O desenvolvimento dos porta-aviões antissubmarino da Marinha dos EUA entre 1955 e 1960
Por Alexandre Galante
Há documentos que, mesmo décadas depois de terem sido desclassificados, ainda guardam o sabor da urgência com que foram redigidos. O capítulo “Development of the CVS Concept” — parte de um estudo histórico da Marinha dos EUA sobre a guerra antissubmarino baseada em porta-aviões — é um deles. Ele narra os cinco anos em que os Estados Unidos perceberam, com crescente alarme, que o oceano havia deixado de ser um escudo e se transformado em uma avenida pela qual a União Soviética poderia, pela primeira vez na história, atacar diretamente o território continental americano. A resposta a essa ameaça moldou a Marinha americana por uma geração — e suas lições ressoam até hoje.
O fim de uma ilusão
Até 1954, o conhecimento americano sobre a frota submarina soviética era, nas palavras do próprio documento, “em grande parte conjectural”. Um estudo do escritório de análise de sistemas de armas aéreas (Op-05W) estimava que a Marinha soviética possuía 345 submarinos — mas alertava que o número total era enganoso. Na prática, apenas 47 correspondiam ao tipo Guppy americano e representavam uma ameaça real às linhas de comunicação marítimas do Atlântico Norte. Havia certo otimismo nessa avaliação inicial.
Esse otimismo evaporou em 1956. Um novo estudo, divulgado em 13 de agosto daquele ano, afirmava que os soviéticos estavam construindo submarinos de longo alcance “a uma taxa muito superior às estimativas anteriores”. Em janeiro de 1956, acreditava-se que a URSS possuía 421 submarinos; projetava-se que o número chegaria a 646 até janeiro de 1958, a maioria deles de longo alcance. Duas novas classes alimentavam o pânico: os Whiskey, de 1.350 toneladas, e os Zulu, de 2.500 toneladas — embarcações modernas, equipadas com snorkel, capazes de operar ao redor de toda a periferia dos Estados Unidos.
Mas a preocupação mais sombria não era os números. Era uma frase: “que os soviéticos terão submarinos de propulsão nuclear” nos anos seguintes. O verdadeiro submarino — aquele que jamais precisaria emergir — estava a caminho.


A ameaça que mudava de forma
Os planejadores americanos hierarquizaram a ameaça soviética em ordem decrescente de perigo: primeiro, os mísseis guiados lançados de submarinos; segundo, as minas nucleares ou convencionais lançadas por submarinos; terceiro, o ataque com torpedos contra navios mercantes ou militares. O míssil era, de longe, o mais difícil de combater. Um projétil com as características do Regulus I americano — subsônico, alcance de 250 milhas — disparado a 150 milhas da costa de Nova York poderia atingir todas as grandes cidades do litoral leste.

E os soviéticos estavam construindo exatamente isso. As conversões da classe Zulu V tornaram-se os primeiros submarinos lança-mísseis balísticos soviéticos, carregando dois mísseis SS-N-4 verticais na vela. Os Whiskey Twin Cylinder carregavam dois mísseis de cruzeiro SS-N-3A. E os Golf, construídos especificamente para a missão, carregavam três SS-N-4 cada um. Quando os primeiros Golf foram avistados no mar em 1960 — no mesmo ano em que o primeiro submarino Polaris americano, o USS George Washington (SSBN 598), entrou em operação —, havia uma diferença crucial entre as duas potências: os submarinos soviéticos ainda precisavam emergir para disparar. Os americanos, não.

