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O K219 navegando na superfície após o acidente. Três dias depois o submarino afundou

Na madrugada de 3 de outubro de 1986, em plena Guerra Fria, o submarino nuclear soviético K-219 navegava submerso no Atlântico Norte, a nordeste das Bermudas, em uma patrulha de dissuasão estratégica. A bordo, transportava mísseis balísticos nucleares e uma tripulação submetida à rotina tensa de uma guerra que nunca foi declarada, mas que podia começar em minutos.

Pouco depois das 5h da manhã, uma infiltração de água do mar em um dos silos de mísseis desencadeou uma sequência química devastadora. O contato da água salgada com resíduos do combustível do míssil produziu gases tóxicos, calor intenso e, por fim, uma explosão que comprometeu o submarino. Três dias depois, em 6 de outubro, o K-219 afundaria no Abismo de Hatteras, levando consigo reatores nucleares e seu arsenal estratégico.

O episódio tornou-se um dos mais graves acidentes envolvendo submarinos nucleares durante a Guerra Fria e revelou os riscos extremos das patrulhas silenciosas realizadas por Estados Unidos e União Soviética nos oceanos.

Um submarino da dissuasão nuclear soviética

O K-219 pertencia ao Projeto 667A Navaga, conhecido pela OTAN como classe Yankee I. Era um submarino nuclear lançador de mísseis balísticos, projetado para permanecer oculto no oceano e, em caso de guerra, atacar alvos estratégicos do adversário.

Comissionado em 1971, o submarino carregava mísseis balísticos R-27U de combustível líquido. Esses mísseis usavam propelentes altamente tóxicos e corrosivos, que exigiam rigor extremo de manutenção e segurança. Qualquer vazamento, sobretudo em ambiente confinado e pressurizado, podia gerar consequências catastróficas.

Naquele outubro de 1986, o K-219 estava em patrulha no Atlântico. Sua presença fazia parte da lógica da destruição mútua assegurada: submarinos soviéticos próximos ao continente americano garantiam a Moscou capacidade de retaliação mesmo em caso de ataque nuclear surpresa dos Estados Unidos.

Mas a arma que deveria garantir a dissuasão tornou-se o centro da tragédia.

Local do acidente

A sequência do desastre

Segundo o relato técnico atribuído ao ex-imediato do K-219, Igor Kurdin, e ao oficial norte-americano Wayne Grasdock, a emergência começou às 05h14, horário de Moscou. O oficial responsável pelo armamento de mísseis e um maquinista no compartimento IV, onde ficava a seção dianteira de mísseis, detectaram água pingando sob o tampão do tubo de míssil nº 6, o terceiro tubo a bombordo a partir da proa.

Durante a tentativa de pré-compressão do tampão, o gotejamento transformou-se em um jato. A presença de água no tubo foi comunicada ao comandante, capitão de fragata Igor Britanov. Às 05h25, Britanov ordenou que o submarino subisse para uma profundidade considerada segura, cerca de 46 metros, enquanto bombas eram acionadas para tentar secar o silo.

A situação deteriorou-se rapidamente. Às 05h32, nuvens marrons de oxidante começaram a sair sob o tampão do tubo de míssil. O oficial do compartimento declarou alerta de acidente e comunicou a emergência ao posto central de comando. A tripulação isolou compartimentos e iniciou os procedimentos de controle de avarias.

Poucos minutos depois, às 05h38, ocorreu a explosão no tubo nº 6.

O que aconteceu dentro do silo foi uma reação química violenta. A água do mar reagiu com o combustível do míssil, produzindo cloro e dióxido de nitrogênio. O calor gerado levou à decomposição explosiva de ácido nítrico fumegante, liberando ainda mais dióxido de nitrogênio. O oficial de armamento Alexander Petrachkov tentou lidar com a emergência desengatando a tampa do silo e ventilando o tubo para o mar, mas a sequência já era praticamente irreversível.

O K-219 já havia sofrido um episódio semelhante anteriormente. Um de seus tubos de mísseis estava desativado e soldado, depois de ter sido permanentemente selado em razão de uma explosão anterior causada pela reação entre água do mar e resíduos de combustível.

Mortes, gases tóxicos e perda de controle

O K219 fotografado na superfície após o acidente

A explosão matou dois marinheiros imediatamente. Um terceiro morreu pouco depois, envenenado pelos gases tóxicos. O casco foi danificado, e o submarino começou a embarcar água. A embarcação, que estava a cerca de 40 metros de profundidade, afundou rapidamente até mais de 300 metros antes que a tripulação conseguisse estabilizá-la.

A salvação inicial veio da disciplina de controle de avarias. Os compartimentos foram selados, as bombas de esgotamento trabalharam no limite e o comandante conseguiu impedir a perda imediata do navio. Mas a emergência estava longe de terminar.

