Bloqueio naval dos EUA contra o Irã desafia Direito do Mar e expõe lacunas legais em Ormuz

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Hormuz

O bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos contra o Irã em abril de 2026, no contexto da crise no Estreito de Ormuz, reacendeu um dos debates mais sensíveis do direito internacional contemporâneo: a tensão entre a liberdade de navegação e o uso do poder naval em conflitos interestatais.

A operação norte-americana tem como objetivo interceptar embarcações ligadas ao comércio iraniano, sem declarar formalmente o fechamento do estreito — uma distinção central para a estratégia jurídica de Washington. Ainda assim, especialistas apontam que o impacto prático da medida afeta diretamente uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde transita cerca de 20% do petróleo global.

Um paradoxo jurídico: os principais atores fora da convenção

Um dos elementos mais relevantes — e frequentemente negligenciados — desse debate é que nem os Estados Unidos nem o Irã ratificaram a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM/UNCLOS).

Esse fato cria um paradoxo: justamente os dois principais atores envolvidos na crise operam fora do principal instrumento jurídico que regula a navegação global. Ainda assim, muitas das regras da convenção são consideradas direito costumeiro internacional, o que significa que tendem a ser aplicadas mesmo a Estados não signatários.

Na prática, isso gera um cenário descrito por analistas como um “vácuo jurídico estrutural”, em que ambos os lados invocam, de forma seletiva, princípios do Direito do Mar para justificar suas ações.

Liberdade de navegação e passagem inocente

A CNUDM estabelece dois princípios fundamentais:

  • passagem em trânsito em estreitos internacionais, como Ormuz
  • passagem inocente em águas territoriais

No caso dos estreitos, o direito de trânsito é praticamente absoluto e não pode ser suspenso. Já no caso da passagem inocente, um Estado costeiro pode, em determinadas circunstâncias — como ameaça à sua segurança — suspender temporariamente esse direito.

É nesse ponto que surgem interpretações divergentes. O Irã sustenta que, em contexto de guerra, pode restringir o uso do estreito por adversários ou por navios que apoiem operações hostis. Já os Estados Unidos argumentam que sua ação se enquadra no direito de guerra naval, que autoriza bloqueios contra o inimigo.

Bloqueio naval: legal ou ato ilícito?

Sob o direito internacional clássico, o bloqueio naval é considerado um ato de guerra e pode ser legal se cumprir critérios específicos — como a notificação, a proporcionalidade e a não discriminação contra Estados neutros.

No entanto, quando aplicado a um estreito internacional, o tema torna-se altamente controverso. A maioria dos especialistas considera que nenhum Estado pode impedir o trânsito global por um chokepoint estratégico, o que colocaria tanto as medidas iranianas quanto as norte-americanas sob suspeita de ilegalidade.

Precedentes e inconsistências internacionais

A crise atual também expõe inconsistências no comportamento de diferentes atores internacionais. Mesmo em um conflito de alta intensidade, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, há registros de manutenção parcial da navegação comercial — especialmente de grãos —, o que evidencia que a liberdade de navegação tende a ser preservada mesmo sob condições extremas.

Por outro lado, o histórico recente dos Estados Unidos inclui ações de pressão marítima contra países como Venezuela, Cuba e agora Irã, levantando questionamentos sobre a seletividade na aplicação das normas internacionais. No caso cubano, amplamente considerado por diversos países como um embargo com características de bloqueio, o debate jurídico também se mantém há décadas.

Além disso, observa-se que tanto países ocidentais quanto outros atores têm adotado medidas que afetam a chamada “passagem inocente”, incluindo restrições a navios petroleiros em diferentes teatros, o que contribui para a erosão prática desse princípio.

O papel limitado das instituições internacionais

Em teoria, disputas desse tipo poderiam ser levadas ao Tribunal Internacional do Direito do Mar, sediado em Hamburgo, na Alemanha. O tribunal é responsável por julgar controvérsias relacionadas à aplicação da CNUDM.

No entanto, na prática, sua atuação depende da aceitação das partes envolvidas — o que limita sua eficácia justamente em crises envolvendo grandes potências. A ausência de acionamento do tribunal por países diretamente afetados, incluindo europeus fortemente dependentes das rotas energéticas do Golfo, evidencia a fragilidade dos mecanismos institucionais do direito internacional.

Impacto global e risco sistêmico

A escalada no Estreito de Ormuz ocorre em um momento em que o comércio marítimo continua sendo a espinha dorsal da economia global. A liberdade de navegação não é apenas um princípio jurídico — é um elemento essencial para a estabilidade econômica internacional.

A combinação de bloqueios navais, interdições seletivas e restrições à passagem inocente pode gerar efeitos sistêmicos, incluindo aumento de custos logísticos, encarecimento da energia e pressões inflacionárias globais. Analistas já alertam que a crise atual tem potencial para gerar impactos comparáveis aos choques do petróleo da década de 1970.

