Batalha das Ilhas Paracel (1974): como os chineses derrotaram os vietnamitas no Mar do Sul da China

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Paracel 1974 Artista digital Si Ang (3)

Paracel 1974: Artista digital Si Ang

Por José Luiz Antônio

O objetivo deste texto é resgatar a memória de uma batalha naval, conhecida no Ocidente como “A Batalha das Ilhas Paracel”, que permanece em um canto esquecido da História do Século XX, ofuscada por tantas outras batalhas e guerras mais famosas; porém, ela marcou o início do que hoje é a grande Marinha da República Popular da China.

Esta batalha é conhecida no Vietnã como Batalha de Hoang Sa, em vietnamita Hải chiến Hoàng Sa, e foi uma tentativa do Vietnã do Sul de expulsar a marinha chinesa das Ilhas Paracel no final da Guerra do Vietnã.

Antes de tudo, preciso alertar o leitor de que a Batalha das Ilhas Paracel é um tema de difícil pesquisa, em virtude de, até a presente data, ser um território contestado e de apresentar diversas versões dos fatos. A maior parte das informações provém de relatos de participantes sul-vietnamitas, que, por óbvio, têm seus pontos de vista e narrativas. Também foram consultadas fontes chinesas na internet.

Desta forma, foi reunido um apanhado de informações e o ocorrido foi resumido para facilitar a compreensão, ressaltando que não há uma dinâmica clara no desenrolar da Batalha Naval, além de haver relatos contraditórios. Assim, o autor pede a compreensão dos leitores quanto a eventuais discrepâncias que possam ser identificadas no texto.

A "linha de nove traços" que descreve as reivindicações chinesas no mar do sul da China
No retângulo mais acima no mapa, as Ilhas Paracel

 O embate ocorreu em uma disputa territorial, com o Vietnã do Sul, a fim de obter o controle das Ilhas Paracel, um arquipélago formado por 130 pequenas ilhas e recifes de coral, situado no Mar da China Meridional, com uma área de apenas 7,75 quilômetros quadrados de terra, porém com  aproximadamente 15 mil quilômetros quadrados de superfície oceânica.

Este arquipélago tem dois grupos de ilhas: o grupo de Anfitrife, situado no nordeste, que reúne a maioria das ilhas, e o grupo Crescent, no oeste. Todo o arquipélago é cercado por áreas de alta produtividade pesqueira e com potencial para existência de reservas petrolíferas e de gás.  Mas o que o torna ainda mais relevante é sua posição geográfica, praticamente equidistante da China e do Vietnã, o que o torna alvo de disputas territoriais ao longo do tempo.

Na década de 30, do século passado,  a França, potência colonialista do Vietnã, reivindicou a soberania sobre as  Ilhas Paracel e o arquipélago vizinho às Ilhas Spratly. Por fim, em 1937, temendo a expansão territorial japonesa, em 1939, os franceses instalaram na Ilha Woody uma pequena guarnição franco-vietnamita, composta por aproximadamente 100 homens, com o objetivo de ampliar o perímetro defensivo da sua colônia da Indochina.

A ocupação francesa das Ilhas Paracel provocou o Japão, que desembarcou uma pequena unidade de infantaria naval na Ilha Woody em 1938, apenas alguns meses após a ocupação francesa, que veio a se render sem luta. Desta forma, o Império Japonês  anexou as Ilhas Paracel e Spratly em 1941.

Com a rendição japonesa e a retirada de suas forças do arquipélago, o governo nacionalista chinês do Kuomintang ocupou o Arquipélago de Anfitrite dois meses depois e instalou uma guarnição na Ilha Woody em janeiro de 1946. A França, após não conseguir expulsar os nacionalistas chineses do Arquipélago de Anfitrite em uma demonstração de força naval, reivindicou o Arquipélago da Lua Crescente e desembarcou um pelotão da Legião Estrangeira na Ilha Pattle, pertencente ao arquipélago, para dissuadir a ocupação chinesa.

Em 1949, as forças comunistas chinesas expulsaram o governo nacionalista chinês para Taiwan e o Japão renunciou às suas reivindicações sobre todas as ilhas do Mar da China Meridional na Conferência de Paz de São Francisco de 1951, mas não cedeu o controle específico a nenhum outro país reivindicante, deixando a questão da posse das ilhas sem solução.

A República Popular da China comunista assumiu as reivindicações do governo nacionalista anterior sobre o Mar da China Meridional e o arquipélago.

O Vietnã do Sul, contudo, ocupou o Grupo Crescente em 1954 e instalou uma pequena guarnição em três ilhas. A China comunista tomou posse do Grupo Anfitrite e da Ilha Woody em 1956; mais tarde, pescadores chineses desembarcaram na Ilha Duncan, no Grupo Crescente, em 1959, mas foram expulsos pelo governo do Vietnã do Sul.

Com a participação dos EUA na Guerra do Vietnã, o governo sul-vietnamita confiava no apoio da U.S. Navy para manter a soberania sobre as Ilhas Paracel, razão pela qual retirou sua presença militar, limitando-se à manutenção de uma estação meteorológica.

No entanto, a situação geopolítica local mudou com a assinatura dos Acordos de Paz de Paris, em janeiro de 1973, que pôs fim ao envolvimento militar dos EUA no Vietnã. O governo de  Mao Tsé-Tung decidiu que os riscos de eventuais conflitos militares com o Vietnã do Sul, em vias de cair,  eram compensados pelo potencial econômico que se poderia obter com o domínio do arquipélago e agora livres do risco de intervenção dos EUA.

Desta forma, aumentaram as incursões da sua frota pesqueira chinesa no arquipélago, sendo muitos dos supostos pescadores, na verdade, membros da milícia popular e armados, mas seus barcos costumavam recuar à aproximação das unidades navais do Vietnã do Sul.

No final de 1973, no mês de dezembro, foram enviados barcos de pesca do  Departamento de Pesca da Província de Guangdong para a região, bem como foi instalada uma fábrica de processamento de pescado na Ilha  Chenhang, além de uma estação de rádio. Agravando a situação, Pequim já planejava ações militares para proteger seus barcos de pesca que operavam nas Ilhas Paracel, preparando o palco para o embate.

