Consoles do ANCS

Consoles do ANCS

O sistema de gerenciamento de combate ATLAS Naval Combat System (ANCS), desenvolvido pela ATLAS Elektronik de Bremen, na Alemanha, é um dos sistemas de combate naval mais versáteis em operação no mundo — e é também o sistema que equipa as fragatas da classe Tamandaré da Marinha do Brasil, atualmente em construção no estaleiro TKMS Brasil Sul em Itajaí, Santa Catarina.

Originalmente desenvolvido para a fragata F125 Baden-Württemberg da Marinha alemã, o ANCS evoluiu de um sistema de combate convencional para uma plataforma multimissão de nova geração, capaz de cobrir todo o espectro de operações navais contemporâneas — desde a guerra antissubmarino clássica até o combate a ameaças assimétricas, o apoio de fogo naval às operações terrestres e o suporte a forças especiais. Essa versatilidade é precisamente o que o torna relevante para o Brasil, que precisa de um sistema capaz de operar em cenários tão diversos quanto a patrulha do pré-sal, a vigilância da Amazônia Azul e eventuais operações navais no Atlântico Sul.

Um sistema para o perfil de missão expandido

As operações militares navais do século XXI exigem capacidade de engajar navios de superfície hostis, submarinos, aeronaves, mísseis e torpedos, tanto para autodefesa quanto para proteção de força-tarefa. Mas as tarefas centrais de uma marinha moderna vão além: incluem a proteção de rotas marítimas em águas nacionais e internacionais, o apoio a operações militares em áreas de crise e zonas de guerra, e a capacidade de operar em ambientes multinacionais e conjuntos por períodos prolongados.

O ANCS foi desenvolvido para atender exatamente a esse perfil expandido. O sistema cobre as tarefas clássicas de guerra antiaérea (AAW), antissubmarino (ASW), de superfície (ASuW) e de guerra eletrônica (EW), mas também incorpora capacidades que atendem às demandas operacionais mais recentes: guerra assimétrica, tiro conjunto com forças terrestres (Joint Firing), apoio de fogo naval do mar para terra, suporte a grupos de tarefa e forças especiais, e operações de busca e salvamento. Todas essas funcionalidades foram realizadas em conformidade com os padrões da OTAN, garantindo interoperabilidade processual com outras unidades da aliança — um aspecto que, para o Brasil, tem valor potencial em exercícios combinados e operações de paz sob mandato da ONU.

Arquitetura modular e escalável

Uma das características mais importantes do ANCS é sua arquitetura modular. O sistema é construído em torno de um núcleo de software robusto, com poucos componentes variáveis, ao qual podem ser adicionadas capacidades expandidas de forma modular. Isso permite que uma versão específica do ANCS seja configurada para atender às necessidades de cada cliente e ao espectro operacional de cada classe de navio — de navios-patrulha oceânicos (OPV) a lanchas de ataque rápido, corvetas e fragatas.

Para as fragatas Tamandaré, isso significa que o sistema pode ser adaptado às necessidades específicas da Marinha do Brasil sem comprometer o núcleo validado pela Marinha alemã — a chamada “marinha-mãe” do ANCS. Modificações na interface, integração de sensores e armas nacionais, e adaptações de procedimentos operacionais podem ser realizadas sobre a base comprovada do sistema, reduzindo risco técnico e custo de desenvolvimento.

O sistema suporta a operação de múltiplas redes lógicas — para dados classificados e não classificados — simultaneamente em um único cabo. Além disso, múltiplos domínios de informação são suportados, permitindo que espaços de informação segregados — por exemplo, para OTAN, forças especiais e ONGs — sejam administrados separadamente. A rede de dados é totalmente redundante, com separação red/red e red/black, garantindo a segurança das comunicações em todos os níveis de classificação.