 

Uma ordem jurídica sob erosão

No centro da crise está uma constatação cada vez mais difícil de ignorar: o Direito do Mar, concebido para garantir previsibilidade e estabilidade, mostra-se incapaz de conter ações unilaterais de grandes potências. A sucessão de bloqueios, interdições seletivas e violações da liberdade de navegação — tanto por parte dos Estados Unidos quanto de outros atores — indica que a chamada “ordem internacional baseada em regras” não apenas está sendo desafiada, mas progressivamente desrespeitada e solapada na prática. Em um cenário onde normas são aplicadas de forma seletiva ou simplesmente ignoradas, o risco não é apenas jurídico, mas sistêmico: a substituição do direito pela força como principal regulador do espaço marítimo global.■


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36 Comentários
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Fernandão

Esses direitos foram feitos para países menores e menos relevantes, pois quando se trata de potências, principalmente os E.U.A, eles fazem o que querem.

JuggerBR

Já deixou de ser uma ação legítima de um governo sobre outra nação, virou piada ruim, todos pensando em como viver num mundo com um louco no comando do maior arsenal nuclear e das forças armadas mais poderosas.

Alecs

Quem bloqueou o estreito primeiro? Resposta por IA que eu já sabia, mas estou com preguiça, e sem tempo de escrever. “Visão geral criada por IA Com base nos eventos de 2026, o Irã iniciou restrições e ações diretas que fecharam o Estreito de Ormuz em resposta aos bombardeios liderados pelos EUA e Israel, que começaram em 28 de fevereiro. O Irã implementou minas navais e ataques, configurando o bloqueio inicial nesta escalada.  Pontos-chave do Bloqueio em 2026: Irã: Tomou a iniciativa de bloquear/restringir o estreito após os bombardeios de 28 de fevereiro contra o seu território. Estados Unidos: Estabeleceram… Read more »

Augusto Cesar

“mas ignorar que que do outro lado do estreito existe outro país (Omã/Emirados Árabes Unidos), que não atacou o regime é, no mínimo, suspeito”

Esses países no outro lado do Golfo possuem bases americanas de onde os mesmos estavam lançando ataques contra o Irã. Então os mesmos, mesmo que de forma indireta estavam contribuindo para o esforço de guerra americano.

Alecs

E o Brasil, Argentina, por exemplo, tem bases americanas para serem prejudicados?

Augusto Cesar

Alecs, justo não é, eu concordo, mas foi a forma que a republica islâmica usou para tentar sobreviver. Se não tivessem feito isso, os americanos e os israelenses ainda estariam bombardeando o seu pais. Dentro de um confronto militar dificilmente decisões justas são tomadas, principalmente quando a sobrevivência do regime ou do país atacado está em jogo. Se os americanos tivessem sua existência em jogo, ou mesmo uma ameaça concreta contra seu regime democrático, eles mesmo usariam todos os meios disponíveis independente de ser justo ou não. Nas guerras não existem bonzinhos, cada ator usa as armas que tem a… Read more »

Alecs

Além do mais, eu não disse que o Irã não poderia atacar as bases dos USA. O que eu disse acima foi: “Minar seu litoraral para se defender de uma invasão é uma coisa. Sacanear com todo o mundo é outra!” O Irã foi atacado e tem o direto de se defender e, se assim achar necessário, atacar bases americanas em outros países.

Sulamericano

Eu penso que se alguém sacaneou o mundo todo, esse alguém foi o Trump.
Esse demente narcisista resolveu atacar o Irã por razões que nunca ficaram claras e agora enfiou um mundo todo em uma enrascada na qual não se vê uma saída a curto prazo.

Cristiano ciclope

Vi um vídeo histórico no you tube sobre o estreito de Ormuz, essa tática de bloqueio dele pelos perdas e antigo, coisas de séculos, agora levando em conta o quê você disse sobre. Minar o litiral, metade do estreito e iraniano, então eles poderiam minar a metade do estreito, e acho que a parte navegável fica no lado iraniano, aí da no mesmo!

Joao

Tinham bases, por
Conta da ameaça do Irã….

Cristiano ciclope

Estranho que na Europa ele fala que os europeus devem ter capacidade de se defender, já no oriente médio, eles podem ter bases para defender os países da região!

Cristiano ciclope

Pergunta, um país que não ataca, mas permite quem te ataca usar seu território para ele te atacar, faz parte ou não do conflito?
Imagina se um dia, um país nós atacar usando o espaço aéreo se outro país ou usando bases em outro país para nós atacar, como séria, as bases deles no “pais neutro” não devem ser atacados?

Joao

É o preço q se paga por estruturar um cerco por anos contra uma potência….

Não acharam o cerco contra a Rússia um absurdo, o q justifica a ação contra a Ucrânia?

Pois é… o entorno estratégico americano é o mundo, e não a área circunvizinha…

Por que?
Porque os EUA são 25% do PIB do mundo…
Ele tem muito $$ em todos os lugares e todos tem muito $$ lá.