A Marinha do Vietnã do Sul

A Marinha da República do Vietnã foi o braço naval das forças armadas sul-vietnamitas entre 1955 e 1975. No seu início, era composta por embarcações de origem francesa. À medida que aumentou o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã, passou a receber um forte apoio norte-americano, que levou a um crescimento expressivo, vindo a se tornar uma força militar considerável, atingindo um efetivo aproximado de 42 mil. Listando em sua ordem de batalha,  várias embarcações de pequeno porte adequadas para tarefas de patrulha e transporte. Mas apenas  abordamos as embarcações que participaram da Batalha das Ilhas Paracel.

Primeiramente, cabe ressaltar que estes navios sofreram um rebaixamento de sua capacidade de combate antes de serem transferidos para a Marinha do Vietnã do Sul. Assim, a configuração de suas armas era diferente daquela normalmente citada em diversos artigos. Por exemplo, houve a retirada das armas e dos sensores destinados à guerra antissubmarino. Também houve alterações na configuração da sua artilharia e as informações não são precisas, nas descrições abaixo foi dado ênfase nos canhões principais e o armamento secundário não foi detalhado por causa das imprecisões.

HQ 4  Tran Khanh Du

Foi o destróier USS Forster (DE-334), da classe Edsall, concebido para atuar como escolta oceânica leve. Depois da baixa na US Navy, também serviu na  Guarda Costeira norte-americana, antes de ser transferido para o Vietnã do Sul em 25 de setembro de 1971 e reclassificado como fragata.

Pode ser considerado o melhor navio de guerra do Vietnã do Sul, não pelo seu porte, mas pelas suas características. Tinha um deslocamento modesto de 1590 toneladas, 93 metros de comprimento, com uma boca de 11,2 metros, calado de 3,2 metros. Propelido  por dois motores diesel com duas hélices, atingindo velocidade máxima de 21 nós.

Sua artilharia principal era composta por dois canhões de 3 polegadas/50 calibres (76 mm), de carregamento automatizado, dispostos um na proa e outro na popa, em reparos do modelo Mk.34, de desenho mais leve. Estas armas tinham alta cadência de fogo de  50 disparos por minuto, compensando a pequena quantidade de explosivo contida no projétil,  com a entrega de uma maior quantidade de granadas sobre o alvo. O controle de fogo era realizado por um radar MK 63, o mais moderno da força.

HQ 5  Tran Bình Trong

Serviu à U.S. Navy na Segunda Guerra Mundial, no teatro do Pacífico, de 1944 a 1946, sob o nome USS Castle Rock, atuando como tender de apoio a hidroaviões e , posteriormente, transferido para a Guarda Costeira. Por fim, em 1971, passou a ser a Marinha da República do Vietnã do Sul, recebendo o nome de Tran Binh Trong, em homenagem a um príncipe da dinastia Tran. Deslocando por volta de 1766 toneladas e com um comprimento de 94,72 metros, uma boca de 12,55 metros. Tinha propulsão a dois motores diesel com duas hélices, o que permitia velocidades de até 18 nós.

Quando de sua transferência para o Vietnã do Sul, sofreu, como mencionado, um “downgrade” do seu armamento, com a retirada dos sistemas de guerra antissubmarino, mantendo-se a arma principal, um canhão de proa Mark 38 mod de calibre de 5 polegadas (127 mm) com controle de fogo por radar Mark 52. Sendo certo que os sul-vietnamitas instalaram  metralhadoras calibre .50 (12,7 mm) para defesa de perto, em lugar de armas retiradas antes da entrega.

HQ 10 Nhat Tao

HQ 10 Nhat Tao 

Este navio era um varredor de minas, da classe Admirable, de origem norte-americana, tendo servido na US Navy como  USS Sereno (AM-300), foi convertido em uma corveta de patrulha com a retirada do seu equipamento de varredura de minas. Era o menor navio da flotilha do Vietnã do Sul, que participou da batalha tendo apenas 56 metros de comprimento e um  deslocamento de 853 toneladas.

Era a embarcação mais fraca dos sul-vietnamitas; apesar de ter um canhão de proa de 3 pol/50 calibres, de carregamento manual e mira visual, há relatos de que a arma estava inoperante. Restando apenas um canhão Bofors L/60 de 40 mm de popa e algumas  metralhadoras pesadas Oerlikon de 20 mm operadas manualmente.

Para piorar ainda mais a situação da HQ 10, apenas um dos seus dois motores diesel estava em funcionamento, o que limitava a sua velocidade máxima a 10 nós e dificultava a manobra.

HQ 16 Thurong Kiet

HQ 16 Thurong Kiet

Antigo USS Chincoteague, que serviu à US Navy na Segunda Guerra Mundial no teatro do Pacífico de 1943 a 1946, tendo sido posteriormente transferido para a Guarda Costeira e, por fim, para a Marinha da República do Vietnã do Sul em 1972. Tendo sido batizada com o nome de um general da dinastia Ly. Pertencia a mesma classe da fragata HQ 05, tendo as mesmas características.

Seu armamento também foi reduzido na transferência, restando o canhão de proa Mark 38 de 5 polegadas e várias metralhadoras calibre .50. No entanto, é possível observar em algumas fotografias a existência de  um reparo duplo Bofors 40 mm L/60 Mk. 1, logo  atrás da torre do canhão de  proa, onde anteriormente, na versão original, existia um morteiro antissubmarino que fora removido.

Com relação aos sensores, a fragata dispunha de um radar AN/SPS-23, um segundo radar de busca aérea AN/SPS-29D e o sistema de radar de controle de tiro Mk.26 Mod.1. Configuração com a qual foi vendida posteriormente à Marinha das Filipinas, onde continuou a sua vida como Andrés Bonifacio.

 A Marinha do Exército de Libertação Popular de China

Quando Mao Tsé-Tung iniciou o seu governo, encontrou uma marinha formada por uma miscelânea de embarcações de origem: britânica, francesa, alemã, norte-americana, soviética e até japonesa.

O forte relacionamento da nova República Popular da China com a URSS permitiu o envio de considerável quantidade de armas soviéticas para modernizar as forças chinesas, bem como a transferência de tecnologia e, inclusive, de assessores para treinamento e desenvolvimento.

Em 1962, a República Popular da China rompeu com Moscou por causa de divergências geopolíticas e inclusive de ideologia, por causa de diferentes interpretações do marxismo-leninismo, o que ocasionou a retirada do pessoal técnico soviético, o que forçou os chineses a iniciarem os seus próprios projetos de navios de guerra, baseados, contudo, nos desenhos soviéticos.