Interface centrada no operador

A operação do sistema de combate depende criticamente da interface com o operador. A ATLAS projetou a interface do ANCS em conjunto com os operadores da Marinha alemã, adotando uma abordagem centrada no usuário. Os recursos humanos limitados e o espaço restrito dentro do Centro de Informação de Combate (CIC) não permitem o uso de consoles dedicados para cada subsistema. Em vez disso, o ANCS utiliza Consoles Multifunção capazes de executar a interface de qualquer função tática implementada — ou seja, todos os subsistemas podem ser controlados a partir de qualquer console.

A interface é baseada em desktops virtuais definidos por função, com menus e dados sensíveis ao contexto. Mais de 200 fragmentos de informação diferentes estão disponíveis, e podem ser combinados para atender às necessidades e definições de função de cada cliente. Graças à estrutura sistemática da interface, um operador pode facilmente alternar entre diferentes funções — de oficial de guerra antiaérea a controle de helicóptero ou operação de links de dados — sem mudar de console.

Automação e disponibilidade prolongada

Consoles do sistema de combate ANCS da fragata Tamandaré, antes da instalação a bordo

Um dos requisitos mais exigentes atendidos pelo ANCS é a capacidade de operação contínua longe de portos base por até 24 meses, dobrando o tempo de operação no mar por ano para 5.000 horas. Isso foi alcançado por meio de requisitos rigorosos de robustez, baixo esforço de manutenção, facilidade de reparo, alto nível de automação, simplicidade de fluxo de trabalho operacional e alta redundância.

Para as fragatas Tamandaré, essa capacidade de operação prolongada é particularmente relevante. A Marinha do Brasil precisa de navios que possam operar por longos períodos na vasta extensão da Amazônia Azul — 4,5 milhões de quilômetros quadrados de Zona Econômica Exclusiva — com acesso limitado a facilidades portuárias de manutenção avançada.

O ANCS também suporta a tripulação com uma simulação completa de todo o sistema de combate, incluindo todos os subsistemas, em vários mundos de simulação que permitem simular vários navios ao mesmo tempo — possibilitando o treinamento de cenários operacionais tanto cooperativos quanto adversariais. Essa capacidade de treinamento embarcado é um multiplicador de prontidão que reduz a dependência de instalações em terra.

Links de dados e interoperabilidade

O sistema é compatível com o sistema multi-link ADLIS, suportando Link 22, Link 16 e JREAP-C, Link 11, SIMPLE, ADLIS Link A e links nacionais. Essa amplitude de conectividade garante que navios equipados com ANCS possam operar em rede com forças de praticamente qualquer país aliado — uma vantagem operacional que a Marinha do Brasil poderá explorar em exercícios combinados como UNITAS e RIMPAC, e em eventuais operações de coalizão.

Referências operacionais

A ATLAS Elektronik tem um histórico extenso de implementações de sistemas de gerenciamento de combate para diversos tipos de navios de superfície. Entre as referências mais relevantes estão as fragatas classe Sachsen (F124) da Marinha alemã em 2004, as lanchas de ataque rápido classe Hamina da Finlândia em 2005, os OPV classe Kedah da Malásia em 2005, os OPV classe Pattani da Tailândia em 2006, as corvetas classe Braunschweig da Marinha alemã em 2008, os OPV classe Turva da Finlândia em 2014, as fragatas MEKO 200 para um cliente não revelado em 2015, e as fragatas classe Baden-Württemberg (F125) da Marinha alemã a partir de 2016.

Outros navios que empregam o ATLAS ANCS

Com as fragatas Tamandaré, o Brasil se junta a esse grupo de marinhas que operam o ANCS — e o faz numa versão do sistema adaptada ao perfil operacional específico da Marinha brasileira, com integração de sensores e armas selecionados para as necessidades do Atlântico Sul. A escolha do ANCS como sistema de combate das Tamandaré não é apenas uma decisão técnica — é uma decisão estratégica que alinha a Marinha do Brasil com um ecossistema tecnológico de comprovada eficácia operacional e potencial de evolução ao longo de décadas de serviço.■

Fragata Tamandaré (F200)

SAIBA MAIS:

A evolução do Centro de Informações de Combate nos navios de guerra

A evolução do Centro de Informações de Combate nos navios de guerra – parte 2

A evolução do Centro de Informações de Combate nos navios de guerra – parte 3

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28 Comentários
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Zigg

Vai funcionar com o Link BR?

