USS Kitty Hawk vs K-314

Em março de 1984, em plena Guerra Fria, um episódio pouco lembrado mostrou como a disputa submarina entre Estados Unidos e União Soviética podia chegar perigosamente perto de uma catástrofe. No Mar do Japão, o submarino nuclear soviético K-314, da classe Victor I, colidiu com o porta-aviões norte-americano USS Kitty Hawk (CV-63) durante o exercício Team Spirit 84, realizado pelos Estados Unidos com aliados asiáticos. O incidente não deixou mortos, mas danificou seriamente o submarino e obrigou o porta-aviões a seguir para reparos.

A versão mais detalhada do episódio é atribuída ao então comandante do K-314, Vladimir Evseenko, então capitão de 2º escalão — posto equivalente a capitão de fragata na Marinha do Brasil. Segundo o relato, o submarino preparava-se originalmente para uma longa viagem ao Oceano Índico, com escala em Cam Ranh, no Vietnã, e prosseguimento para a Somália. A missão mudou quando recebeu ordem de acompanhar, por um período prolongado, o grupo de batalha do USS Kitty Hawk, que havia entrado no Mar do Japão com escoltas, navios de apoio e dezenas de aeronaves embarcadas.

O pano de fundo era um dos momentos mais tensos dos anos 1980. A crise dos “euromísseis”, a chegada de Yuri Andropov ao poder em Moscou, a intensificação das patrulhas de submarinos nucleares soviéticos e os grandes exercícios militares norte-americanos na Ásia criavam um clima de alerta permanente. Navios de superfície, submarinos, aviões de patrulha e meios de inteligência eletrônica dos dois blocos se seguiam mutuamente, tentando medir capacidades, descobrir padrões de operação e manter vigilância constante sobre as forças adversárias.

O Kitty Hawk era uma peça de alto valor estratégico. Com deslocamento na casa das dezenas de milhares de toneladas, cerca de 90 aeronaves e milhares de tripulantes, o porta-aviões liderava um grupo naval composto por cruzadores, fragatas, destróieres e navios de apoio. Para a Frota do Pacífico soviética, ignorar uma força desse porte operando nas proximidades do Japão e da Coreia do Sul estava fora de questão.

De acordo com Evseenko, o K-314 conseguiu estabelecer contato hidroacústico com o grupo norte-americano no quarto dia da missão, combinando informações de reconhecimento rádio com a orientação de postos de comando em terra. Durante aproximadamente uma semana, o submarino manteve contato com seu alvo principal: o Kitty Hawk. A missão, porém, era complexa. Problemas de recepção de rádio, hidroacústica desfavorável, nevoeiro e manobras do grupo norte-americano dificultavam a manutenção do contato.

Em determinado momento, o K-314 perdeu contato com o porta-aviões. Para recuperar a posição do grupo, Evseenko aumentou a velocidade do submarino para cerca de 32 nós. Essa decisão, embora compreensível do ponto de vista tático, aumentava significativamente o ruído do submarino, tornando-o mais vulnerável à detecção. Ao mesmo tempo, o grupo do Kitty Hawk teria reduzido as emissões e adotado o silêncio rádio, o que dificultaria o trabalho dos operadores soviéticos.

Na noite de 21 de março de 1984, a situação convergiu para o acidente. O K-314 subiu à profundidade do periscópio para uma sessão de comunicações e para tentar restabelecer visualmente a posição do grupo. Segundo o comandante soviético, havia neblina, mar agitado e visibilidade limitada. Ao observar pelo periscópio, ele detectou as luzes e silhuetas do grupo de batalha muito mais perto do que os cálculos indicavam. A distância estimada pelos sistemas soviéticos estava incorreta. Em vez de algumas milhas, o porta-aviões estava a uma distância perigosamente curta.

A ordem foi mergulhar em emergência. Era tarde demais. Às 22h05, o submarino e o porta-aviões colidiram. O primeiro impacto teria atingido a região superior do submarino; o segundo, o setor de propulsão, danificando o eixo e a hélice. A embarcação soviética perdeu capacidade de manobra normal e precisou recorrer a sistemas auxiliares. O K-314 ainda conseguia se mover lentamente, mas não tinha condições de retornar por seus próprios meios.

Do lado norte-americano, o Kitty Hawk sofreu danos no casco, com uma perfuração próxima a um tanque de combustível de aviação. Relatos posteriores indicam que houve vazamento de combustível, embora o porta-aviões tenha permanecido operacional e conseguido seguir para reparos. A sorte pesou muito naquela noite: não houve incêndio, não houve vítimas e não ocorreu qualquer incidente radiológico conhecido envolvendo o submarino nuclear.