Mas, em consequência dos efeitos negativos da Revolução Cultural, iniciada em 1966, a China enfrentava sérias dificuldades econômicas e a Frota do Mar do Sul estava em situação precária em 1974, com muitos meios inoperantes ou prestes a serem desativados.

Este quadro negativo impediu que os chineses mobilizassem navios de maior porte, pois o 1º Esquadrão de Fragatas, a força militar mais capaz da Frota do Mar do Sul, tinha 3 navios do Tipo 65, classe Chengdu, na doca seca, em reparos de monta. Restava apenas a pequena fragata Nanning, originalmente o navio costeiro Manju, que havia pertencido à Marinha Imperial do Japão na Segunda Guerra Mundial, e também não estava apta para a ação no momento da mobilização.

Desta forma, os meios mobilizados foram limitados às unidades abaixo relacionadas, que estavam em melhores condições, aptas para o combate.

271 e 274

Estas duas unidades foram selecionadas por se encontrarem em melhores condições da sua classe, sendo do tipo caça-submarinos leves, do projeto 122 bis soviético, designadas, pelo nome de código da OTAN, como classe Kronshtadt. Tinham apenas 52,24 metros de comprimento, 6,55 metros de boca e um deslocamento carregado de 337 toneladas. A sua propulsão era fornecida por 3 motores a diesel que permitiam velocidades máximas de até 20 nós.  A unidade 271 havia acabado de sair do estaleiro e não tinha passado pelos seus testes de mar, e a unidade 274 apresentava problemas nos motores e uma velocidade máxima inferior a 18 nós.

O destaque destas unidades era contar com um canhão de proa de 85 mm em uma torre blindada, com alcance máximo de 15 mil metros e cadência de 15 a 18 tiros por minuto, além de 02 canhões automáticos de 37 mm, com alcance de 9400 metros. Todas as armas eram apontadas visualmente e não dispunham de recursos de estabilização.

281 e 282

Dois barcos caça-submarino da classe chinesa Tipo 037, conhecida como Hainan.  Com 430 toneladas de deslocamento, 58,7 metros de comprimento e propulsão a diesel, notavelmente veloz, capaz de alcançar 30 nós.

Também eram muito bem armadas para o seu porte, tendo como armamento principal duas torres, uma na proa e outra na proa, cobrindo 360 graus do canhão Tipo 66 com dois tubos no calibre de 57 mm, armas de carregamento automático com cadência de fogo de 120 disparos por minuto, alcance de 12 mil metros. Além dos canhões do tipo 61, com dois tubos de 25 mm. Todas as armas eram operadas manualmente sem estabilização ou controle de tiro por radar.

389 e 396

Eram os maiores navios da frota chinesa: os caça-minas Tipo 10, uma cópia do desenho soviético T-43, um tipo de embarcação muito difundido entre os países alinhados à URSS durante a Guerra Fria.  São embarcações de 60 metros de comprimento com um deslocamento de 600 toneladas e casco de aço; no entanto, são lentas, com velocidade máxima limitada a 14 nós.

Conforme análise de fotografias, a unidade 389 parece ter tido um canhão de proa de 85 mm, o que difere da unidade 396, que possuía na proa um reparo duplo de 37 mm. Esta arma de maior calibre era montada em uma torre levemente blindada, o que conferia uma vantagem no combate de superfície.

De resto, ambas as embarcações estão armadas com reparos duplos de canhões automáticos no calibre de 25 mm, armas com alcance de 2700 metros e cadência de tiro de 120 tiros por minuto, devido às limitações dos seus carregadores. Estes reparos possuem uma torreta blindada com chapa de aço de 4 mm de espessura, o que oferece alguma proteção aos seus operadores.

Observação: Todas as unidades contavam também com lançadores do tipo RBU 1200 (Reaktivno-Bombovaja Ustanovka, com alcance de 1200 metros), que eram lançadores de foguetes de recarga manual, capazes de disparar foguetes antissubmarinos.

RBU 1200

402 e 407

Estas unidades são descritas como traineiras de pesca armadas, não participaram diretamente dos combates, não havendo maiorese informações sobre suas características, porém é relatado que traineiras chinesas costumavam a dispor de metralhadoras pesadas e algum tipo de blindagem improvisada, além do fato de sua tripulação contar com armas leves.

O prelúdio da batalha

Em 15 de janeiro, a fragata HQ 16 da Marinha do Vietnã do Sul navegou até as Ilhas Yongle, confrontou os barcos de pesca chineses e disparou contra uma bandeira chinesa hasteada na Ilha Gan Quan. Aumentando a tensão.

Diante do aumento da intensidade das incursões chinesas, promovidas por milícias populares armadas que atuavam como pescadores, o Vietnã do Sul organizou uma pequena força-tarefa composta por seus principais navios de guerra.

Esta força foi dividida em dois grupos distintos: o primeiro, de maior capacidade de combate, composto pela nau capitânia da força; a fragata HQ 05, acompanhada da fragata HQ 04, deslocou-se pelo sul. Enquanto o segundo grupo, composto pela fragata HQ 16, acompanhada da corveta HQ 10, adentrou o arquipélago pelo noroeste. Em um clássico movimento de pinça.

Contrapondo-se à força-tarefa sul-vietnamita, os chineses conseguiram reunir de imediato quatro pequenas unidades em condições de combate e encaminhá-las para o arquipélago, também divididas em dois grupos. Com o  primeiro grupo tomou posição inicial  ao sul da Ilha de Duncan e era formado pelas unidades 271 e 274, da classe  Kronstadt e o grupo dois, vindo de noroeste da Ilha Duncan, formado pelas duas unidades T43 de números 389 e 396,

Também faziam parte do dispositivo chinês duas traineiras de pesca armadas, com os números de identificação 402 e 407, mas não se engajaram diretamente no combate. Além das traineiras, algumas fontes relatam que havia dois navios de transporte chineses a sudeste de Drummond, mas não há informações sobre estes vasos.

Em terra, os combatentes chineses se encontravam em posições fortificadas, preparadas há dias, nas  Ilhas de Duncan e Drummond.

A noite que precedeu a batalha foi tensa, com as embarcações pesqueiras chinesas provocando os navios sul-vietnamitas, que, por sua vez, emitiam sinais luminosos respondidos pelos navios de guerra chineses, em uma série de provocações mútuas.

A batalha naval

A forma como se desenvolveu o embate naval entre a China e o Vietnã do Sul, em 19 de janeiro de 1974, até hoje é cercada de controvérsias; a maioria das informações mais detalhadas provém de fontes sul-vietnamitas, por meio de entrevistas com tripulantes, e há menos fontes chinesas na internet.