Paulo

A notícia ressalta que o sistema opera links nacionais, como o link BR2. E isto é fundamental para operação coordenada e simultânea de diversos meios da MB, como os Subbr, UH15B, baterias de costa e também ativos da FAB e EB. Possibilita a chamada ” defesa / ataque em rede “.

Mauricio R.

Nossa como todo press release, é lindo. Agora acorda pra realidade…

Gen Braga

Não. “Esqueceram” de comprar a Transferência de Tecnologia do sistema que controla as comunicações e links. Aí alguma cabeça branca vai achar caro fazer isso agora e adeus integração com outros sistemas e olá caixa preta.

Santamariense

Como praticamente tudo em programas navais no Brasil esse e mais um exemplo. Pagamos uma fortuna para adquirir tecnologia e construir as fragatas Niterói e o tempo passou e perdemos essa capacidade, tendo que refazer o caminho com as Tamandaré. O mesmo aconteceu com os submarinos IKL 209, resultando em nova compra de tecnologia com os Scorpène. A MB e Emgepron criaram e desenvolveram o SICONTA nas suas versões I e II, usadas na modernização das fragatas Niterói, por exemplo. Mas, seu desenvolvimento não seguiu em frente, resultando na compra desse sistema da matéria…Brasil e seus voos de galinha…

Aéreo

Perfeito. A ideia é sempre esta “pagar uma fortuna”. E para fazer isso é importante tornar o objeto do contrato o mais intangível possível.  A prefeitura da cidade A paga 5000 reais para cada metro quadrado de escola construída, se na cidade B for pago 9000 reais para a mesma finalidade fica relativamente fácil para um órgão fiscalizador achar indícios para uma investigação. Agora fica mais complicado se os políticos da cidade B decidirem superfaturar algo intangível, por exemplo um “Método Pedagógico” a ser implantado para as crianças do município. Como saber se ele é caro ou barato? De quebra,… Read more »

Marcelo

Um textao desse tamanho só pra justificar a compra de um produto estrangeiro em detrimento do produto nacional.
Em um país sério como Rússia,China,estados unidos,Alemanha,França nunca seria aceito um sistema de gerenciamento de combate estrangeiro no seus navios.
Já aqui a mídia paga pela empresas estrangeiros anuncia para a população como revolução tecnológica e soberania Nacional.

Last edited 2 meses atrás by Marcelo
Fernando XO

Prezado, qual seria o “produto nacional” ?

Diego

A transferência de tecnologia dos ikl deu certo, ela gerou o Tikuna, mas a marinha não comprou mais nada, e a escolha do Scorpene veio em prol do auxílio com o SNBR que a TKMS não poderia nos ajudar. Quanto a Tamandaré não ter sistemas nacionais a TKMS jogou com o estado periclitante em que a marinha se encontra, disseram que poderiam por os sistemas nacionais mas não dariam NENHUMA garantia caso os sistemas não se conversassem, a marinha ficou com medo e comprou o pacotão todo com a Alemanha. É tudo uma questão de política de estado vc compra… Read more »

Marcelo

Mais isso é feito de propósito para morrer na maos deles. venderam o navio,sistema de combate,contrato de assistência técnica do fabricante.
Essa é a forma de obrigar o comprador adquirir mais produto estrangeiro com a não garantia de integração do produto estrangeiro com o nacional.
O pior que esses sistema de combate alemão pode ser desligado remotamente igual os franceses e americanos fizeram no iraque com equipamentos de origem frances e yankees.

Alex Barreto Cypriano

Brasil e galinha na mesma frase me lembra integralismo, cujos membros eram nomeados derrogatoriamente de ‘galinhas verdes’. Mas é fato os surtos construtivos ou aquisitivos (onde anda o Nunão?) sem resíduo ou legado – é defeito genético das sociedades derrotadas periféricas e comodamente retardatárias. Pra enfeitar, poderíamos chamar de síndrome de Sísifo…

José Gregório

Exatamente, na aviação a mesmíssima coisa, pagamos o caça ou helicóptero a peso em ouro, que depois não dá em nada…quem será que ganha dinheiro com isso?

