Lavrov alertou sobre a tentativa dos EUA de estabelecer superioridade estratégica sobre a Rússia

47
bulava

Míssil balístico Bulava em teste de lançamento a partir de um submarino estratégico russo

A Rússia provou que é capaz de manter suas capacidades de segundo ataque nuclear, mas a tentativa contínua dos Estados Unidos de neutralizá-las é muito hostil, o que dificulta enormemente qualquer possível “Nova Détente” após o fim do conflito ucraniano

Por Andrew Korybko*

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, realizou na quarta-feira (21/1) sua primeira coletiva de imprensa do ano, na qual detalhou a política russa em relação a uma ampla gama de temas. Entre os mais importantes esteve o fim iminente do tratado New START, previsto para o início do próximo mês. Trump havia recusado anteriormente a proposta de Putin para estender o acordo por mais um ano. Lavrov interpretou essa decisão como a reafirmação da tentativa dos EUA de “estabelecer superioridade em determinadas áreas da estabilidade estratégica” em relação à Rússia.

Em seguida, ele explicou as quatro formas interligadas pelas quais isso seria buscado. A primeira é o desdobramento, pelos EUA, de mísseis terrestres de alcance intermediário e de curto alcance no Japão, nas Filipinas e, em breve, na Alemanha. Essa política tornou-se possível após a retirada dos EUA do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) durante o primeiro mandato de Trump. Na prática, os EUA poderiam equipar esses mísseis com ogivas nucleares para obter vantagem em qualquer cenário de primeiro ataque, já que poderiam atingir seus alvos antes que houvesse tempo para avaliar a ameaça.

O segundo elemento é o plano dos EUA de expandir o desdobramento de suas armas nucleares na Europa, sobre o qual há pouco tempo se sabe publicamente. Ainda assim, essa política complementa a anterior, conforme explicado por Lavrov, e sinaliza que os EUA não pretendem abandonar seus postos nucleares estratégicos no continente europeu. Ela também intensifica as ameaças estratégicas enfrentadas pela Rússia por meio do vetor ocidental, garantindo que a maior parte de suas capacidades estratégicas permaneça direcionada a essa frente mesmo após o fim do conflito ucraniano.

A terceira forma pela qual os EUA estariam tentando estabelecer superioridade estratégica sobre a Rússia é o chamado “Golden Dome” de Trump, cujo objetivo seria neutralizar as capacidades russas de segundo ataque baseadas em silos. A eventual aquisição da Groenlândia pelos EUA permitiria interceptar mísseis balísticos intercontinentais russos no Ártico. A resposta da Rússia, segundo Lavrov, é construir mais submarinos nucleares capazes de lançar segundos ataques a partir de outras direções, em paralelo ao desenvolvimento de mais drones submarinos nucleares Poseidon, capazes de desencadear tsunamis devastadores.

Por fim, o último ponto — ao qual Lavrov dedicou mais tempo — é a militarização do espaço exterior pelos EUA. Ele afirmou que Washington propõe apenas a proibição de armas nucleares no espaço, e não de armas não nucleares, o que representaria uma admissão tácita de seus planos nesse domínio. Lavrov não mencionou, mas o “Golden Dome” também teria um componente espacial, que poderia ser explorado para posicionar clandestinamente armas ofensivas no espaço, em vez de apenas interceptores defensivos. Essa possibilidade acarreta inúmeros problemas para a Rússia.

Ao reunir esses quatro elementos, torna-se claro que Trump busca restaurar a hegemonia unipolar dos EUA, até então em declínio, nos assuntos globais, algo que ele imagina alcançar, em grande parte, obtendo superioridade estratégica sobre a Rússia e a China, para então chantageá-las com a ameaça de primeiros ataques. Antecipar esse cenário sombrio foi um dos motivos da operação especial da Rússia, após o Kremlin tomar conhecimento dos planos secretos dos EUA de implantar, um dia, ativos estratégicos ofensivos e defensivos na Ucrânia.

Sob o Trump 2.0, os EUA estariam agora globalizando esse tipo de ameaça às capacidades russas de segundo ataque nuclear, desencadeando uma corrida armamentista estratégica não declarada. O teste realizado pela Rússia no fim do ano passado do míssil nuclear de alcance ilimitado Burevestnik, juntamente com o desenvolvimento de outros ativos estratégicos ofensivos, comprova que o país é capaz de manter essas capacidades. Ainda assim, a tentativa dos EUA de estabelecer superioridade estratégica sobre a Rússia é extremamente hostil, o que dificulta enormemente qualquer possível “Nova Détente”.■


*Andrew Korybko é analista político, jornalista e colaborador regular de diversos periódicos online, além de membro do conselho de especialistas do Instituto de Estudos e Previsões Estratégicas da Universidade da Amizade dos Povos da Rússia. Publicou diversos trabalhos na área de Guerras Híbridas, incluindo “Guerras Híbridas: A Abordagem Adaptativa Indireta à Mudança de Regime” e “A Lei da Guerra Híbrida: Hemisfério Oriental”.