Às 06h30, no pico da maré, iniciou-se o desembarque das forças especiais em botes infláveis de borracha, com o objetivo de expulsar os chineses de suas posições em terra. Estas tropas  partiram das  fragatas HQ 4 e HQ 05, em dois grupos compostos por aproximadamente 20 mergulhadores de combate, armados com fuzis M16, lançadores de granadas M79 e metralhadoras M60. O contingente da HQ 4 chegou na praia com tranquilidade, porém os homens desembarcados pela HQ 5 tiveram dificuldades para chegar nos botes de borracha, sendo obrigados a deixar os seus botes nos recifes e a percorrer 700 metros com água na profundidade da cintura, o que atrasou o desembarque na ilha Duncan.

Por volta das 08h19, o caça-minas chinês 389 partiu a 15 nós de velocidade em direção à fragata HQ 16, aparentemente com o objetivo de abalroar o navio sul-vietnamita, que conseguiu, com manobra, evitar o abalroamento, mas sofreu pequenos danos no boreste.

A tensão aumentou quando, às 08h30, as tropas comunistas na Ilha Duncan, mais numerosas, enfrentaram os comandos anfíbios sul-vietnamitas, matando um soldado e ferindo outros, no momento em que os vietnamitas tentavam recuar com os seus barcos.

Os chineses, além de estarem em maior número, estavam abrigados em posições fortificadas, enquanto os comandos sul-vietnamitas estavam expostos e sem apoio de fogo naval.  Apesar de, nesta fase inicial, ter havido o  cuidado de ambos os contendores de não se engajarem num combate total, às 09h07 já havia dois mortos e dois feridos nas fileiras sul-vietnamitas, o que forçou a retirada do contingente.

Às 10h25, a corveta HQ 10, do grupo 2, disparou o primeiro tiro contra o caça-minas 396; ato contínuo, a fragata HQ 16 também abriu fogo contra o 396. Logo em seguida, o grupo 1 sul-vietnamita também abriu fogo.

A fragata sul vietnamita HQ 4, após alguns problemas iniciais, com o seu canhão de proa de 76 mm, logrou atingir o 274 com um impacto na área de comando do barco chinês, matando o oficial comissário politico, Alguns relatos informam que ele morreu por causa de estilhaços de um projétil de 40 mm que feriram a sua testa, outros que teve a cabeça atingida por um projétil perfurante que não detonou, morrendo instantaneamente, também existem relatos de fontes chinesas que o imediato da unidade 274 também foi morto neste impacto.

Os chineses acreditavam que a HQ 4 seria a nau capitânia do Vietnã do Sul, por isso as unidades  271 e 274 concentraram o fogo de sua artilharia de 85 mm diretamente contra o passadiço da HQ 4.

Segundo o relato de um dos seus tripulantes, que estava de serviço na estação de radar, o passadiço do navio foi atingido por um projétil, que aparentemente ricocheteou na estrutura angulada e, por fim, atingiu o radar, partindo o mastro e rompendo os cabos elétricos.

Com o seu radar desativado, o fogo da fragata HQ 4 tornou-se impreciso. Novamente relatos conflitantes sobre a atuação deste navio, alguns informam que o canhão de popa foi danificado outros que esta arma ainda continuou disparando, enquanto a fragata recuava para sudeste, com a sua pontaria feita a partir do artilheiro da guarnição da peça sem a direção de controle de tiro do navio. Ainda logrando disparar 57 tiros de forma imprecisa, que, no entanto, fizeram a unidade 271 chinesa que a perseguia se afastar. De todo modo, a HQ 04 sofreu múltiplos impactos,   que resultaram em duas baixas fatais e dezenas de feridos na sua tripulação, forçando-a a recuar.

Já a nau capitânia HQ 5, se engajou com a unidade 274, alguns relatos narram que obteve o êxito em atingir o 274 com projéteis de 127 mm do seu canhão de proa, fazendo com que o vaso chinês perdesse velocidade e se voltasse em direção a uma das ilhas, porém um projétil chinês de 85 mm atingiu a estação de rádio da fragata sul-vietnamita, destruindo o sistema de comunicações  com o incêndio que se seguiu.

No entanto, este relato é questionável, tendo em vista o poder destrutivo de um projétil de 127 mm contra uma embarcação de apenas 300 toneladas, ainda mais com vários impactos.

Outros relatos relatam que a unidade chinesa 396 se uniu à 271 e atacou a fragata HQ 5, colocando fora de combate o canhão de 127 mm; restou apenas um reparo de 40 mm, que logo também ficou inoperante por problemas de resfriamento. Sem armas, com seu radar atingido, também sofreu  um impacto de um projétil de 85 mm próximo à linha da água, causando inundação e gerando problemas na geração de energia.

De toda forma, em ambos os relatos verifica-se que a nau capitânia foi danificada e provavelmente perdeu a comunicação de comando com as outras unidades sul-vietnamitas.

Já na frente norte, o grupo 2 , com a fragata HQ 16, comandada pelo capitão Nguy Van Tha, e a corveta HQ 10, disparou contra a unidade 396 chinesa que se aproximava. Ambos os navios sul-vietnamitas apontaram seus canhões de 127 mm para o passadiço do 396. Logo, o navio chinês passou a expelir fumaça, desacelerou e recuou da sua investida. Porém, a distância entre os combatentes se encurtou e logo a fragata HQ 16 estava ao  alcance das armas chinesas de menor calibre e com maior cadência de disparo, passando a fragata HQ 16 a ser atingida por saraivadas de projéteis de 37, 25 e 14,5 mm, oriundas do 396.

Os projéteis chineses atingiram o passadiço e outros pontos do navio. Informes posteriores relatam que a HQ 16 sofreu cerca de 800 impactos de projéteis chineses, que, por fim, colocaram fora de operação o canhão de proa de 127 mm, a principal arma do navio.

A corveta HQ 10, apesar de sua condição limitada de velocidade e manobrabilidade, oriunda dos problemas nas máquinas,  foi lançada na batalha, tendo inicialmente sorte; os projéteis chineses não estavam atingindo o seu alvo; alguns passavam alto sobre a corveta; outros caíam na água.