Leonardo

Concordo plenamente e isso acontece também na FAB.
Está acontecendo com a Classe Riachuelo, está acontecendo com o Gripen.

O congresso devia proibir as forças de comprar equipamentos com ToT.

Tem que comprar tudo de prateleira com no máximo algumas adaptações e depois que se armar decentemente é que deve (talvez) começar a comprar equipamentos com transferência.

Todas as compras feitas com ToT pelo Brasil desde a minha pré-vida como espermatozoide foram desperdiçadas.

Filipe

Não era a Atech que desenvolveu o sistema de combate ?? Tô entendendo mais nada.

Gen Braga

A Atech foi a receptora da transferência de tecnologia. O sistema é alemão, da Atlas. Muitos técnicos foram passear na Alemanha.

YUFERFLLO

Na verdade passaram o software para a Atech que poderá o modificar e o usar como e onde bem entender e criar outro software com o que aprendeu

Last edited 2 meses atrás by YUFERFLLO
Aéreo

Manda um link sobre esta capacidade da Atech de poder utilizar o sistema como ela bem entender.

Nilo

Será como uma subsidiaria da  ATLAS Elektronik de Bremen, Alemanha, detentora do produto  ATLAS Naval Combat System (ANCS), para emprego nas fragatas da Classe Tamandaré. Atech trabalha em conjunto com a ATLAS para customizar, integrar e manutenção o Sistema Combate. A soberaniaserrá na manutenção e evolução do sistema. Soberania relativa, estamos acostumados, gostamos dessa relação com os Alemães, eles acham bastante natural, o nosso presidente também é só estudar o acordo comercial assinado com eles.

Marcelo

Você acredita nisso ?
Atlas transferindo tecnologias para Atech para futuramente a Atech virar uma futura concorrente de mercado.
Agora me conta a piada do papagaio ?kkkk

Mauricio R.

Se muito fizeram a localização do sistema, assim como a AEL faz com o WAD.
Traduziram do alemão para o português todas as mensagens, flags, alertas e alarmes.

Maverik

A gente não consegue juntar uma penca de programadores e engenheiros de software Brasileiros e criar um sistema nacional desse? espero que esse “ToT” resulte em algo mesmo…..

Nilo

Vc não entendeu, o Brasil, a MB se tornou dependente de um produto alemão, é um sistema que está em navios de vários países da Europa, como Filandia e Holanda e na Ásia com Tailândia e Malásia.

Alex Barreto Cypriano

Pro Brasil é bom o hard e o soft da Alemanha mas a Alemanha prefere o hard e o soft Americano. Gozado, né?

Profa Elisa geopolitica

Daqui a trinta anos estarão falando dessa unica Tamandare, “modernização” , ” nova suíte eletronica”, ” salto tecnologico “, entre outras, para prolongar a vida útil em mais 20 anos…

Aéreo

Bem lembrado Professora. A MB fez um belíssimo trabalho na virada do século nacionalizando uma série de sistemas importantes para a atualização da Classe Niteroi.  O SICONTA, MAGE, Jammer e sistemas de despistamento de mísseis foram todos nacionalizados, uma área (eletrônica de defesa) que o Brasil tradicionalmente é muito fraco. Esse trabalho todos foram perdidos com a Classe Tamandaré, assim como foi perdido todo o ensinamento em projeto naval das classes Inhaúma – Barroso. A Embraer só é o que é, porque manteve desenvolvimento evolutivo das suas capacidade de engenharia, se por exemplo depois do EMB-120 Brasilia a empresa ao… Read more »

Mauricio R.

Estamos licenciando aeronaves de treinamento e combate a reação, desde o Xavante.

Carlos Eduardo Oliveira

Pensei que iria ser um Siconta MK VI nessa fragata.

Mauricio R.

A praga dessas ToT’s não a transferência de tecnologia em si, pífia na maioria da ocasiões, mas a “reserva de mercado” embutida nela.