Subscribe
Notify of
guest

47 Comentários
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
Bueno

Lavrov esperneia e faz biquinho… kkkk

Marcelo

Bom mesmo é os militares brasileiros que deram o golpe de 64 para defender o interesse americano .

Bueno

O que exatamente essa matéria tem a ver com Brasil 1964? A fixação com “milico” está um pouco exagerada, meu caro. Mas já que você resolveu voltar a 1964, época em que a URSS ainda existia, vale lembrar que Moscou, curiosamente, ajudou mais os interesses dos EUA do que muita gente gosta de admitir. A URSS aceitou a divisão da Coreia no Paralelo 38, pressionou pelo armistício quando os EUA já estavam exaustos, evitou intervir diretamente no Vietnã, estabilizou conflitos na Ásia que interessavam a Washington, cooperou para manter o clube nuclear fechado, deixou os EUA governarem o Japão sem… Read more »

Last edited 1 mês atrás by Bueno
Nilo

É uma declaração que esclarece publicamente ao mundo a estratégia nuclear russa e expõe a visão russa sobre como eles vêem as intenções russas, ficando cada vez mais claro a necessidade ” Groelândia” não só como fator econômico mais de defesa do EUA buscando diminuir a dependência de defesa a partir do território europeu, que envolve altos riscos políticos e enormes gastos de recursos. Não se pode descartar uma tomada da Groelândia, o parafuso vai apertar para o lado da Dinamarca, se não pode ser o maior fiasco de Trump, seu governo pode não chegar ao fim e tão pouco… Read more »

Last edited 1 mês atrás by Nilo
Nilo

como eles vêem as intenções “Americana*….

Marcelo

Eles não, todos os países vêem as intenções americanos da mesma maneira russa.
Só que poucos países tem poder militar e financeiro $$ e tecnológico e coragem (Rússia e china) para fazer frente as ameaças dos americanos.
A maioria dos países prefere abrir as pernas e passar a sofrer ingerência militar,politica e comercial.

Gavião

Essa obsessão de Trump por tomar a Groenlândia é mais uma coisa de ego do que estratégica, já que a Dinamarca permite a instalação de bases americanas lá. Ninguém discute a importância estratégica do território, mas é fácil resolver com a Dinamarca que é um aliado histórico.

Bosco

Com o desenvolvimento do SLCM-N (nuclear) lançado a partir dos lançadores Mk-41, os EUA terão um míssil stealth com algo em torno de 3000 km de alcance disponível para lançar a partir dos lançadores terrestres de médio alcance MRC Typhon.
Enquanto a Rússia e a China se armavam até os dentes os americanos e europeus caíram na conversa globalista, woke, ESG, agenda ambiental, sexual, etc de paz e amor.
O Laranjão veio dar uma sacudida na árvore pra ver quem consegue se agarrar nos galhos e quem se esborracha no chão.

Gavião

Visão equivocada. Os governos europeus priorizaram a qualidade de vida da população, o que é absolutamente correto. Claro, com a invasão da Ucrânia, lembraram que a Rússia é uma ditadura governada por um bandido, e resolveram se rearmar. Não se pode pensar em guerra, se não há (não havia) uma ameaça concreta. Defesa é sempre muito caro em qualquer país do mundo, e drena recursos importantes para o desenvolvimento de um país.

Atirador

Invasão que os próprios Europeus deram causa querendo incluir a Ucrania na Otan

Dalton

Muito antes a Ucrânia quis entrar para a União Europeia, queria afastar-se cada vez mais da Rússia e ter um governo que não fosse subserviente à Moscou e isso tudo, mais do que querer fazer parte da OTAN – que foi visto como mais necessário após à anexação da Criméia em 2014 – é que levou à invasão.
.
Certamente às imagens mostradas pela tv da invasão, finalmente convenceram à Finlândia e a Suécia – intimidadas durante décadas pela Rússia – a pedirem para fazer parte da OTAN.

