Classe Moskva: os cruzadores porta-helicópteros que abriram o caminho da aviação embarcada soviética
Na história da Guerra Fria naval, poucos navios simbolizam tão bem a busca soviética por soluções próprias quanto os cruzadores porta-helicópteros da classe Moskva. Oficialmente conhecidos como Projeto 1123 Kondor, esses navios representaram a primeira tentativa operacional da União Soviética de combinar, em uma mesma plataforma, armamento pesado de cruzador, sensores antissubmarino de longo alcance e um grupo aéreo embarcado composto exclusivamente por helicópteros.
A classe foi formada por apenas duas unidades: Moskva e Leningrad. Ambas foram construídas em Nikolayev, no Mar Negro, em um dos principais estaleiros soviéticos da época. O Moskva foi lançado em 1965 e incorporado em 1967. O Leningrad seguiu pouco depois, entrando em serviço em 1969. Uma terceira unidade, que deveria se chamar Kiev, chegou a ser planejada, mas acabou cancelada quando a Marinha Soviética decidiu seguir por um caminho mais ambicioso, que resultaria nos cruzadores-aeronaves da classe Kiev.
A origem da classe Moskva está diretamente ligada à ameaça representada pelos submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos dos Estados Unidos. No fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, a União Soviética ainda buscava meios eficazes para rastrear e destruir submarinos Polaris antes que eles pudessem lançar mísseis contra o território soviético. A resposta imaginada por Moscou foi um navio capaz de comandar grupos de guerra antissubmarino, operar helicópteros de busca e ataque e, ao mesmo tempo, defender-se com mísseis, canhões e armas antissubmarino próprias.
O resultado foi uma embarcação híbrida. À proa, o Moskva parecia um cruzador de mísseis, repleto de lançadores, radares e sistemas de armas. À ré, porém, abria-se um amplo convoo destinado à operação de helicópteros Kamov Ka-25, conhecidos no Ocidente pelo codinome “Hormone”. A combinação conferia ao navio uma silhueta inconfundível: superestrutura maciça ao centro, convés de voo à proa e armamento pesado concentrado na parte dianteira.
Os soviéticos não classificavam esses navios como navio-aeródromo. A designação mais adequada era a de cruzadores antissubmarino ou cruzadores porta-helicópteros. A diferença não era apenas semântica. O navio não operava aeronaves de asa fixa e sua missão principal não era a projeção de poder aéreo, mas a guerra antissubmarina. Além disso, a classificação como cruzador evitava implicações políticas e legais relacionadas à passagem de porta-aviões pelos estreitos turcos sob a Convenção de Montreux.
Em termos de conceito, o Moskva foi pensado como navio-capitânia de uma força antissubmarino. Seus helicópteros Ka-25 poderiam decolar em ciclos para lançar sonoboias, empregar sensores e atacar submarinos. A capacidade de manter aeronaves em voo contínuo era considerada essencial para ampliar o alcance de detecção muito além dos sensores instalados no próprio casco.
O grupo aéreo era o coração do sistema. Os navios foram projetados para transportar cerca de 14 helicópteros Ka-25, apoiados por hangares internos, elevadores e um convoo capaz de operar várias aeronaves simultaneamente. Para a Marinha Soviética, que até então possuía pouca experiência com aviação embarcada de grande porte, isso representava um avanço notável.
O armamento também refletia a missão antissubmarino. A classe recebeu lançador SUW-N-1, capaz de disparar foguetes antissubmarino com torpedo ou carga especial, além de lançadores RBU-6000, tubos de torpedo e sistemas de sonar de casco e rebocado. Para autodefesa, os navios dispunham de mísseis superfície-ar Shtorm, conhecidos pela OTAN como SA-N-3 Goblet, além de canhões duplos de 57 mm.
As dimensões eram expressivas para a época. Com cerca de 189 metros de comprimento e deslocamento em plena carga superior a 15 mil toneladas, os Moskva foram, no momento de sua entrada em serviço, alguns dos maiores navios de guerra já construídos pela União Soviética. Tinham propulsão convencional a vapor, velocidade máxima próxima de 28 nós e autonomia suficiente para operar em áreas distantes, especialmente no Mediterrâneo e no Atlântico.
Na prática, porém, a classe nasceu em meio a uma rápida mudança estratégica. O conceito original fazia sentido quando os submarinos balísticos norte-americanos precisavam aproximar-se relativamente das águas soviéticas para lançar seus mísseis. Mas a entrada em serviço de mísseis Polaris de maior alcance permitiu que os SSBNs dos Estados Unidos operassem em áreas muito mais distantes. Isso reduziu a viabilidade de caçá-los com grupos antissubmarino de superfície.