SOSUS: ouvir o oceano
A sorte da Marinha americana foi que, enquanto a ameaça crescia, ela fazia progressos extraordinários na detecção submarina. A solução mais promissora atendia pelo nome de SOSUS — Sound Surveillance System, um sistema de matrizes passivas montadas no fundo do oceano, capazes de localizar submarinos soviéticos em operação, inclusive os que carregavam mísseis. Até 1956, doze estações SOSUS estavam planejadas ou em construção no Atlântico, e sete no Pacífico.
Os resultados das estações experimentais em Bermuda e Eleuthera, nas Bahamas, eram impressionantes: alcances de até 600 milhas, com média confiável de 300 a 400 milhas. Como observou o capitão D. E. MacIntosh em dezembro de 1954, os grupos Hunter-Killer “não foram criados para vasculhar amplas áreas do oceano na esperança de descobrir um submarino inimigo”. Eles precisavam de inteligência operacional — e o SOSUS prometia justamente isso. Como resumiu o contra-almirante C. E. Weakley, na última guerra cada U-boat alemão emergia e transmitia quase diariamente, fornecendo sua localização; o sistema de vigilância oceânica agora substituía, em certa medida, esse tipo de inteligência que prometia ser muito mais difícil de obter contra os soviéticos.
Mas o SOSUS também era caro. E nisso residia uma tensão que percorre todo o documento: o dinheiro. Weakley advertia que a Marinha não conseguiria custear os sistemas fixos sem uma reorientação da política fiscal do governo — “Se isso tiver que sair do resto da Marinha, onde ficamos? Essa é a questão angustiante.”

A reorganização e o nascimento do “Senhor ASW”
A pressão externa — do Congresso, da imprensa, da opinião pública — para que a Marinha “fizesse algo” sobre a guerra antissubmarino levou a uma série de reorganizações. Em 14 de janeiro de 1958, o almirante Arleigh Burke, então chefe de Operações Navais, criou o Escritório do Chefe de Prontidão para Guerra Antissubmarina (Op-001), reportando-se diretamente a ele. A filosofia por trás da decisão era sutil mas importante: guerra submarina e guerra antissubmarina não eram sinônimos. O contra-almirante Weakley tornou-se o primeiro executivo do novo escritório.
No nível das frotas, o Atlântico saiu na frente. Em 1º de julho de 1957, foi criado o Comando de Defesas Aéreas e Antissubmarinas da Frota do Atlântico (COMASDEFLANT), com o vice-almirante F. T. Watkins. Burke, em carta pessoal ao almirante Wright, definiu o que esperava do novo comandante: ele deveria tornar-se “o Senhor ASW”, com conhecimento amplo de projetos de P&D, navios e aeronaves antissubmarinas, e deveria ser “o aguilhão” que cobraria de Washington equipamento moderno para a frota. “Ele deve saber tudo sobre ASW que está acontecendo ou sendo pensado.”
No Pacífico, a história foi diferente. O almirante Hopwood lutou durante anos para criar uma organização ASW centralizada — chegou a defender a recriação de uma Terceira Frota dedicada —, mas esbarrou na resistência de Burke e na escassez de recursos. O COMASDEFORPAC só foi comissionado em 29 de fevereiro de 1960, e logo viu suas responsabilidades esvaziadas por uma reorganização que, por “problemas com o Congresso”, transferiu os grupos Hunter-Killer para o controle da Primeira Frota. O comando ficou, nas palavras do documento, “fora no frio”.
Task Group ALFA: o laboratório no mar

O coração operacional da nova era foi o Task Group ALFA, estabelecido em 1º de abril de 1958 sob o comando do contra-almirante John S. Thach — o mesmo aviador lendário que inventara a manobra de combate aéreo “Thach Weave” na Segunda Guerra Mundial. Construído em torno do porta-aviões CVS Valley Forge (CVS 45), o ALFA reunia destróieres, submarinos Guppy, aviões S2F de asa fixa, helicópteros HSS-1 e aeronaves de alerta aéreo antecipado AD-5W. Sua missão: acelerar o desenvolvimento de táticas, doutrina e equipamentos ASW.
Os resultados iniciais foram brutalmente honestos. Após seis meses, Thach relatou que “a detecção por todas as unidades é lamentavelmente inadequada, e a classificação de contatos foi ruim e lenta”. O comando da Frota do Atlântico concluiu que era necessário “um desenvolvimento radical no campo da detecção e classificação antissubmarino para enfrentar a ameaça do submarino de alta velocidade e mergulho profundo”.
Mas havia um lado positivo, e ele se tornaria a lição mais duradoura de todo o período: o trabalho em equipe. “Não há a menor sombra de dúvida de que a singularidade de missão e a permanência das forças foram de suprema importância”, escreveu Thach, “e que isso, somado à alta intensidade de treinamento, fez com que as unidades do Grupo aprendessem mais ASW em seis meses do que sabiam anteriormente.” Nenhuma unidade isolada conseguia resolver os problemas de detecção, classificação e acompanhamento — só a equipe integrada de superfície, ar, subsuperfície e SOSUS funcionava.
A guerra de relações públicas

