Ex-analista da CIA diz que China já superou os EUA em vários domínios militares
Type 052D lançando míssil antinavio YJ-18
Em entrevista a Max Boot no Washington Post, John Culver afirma que Washington ainda preserva vantagem em submarinos, mas enfrenta desvantagem industrial, logística e geográfica em um eventual conflito no Pacífico
Uma entrevista publicada por Max Boot no Washington Post com o ex-analista da CIA John Culver provocou forte repercussão no debate estratégico norte-americano ao apresentar uma avaliação dura sobre o equilíbrio militar entre Estados Unidos e China. Culver, que estudou o Exército de Libertação Popular desde 1985 e foi oficial nacional de inteligência para o Leste Asiático entre 2015 e 2018, afirmou que é cada vez mais difícil apontar áreas — além de submarinos e guerra submarina — em que os EUA ainda mantenham vantagem clara sobre Pequim.
A declaração ganha peso porque Culver não é apenas um comentarista externo. Segundo seu perfil no Brookings Institution, ele passou 35 anos na CIA como analista e gestor especializado em China, com foco particular nas Forças Armadas chinesas, tendo integrado a elite analítica da agência antes de se aposentar em 2020.
Na entrevista, Culver disse que a transformação militar chinesa desde os anos 1980 foi tão ampla que “é difícil não ser hiperbólico”. Segundo ele, a China já lidera ou rivaliza com os EUA em áreas como mísseis ar-ar, mísseis superfície-ar, capacidades contraespaciais, guerra eletrônica, reconhecimento, ciber e munições avançadas. A exceção mais relevante, em sua avaliação, continua sendo a dimensão submarina, onde Washington ainda preserva vantagem.
O ponto mais sensível da entrevista foi a avaliação sobre um eventual conflito em torno de Taiwan. Culver afirmou que parte do pensamento no Pentágono, ao menos até sua aposentadoria, previa retirar ativos navais de alto valor da região antes do início de uma guerra e depois tentar “lutar para voltar” ao teatro de operações. O motivo seria a vulnerabilidade de porta-aviões, bases avançadas e aeronaves norte-americanas diante da capacidade chinesa de ataque de longo alcance.
Segundo Culver, não há “espaços seguros” no Pacífico Ocidental. Ele observou que a China pode atingir forças norte-americanas desdobradas no Japão, Austrália ou Coreia do Sul de uma forma que o Irã não conseguiria no Oriente Médio. Também afirmou que porta-aviões norte-americanos precisariam operar a cerca de 1.000 milhas da zona de combate para serem relevantes, justamente dentro de uma área altamente contestada por mísseis, sensores e sistemas chineses.

A entrevista ocorre poucos dias depois de o historiador e comentarista neoconservador Robert Kagan publicar, na The Atlantic, o artigo “Checkmate in Iran”, no qual argumenta que Washington não consegue reverter nem controlar as consequências estratégicas da guerra contra o Irã. A sequência dos dois textos chamou atenção porque tanto Kagan quanto Boot foram, historicamente, defensores de uma política externa norte-americana mais intervencionista.
No caso da China, a crítica central de Culver não se limita à quantidade de navios ou mísseis. Ele aponta para um problema estrutural: a capacidade industrial. Ao tratar de munições avançadas, o ex-analista afirmou que a produção chinesa ocorre em escala muito superior à que a base industrial dos EUA conseguiria sustentar. A frase mais contundente foi que, em uma guerra de alta intensidade, “quem ficar sem munição primeiro perde”.
A comparação naval reforça essa leitura. Culver citou que o estaleiro chinês Jiangnan, em Changxing, perto de Xangai, tem mais capacidade do que todos os estaleiros norte-americanos combinados. Essa avaliação coincide com estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS), que afirma que Jiangnan sozinho supera a capacidade conjunta dos estaleiros dos EUA e que a capacidade naval chinesa de construção é mais de 230 vezes superior à norte-americana.

A disparidade também havia aparecido em uma apresentação da inteligência naval dos EUA, posteriormente noticiada por veículos especializados, segundo a qual a capacidade chinesa de construção naval seria 232 vezes maior que a dos Estados Unidos. A estimativa apontava cerca de 23,2 milhões de toneladas de capacidade nos estaleiros chineses contra menos de 100 mil toneladas nos norte-americanos.
Apesar da avaliação sombria, Culver não conclui que uma guerra por Taiwan seja inevitável. Pelo contrário: sua leitura é que o aumento da vantagem relativa chinesa pode tornar o conflito menos provável. Segundo ele, Taiwan é uma crise que Xi Jinping quer evitar, não uma oportunidade que necessariamente deseja aproveitar. A lógica seria esperar que o desequilíbrio militar se torne tão favorável a Pequim que os próprios norte-americanos passem a questionar se vale a pena lutar pela ilha.
Essa interpretação contrasta com parte do debate em Washington, que frequentemente apresenta 2027 ou os anos seguintes como janela crítica para uma ação chinesa contra Taiwan. Culver reconhece que a China desenvolveu capacidades para bloquear, punir ou atacar a ilha, mas sugere que Pequim pode preferir usar a pressão política, militar e econômica para alterar o cálculo de risco sem necessariamente iniciar uma invasão anfíbia em larga escala.