Bosco

Pouco provável que o Dark Eagle tenha versão nuclear.
Com alcance de 3500 km percorridos em 20 minutos ( velocidade de pico de Mach 17 e média de Mach 8) ele tem uma ogiva reduzida (50 a 60 kg). Sem dúvida é compatível com uma ogiva nuclear de baixo rendimento mas duvido que seja instalada.
O mais provável míssil de alcance intermediário a que se refere o Lavrov seria o SLCM-N , que ao meu ver será uma versão ou do LRSO (nuclear) ou do JASSM , lançado de tubos de torpedos e lançadores verticais navais e terrestres.

juggerbr

Vários países declararam que irão atras da tecnologia nuclear para defesa de território. Em um mundo em que o mais forte impõe sua vontade, só ogivas nucleares serão argumento contrário.
https://areferencia.com/seguranca-internacional/aliancas-frageis-levam-alemanha-polonia-coreia-do-sul-e-japao-a-pensar-em-armas-nucleares/

Fabio Araujo

Lavrov precisa acordar, faz tempo que os americanos são superiores a Rússia e logo a China também vai ser se já não for superior a Rússia!

sub urbano

Em termos de “nuclear deterrence”, ainda não. O golden dome pode virar esse jogo.

Iran

Ele sabe disso, a declaração dele serve só pra bagunçar a OTAN e a UE justificando a tomada americana da Groelândia. Os israelenses fazem esses psyops a rodo com o Irã.

Dalton

Curioso no infográfico o “Tennessee class submarine” quando todos os “SSBNs” SSGNs” são considerados como classe Ohio.
.
O “Tennessee” foi apenas o primeiro SSBN assim equipado tendo 2 dos seus 20 mísseis – se todos de fato forem embarcados – com uma única ogiva W-76-2, sendo seguido pelo “Alaska” também da Frota do Atlântico e dependendo da fonte todos os SSBNs são agora assim equipados, havendo quando muito 2 desses mísseis para 12 dos 14 SSBNs.

gordo

A Europa está tendo uma boa oportunidade de começar a pensar em si própria. Trump deixou explícito que o território europeu é um peão no sistema de defesa deles, e vai para o sacrifício na primeira oportunidade. É aquela coisa, os EUA pensam neles em primeiro, e depois pensam neles de novo e de novo, e quando sobra um tempinho pensam neles mais uma vez. Quanto a nós, bom somos o quintal e o que não falta é gente aqui dentro pra manter tudo como está.

Macgarem

Com a moral russa atual ele só pode falar mesmo.

Estão atolados em um novo afeganistão e sem qualquer possibilidade de avanço em termos de modernização ou números de armamentos que estão declinando nessa guerra.

Heleno Freire

A Rússia está enfrentando a Otan, a Ucrânia seu armamento foi doado no tempo da U. Soviética, estes já acabaram faz tempo. Prejuízo maior pra Europa Central, Zelensky serviu apenas como boneco da Europa, ele ganhou muito dinheiro é um dos mais ricos da Ucrânia.
Vendeu seu país e agora vai pedir mais dinheiro para reconstruir.

Nei

É, a vítima é a culpada.

Heli

Vítima mesmo só Israel e USA, sempre.

Atirador

Ele não é vítima, ele quis entrar para a Otan sabendo do risco, foi avisado inùmeras vezes

Hcosta

A Venezuela, Irão e Síria receberam e compraram equipamento da Rússia. Qual será a diferença?
Será que não tinham um presidente corrupto e dos mais ricos do país?

Se Selensky é assim tão corrupto então a vergonha da Rússia é muito maior do que se pensava. 
sub urbano

O golden dome, se implantado, dará uma vantagem desproporcional aos americanos em termos de dissuasão nuclear. Mas eu acredito q não será implantado (muito caro), o objetivo pode ser o mesmo do programa guerra nas estrelas do Reagan: forçar a Russia a um acordo, no caso atual a China tbm.

Sergio Machado

Vantagem, se for efetivo, o que se duvida muito. E não porque os americanos não possuem a capacidade, mas porque os meios de ataque avançam muito rapidamente.
Não é a toa que a Defesa sempre anda reboque do Ataque.
Será um sumidouro de dinheiro cujo intuito principal é manter a roda do CIM girando.

Mario

Eu particularmente duvido e muito, que os EUA terão capacidade de construir, comissionar e começar a usar um grande leque de armamentos no mesmo ritmo da China. A China já está muito a frente por um motivo bem simples: Sua forma de governo (socialismo), permite que planejem a longo prazo e usem seus recursos acumulados, resultantes da ganância dos empresários milionários ocidentais (norte-americanos em especial), da forma que quiserem sem se preocupar em que um próximo presidente irá fazer ou desfazer, caso seja de partido adversário.