Assim, quando o Moskva entrou em serviço, parte de sua missão principal já estava obsoleta. A área oceânica que a Marinha Soviética precisaria cobrir era grande demais, e o número de submarinos americanos era elevado demais, para que navios desse tipo pudessem oferecer uma solução decisiva.
Além do problema estratégico, havia limitações de projeto. A classe Moskva era uma tentativa de conciliar duas funções difíceis de combinar: cruzador fortemente armado e navio-aeródromo. Como superfície de combate, carregava um arsenal respeitável. Como plataforma aérea, porém, tinha um convoo limitado, hangares complexos e pouca margem para operações intensivas de helicópteros em más condições meteorológicas.
A marinharia foi um dos pontos mais criticados. O desenho do casco, especialmente a proa fina e a popa larga e arredondada, causava dificuldades em mares agitados. Em condições severas, os navios embarcavam muita água pela proa, o que podia comprometer operações de armas e limitar a condução de operações aéreas. Para uma classe pensada para atuar no Atlântico Norte, onde o clima é frequentemente adverso, essa era uma deficiência séria.
A limitação do grupo aéreo também se tornou evidente. Quatorze helicópteros eram suficientes para a lógica original de patrulha antissubmarino contínua, mas pouco para operações de maior intensidade. O navio não possuía convés corrido, não podia operar aeronaves de asa fixa e tinha apenas uma capacidade restrita de expansão. O resultado era uma plataforma grande, complexa e cara, mas menos eficiente como navio-aeródromo do que um porta-aviões convencional e menos flexível como cruzador do que navios dedicados.
Mesmo assim, os Moskva tiveram importância operacional. Serviram principalmente na Frota do Mar Negro e realizaram destacamentos no Mediterrâneo, uma área de grande interesse para a União Soviética durante a Guerra Fria. Ali, funcionavam como símbolos de presença naval e instrumentos de acompanhamento das forças da OTAN.

Também serviram como laboratório. A experiência acumulada com operações de helicópteros embarcados, movimentação de aeronaves, hangares, manutenção a bordo, comando de grupo aéreo e integração de sensores influenciou diretamente a evolução posterior da aviação naval soviética. A classe Moskva foi, em muitos aspectos, uma etapa intermediária entre a Marinha Soviética de cruzadores e submarinos e a futura marinha de cruzadores-aeronaves.
A transição ficou clara com o cancelamento da terceira unidade da classe. O navio que deveria se chamar Kiev não seguiu o mesmo desenho. A Marinha Soviética percebeu que precisava de uma plataforma maior, com convés de voo mais extenso e capacidade para operar aeronaves de decolagem vertical, além de helicópteros. Dessa decisão nasceu a classe Kiev, que manteria a designação soviética de cruzador-aeronave, mas daria um passo decisivo rumo à aviação embarcada de asa fixa.
O Moskva e o Leningrad também revelaram uma característica recorrente da construção naval soviética: a busca por soluções assimétricas diante da superioridade aeronaval americana. A URSS não tentou copiar imediatamente os grandes porta-aviões de ataque dos Estados Unidos. Preferiu desenvolver navios híbridos, fortemente armados, capazes de cumprir missões específicas e operar dentro da lógica estratégica soviética, centrada em negação do mar, proteção de submarinos e defesa em profundidade.

Essa escolha produziu navios visualmente impressionantes, mas nem sempre equilibrados. A classe Moskva era poderosa no papel, porém limitada no uso prático. Sua combinação de armamento, sensores e helicópteros era inovadora, mas a integração dessas capacidades em um único casco mostrou-se difícil. O resultado foi uma classe curta, sem continuidade direta, mas historicamente significativa.
