Da União à Tamandaré: após 46 anos, a Marinha do Brasil volta a incorporar uma nova fragata construída no país
Fragata União antes do lançamento, na carreira grande do AMRJ, em 14 de março de 1975
Por Alexandre Galante*
alexgalante@naval.com.br
A incorporação da fragata Tamandaré (F200) nesta sexta-feira, 24 de abril de 2026, recoloca a construção naval militar brasileira a um marco que não se via desde 1980. Na contagem histórica entre os anos-calendário de 1980 e 2026, a Marinha do Brasil leva 46 anos para receber uma nova fragata construída no país — ainda que, na contagem estrita entre datas, o intervalo desde a incorporação da fragata União (F45), em 12 de setembro de 1980, seja de pouco mais de 45 anos e sete meses. A cerimônia da F200 sela a entrada em serviço do primeiro navio do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), criado para renovar os meios de superfície da Esquadra.
A origem dessa história remonta ao Programa Decenal de Renovação dos Meios Flutuantes, lançado em 1967, quando a Marinha buscava reduzir sua dependência de navios usados e modernizar a Esquadra em plena Guerra Fria. Desse esforço nasceram as fragatas da classe Niterói, encomendadas em 1970: quatro foram construídas no Reino Unido e duas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. A União, segunda feita no Brasil e última da série, fechou esse ciclo ao ser incorporada em 12 de setembro de 1980, concluindo o mais ambicioso programa de construção de escoltas então realizado pela força naval brasileira.


Depois das Niterói, a continuidade da construção local de escoltas passou para o programa que gerou as quatro corvetas classe Inhaúma. Concebido a partir do fim dos anos 1970 e autorizado em 1981, o projeto visava criar uma nova geração de navios menores, produzidos no Brasil, para substituir meios obsoletos e sustentar a indústria naval militar. A primeira unidade, Inhaúma (V30), entrou em serviço em 1989; a quarta e última, Frontin (V33), só seria incorporada em 1994, refletindo atrasos e dificuldades financeiras que marcariam boa parte dos programas navais brasileiros dali em diante.

Enquanto essas corvetas chegavam lentamente, a Marinha recorreu a compras de oportunidade no exterior para preservar sua capacidade de escolta. Ainda na gestão do almirante Henrique Sabóia, foram adquiridos da Marinha dos EUA quatro navios da classe Garcia, incorporados no Brasil como contratorpedeiros da classe Pará, numa solução de transição entre a chegada das Inhaúma e a retirada de antigos contratorpedeiros norte-americanos das classes Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing.
Mais tarde, já na década de 1990, vieram também as quatro fragatas Type 22 compradas da Royal Navy, incorporadas pela Marinha do Brasil como classe Greenhalgh entre 1995 e 1997.


A tentativa seguinte de manter viva a linha de construção nacional foi a corveta Barroso (V34), derivada da experiência adquirida com as Inhaúma. Mas o navio acabou se tornando símbolo das dificuldades crônicas de financiamento e continuidade. Seu projeto e construção se estenderam de 1994 a 2008, e, como foi dito na Revista Marítima Brasileira, ela foi concluída “graças à tenacidade da Marinha”. A incorporação formal da Barroso ocorreu em 19 de agosto de 2008, tornando-a o único exemplar de sua classe.

Agora, com a Tamandaré, a Marinha tenta abrir um novo capítulo. A F200 integra o PFCT, programa contratado em 2020 e voltado à renovação dos meios de superfície. A construção do navio começou em 2022, com o corte da primeira chapa de aço; o lançamento ao mar ocorreu em 9 de agosto de 2024, seguido por testes de mar ao longo de 2025, até a incorporação oficial em 24 de abril de 2026. Diferentemente da Barroso, a nova fragata nasce em um modelo industrial mais amplo, com estaleiro dedicado, participação de parceiros estrangeiros e foco em transferência de tecnologia.
A incorporação da Tamandaré marca o fim de um longo intervalo iniciado em 1980, quando a fragata União foi incorporada. Desde então, a Marinha atravessou esse período recorrendo a corvetas, à compra de navios usados no exterior e a um programa nacional que avançou entre atrasos e limitações. A chegada da F200 não apaga essa trajetória, mas representa uma mudança importante: recoloca a construção de escoltas no centro do planejamento naval brasileiro e devolve à Esquadra algo que faltava havia muito tempo — uma nova fragata construída no país, pensada para abrir uma nova etapa, e não apenas para manter viva a anterior.■

*Jornalista especializado em assuntos militares, editor-chefe da trilogia de sites Forças de Defesa. Serviu à Marinha do Brasil a bordo da fragata Niterói (F40) no final da Guerra Fria, colaborou com revistas especializadas e trabalhou na redação do jornal O Globo por 12 anos.