O relato soviético enfatiza que os tripulantes inicialmente temeram danos catastróficos. Evseenko imaginou que a vela pudesse ter sido arrancada ou que o casco leve poderia ter sido aberto. Os compartimentos, porém, relataram ausência de alagamento. O problema mais grave estava na popa: vibração severa no eixo, danos no propulsor e risco de perda de componentes. Sem propulsão principal confiável, o comandante decidiu emergir e pedir auxílio.

A partir daí, a cena tornou-se uma espécie de teatro naval da Guerra Fria. Aeronaves embarcadas norte-americanas passaram a sobrevoar o submarino. Navios soviéticos aproximaram-se para prestar assistência. Segundo registros públicos, a fragata norte-americana USS Harold E. Holt permaneceu nas proximidades por dias e ofereceu ajuda, recusada pelos soviéticos, até que um rebocador pudesse levar o K-314 de volta.

O episódio ainda teve um subproduto de inteligência. Fragmentos associados ao submarino, inclusive material de revestimento e partes danificadas, teriam ficado presos ou sido recolhidos após a colisão. Para os norte-americanos, qualquer amostra de material anecoico, hélice ou estrutura de um submarino soviético era valiosa, pois ajudava a compreender tecnologias de redução de ruído e assinatura acústica.

A investigação soviética concluiu que houve erro na avaliação das condições hidroacústicas. No relato de Evseenko, a tripulação teria interpretado a hidrologia como tipo 1, quando, na verdade, as condições correspondiam ao tipo 2, com uma camada de propagação sonora que dificultava a escuta na profundidade em que o submarino operava. Em termos simples: o K-314 não ouviu corretamente o porta-aviões e se aproximou demais.

Como quase sempre acontecia nas marinhas da época, o comandante pagou o preço. Evseenko foi afastado do comando do submarino e transferido para funções em terra. Em seu relato, ele reconhece parte da responsabilidade, mas ressalta que “o mar tem sua própria física e sua própria lógica”. A frase resume bem a natureza do acidente: um encontro entre técnica, pressão operacional, erro humano, limitações dos sensores e ambiente marítimo adverso.

O destino posterior do K-314 também reforçou sua fama de navio “azarado”. Um relatório menciona incêndios anteriores e um acidente posterior envolvendo o compartimento do reator, às vésperas de 1986, que teria levado à decisão de não recuperar o submarino e colocá-lo em armazenamento permanente. Embora algumas fontes públicas alertem para confusões em relatos sobre acidentes nucleares envolvendo submarinos soviéticos, o fato é que o K-314 encerrou sua trajetória marcado por incidentes graves.

Porta-aviões dos EUA visto pelo periscópio de um submarino

A colisão com o USS Kitty Hawk entrou para a história como um dos episódios mais estranhos da guerra naval moderna. O caso revela a lógica perigosa da Guerra Fria no mar. Submarinos soviéticos buscavam chegar perto o suficiente para acompanhar e, em caso de guerra, atacar grupos de porta-aviões. Os norte-americanos, por sua vez, treinavam para operar sob ameaça submarina permanente. O resultado era uma rotina de perseguições silenciosas, aproximações arriscadas e decisões tomadas em segundos.

Naquela noite no Mar do Japão, o mundo teve sorte. O K-314 não afundou. O Kitty Hawk não incendiou. Nenhuma tripulação foi perdida. Mas a colisão mostrou que, mesmo sem disparar um único tiro, as superpotências navegavam frequentemente a poucos metros do desastre.■


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22 Comentários
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Patriota

Resumo: apenas um pequeno susto em um encontro entre dois gigantes!
Segue o jogo!
Há braços

Hamom

O K-314 abalroou o porta-aviões?
Vendo as fotos do pós colisão tive a impressão que o submarino soviético emergiu na proa do porta-aviões americano e foi “atropelado” por ele…

BVR

Tive a mesma impressão.

Hamom

E o sub foi de fato “atropelado”, lendo a matéria com mais atenção:

“…O primeiro impacto teria atingido a região superior do submarino; o segundo, o setor de propulsão, danificando o eixo e a hélice.

Ou seja: A proa do porta-aviões colidiu com a popa do submarino…

Marcelo

Exatamente !!!

O porta aviões acertou a traseira do sub russo.

Dalton

No caso de interessar a alguém a foto mostra o ^Kitty Hawk^ com as âncoras pintadas de dourado, fruto de uma premiação conquistada em 1982 por ter excedido a taxa de retenção de pessoal/ realistamento.