O esperneio é válido, mas não leva a nada. O q leva é construir suas capacidades para ser menos envolvido, o q o Brasil não tem feito.

Angus

Talvez, apenas talvez, a classe política brasileira aprenda que não existe diplomacia sem uma Força Armada para sustentar a argumentação.

Nos atuais conflitos (Guerra do Golfo 3 e Guerra da Ucrania) essa questão ficou mais evidente.

Se bem que a maioria dos políticos brasileiros (extensivo a população brasileira) não deve sequer saber mostrar em um mapa onde fica a Ucrânia e onde fica o Irã.

Comte. Nogueira

O atual presida sentiu a pressão quando seu “cumpanheiro” foi expurgado do poder na Venezuela… Encomendou rapidinho um estudo ao Estado Maior.

Cristiano ciclope

A Venezuela e um caso estranho, tiraram o maduro ma snao mudaram o governo, só ganharam acesso ao petróleo nas condições que eles queriam, o que reforça que para os EUA tanto faz se o seu governo e se esquerda ou direita, cristão, judeu ou mulçumano, democracia ou ditadura brutal, desse quê eles lucrem!

Cristiano ciclope

Ok, concordado, mas os nossos políticos e os militares tem que ter coragem de diversificar os fornecedores de armas, ter um caça ocidental e um chinês ou Russo, e se possível construirmos um próprio, como exemplo, pois de nada adianta, termos 720 caças top de linha, ser a maior potência militar do Atlântico sul, se tudo fica inútil com embargo de peças!

Hamom

Bloqueio naval e sequestro de navios e suas mercadorias em águas internacionais, tem nome a muito tempo: ‘Pirataria’!

Mas parece que o bloqueio naval da US Navy não tem sido eficiente (talvez deixando passar conscientemente…), porque:

“O Irã enviou cerca de 10,7 milhões de barris de petróleo para a China durante a primeira quinzena de abril, apesar do bloqueio naval dos EUA, de acordo com dados do Kpler relatados por CNN em 23 de abril.

A empresa estimou os fluxos em cerca de 985 mil barris por dia (bpd)”

Macgarem

Só existe 2 soluções, todo mundo aderir ao o que o Irã quer.

E a segunda a lá Iraque, fazer uma coalizão e invadir aquela budega.

Problema que ninguém quer pagar a conta da segunda opção

Esteves

Por que o Irã deveria ser invadido?

Fábio CDC

Não há necessidade de justificativa, basta fazer o serviço.

Macgarem

Não existem motivos?

O que os países temem é o número de baixos e não julgamento pela falta de motivos.

Tem países na asia que o pau está comendo com manifestações por causa de racionamento. Kwait, Katar e Emirados arabes/Abu Dabhi estão com problemas economicos já que não possuem outra saida.

Alecs

Acho que Lule devia mandar todos os que se identificam como “todes” para lá negociar com os aiatolás e a guarda revolucionária do Irã. Meu comentário pode parecer um pouco debochado, mas como o governo atual tem o Irã como “aliado”, penso que seria um boa. Mostraria ao mundo como o regime iraniano é bonzinho e favoráveis a diversidade. Acho que Erika Hilton deveria ser a liderança enviada para lá.

Joao

Pode ser o chefe da comitiva!!!!!

Macgarem

Vejo sensatez nesse comentári. hahahaha

André Macedo

Então deveria ser aliado dos EUA, cujo maior parceiro na região e maior comprador de armas após Israel é a ARÁBIA SAUDITA? (Mesmo que o Brasil fosse esse tal aliado do Irã)

Augusto Cesar

Eu tenho um terceira opção, uma negociação seria com os iranianos, sem ser da forma unilateral como os americanos querem. Os países afetados devem pressionar Trump e tentar um acordo, tem que parar com essa postura de vassalagem (principalmente da Europa). Se o Trump ameaçar com sanções, todo mundo se junta e coloca sanções iguais, quero ver se ele não ia arregar. Se não arregar e dobrar a aposta (que eu duvido) pelo menos o resto do mundo não abaixou a cabeça para esse narcisista. Não pode continuar abaixando a cabeça para esse maluco. Ele fez a cagada, ele tem… Read more »

Cristiano ciclope

Ainda mais que o Irã não e o Iraque, até a geografia atrapalha e muito!

André Macedo

A UNCLOS e afins só servem quando convém aos EUA.

Gabriel

Então viu…, tudo isso aí já tem nome.
É pirataria !

Carlos Campos

Irã e EUA estão errados

Alecs

Exato! Comentário com 5 palavras, mas extremamente sensato!

carvalho2008

que perda de tempo….desde quando países em guerra obedecem legislação..?

Moriah

A questão de Ormuz já está abrindo precedentes mundo afora, nesse caso aqui, entre Jacarta e Singapura…

https://jakartaglobe.id/news/indonesia-floats-ship-tax-in-malacca-strait-as-singapore-defends-free-passage

Moriah
Eduardo

Pirataria dos EUA, nada de novo. EUA e Israel vivem cometendo pirataria e terrorismo