contudo, ao cruzarmos a linha do equador, a estrela polar deixa de ser visível. Somente com o desenvolvimento do cronômetro é que foi possível determinar a longitude. Conhecendo a hora local de dois pontos na superfície terrestre, é possível usar essa diferença de tempo para o cálculo da distância em longitude que os separa. Até o século XVIII, um dos maiores desafios científicos da humanidade era estabelecer a longitude no mar.
Em 1714, depois de muitos naufrágios dos navios da Marinha Real, o Parlamento Britânico criou um prêmio milionário para quem descobrisse como determinar a longitude no mar. Somente em 1761-62 é que o problema da longitude foi praticamente resolvido.
O inglês John Harrison inventou um cronômetro com uma precisão aceitável para atender às exigências da navegação. Esse cronômetro era acertado com a hora do ponto de partida da embarcação. A longitude do ponto era calculada comparando a hora local com a hora que o cronômetro marcava.
Em agosto de 1914, o explorador irlandês Ernest Shackleton, com 27 homens sob seu comando, partiu das Ilhas Geórgia do Sul (Inglaterra) na embarcação “Endurance” em direção à Baía do Mar de Weddell. A Expedição Imperial Transantártida tinha o propósito de que os exploradores cruzassem o continente gelado numa caminhada de 2000 km sobre o gelo.
Em janeiro de 1915, devido a formação de gelo naquela área marítima, o “Endurance” ficou encalhado e começou a derivar se afastando da Antártida. A embarcação acabaria por ficar presa no gelo e naufragaria. Durante meses, comandante e tripulação com 3 embarcações salva-vidas e poucos suprimentos começariam uma heroica aventura de sobrevivência.
Em abril de 1916, os exploradores conseguiram navegar até a ilha Elefante por meio das embarcações salva-vidas. Então, Shackleton selecionou 5 tripulantes para navegar e buscar ajuda.

Eles lutaram contra o frio, fortes ventos e grandes ondas durante a travessia. Posteriormente, quando chegaram em terra, conseguiram o apoio do navio chileno Yelcho, sob o comando do capitão Luis Pardo Villar. O resgate dos 22 tripulantes que permaneceram na Ilha Elefante ocorreu em 30 de agosto de 1916.
O sucesso do difícil resgate tornou Luis Pardo um herói nacional no Chile. Hoje, uma estátua está no porto de Punta Arenas, comemorando a coragem da equipe chilena. Em uma das regiões mais inóspitas do mundo, todos sobreviveram!
Na Marinhas, a palavra comandante simboliza um honroso cargo a ser exercido por profissionais, que são selecionados ao longo das suas carreiras. A difícil arte de comandar envolve gestão de pessoas, liderança, permanente disponibilidade, conhecimento profissional, responsabilidade pela vida humana e pela vida material.
A prática da liderança consiste em influenciar pessoas, de tal modo que possamos conquistar sua confiança, respeito e lealdade. A liderança é um processo contínuo de autoavaliação e aprendizado. Valores como disciplina, coragem, espírito de sacrifício e comprometimento devem ser permanentemente cultivados.
Um líder nasce e cresce com o grupo, fazendo parte dele. A filosofia de comando diz respeito ao estilo de liderança, conjunto de valores e princípios que norteiam a abordagem do comandante no exercício do cargo. A filosofia tem influência direta no clima organizacional e no desempenho dos militares.
O permanente acompanhamento das relações humanas a bordo é fundamental. Zelar por um bom ambiente certamente contribui para a salutar convivência da tripulação e para o eficiente desempenho das embarcações.

Em 2012, quando era Comandante da Fragata Independência (F44), nosso navio teve a oportunidade de participar da Comptuex (“Composite Training Unit Exercise”), com a “US Navy”, na costa leste dos Estados Unidos da América (EUA), na área marítima compreendida entre os Estados da Virgínia e da Flórida. Naquela ocasião, visitei na Base Naval de Norfolk o navio USS THE SULLIVANS (DDG 68) e tomei conhecimento da marcante história que envolvia o nome daquele navio.

Durante a Segunda Guerra Mundial, cinco irmãos de uma mesma família de Waterloo, Estado de Iowa, se alistaram na “US Navy” em 1942, logo após o ataque japonês a “Pearl Harbor”. Eles eram os irmãos Sullivans e estavam servindo juntos no mesmo navio, o Cruzador Leve Juneau (CL 52). Em dezembro do mesmo ano, na Batalha de Guadacanal,entre as forças aliadas e o Japão, o navio foi atingido por um torpedo de um submarino japonês. O navio explodiu e afundou.
Alguns dias após o naufrágio, somente dez sobreviventes foram encontrados por uma aeronave de busca e resgatados da água. Durante e após o ataque todos os irmãos faleceram. Essa havia sido a maior perda de uma família na história militar norte-americana.


Em carta do então Presidente dos Estados Unidos da América para a família: “Como Comandante-em-Chefe, quero que saibam que a nação inteira compartilha sua tristeza… Tenho certeza de que todos nós nos animamos ao saber que eles lutaram lado a lado. Como um de seus filhos escreveu, ‘Faremos juntos uma equipe que não pode ser vencida.’ É esse espírito que no final deve triunfar.” – Presidente Franklin D. Roosevelt para Thomas e Aleta Sullivan, 13 de janeiro de 1943.■


Excelente e interessante artigo. Parabéns ao autor, Comandante Reale.
Eu li 2 livros sobre a epopéia de Shackleton e sua tripulação. As fotos de Frank Hurley são simplesmente fantásticas. As dificuldades, intempéries e privações pelas quais todos passaram, o tempo que tudo durou e, ainda assim, todos terem sobrevivido é algo quase inexplicável. Quem não leu sobre essa história deveria procurar ler. Vale totalmente cada minuto de leitura!
Valeu a dica. De minha parte soube sobre a real tragédia do Juneau” com o livro
“Left to Die” e comprei uma miniatura em metal desse interessante navio, um tipo de Cruzador Leve cuja bateria principal era constituída de canhões de 5 polegadas de duplo emprego que depois da guerra seria classificado como “Leve Anti Aéreo” (CLAA).
Olá, Dalton. Vou procurar esse livro. Também agradeço a dica.
Se não me falha a memória os Editores também já apresentaram no Blog essa história dos irmãos Sullivans. Claro não desmerecendo o belo texto Comte Reale. Como se diz: “Relembrar, é viver” São histórias que se conta nos dias atuais e as pessoas desacreditam que aquilo foi verdade ou que aconteceu mesmo, gerando um ar de dúvida em relação ao assunto. Só quem sabe mesmo é quem passou pelo ocorrido. Ex: Quando servindo no D26 na estação de carga leve a ré era líder no cabo de sustentação, A estação foi montada pelo Grupo MR e tudo OK para iniciar… Read more »
Impressionante, amo muito le esse tipo de assunto, sobre história no mar..
Parabéns pelo excelente artigo ao site Poder Naval e ao autor. Obrigado