Renato

Por um lado erro sério no lado soviético. Por outro conseguiram colocar um submarino no meio do grupo de batalha do Kitty hawk sem ser detectado. Ficou feio para os dois.

Marcelo de Andrade

Acho que ficou mais feio para os americanos,pois o submarino poderia ter afundado oporta aviões sem ao menos eles saberem o que os atingiu.

Dalton

O ^Kitty Hawk^ sabia do submarino, mas não havia um estado de guerra para fazer muito mais e como o texto explica era normal um lado ^vigiar^ o outro e os próprios submarinos americanos faziam coisa similar as vezes de maneira discreta outras vezes fazendo questão que o paradeiro fosse conhecido. . A probabilidade de guerra entre EUA e URSS era pequena e se o submarino atacasse as consequências seriam imediatas, ambos os lados compreendiam isso havendo portanto um certo ^relaxamento^ de ambos os lados. . O episódio também evidenciou as dificuldades enfrentadas por um submarino fosse de qualquer nação… Read more »

Burgos

Ops 😰
Acho que ambos oficiais de navegação do quarto de serviço deram uma vacilada aí, a não ser que o Comandante do Navio estava no Passadiço/Camarim de navegação do Submarino mandaram seguir o rumo em rota firme 👍🥴🤷‍♂️
Velho ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”
Obs: já fui timoneiro em quarto de svc, é um serviço até tranquilo, mas do nada rola uns stress cabuloso no Passadiço 🥴

Marcelo

Nessas horas a experiência do comandante não tem preço !!!!

Marc. R

Acho. Que. Os. Oficiais. Da. USNAVY. Devem. Ter. Mirado. Bem. Pra. Pegar. Esse. Submarino ….
Os. Sovietivos. Deram. Mole….

Leandro

Claro….fico imaginando a conversa no comando do porta aviões…”Deixa a sub nuclear, que pode nos destruir umas 4x, entrar no meio da área de proteção pra batermos neles……”
Cada uma viu…

Dalton

Só complementando o ^Kitty Hawk^ tinha a bordo umas poucas dezenas de armas táticas nucleares, inclusive para uso contra submarinos e navios que faziam parte da escolta também.

Cosmo

Nessa audiência, tem que levar o livro de explicações inteiro!

JuggerBR

Podia ter dado tremendamente errado esse encontro… O Japão viraria zona de acidente nuclear…

Adriano Madureira

Que porrada! Se esse submarino fosse um daqueles com casco de titânio, a facada teria sido pior…

comment image

Adriano Madureira

Não entendo de engenharia naval, mas quem puder me responder, agradeço…

No caso do Kitty Hawk, para recuperar a proa, teve que trocar a seção frontal do navio? Ou Porta aviões não usam cascos modulares?

Dalton

A foto dá a impressão de um dano maior do que realmente foi tanto que reparos emergenciais nas Filipinas permitiram que ele permanecesse em missão antes de retornar a San Diego onde reparos mais completos foram feitos não exigindo ^troca da seção frontal^ .
.
E não havia nem há ^cascos modulares^.

Cristiano GR

Uma história dessas envolvendo os 2 principais jogadores do mundo na época nem é famosa, a maioria dos que leram a reportagem aqui ficou sabendo disso através dela, inclusive eu.

Mas se fosse um fato ocorrido com nossa Marinha e um de seus meios, ah, ia chover comentários negativos, críticas destrutivas, chacota, latidos, muitos latidos e apelidinhos depreciativos.

bitten

Acho curioso o fato de q um submarino, msm sem prontidão de ação real para o GT tenha penetrado o limite externo da formatura na superfície ao ponto de chegar perto o suficiente do NAe para ser abalroado. Suponho q alguns comentários estejam corretos, mas se o GT tivesse tal nível de consciência situacional, imagino q tivesse tentado manobras evasivas. Na minha época de R2 (o NAeL Minas Gerais ainda estava em serviço…) , as palestras de instrução diziam q cada unidade deveria manter uma distância padrão das outras em relacao ao envelope de deslocamento. Em caso de situação extraordinária,… Read more »

Dalton

Não havia um estado de guerra e supondo que operações aéreas estavam em andamento não valeria a pena mudar todo um organograma.
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Ainda mais estes incidentes, inclusive entre aviões, era extremamente comum mais até por parte dos soviéticos em manobras ousadas e consideradas pouco seguras deu no que deu.
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Um submarino sempre estará em desvantagem no caso de colisão com um navio e o comandante soviético pode ter assumido o risco enquanto da parte dos navios americanos neste caso, estavam dentro das normas e mesmo ofereceram ajuda após a colisão.