O Leningrad foi retirado de serviço em 1991, em meio ao colapso da União Soviética, e acabou desmontado poucos anos depois. O Moskva permaneceu por mais algum tempo, sendo desativado na década de 1990 e posteriormente vendido para desmantelamento. Assim terminou a carreira dos dois primeiros grandes navios-aeródromos da Marinha Soviética.■
| Classe Moskva – Cruzadores Porta-Helicópteros Projeto 1123 Kondor | |
|---|---|
| Categoria | Características principais |
| Designação soviética | Projeto 1123 Kondor |
| Designação ocidental / OTAN | Classe Moskva |
| Tipo | Cruzador porta-helicópteros / cruzador antissubmarino |
| Missão principal | Guerra antissubmarino (ASW), comando de força-tarefa antissubmarino, apoio à frota e operações de vigilância marítima |
| Unidades construídas | 2 navios: Moskva e Leningrad |
| Estaleiro | Nikolayev South Shipyard, União Soviética |
| Entrada em serviço | Moskva: 1967; Leningrad: 1969 |
| Dimensões e deslocamento | |
| Deslocamento padrão | Aproximadamente 11.920 toneladas |
| Deslocamento carregado | Aproximadamente 15.280 toneladas |
| Comprimento total | 189 metros |
| Boca | 34 metros |
| Calado | 7,7 metros |
| Hangar | Aproximadamente 50 m x 22 m x 5,8 m |
| Propulsão e desempenho | |
| Propulsão | 2 turbinas a vapor TV-12 de 45.000 hp cada, acionando 2 eixos com hélices de passo fixo |
| Geradores | 2 turbogeradores TD-1500 de 1.500 kW e 2 geradores diesel de 1.500 kW |
| Velocidade máxima | Cerca de 28,5 nós |
| Alcance | 9.000 milhas náuticas a 15 nós; 6.000 milhas náuticas a 18 nós; 4.000 milhas náuticas a 28,5 nós |
| Autonomia | Aproximadamente 15 dias |
| Tripulação | Cerca de 850 militares |
| Sensores e sistemas eletrônicos | |
| Radar de busca aérea e de superfície | MR-600 Voskhod / MR-310 Angara-A |
| Radar de navegação | Don |
| Sistemas ESM | Gurzuf / Gurzuf-1 e MRP-11-16 Zaliv |
| IFF | Kremniy-2M |
| Direção-rádio | ARP-50 |
| Sonar | MG-342 Orion ou MG-325 Vega; algumas fontes também associam a classe a sonar de profundidade variável Mare Tail |
| Comunicações submarinas | MG-26 Khosta |
| Sistema de informações de combate | MVU-201 Koren-1123 |
| Armamento | |
| Mísseis superfície-ar | 2 lançadores duplos M-11 Shtorm / SA-N-3 Goblet |
| Artilharia | 2 reparos duplos de 57 mm/80 |
| Arma antissubmarino principal | 1 lançador SUW-N-1 para foguetes/mísseis antissubmarino FRAS-1 |
| Foguetes antissubmarino | 2 lançadores RBU-6000 |
| Tubos de torpedo | 10 tubos de 533/553 mm, em 2 reparos quíntuplos |
| Contramedidas | 2 lançadores ZIF-121 / PK-2 para despistadores |
| Grupo aéreo | |
| Aeronaves embarcadas | Normalmente 14 helicópteros Kamov Ka-25 Hormone; algumas fontes citam até 18 helicópteros |
| Configuração típica | Ka-25PL de guerra antissubmarino, Ka-25Ts de designação de alvos/reconhecimento e Ka-25PS de busca e salvamento |
| Instalações de aviação | Convoo à ré, hangar interno, elevadores e instalações de manutenção para helicópteros |
| Avaliação histórica | |
| Pontos fortes | Primeira classe soviética operacional com grupo aéreo embarcado relevante; forte foco em guerra antissubmarino; grande suíte de sensores e armamentos ASW |
| Limitações | Projeto híbrido, sem aeronaves de asa fixa, grupo aéreo limitado e desempenho ruim em mar grosso |
| Legado | Serviu como etapa intermediária entre os cruzadores soviéticos tradicionais e os posteriores cruzadores-aeronaves da classe Kiev |
| Fontes abertas: RussianShips.info, GlobalSecurity, KCHF Black Sea Fleet, MilitaryFactory e Naval Encyclopedia. Dados podem variar ligeiramente conforme a fonte. | |


















Se não me engano era o navio da capa do saudoso Guia das Armas de Guerra
Bem lembrado Sérgio ^Marinha soviética^ ainda tenho este e uma das primeiras revistas importadas que comprei trás uma matéria sobre ele.
.
Antes do ^google^ era difícil obter informações tinha que ser na base de livros mesmo então facilitou até livros que comprei com dificuldade podem ser baixados gratuitamente.
Alias, tenho todos os volumes encadernados ainda: Aviões de Guerra, Guerra nos Céus,Tudo Sobre Aviões de Combate, Guias de Armas de Guerra, etc. Quem viveu viveu… Nunca mais haverá coleções como essas. A gente aguardava ansiosamente sair os fascículos nas bancas, hoje nem banca de jornal existe, viraram vendas de capas de celulares e bebidas
Eu tinha todas as fitas VHS da coleção Tudo sobre Aviões de Combate. Bons tempos… Esperava ansioso cada edição para ir na banca comprar. Acabou essa “mágica”.
Eu tb kkkk, pelo menos fiquei com os dois volumes e o fichário de fichas técnicas
Meus preferidos eram:
Os Raides Antinavios
O Mirage 2000
A Guerra Aérea no Golfo
A Dinastia Dassaut tb
Não, o navio do Volume 1 de Marinha Soviética era o Kirov. Tenho esses livros até hoje.