A HQ 10 teria alcançado as unidades 389 e 396 chinesas, inclusive destruindo o canhão de popa de 37 mm da unidade 389. Segundo relatos chineses, os impactos na unidade 389 causaram diversos danos na praça de máquinas e na popa do barco, incluindo incêndio. Além de provocar várias baixas fatais e feridos entre a sua tripulação, praticamente alijando-a do combate.

Porém, logo depois deste início bem-sucedido no combate da corveta HQ 10, sobreveio o fato de ela sofrer um forte impacto no seu passadiço, o que ocasionou a destruição de parte da estrutura e um incêndio a bordo, tendo, inclusive, conforme relato do comandante da HQ 16, alguns marinheiros se lançado ao mar.

Há controvérsia sobre quem ou o que atingiu a corveta HQ 10. A alegação sul-vietnamita de que a corveta recebeu o impacto de um míssil antinavio P-15 Termit, código OTAN Styx, que alegadamente teria sido disparado de uma lancha lança-mísseis da classe Komar, que, a seu turno, pertenceria a um grupo de 4 unidades ocultas nas proximidades, sem participar diretamente dos combates.

Porém, os chineses informaram que o passadiço da corveta fora atingido, na verdade, por um foguete do tipo RPG, lançado por um dos tripulantes chineses,  o que faz mais sentido, pois a distância de combate diminuiu para algumas centenas de metros.

Uma terceira hipótese, apresentada em um artigo do Sr. Carl O. Schuster, oficial da reserva da Guarda Costeira dos Estados Unidos: “Seria que  a ponte da corveta HQ 10 foi atingida por um foguete antissubmarino?”. No caso, o foguete RGB-12, disparado do lançador do tipo RBU-1200 (Reaktivno-Bombovaja Ustanovka), com 1200 metros de alcance, presente nos barcos chineses por meio da cópia licenciada do Tipo 75.

Este foguete pesava 73 kg e tinha uma ogiva explosiva de 30 kg; além disso, possuía uma espoleta de impacto. Poderia ter sido usado contra um alvo de superfície juntamente com a artilharia de tubo. Ressalta-se que, na atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia, lançadores similares foram utilizados como artilharia terrestre de curto alcance, com munições navais em excesso.

Na opinião deste autor, o peso de 30 kg da ogiva do foguete antissubmarino estaria mais condizente com o dano sofrido na corveta HQ 10, por ter uma capacidade de destruição muito maior do que a da ogiva de carga oca de uma granada de lança-rojão (alegação chinesa) e muito menor do que a da pesada ogiva do míssil P-15 Termit, que teria literalmente obliterado toda a embarcação.

De toda a forma, com a corveta HQ 10 danificada no passadiço, um dos barcos chineses, a unidade 389, também bastante atingida, se aproximou rapidamente até poucos metros desta, chegando tão perto que as armas restantes da corveta não podiam ser usadas, pois o barco chinês estava abaixo da depressão mínima, e a tripulação chinesa passou a utilizar armas portáteis e granadas contra os sul-vietnamitas. Durante este combate corpo a corpo, na manobra, as embarcações se chocaram e a unidade 389 sofreu danos na popa, ficando semimersa.

Apesar de não ter afundado na peleja, o caça-minas 389 retornou com terríveis danos de batalha e com feridos e mortos a bordo.

As 10h50 os dois grupos sul vietnamitas se encontravam muito distantes, neste momento a fragata HQ 16, que já se encontrava bastante danificada pelos projéteis leves chineses,  sofre um impacto final na região de sua praça de máquinas, por um projétil de canhão de 5 polegadas (127mm) que não detonou, porém causando uma grande entrada de água que inundou a praça de máquinas inutilizando um dos motores e causando perda de energia.

HQ 16 depois da batalha

Este projétil foi disparado de longa distância pela fragata sul-vietnamita HQ 5, num incidente de fogo amigo. Provavelmente o erro se deveu à grande distância entre os dois grupos e à falta de comunicação e coordenação entre as unidades. Usando o motor de estibordo que ainda funcionava, a HQ 16 conseguiu se evadir.

A HQ 16, com o desequilíbrio provocado pela inundação em uma de suas praças de máquinas, começou a adernar, com a inclinação aumentando a ponto de ameaçar afundar o navio. O seu comandante pensou, inicialmente, em tentar encalhar a embarcação, mas, por fim, conseguiu retornar à sua base com apenas um dos motores em funcionamento. Por fim, a batalha se encerrou às 11h com a retirada das fragatas sul-vietnamitas, tendo a bordo tripulantes mortos e muitos feridos, deixando para trás a corveta HQ 10.

As 12h12 chegaram no local duas canhoneiras chinesas classe Hainan, as unidades 281 e 282, que eram a força de reforço chinesa, que não conseguiram chegar a tempo de se engajar no combate principal e assim após o término da batalha,  receberam ordens de afundar a corveta HQ 10 que ainda flutuava, a qual foi castigada por disparos de 57 mm, que visavam principalmente a linha d’agua do navio sul-vietnamita,  porém a valente corveta ainda permaneceu à tona em chamas até as 14h45,  quando finalmente afundou.

Com relação à tripulação da HQ 10, foram relatadas 58 baixas fatais, entre elas a do seu capitão  Ngụy Văn Thà, que afundou com o navio. E outros cinco tripulantes,  gravemente feridos, incluindo o imediato, morreram no mar e outro faleceu após o resgate em decorrência dos ferimentos. O resgate ocorreu quatro dias depois do combate; o petroleiro holandês Koponiella recolheu 23 sobreviventes da corveta.

Um dos pontos obscuros da Batalha das Ilhas Paracel é a participação de aeronaves no embate; é certo que nenhum dos navios envolvidos sofreu ataques aéreos, mas os sul-vietnamitas relataram o sobrevoo de aeronaves chinesas.  Algumas fontes informam que a China mobilizou caças, incluindo aeronaves J-6, versão chinesa do MiG-19, para cobertura aérea, mas, apesar do alerta dos EUA sobre a decolagem de caças MiG, não houve nenhum ataque aéreo chinês.

Muito provavelmente as forças chinesas contaram com a observação aérea para obter o controle de seus navios durante o desenvolvimento da batalha, mas não encontrei informações sobre a atuação de suas aeronaves. Por sua vez, as forças navais do Vietnã do Sul solicitaram apoio aéreo de caças F-5. Segundo algumas fontes, chegou a haver o sobrevoo destas aeronaves, que não tinham condições de realizar qualquer ataque, pois o combustível, ao chegar ao local, bastava apenas para o retorno.