Até 25 marinheiros ficaram presos em uma seção isolada. Somente depois de consultar especialistas em avarias, Britanov autorizou o engenheiro-chefe a abrir a escotilha e retirar os homens. A decisão salvou vidas, mas expôs a gravidade do dilema a bordo: cada abertura de compartimento podia espalhar gases tóxicos e comprometer ainda mais a estabilidade do submarino.

O problema mais grave, porém, estava nos reatores nucleares. Pelos instrumentos, eles deveriam ter desligado automaticamente após o acidente. Isso não aconteceu.

Sergei Preminin e o reator

O tenente Nikolai Belikov, um dos oficiais de controle dos reatores, entrou no compartimento para desligá-los manualmente. Conseguiu girar apenas um dos quatro conjuntos de barras de controle do primeiro reator antes de ficar sem oxigênio e ser obrigado a sair.

Belikov retornou com o apoio do jovem marinheiro Sergei Preminin, de apenas 20 anos. Juntos, conseguiram desligar os três conjuntos restantes do primeiro reator. O calor, a exaustão e a falta de oxigênio obrigaram ambos a sair novamente, deixando ainda ativos os quatro conjuntos de barras do segundo reator.

Mesmo esgotado, Preminin se ofereceu para voltar sozinho. Usando máscara de gás de face inteira e seguindo instruções do engenheiro-chefe, entrou novamente no compartimento do reator. Conseguiu inserir manualmente as barras de controle e desligar o segundo reator, evitando uma possível fusão nuclear.

Ao tentar sair, porém, encontrou a porta travada. Um incêndio havia aumentado a pressão dentro do compartimento, criando uma diferença em relação ao restante do submarino. A escotilha não abriu. Preminin ficou preso no compartimento quente, contaminado e sem oxigênio suficiente.

Morreu asfixiado.

Sua ação impediu que o acidente assumisse proporções ainda maiores. Anos depois, Sergei Preminin seria reconhecido postumamente como Herói da Federação Russa.

Britanov emerge usando baterias

Uma embarcação retira tripulantes do K-219 enquanto a fumaça sai pelo tubo que explodiu

Com os reatores em condição segura, mas sem propulsão nuclear, o comandante Igor Britanov conseguiu levar o K-219 à superfície usando apenas energia de baterias. Era uma situação dramática: um submarino estratégico soviético, danificado, contaminado e armado com mísseis nucleares, exposto em pleno Atlântico durante uma das fases finais da Guerra Fria.

Navios soviéticos foram enviados para a área. Moscou ordenou que o K-219 fosse rebocado por um cargueiro soviético de volta à sua base em Gadzhievo, na Península de Kola, a cerca de 7.000 quilômetros de distância. Uma linha de reboque chegou a ser presa, mas as tentativas fracassaram.

Enquanto isso, novos vazamentos de gases tóxicos atingiam compartimentos na popa. A situação a bordo ficava cada vez mais perigosa. Contrariando ordens superiores, Britanov determinou que a tripulação abandonasse o submarino e se transferisse para o navio de apoio. Ele permaneceu a bordo por mais tempo, tentando preservar o controle da embarcação.

A decisão entrou em conflito com a pressão de Moscou.

Insatisfeitas com a incapacidade de reparar o submarino e retomar a patrulha, autoridades soviéticas chegaram a ordenar que o oficial de segurança Valery Pshenichny assumisse o comando, levasse a tripulação sobrevivente de volta ao K-219 e retornasse à missão. A ordem nunca pôde ser executada. A inundação já havia passado do ponto de recuperação.

Em 6 de outubro de 1986, o K-219 afundou no Abismo de Hatteras, a aproximadamente 6.000 metros de profundidade. Britanov abandonou o navio pouco antes do afundamento.

O submarino levou consigo todo o seu armamento nuclear.

A controvérsia com o USS Augusta

USS Augusta (SSN-710)

Logo após o acidente, a União Soviética sustentou que o K-219 havia sido danificado por uma colisão com o submarino nuclear de ataque norte-americano USS Augusta, que estaria acompanhando a patrulha soviética.

Washington negou a acusação. O próprio comandante Britanov também rejeitou a hipótese de colisão. Para ele, a causa do desastre foi uma falha no silo de míssil, agravada por infiltração de água do mar e pela reação com combustível residual.

Anos depois, o ex-comandante da Marinha Soviética, almirante Vladimir Chernavin, também atribuiria o acidente a um mau funcionamento no tubo de míssil, sem mencionar colisão com submarino norte-americano. A versão da falha técnica tornou-se a explicação mais aceita entre especialistas.