No volume 2 sim, é a vista lateral do Moskva
Nunca tinha visto este convés com elevadores para os helicópteros, interessante.
Meio cruzador com outra metade de um Porta helicópteros.
A sensação que passa que juntaram a metade de cada classe 👀
Mas um projeto interessante 🤔
Atualmente os navios de guerra vem ganhando esse acúmulo de funções 👍
Acho que o pai dele era um cruzador, e a mãe um porta-helicópteros kk
Eu fico imaginando o engenheiro russo que projetou isso mostrando esse desenho com esse casco para o avô que fez o projeto daquele navio redondo que levou uma coça dos japoneses:
“meu neto, entra czar, sai czar e vocês não aprendem a fazer navio?”
Muito louco esse design com a Ilha bem no meio.
URSS tinha umas saídas bem criativas para design
Não deixa de trazer a memória os encouraçados japoneses Ise e Hyuga que após ^Midway^ foram convertidos em Encouraçados – Navios Aerodromos onde os canhões principais de ré foram removidos e no lugar um hangar com um elevador adicionado, um dos modelos em metal mais impressionantes que adquiri.
E teve uma proposta de fazer algo do tipo nos encouraçados da classe Iowa.
Pensei a mesma coisa
Existem helicópteros feios, mas o Kamov Ka-25 é um monumento aos limites da fealdade.
O camarada que o desenhou (?) deveria estar em um dia péssimo.
Realmente, o Sea King era bem mais elegante que o Hormone:
Eu gostava muito do estilo do Moskva nos anos 80. O conceito de cruzador porta-helicóptero clássico europeu, que foram comissionados nos anos 60. Acompanhou o Vitorio Venetto da Itália e o icônico Jeanne d’Arc da França
A rápida evolução dos SSG pros SSBN e dos guiados Loon/Regulus pros balísticos Polaris/Trident, muito devido a previdência de Burke e ao arrojo de Rickover, encaixou a missão de deterrencia nuclear estratégica pra USNavy, e produziu muito muxoxo na USAF. A USNavy seria reduzida a quase nada após a desmobilização com o fim da II GM se os seus almirantes geniais (é um CIM em ascensão meteórica) não fizessem pé em sua manutenção e evolução… Os SSGs, como o USS Grayback, tinham que emergir pra lançar seus Regulus I e II, cujos alcances eram de 500 e 1.000 milhas nauticas,… Read more »
Penso na simplicidade do ditado “era o que tinha ‘pra aquela hora’…… Talvez isso explique em parte. Eu nunca entendi a razão pela qual a URSS não investiu (insistiu?) em navios aeródromos. Tecnologia? Acho que foi um fator contribuinte, mas não decisivo. Recursos? Soa melhor, sabemos que o cobertor lá era curto. De toda sorte, e de maneiria geral, eu considero, caro Alex Barreto Cypriano, que quando se tem pouco, há uma escolha a fazer e me parece que a URSS escolheu inovar em conceitos. Poderiam ter corrido atrás de NAes, poderiam ter insistido em mais submarinos, preferiram arriscar a… Read more »
Provavelmente recursos e os objetivo soviéticos sempre estiveram próximos. Ainda que os soviéticos quisessem invadir os EUA, o que seria o caso mais absurdo, eles tem fronteira com o Alasca. Manter os países-satélite sob controle também se fazia por terra. Mesmo ameaçar a Europa ocidental, novamente era por terra. Os soviéticos não tinham necessidade de projetar poder pelo mar. Submarinos com mísseis balísticos para garantir o MAD era praticamente o suficiente. Já os EUA tem uma situação mais complicada, com aliados e países-satélite mais afastados com oceanos entre eles. Isso obriga os americanos a terem grandes meios de projeção de… Read more »
Mahan explica. A URSS não tinha a real necessidade e nem a capacidade de se impor em oceanos distantes para justificar os enormes custos com Nae; diferente do EUA a Rússia é um poder terrestre com a saída para o mar engarrafada já o EUA tem duas costas abertas para os maiores oceanos do mundo, um constelação de aliados além-mar e um economia global.
Russos nunca foram grandes expoentes do poder naval…
É mesmo. Lembrei da saga para enviar navios para combater na guerra Russo-Japonesa.
Pra ser justo com os russos, da Revolução Meiji em 1868 até Midway em 1942 os japoneses não perderam nenhum confronto naval.
A Batalha do Mar de Coral eu considero um empate, embora os EUA tenham negado a tomada de Port Moresby dos japoneses.
Por causa de um Tratado em que pelo Estreito de Bósforo não pode passar Porta-Aviões, a antiga URSS denominava seus porta-helicópteros e PAs como Cruzadores Porta Aviões ou Porta Helicópteros.