Após a batalha

No dia 20 de janeiro, por volta das 08h35, as fragatas  HQ 4 e HQ 5 chegaram a Da Nang e, por fim, às 09 horas, foi a vez da HQ 16 atracar no cais da base, com o auxílio de rebocadores.

Pequim temendo que o Vietnã do Sul procedesse a um contra-ataque, com o envio de reforços para as  guarnições remanescentes do Vietnã do Sul  nas ilhas Robert, Pattle e Money do arquipélago. Os chineses iniciaram uma mobilização de urgência, reunindo uma fragata, cinco lanchas torpedeiras e oito pequenas lanchas de patrulha. Além de transportes anfíbios, transportando aproximadamente 3 companhias de infantaria e uma companhia de milícia popular.

Esta força foi dividida em 03 flotilhas, sendo que a primeira flotilha era composta por quatro lanchas de patrulha e pelas traineiras de pesca armadas  402 e 407 da Milícia Marítima, que transportavam uma companhia de cem combatentes. A segunda flotilha transportava outra companhia de infantaria e uma equipe de reconhecimento anfíbio, distribuídas em quatro lanchas de patrulha e no caça-minas 389. A fragata Nanning, que era um antigo contratorpedeiro de escolta japonês, era a nau capitânia, abrigando o comando da operação e transportando outra companhia de infantaria a bordo.

A primeira flotilha atacou a Ilha Robert, bombardeando os defensores para afastá-los da praia e, em seguida, desembarcou a infantaria em botes infláveis. A ilha foi ocupada  após alguns minutos de combate. A segunda flotilha visou a  Ilha Pattle, obrigando os seus defensores a se refugiarem no centro da ilha, onde se renderam após uma hora de combate.

Na  Ilha Pattle, os chineses também capturaram o comandante da guarnição sul-vietnamita no arquipélago. Já na Ilha Money, os comandos anfíbios sul-vietnamitas que lá se encontravam abandonaram a ilha antes do ataque chinês.

Ao final da noite de 20 de janeiro, todo o Arquipélago Paracel estava sob ocupação chinesa. E o Vietnã do Sul contabilizava mais de 100 baixas entre mortos e feridos graves, além de 48 soldados sul-vietnamitas e um oficial de ligação americano capturados, em comparação com 18 chineses mortos e 67 feridos.

Nas duas semanas seguintes, a China aumentou sua presença naval ao redor das ilhas e reforçou suas defesas, com o envio de três combatentes de superfície, no caso, corvetas da classe Cheng Tu, com deslocamento de 1200 toneladas e 91 metros de comprimento, inicialmente uma cópia modificada da classe Riga soviética, porém este navios haviam sido recentemente modernizados  no período de 1971/1974, onde tiveram os seus tubos de torpedos pesados substituídos por uma rampa com 03 mísseis anti navio Silkerworn (bicho da seda), o nome código da OTAN, para o míssil HY-1, a cópia chinesa do P15 Termit, que tinha acabado de entrar em serviço em 1974. Além dos mísseis, as corvetas Cheng Tu estavam artilhadas com 3 canhões de 130 mm.

Também há relatos de que o elemento submarino neste reforço era composto por uma unidade do Tipo 33, variante chinesa do submarino soviético Projeto 633, mais conhecido pela sua designação OTAN de Romeu. Um grande submarino oceânico, com propulsão diesel-elétrica, deslocando  1830 toneladas submerso e com 8 tubos de torpedos, carregando até 14 torpedos pesados de 21 polegadas. Esta embarcação constituía uma ameaça letal aos navios sul-vietnamitas, visto que seus principais navios estavam desprovidos de armas antissubmarino e sonares.

Perante esta força considerável, o Vietnã do Sul não ousou retaliar;  também influenciou de sobremaneira esta decisão o fato de que estava prestes a sofrer o ataque final das forças do Vietnã do Norte, que já se movimentavam em direção à sua fronteira norte.

Por fim, o Exército Popular de Libertação da China tomou as três ilhas de Coral , Gan Quan e Jin Yin, no arquipélago de Yongle , em Xisha , que originalmente eram controladas pela República do Vietnã , obtendo, assim, o controle efetivo de todo o arquipélago de Xisha e de suas águas circundantes.

Análise do combate

A Batalha das Ilhas Paracel é um exemplo de que nem sempre uma força significativamente mais poderosa garante a vitória.

Os quatro navios da força sul-vietnamita deslocavam, em conjunto, aproximadamente 5.975 toneladas, contra apenas 1.538 toneladas do lado chinês, considerando as 4 embarcações diretamente no combate (excetuando as 2 canhoneiras classe Hainan, que chegaram após a batalha terminada).

As fragatas HQ 05 e HQ 16 eram várias vezes maiores que seus equivalentes chineses, de modo que o deslocamento do HQ 05 e do HQ 16 era maior do que o deslocamento combinado de todos os quatro navios chineses.

Com relação ao poder de fogo, o Vietnã do Sul alinhava em suas fileiras 2 canhões Mark 38 de 5 pol. (127 mm), Com alcance superior ao de todas as armas chinesas, capaz de disparar projéteis de 25 kg. Também contava com os dois canhões automatizados de 76 mm na fragata HQ 04, com alta cadência de fogo, 50 disparos por arma e projéteis de 5,9 kg. E dirigidas por sistemas de radar, um fator determinante para o tiro a longa distância ou sob condições de visibilidade reduzida.

Diferente da artilharia chinesa, que se baseava na observação visual para apontar as suas armas, tendo, inclusive, um alcance significativamente menor, pois, com exceção das três peças de 85 mm, todas as outras bocas de fogo chinesas que participaram dos combates eram de 37 e 25 mm. Não se considerando as armas de 57 mm das Hainan que chegaram após o término do combate.

Além da inferioridade em termos de artilharia pesados, deve-se levar em conta de que  por causa do pequeno porte, os barcos chineses eram muito  vulneráveis aos danos, um único impacto de um projétil de 127 mm, poderia ser fatal.

As fragatas sul-vietnamitas desejavam um combate a longa distância onde pudessem obter vantagem proporcionada, pelo alcance de sua artilharia, permanecendo fora do alcance preciso das armas chinesas, no entanto uma série de deficiências nos seus navios indo das máquinas aos radares e comunicações dificultou esta iniciativa.