A controvérsia, porém, reflete a lógica da época. Em 1986, admitir falhas internas em um submarino estratégico soviético armado com mísseis nucleares era politicamente embaraçoso. Atribuir o acidente a uma ação norte-americana servia tanto à propaganda quanto à preservação da imagem da Marinha Soviética.

Quatro mortos e um comandante acusado

O acidente custou a vida de quatro tripulantes: dois mortos na explosão, um por intoxicação e Sergei Preminin no compartimento do reator.

Igor Britanov, por sua vez, voltou à União Soviética sob suspeita. Foi acusado de negligência, sabotagem e traição. Embora não tenha sido preso, ficou à espera de julgamento. As acusações seriam posteriormente abandonadas em meio a mudanças políticas e militares em Moscou.

A tragédia do K-219 também ocorreu apenas meses após o desastre de Chernobyl, em abril de 1986. Para a liderança soviética, era mais um episódio a demonstrar as vulnerabilidades de um sistema militar e tecnológico submetido a sigilo, pressão operacional e estruturas burocráticas rígidas.

Um símbolo dos riscos da Guerra Fria

O submarino afundado permanece no fundo do Atlântico como testemunho físico da Guerra Fria. Seus destroços repousam em águas profundas, junto com reatores nucleares e armamentos estratégicos.

A história do K-219 é, acima de tudo, uma história sobre limites: limites da tecnologia, da disciplina militar, da obediência a ordens e da própria lógica da dissuasão nuclear.

No centro dela está Sergei Preminin, o jovem marinheiro que entrou no compartimento do reator sabendo que talvez não voltasse. Sua morte impediu que um acidente gravíssimo se tornasse uma catástrofe ainda maior.■

SAIBA MAIS:

MODELISMO: Submarino nuclear de mísseis balísticos (SSBN) Project 667A ‘Navaga’


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20 Comentários
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NEMOrevoltado

Será que os misseis ainda estão lá?

Dalton

Sim. Como um dos 16 silos havia sido danificado antes e não reparado o submarino naufragou com 15 a bordo e encontra-se a uma profundidade de cerca de 6.000 metros.

TJLopes

Vamo lá buscar?

Marcelo Andrade

Isso daria um filmaço!!!

Raphael

Hostile Waters (1997), deu filme, se é filmaço, fica para cada um analisar….

Augusto Cesar

Lendo a matéria lembrei daquele filme do K-19 The Widowmaker com Harrison Ford e Liam Neeson, esse pelo menos foi um filmaço.

Heli

Hipérbole à parte, mas nos anos 80, “todo mês” passava nos jornais um submarino soviético navegando na superfície com problemas.

Jagderband#44

Em caso de vazamento de material radioativo do reator ou do armamento, penso que, devido à profundidade (pressão), a radioatividade ficaria confinada lá. Ou estou enganado? Uma coisa é certa, em algum momento no futuro, este material será exposto.

JuggerBR

Imagina as criaturas que devem existir lá embaixo… Se em Chernobyl tem lobos com resistência a câncer… https://revistagalileu.globo.com/ciencia/biologia/noticia/2024/02/lobos-de-chernobil-desenvolveram-mutacao-que-os-protege-do-cancer.ghtml

Pedro I

Quanto tempo até aparecer um “Godzila”?…rsrs…

Carlos I

A União Soviética afundou deliberadamente reatores, submarinos e até mesmo milhares de contêineres com resíduos radioativos no mar, Estados Unidos e Inglaterra usavam mais barris, os alemães largaram alguns barris relativamente perto da costa portuguesa.

Material largado por aí não falta infelizmente.

DanielJr

Isso lembra outro evento que virou filme, K-19: The widowmaker. Lembro de alugar o DVD desse filme várias vezes.

Augusto Cesar

Filmaço esse dai.

Hamom

Obrigado Sergei Preminin, um verdadeiro herói.

Last edited 1 mês atrás by Hamom
Jabulani Teimoso

Ele evitou o que seria um Chernobyl marítimo.

Macgarem

Lembro do filme com Harrison ford como o capitão

Douglas Falcão

A seis mil metros o casco do reator implodiu não? há medição de radioatividade no local?

Dalton

Caso os russos não o façam outras nações e/ou organizações estarão monitorando, mas não há nada preocupante neste ou outros destroços similares incluindo os 2 submarinos americanos já que a água funciona como um contentor ainda mais a grandes profundidades assim o vazamento de radiação eventual não alastra-se para muito longe dos destroços.

olavo22

Vazamento eventual não alastra-se?? Olha, no mar do Norte tem problemas de radiação sim. Não tem nada de eventual. No norte da Rússia tem cemitério de sub vazando também. Os americanos também perderam subs. Tem o Uss Scorpion ao sul dos Açores. Melhor a gente não pesquisar muito para não desanimadar!

fernando

Uma coisa é certa: o Brasil jamais sofrerá um acidente com um sub nuclear.