Sergio Machado

Enumerando matematicamente, vemos como funciona a hipocrisia e o domínio predominante da narrativa nas mentes e corações mundo afora. Em 1962, o mundo esteve a beira de um hecatombe nuclear pelo posicionamento de misseis soviéticos em Cuba, em resposta aos já implantados mísseis Júpiter americanos alocados na Turquia. Depois disso, os EUA posicionaram mísseis em toda a Europa, Ásia, e além dos seus em território continental, com sua imensa maioria apontados para Moscou e uma minoria para Pequim. Em suma, um claro movimento de cerco. Certamente, depois da bem sucedida manobra Maidan, teriam em Kiev, por óbvio. Ninguém em Washington… Read more »

Last edited 1 mês atrás by Sergio Machado
Iran

Lavrov fazendo um psyop pra validar pro público ocidental a intenção do Trump de adquirir a Groelândia, o que bagunçaria a OTAN e UE, o que seria ótimo pra Moscou.

Abymael

O Lavrov está fazendo o que se espera dele. Afirmando que a Rússia está ciente das novas ambições dos EUA (leia-se: a bagunça provocada pelo laranjão) e que vai continuar desenvolvendo armas para enfrentá-las. E nesse quesito não dá pra criticar a Rússia, se tem algo que eles cuidaram bem e nunca pararam de investir foi a tríade nuclear deles. Inclusive, não aparece ali no gráfico, mas além de ter mais 4 subs Borei para serem completados (já tem 8 em serviço), eles já estão também desenvolvendo o futuro sucessor do Borei, que deverá ser o “projeto Acturus”. Estão sempre… Read more »

Lucena

Esse tempo atual …é a oportunidade de ouro para o Brasil desenvolver o seu projeto nuclear … as instituições internacionais controladoras não funcionam mais…ou não tem moral para tanto.

Marcelo

Pode esquecer,o Brasil esta lotado de brasileiro que defende o interesse americano !!!

Machado

Infelizmente tenho que concordar com vc. Aqui mesmo no site. Isso é muito triste.

Argos

Para isso, deveríamos ter planejamento de longo prazo para desenvolvimento de armas, coisa muito difícil no contexto atual. Não conseguimos nem pagar por 36 caças Gripen, imagine bancar um desenvolvimento local de armas nucleares…

Lucena

Sr.Argo
.
Investir na indústria bélica nacional … é uma perspectiva politica … e o momento atual ..as circunstância que o mundo coloca para o pais … permite que se mude de atitude…isso depende dos políticos e daqueles que volta neles.
.
Basta vê a China como exemplo …a 50 anos atras …. a sua marinha e sua força aérea nem de longe …. se comparava com a dos USA.

Roger

É incrível como somos atrasados e pobres diante dessas potências. Infelizmente seremos eternos índios e floresta para essas outras nações!

Guilherme Lins

O Droopy é uma resenha.

Gavião

Matéria totalmente pró-Russia. Ué os planos estratégicos americanos são ameaça para eles? E os russos não são ameaças aos EUA? Na prática quem está respondendo a quem? Se é verdade que o Trump é meio doido, daqui a pouco ele vai embora e os EUA voltam ao normal de um país democrático. Agora a Rússia vai continuar sendo governada pelo czarzinho bandido.

Last edited 1 mês atrás by Gavião
Bosco

Bingo!
Na cabeça de uma grande parcela dos “trilogistas” que adoram ditaduras, o Trump, que diz que vai fazer mas não faz é pior do que o Putin que diz que não vai fazer mas faz.

silvom

Os EUA já voltaram atrás de alguma decisão estratégica, por motivo de troca de governo? Que me lembre não, acho que essas decisões envolvem muito mais coisas.

Dalton

Nenhum presidente anterior ao atual fez um “estrago” tão grande em menos de um ano de mandato, só que nos EUA existe a eleição de “meio de mandato” que irá ocorrer em novembro onde entre outras coisas é possível alterar o equilíbrio de poder.

Abymael

Foi escrita por um norte-americano.

Contra-Extrema

O que for bom para os EUA, é ruim para o resto do mundo, o mundo tem que ser Multipolar, Império submete os outros a seus caprichos.

Last edited 1 mês atrás by Contra-Extrema
Machado

Mas existem países que adoram ser subservientes capachos. Basta cooptar a sua pequena elite política econômica local. Por um punhado de dólares é claro. Não é difícil identificar esses vendidos. Basta observar atentamente. Estão em todos os setores estratégicos. Política, Forças Armadas, Empresários, Líderes religiosos etc.

Joanderson

Se depender de Bolsonarista o Brasil vira uma colônia norte americana.

Kroghan

Geração após geração começa e termina seu ciclo no mesmo ponto, um querendo destruir o outro porque tem opiniões diferentes em alguns aspectos da humanidade, sempre tem alguém q se acha superior ou inferior ao outro e para resolver as diferenças tem que partir para a solução bélica. Evoluímos tecnologicamente, mas espiritualmente ainda estamos na estaca 0.