Apesar de terem abrido fogo primeiro, os sul-vietnamitas foram envolvidos pelos barcos chineses, que manobraram com maior coordenação, encurtando a distância de engajamento inicial para um combate de poucas centenas de metros, no qual as suas inúmeras armas de menor calibre, mas de maior cadência de tiro, cobriram os navios sul-vietnamitas com uma saraivada de projéteis.

Segundo relatos de sobreviventes, parte das  dificuldades de comunicação se deve à interferência eletrônica chinesa. O fato da fragata HQ 16 ter sido atingida por um único projétil de 127 mm disparado pela HQ 05 demonstra claramente a falta de comunicação e coordenação entre as embarcações do Vietnã do Sul.

Apesar de não haver havido ataques aéreos, foi observado o sobrevoo de aeronaves chinesas, que provavelmente contribuíram significativamente para a melhor coordenação aérea chinesa, com base nas informações obtidas por meio da observação em altura do movimento das fragatas sul-vietnamitas.

Também deve ser ressaltado, de  que as tropas de forças especiais sul-vietnamitas, desembarcaram em botes de borracha, em plena luz do dia, seguindo  para os seus objetivos, sem contar com o planejado apoio de fogo naval, tendo em vista que as fragatas vietnamitas estavam combatendo os navios chineses. Desta forma, ao depararem-se com um inimigo em posições fortificadas, foram repelidos e tiveram de recuar, o que resultou no fracasso.

As estimativas de baixas do lado do Vietnã do Sul foram de aproximadamente uma centena de mortos e feridos, além dos 48 militares capturados, da perda total da corveta HQ 10, afundada, de danos graves na fragata HQ 16 e de múltiplos danos nas outras duas fragatas. Por sua vez, os chineses tiveram 4 navios danificados e a perda de 18 combatentes mortos, além de aproximadamente  67 feridos.

Hoje, as ilhas Paracel fazem parte do bastião de defesa chinês; na Ilha Woody foi construído um porto artificial e uma pista com 2.700 metros de comprimento, sendo comum a operação de aeronaves de caça de grande porte, como o Shenyang J-11, a cópia autorizada do Sukhoi Su-27, além de contar, inclusive, com baterias antiaéreas do sistema HQ-9.■

Fontes consultadas

LEIA TAMBÉM:

Canhão naval: passado, presente e futuro


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Macgarem

Sul vietnamitas sempre foram meio buchas

Matheus

A situação permaneceu tensa mesmo com a queda do Vietnã do Sul. O Vietnã do Sul até solicitou assistência da 7ª Frota durante esse confronto, mas o pedido foi negado. Os EUA, que estavam se retirando do Vietnã do Sul, não tinham interesse em iniciar uma nova guerra com a China. O Vietnã reunificado não aceitou a soberania chinesa das ilhas Paracel, ainda por cima, em 1979, foi especulado que Deng realizaria um ataque limitado contra o Vietnã, o que aconteceu como forma de punição aos vietnamitas pela invasão do Camboja e a aliança com a União Soviética. Inclusive, durante… Read more »

Dalton

Excelente, conhecia apenas superficialmente, não fosse o texto do autor aqui publicado e seu comentário, teria permanecido ignorante.

Matheus

A USNI tinha publicado um artigo extenso sobre, mas faz muito tempo e nem lembro mais o título do artigo.

Leandro Costa

Os Sul-Vietnamitas sempre foram mal liderados.

Matheus

Um dos pontos obscuros da Batalha das Ilhas Paracel é a participação de aeronaves no embate; é certo que nenhum dos navios envolvidos sofreu ataques aéreos, mas os sul-vietnamitas relataram o sobrevoo de aeronaves chinesas. Algumas fontes informam que a China mobilizou caças, incluindo aeronaves J-6, versão chinesa do MiG-19, para cobertura aérea, mas, apesar do alerta dos EUA sobre a decolagem de caças MiG, não houve nenhum ataque aéreo chinês. Os chineses usaram seu poder aéreo a partir de Hainan e o mar livre de disputas para reduzir as forças vietnamitas, menores, que haviam desembarcado sem resistência. Nesse ponto, o… Read more »

Adriano Madureira

Pode ser um pensamento equivocado meu, mas acho que nem de muita tonelagem uma marinha deve ser feita… Acho que uma Marinha com navios menores mas bem equipados, deveria ser algo a se pensar. Vejo os navios da Classe Tarantul,que tem um que varia entre 480 toneladas longas (488 t) padrão, 540 toneladas longas (549 t) carga máxima, poderia ser um tipo de embarcação que poderíamos ter aqui. Não falo comprar dos russos, mas uma embarcação com requisitos similares. E que apesar do tamanho, conta com bom armamento:  4 × P-15 Termit /SS-N-2 Styx ou 4 × P-270 Moskit /SS-N-22… Read more »

Last edited 17 dias atrás by Adriano Madureira
Iran

Os russos são especialistas em fazerem navios leves muito bem armados, eles tem corvetinhas de algumas centenas de toneladas que são melhores armadas que nossas novas fragatas.

Cristiano ciclope

Verdade e as novas fragatas deles também são muito bem projetadas, tem um nicho da marinha russa que prega isso, navios menores, bem armados, numerosos ao invés de grandes navios, e desde a cagada que fizerem com o Moskva no mar negro, um navio de oceanos, essa vertente acho que ganhou o argumento!

Macgarem

Unica coisa que gosta da marinha russa são os Admiral Gorshkov com Kalib.

Essa idéia de meiores menores bem armados poderia ser adotado no brasil.

Adriano Madureira

Eu penso que: Se não temos muita “grana”, “plata”, “bufunfa”, “caraminguás” ou “faz me rir” para adquirir naves como FREMM, Type 054,Baden-Württemberg ,Aquitaine class ou Álvaro de Bazán, e mesmo se tivéssemos pois afinal o problema não é ter ou não dinheiro e sim tempo de entrega para termos navios em quantidade satisfatória em nossas mãos… Pelo que andei lendo,as corvetas da classe Tarantul geralmente levavam aproximadamenteDe 1,5 a 2 anos desde a fase de assentamento até o comissionamento. Uma embarcação que a Índia, atual membro do BRICS, licenciou a produção do Tarantul nos anos noventa, para fabricação interna. O… Read more »

Cristiano ciclope

Vejo isso ainda mais hoje num mundo o de drones do tamanho de um jetsky pode afundar um Destroyer, navios menores, furtivos, rápidos e com aramas de cano de tiro rápido, defesa anti-aereas mais voltado contra os misseis e drones são o futuro, por isso acho que sem querer, acertamos nas Tamandarés em partes, acho que uma tonelagem adequada de escolta e na faixa das 8 mil toneladas, como os russos estão investindo, nas suas novas fragatas!