O ex-analista também questionou a estratégia norte-americana conhecida como “Hellscape”, que prevê saturar o Estreito de Taiwan com drones, mísseis e sistemas autônomos para impedir ou desorganizar uma invasão chinesa. Para Culver, o problema é prático: esses sistemas teriam de ser pré-posicionados em Taiwan, Luzon ou nas ilhas do sudoeste do Japão — todas áreas ao alcance de ataques chineses.
A crítica se estende aos investimentos em grandes plataformas. Questionado sobre a insistência dos EUA em financiar porta-aviões e novos grandes navios de superfície, Culver atribuiu parte dessa preferência à cultura institucional das Forças Armadas, que ainda valoriza programas tradicionais ligados à carreira e à promoção de oficiais. Em sua avaliação, mesmo um orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão ajudaria apenas parcialmente e poderia significar “jogar dinheiro bom atrás de dinheiro ruim” se não corrigisse problemas estruturais.
O debate tem implicações diretas para aliados dos EUA no Indo-Pacífico. Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas e Taiwan dependem, em diferentes graus, da presença militar norte-americana para dissuadir a China. Se a avaliação de Culver estiver correta, Washington teria de repensar não apenas seu volume de gastos, mas sua postura regional, a proteção de bases, a dispersão de forças, a produção de munições, a defesa antimísseis e a resiliência logística.
Ao mesmo tempo, Culver não descreve a China como invulnerável. Ele menciona purgas recentes no alto escalão militar chinês e problemas de corrupção no PLA como sinais de que Xi Jinping ainda tem dúvidas sobre a confiabilidade e a disciplina de sua própria força armada. Para o ex-analista, essas purgas indicam preocupação com lealdade e controle político, não necessariamente preparação imediata para uma guerra contra Taiwan.
A entrevista de Boot com Culver e o artigo de Kagan sobre o Irã foram lidos por analistas críticos da primazia norte-americana como sinais de uma mudança no debate em Washington. O comentarista Arnaud Bertrand classificou os textos como uma espécie de “relatório de incêndio” escrito pelos próprios defensores históricos da intervenção militar dos EUA, argumentando que figuras associadas ao establishment de política externa começam a reconhecer limites estruturais do poder norte-americano.
A conclusão mais relevante, porém, não é que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma superpotência militar. O ponto levantado por Culver é mais específico: em um conflito regional de alta intensidade, perto da costa chinesa, contra uma potência industrial e tecnológica capaz de produzir mísseis, navios, sensores e drones em enorme escala, a superioridade global norte-americana pode não se traduzir em vantagem local decisiva.■


Não pode ser verdade… Esse analista só pode ser comunista!
Obs: o comentário acima contém ironia.
Isso, tem que colocar que “contém ironia”, senão já viu, né! Quando esqueço, tenho que ficar explicando depois.
Talquei? 🤨😆😆
Como disse o saudoso mestre Didi, bicampeão mundial de futebol : “Treino é treino, jogo é jogo “. Me lembrei disso, lendo a reportagem do poder naval. Sem dúvida, a China tem um formidável sistema de produção de armamentos, e creio, hoje, inigualável. Porém seus sistemas de combate, seus meios, por mais numerosos e avançados que sejam, em grande medida, não foram provados no ” calor da batalha “, no campo de guerra, em conflitos reais, no “jogo ” propriamente dito. E nisso, os EUA, são imbatíveis. Suas armas, seus sistemas já passaram ou estão passando por ” prova” de… Read more »
CSWS = (RCWS). Padesse = padece
as guerras no Irã e na Rússia mostram que o jogo mudou
Me lembro de um jogador falando que hoje não existe mais time bobo.
na russia!!!!!
Olá Paulo, Realmente a China não pôs a prova as suas capacidades militares. Não sei se um dia vão chegar a fazer isso, e espero sinceramente que não. Isso me lembrou da Itália do Mussolini na WWII, que na grande maioria das batalhas que se envolveram, tiveram um desempenho vergonhoso e tiveram de ser socorridos pela Alemanha. E o caso mais recente é o da Rússia, que com todo o poderio militar, teve também um desempenho vergonho no início da guerra com a Ucrânia e que no fim acabou por expor fragilidades significativas, em grande parte associadas à corrupção e… Read more »
O real problema não é a falta de experiência de guerra, mas a falta de real preparação pra guerra.
Preparo e China tem. Eles fazem vários exercícios militares. Mas citando novamente o grande e saudoso Didi: “treino é treino, jogo é jogo”.
Mudou o jogo. Mudou tudo: a bola, a regra, o campo, o público, o estádio… tudo mudou.
A China por exemplo está contratando 10 milhões de drones de combate de uma lapada só.
Obs: Em qualquer cenário de conflito entre potências nucleares ou a guerra é muito limitada ou, se crescever demais, descamba para guerra nuclear e fim do mundo.
Armas convencionais é para enfrentar vizinhos menores e convencionais
E o caso dos EUA. que com toda experiência está dando vexame no Irão. Jogo mudou.
