A Guerra dos Petroleiros (1981–1988): quando o Golfo Pérsico se tornou um campo de batalha naval
Durante a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), um dos capítulos mais dramáticos do conflito ocorreu no mar e ficou conhecido como “Guerra dos Petroleiros” (Tanker War). Entre 1981 e 1988, o Golfo Pérsico transformou-se em um dos ambientes marítimos mais perigosos do mundo, com centenas de ataques contra navios mercantes e petroleiros que transportavam petróleo para o mercado internacional.
Segundo dados do Lloyd’s of London, responsável por monitorar riscos e seguros do transporte marítimo mundial, o Irã e o Iraque realizaram ao menos 641 ataques contra navios comerciais durante o conflito. Essas ações incluíram ataques com mísseis antinavio, minas marítimas, granadas propulsadas por foguete disparadas a partir de pequenas embarcações e bombardeios aéreos.

A estratégia iraquiana: atacar o petróleo iraniano

O Iraque iniciou a campanha contra o transporte marítimo ainda em 1980, com o objetivo de reduzir a capacidade do Irã de exportar petróleo — a principal fonte de receita do país.
A principal ferramenta de Bagdá foi seus caças-bombardeiros franceses:
- Dassault Mirage F1
- Dassault-Breguet Super Étendard

Essas aeronaves atacavam petroleiros com mísseis antinavio AM39 Exocet, uma das armas mais temidas da época.
Helicópteros Super Frelon também foram utilizados para lançar Exocets, embora com alcance e tempo de patrulha mais limitados.
Ao todo, mais de 350 ataques aéreos iraquianos contra petroleiros iranianos foram registrados ao longo da guerra.

A resposta iraniana
Apesar de sofrer com sanções e dificuldades logísticas após a Revolução Islâmica de 1979, o Irã também conduziu operações contra o tráfego marítimo.
A Força Aérea Iraniana utilizou principalmente:
- McDonnell Douglas F-4 Phantom II
- Northrop F-5 Tiger II
Essas aeronaves atacavam navios usando:
- mísseis AGM-65 Maverick
- foguetes e bombas convencionais.

Helicópteros iranianos também empregaram mísseis antinavio Sea Killer e AS-12.
Entre 1984 e 1986, pilotos iranianos realizaram cerca de 40 ataques aéreos e 30 com helicópteros contra navios mercantes.
Quando suas aeronaves se tornaram escassas, o Irã passou a adotar táticas assimétricas, recorrendo a lanchas rápidas da Guarda Revolucionária para atacar petroleiros e navios de carga.
Mísseis, minas e centenas de navios atingidos
Segundo os registros do Lloyd’s, ocorreram 286 ataques com mísseis antinavio durante a guerra, a maioria atribuída ao Iraque.
Esses ataques envolveram 260 navios, desde pequenos cargueiros até gigantescos superpetroleiros de 186 mil toneladas.
Os resultados foram devastadores:
- 105 navios atingidos diretamente por mísseis
- mais de 80 navios afundados, abandonados ou destruídos por incêndios
Mesmo assim, muitos petroleiros demonstraram grande capacidade de sobreviver. Em diversos casos, navios atingidos por mísseis conseguiram continuar navegando.
As tripulações também aprenderam a reduzir os riscos adotando várias medidas defensivas:
- navegar próximo à costa
- permanecer perto de escoltas navais
- usar refletores de radar para confundir mísseis
- reforçar áreas da tripulação com blindagem improvisada e tanques de água.
O envolvimento das marinhas ocidentais
A escalada dos ataques ameaçou seriamente o fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico, levando potências ocidentais a intervir para proteger o transporte marítimo.
Os Estados Unidos e aliados europeus passaram a escoltar petroleiros na região, destacando grandes forças navais para garantir a segurança das rotas marítimas.
Esse envolvimento teve custos elevados. Entre os episódios mais graves esteve o ataque contra a fragata americana USS Stark (FFG-31), atingida em 1987 por dois mísseis Exocet disparados por um avião iraquiano.
Outros navios americanos também sofreram danos causados por minas marítimas iranianas, e diversos helicópteros foram perdidos em acidentes ou abatidos por fogo antiaéreo.


Impacto estratégico
Embora os ataques iraquianos nunca tenham conseguido interromper por completo as exportações de petróleo iraniano, reduziram significativamente o fluxo de exportações e causaram danos importantes à infraestrutura energética do Irã, incluindo o terminal petrolífero de Kharg Island.
A Guerra dos Petroleiros demonstrou como o transporte marítimo de energia pode se tornar um alvo estratégico em conflitos regionais.
Quatro décadas depois, os acontecimentos daquele período continuam sendo um alerta sobre os riscos de escalada militar no Golfo Pérsico e ilustram o que pode voltar a ocorrer na região caso a situação atual evolua para um confronto mais amplo.■