Adriano Madureira

Eu penso em navios do porte do Tarantul como navios de retaguarda ou apoio, você tem os navios tradicionais como as MEKO-100, que em breve entrarão em serviço na MB, mas que poderia receber o apoio de navios menores como Lanchas ou barcos missileiros, na casa das 100-400 toneladas, projetadas para alta velocidade, furtividade e grande poder de fogo com mísseis antinavio. Apesar que essas embarcações operam mais eficientemente em cenários de arquipélagos, utilizando táticas de enxame para ameaçar grandes navios, e não em mar aberto…  Não sei o porquê da MB nunca ter pensado em tal embarcação, se foi… Read more »

Allan Arajo

Para uma marinha ter meios de menores tonelagem tem que levar em conta muito o local que ela atua, em locais onde o mar é muito agitado navios menores sofrem muito, principalmente com instabilidade.
Normalmente as marinhas que usam navios de baixa tonelagem usam eles em “locais” mais fechados, diferentemente por exemplo do Brasil cuja a sua atuação é principalmente focado em um oceano aberto.

Nei

Vietnã, também foi querer combater a China, com navios de grandes deslocamentos, mas armados muito mal (inclusive com armas sem operação, pois não estavam nem funcionando).

Aqui vemos que é melhor ter corvetas rápidas e bem armadas, que uma fragata básica.

Alex Barreto Cypriano

Foi uma batalha com objetivo colonial no vácuo da descolonização europeia, temporariamente substituída pela japonesa. Nada de bonito nisso, pelo que contém de proposital e planejado, se você se perguntar pelo quê faziam as milícias disfarçadas de pescadores. Se vocês olharem o mapa, verão que a grid está espaçada em 1/12 de grau, ou uns 9,4 quilômetros, e o teatro da batalha tem aproximadamente esta dimensão entre massas de terra ao leste, oeste e norte (cenário recortado e com vários estrangulamentos) – o uso de poucas unidades com grande alcance de artilharia baseada em radar foi um erro crasso. Duas… Read more »

Sirantonio

Excelente texto e discussão sobre a batalha.

Carlos Campos

poxa meu comentário foi apagado

ASantana

Muito bom o texto do Zé Luiz. Ele nos lembra de algumas coisas que talvez tenhamos esquecido: “com a assinatura dos Acordos de Paz de Paris, em janeiro de 1973, que pôs fim ao envolvimento militar dos EUA no Vietnã” – Esse acordo rendeu o Nobel da Paz para o Kissinger e para o Le Duc Tho, mas muita gente esquece desse detalhe ao lembrar da derrota americana na guerra do Vietnã, em 1975. Também esquecem o histórico de conflitos entre o Vietnã e a China. Alguns anos depois desta batalha, em resposta à invasão vietnamita do Camboja, encerrando o… Read more »

Matheus

Também esquecem o histórico de conflitos entre o Vietnã e a China. Alguns anos depois desta batalha, em resposta à invasão vietnamita do Camboja, encerrando o cruel governo, apoiado pela China, do Khemer Vermelho, o Vietnã foi invadido pela China. Pouco tempo depois, as tropas chinesas recuaram sem conseguir expulsar os vietnamitas do Camboja. A intenção de Pequim não era expulsar os vietnamitas do Camboja, o objetivo da China era conduzir um ataque punitivo contra o Vietnã e a URSS para cortar suas respectivas ambições na região, quando culminou o fato dos vietnamitas invadindo o Camboja. Embora a guerra não… Read more »

ASantana

Narrativas….

Parece nosso amigo Putin, num ano diz que toma Kiev em duas semanas, depois que só quer derrubar o governo, depois que querem apenas os Dombass….

Os chineses queriam sim defender seus aliados mas rapidamente viram que não conseguiriam e voltaram. Naquela época, a China ainda não era o gigante atual, ainda vinha ao Brazil aprender a operar um porta-aviões e ainda fabricava apenas cópias de armas soviéticas, que soltavam pecinhas…Se fosse hoje, tomariam Hanoi em duas semanas.

Matheus

Voltaram??? kkkkk O objetivo final do conflito nunca foi realmente publicado pela China, só o que conhecemos é uma frase de Deng: “A criança está se comportando mal, está na hora de levar uma palmada.” (em chinês: 小朋友不听话,该打打屁股了). Traduzindo retoricamente: “Vietnã merece ser espancando por ser desobediente.” Ostensivamente, a guerra foi iniciada em resposta à intervenção vietnamita no Camboja, que era governado na época por Pol Pot, aliado da China, embora nunca tenha sido realmente discutido como a guerra teria ajudado a reverter a situação da China no Camboja. Independente de qualquer coisa, a guerra sino-vietnamita de 1979 abriu um… Read more »

ASantana

Escaramuças fronteirissas e encerramento das relações diplomáticas por mais de 10 anos. Que bela paz…

Pelo menos a china reconheceu que não seria capaz de avançar mais e recuou. Ainda saiu bem com a estorinha da palmada na criança sapeca, que invadiu o pais aliado chines e ficou lá por 10 anos…que belo aliado.

Dalton

Quando os americanos “saíram” o Vietnã do Sul ainda existia e dois anos se passariam até o Vietnã do Norte invadir o Sul.
.
O Vietnã do Norte além de “casca grossa” teve à ajuda fornecida pela URSS mais do que triplicada a partir de 1973 enquanto o Sul teve à ajuda recebida dos EUA substancialmente
diminuída pela maioria democrata no Congresso.

ASantana

Exatamente. Os comunistas assinaram o acordo de paz, ganharam o Nobel, esperaram os americanos retirarem suas tropas e ganharam a guerra, mesmo tendo perdido todas as batalhas. Se tem uma coisa que os comunistas sempre fizeram bem foi mentir. Nisso os americanos até tentam competir, mas nunca chegaram nem perto.

curisco

Ganharam na batalha que importava: política.

Já ali por 1968 todo o alto comando dos EUA no Vietnam já sabiam que não haveria como dominar o território e eliminar o inimigo. Em especial Nixon, a turma foi empurrando com a barriga enquanto morria gente e se gastava dinheiro de forma inacreditável

Renato B.

Parabéns pelo resgate histórico, acho muito interessante conhecer essas batalhas pouco contadas.