Obs: o que vale sempre é vitória estratégica. O homem Trump está feliz porque está ficando cada vez mais rico manipulando mercados. mas o país EUA está dando vexame e tantando fugir de atoleiro ou retirada vergonhosa
Desde o Vietnã que eles tem desenvolvido uma extensa experiência em retiradas vergonhosas.
Logo se percebe que vc e um especialista. Contém ironia.
Falando em capacidade industrial chinesa…
Curiosidade, foto do motor (em montagem) de um navio de 10.000 toneladas:
Este motor é atualmente o motor marítimo de média velocidade mais potente produzido na China, tem dois andares de altura e pesa quase 140 toneladas.
Sem entrar no mérito da análise e discussões acaloradas.
O dia que EUA, Rússia ou China entrarem em combate direto entre eles o mundo como conhecemos hoje acaba.
Obviamente são feitas milhões de análises e simulações, mas na realidade pouco importa quem é o 1º, o 2º ou o 3º, considerando Rússia, China ou EUA, pelo menos nos próximos 30 anos, considerando os arsenais nucleares que existem.
Acredito que análises semelhantes também são feitas na Rússia e China, cuja conclusão pode ser diferente, quando o objetivo é aumentar ou justificar mais gastos com defesa.
Acho que mesmo sem o uso dos armamentos nucleares, uma guerra dessas mudaria e muito o mundo. As mudanças sociais da 1° e 2° Guerra enterraram muita coisa.
A França e UK juntos têm mais poder nuclear que a China, pelo menos até agora, em futuro próximo, a China vai ultrapassar o poderio nuclear dos Europeus.
Mas o poderio nuclear dos 2 Europeus, chega bem para aniquilar praticamente 2 continentes, isto sem contar com aumentos de arsenal, como a França já confirmou, ou futuros novos poderes nucleares, provavelmente Polónia ou até Aleman ha.
A conversa é sobre super potências, eu não sabia que a Europa que não tem poder industrial para rivalizar com a Rússia que tem a economia menor que a brasileira fazia parte da conversa.
Russia super potencia? ta de brinks. Estão lá atolado com os mendigos da ucrania.
Super potencia hoje é EUA e China, russia serve a china.
Uma guerra contra a Ucrânia e dezenas de aliados, inclusive os EUA
O dia que EUA, Rússia ou China entrarem em combate direto entre eles o mundo como conhecemos hoje acaba.
Errado, se isso acontecer, aí que o Brasil acorda para mundo!
Tem diversas obras de ficção onde as potencias se destroem e o Brasil sai como superpotencia.
Se o Xi Xixiping quiser ele cerca e toma Taiwan em meia hora, sao milhares de navios e aviões e drones que os EUA passarão vergonha, e ainda tem gente que não acredita
Pode até tomar e sem dificuldade. O problema é manter, já que o custo vai ser alto…
Espero que o Ronald Reagan esteja vendo isso no inferno e chorando.
Quanta mágoa no coração. Tudo é um ciclo, a China vem vindo agora, como já era gigante milênios atrás.
Mais um tempo, toda esses equipamentos e construções ficarão obsoletos, eles serão os paquidermes antigos e serão passados para trás de novo.
Tudo isso é uma questão de tempo.
Nenhum dos dois lados vai aceitar uma derrota em uma gerra convencional, os dois lados vão recorrer a armas nucleares se a derrota for eminente.Temos novamente aquele cenaria que havia entre URSS e EUA.
Será mesmo? EUA estão engoliando uma situação vexatória para o Irã em nome da economia.
Se tem uma coisa que os chineses aprenderam em mais de 2.000 anos de história é que a Paciência é uma virtude! Eles podem aguardar.
Os USA não conseguem subjugar o Irã!!! Vcd realmente acham que eles teriam alguma chance contra a China?
Os EUA sempre fazem esse drama; como são uma democracia, precisam justificar gastos em defesa, daí criar um “false flag” ameaçador.
P.ex. quando o piloto russo Belenko desertou com seu MiG-25 em 1976, os EUA usaram o caça soviético como justificativa para acelerar o desenvolvimento e produção dos F-14/15/16, mesmo verificando que era um caça puramente interceptador, sem capacidade de dogfight.
Enquanto os chineses estão investindo em Mísseis hipersônicos antinavio, nós estamos orgulhosamente desenvolvendo nossos poderosos
mísseis antinavio, o MANSUP (Míssil Antinavio Nacional de Superfície),uma potente e letal arma subsônica…
Mas oque importa mesmo é que é do Brasil…
A grande questão é, em um hipotetica invasão chinesa de Taiwan, os chineses iriam atacar os ativos militares americanos no Pacifico antes deles poderem intervir no conflito? Ao pegar os americanos “desprevenidos” a chance dos chineses darem um golpe devastador nos Iaques e grande, mas ai seria a justificativa americana para entrar com tudo no conflito, ou se não atacarem os americanos correm o risco dos americanos ajudarem Taiwan com seu poderio intacto.
Essa abordagem estrategica deve tirar o sono dos estrategistas chineses.