Que seja assinado o segundo lote dessas fragatas e depois quem sabe versões maiores como a Meko A-200 com maior tonelagem também construídas em Itajaí e outros modelos Meko tipo caça minas para Salvador e modelos de patrulhas para os distritos navais.
Acho a Tamandare muito parecida com a A-200 queria era a A-400
Pelo design é bem parecido mesmo,mas a tonelagem ainda é muito menor em comparação,A-200 pode levar mais armamento e maior deslocamento
Eu acho que não se justifica. Melhor continuar fazendo A100 ou partir para plataformas realmente mais robustas e maior tonelagem. As A200 deslocam em plena carga 3.700 – 3.950 vs os 3.500 da nossa A100BR. Vejo pouca vantagem. Se for para ir para algo diferente que seja na casa das 6.000 toneladas como uma FREMM por exemplo (caso antigo da MB). Ou simplesmente continuar fazendo Tamandarés num ritmo de um navio a cada 2 ou 3 anos evoluindo sistemas e armamentos.
Os EUA estão construindo ABs desde a década de 80.
Fremm na MB seria top,quem sabe mais para frente.
Só pode se for TKMS…
Pena um intervalo tão grande, mas antes tarde do que nunca!
Talvez, quem sabe, num mundo bom, essa classe possa ser o nosso “Arleigh Burke da Shopee”. Não temos grana para construir os CTs que os americanos constroem, mas essas fragatas podem ser nosso cavalo de batalha com a construção sendo perene e conforme as tecnologias forem avançando ela ir incorporando melhorias. Mas sem a construção parar. Claro, como é sempre falado aqui, os Burkes nasceram com bastante espaço e energia para incorporação de novas tecnologias e armamentos e só agora, num projeto dos anos 80, estão chegando a exaustão do projeto. Eu não sei se nossas Tamandaré possuem todo esse… Read more »
Cavalo de batalha seria um exagero – tá mais pra jerico de carga.
É o que temos. Se não tem cavalo, vamos de jegue.
Cobertor curto
Pensando em construção naval, talvez o caminho seja aproveitar o projeto da CV 03 para um OPV com canhão de 57mm, que tem uma boa cadencia e ate mesmo uma corveta como originalmente pensado, mais voltada para guerra antissubmarina
Icônica essa foto da F 45 na carreira.
Quando criança viajando pelo RJ vi a F44/45 sendo construída na carreira quando passando pelo extinto elevado da Perimetral 👍
A classe Garcia era muito charmosa.
Na USN eram classificadas como FF, depois que vieram pra MB foram reclassificadas como DD
As autoridades da USN na época ficaram bravas com o Brasil, mas depois se silenciaram quanto a reclassificação.
Meio que deram por encerrado o assunto para não causar mais polêmica 🤷♂️
A Barroso coitada já nasceu velha.
Foi apelidada de “O curioso caso de Benjamin Burton” fazendo alusão ao filme
As Type 22 na época da aquisição muita gente deu risada que eu falava que Marinha estudava a aquisição de 4 Fragatas a Turbina.
Devia ter apostado na época 😏
Precisou o ” Nove dedos voltar” pra fazer a indústria naval andar.
Viva Brasil, quê venham Tamandare, Submarino nuclear!
Viva Brasil!!
Viva FX2, viva Prosub!
Nossa que sensacional, nossa indústria naval voltou a andar, sob o cabresto da TKMS e do Naval Group, que maravilha!!!!
😂👍☕
Foi 2020 fechado o programa e 2022 começou, não foi no governo do 9 dedos.
Ponderar sobre a matéria nos dá a certeza de que construção naval militar, aqui, é um ítem de luxo a importar da metrópole. É pra provar a impotência do argumento de progresso, basta comparar os índices de nacionalização das Niterói, Inhaúma, Barroso e Tamandaré… Penso que o hiato na verdade é uma coincidência: no fim dos dois períodos consecutivos da história nacional sob a bandeira de desenvolvimento (o autoritário e o democrático), surgem as belonaves nominalmente brazucas, um consolo pelo desastre rematado, equipamento militar como propaganda bem paga de algo que falhou de vez.
A classe política deste país não dá importância a esse tema , com algumas excessões, não citarei nome pois o assunto não é política, mas é pouco 4 fragatas para o tamanho do mar brasileiro.
Uma pergunta fora de tópico mas nem tanto:
Quantas fragatas classe Niterói ainda estão em plena atividade atualmente?
Eu pesquisei mas não há respostas conclusivas.
A Niterói já foi de baixa (já foi até vendido o casco como sucata)
As demais continuam a operar sendo que a F42 se encontra com algumas restrições, mas deve ser a próxima a ir de baixa, depois segue um cronograma de ordem para baixa das demais assim que tiver mais FCTs incorporadas 👍
5 na ativa… Apenas a Niterói deu baixa até hj…
Sendo q das 5, uma opera com restrições, sendo usada mais para treinamentos de tripulantes.
Salve galante , reportagem bacana, 46 anos de lacuna , muito tempo para uma marinha que cuida de um mar imenso, construir casco nos sabemos , mas e o recheio , a tecnologia embarcada , somos muito dependentes, não somos fabricantes , somos montadores , mais 4 fragatas novas , ei tenção de mais 4.
Acompanhei de perto a “Frontin”. “O Carrasco dos Mares” hehehehe…sinceramente..foi difícil, nada contra os que construíram fisicamente…