Há um aspecto do documento que soa surpreendentemente moderno: a campanha de relações públicas. O contra-almirante Thach lançou um esforço deliberado de publicidade “para obter apoio orçamentário para a Marinha e para a ASW” e “estimular o interesse da indústria”. Artigos sobre o Task Group ALFA apareceram em todas as principais revistas nacionais; representantes de vinte empresas aeroespaciais e de mais de trinta órgãos governamentais observaram os exercícios.
O vice-chefe de Operações Navais, vice-almirante J. S. Russell, foi explícito em maio de 1959, diante da “perversidade do Congresso, dos jornais etc.”: “Você e eu sabemos a importância da ASW, mas será que o cidadão comum na rua sabe? Esta é uma democracia, e o que conseguimos é resultado direto de nossos esforços pessoais em deixar o público — e, através dele, o Congresso — saber da importância desse jogo.” Era uma confissão notável: a tecnologia, o trabalho em equipe e a publicidade eram, todos, ferramentas para resolver o problema antissubmarino — e a última garantia o financiamento das duas primeiras.
O arsenal: do Essex ao drone

Tecnologicamente, o período foi de metamorfose acelerada. Os porta-aviões Essex passaram por sucessivas conversões (27A, 27C, 125A) à medida que os jatos embarcados e a tecnologia naval avançavam. Por volta de 1960, a Frota do Atlântico operava cinco CVS e a do Pacífico, quatro. Cada porta-aviões ASW podia embarcar cerca de vinte aviões S-2 Tracker e dezesseis helicópteros HSS-1, além de destacamentos de AD-5W e outras aeronaves.

Surgiram sistemas que se tornariam clássicos: os sonobóias JULIE (busca ativa por explosão) e JEZEBEL (a detecção passiva de longo alcance LOFAR), as bombas de profundidade nucleares Mk 101 “Lulu”, os torpedos Mk 43, Mk 44 e Mk 37, o sonar de imersão AQS-10, e o helicóptero antissubmarino para todas as condições meteorológicas HSS-1N. O lendário HSS-2 (SH-3A) Sea King — que serviria por décadas — fez seu primeiro voo em 11 de março de 1959.


E havia a aposta mais ousada e problemática de todas: o DASH (Drone Anti-Submarine Helicopter), um helicóptero não tripulado projetado para entregar torpedos a partir dos destróieres modernizados pelos programas FRAM.
O contra-almirante Weakley defendia que o DASH deveria ser, inicialmente, apenas um veículo de entrega de armas: “Vejo um milhão de usos para ele, se for bem-sucedido, mas vamos primeiro colocar essa capacidade de armamento nas mãos… Por uma vez, vamos mirar direto em uma coisa, conseguir, e conseguir rápido.” A história lhe daria razão em sua cautela: o programa DASH se revelaria menos que bem-sucedido e atrasaria em quase uma década a introdução do helicóptero tripulado nos destróieres americanos.
O problema que o dinheiro não resolvia
Por trás de toda a tecnologia, persistia um problema teimoso: a classificação. Como distinguir um submarino real de uma baleia, de um navio de pesca ou de um falso contato? Weakley ofereceu uma estatística reveladora: nos dois últimos anos da Segunda Guerra Mundial, de cada quatorze ataques realizados, apenas um era contra um submarino real. No exercício SKYNET, de dez ataques nucleares simulados, apenas dois eram contra alvos reais. E cada arma nuclear custava 330 mil dólares. “Não podemos distribuí-las por aí como fazíamos com as cargas de profundidade na última guerra.”
O que tudo isso significou
O período de 1955 a 1960 foi aquele em que a ameaça submarina soviética “tomou forma e dimensão” — incluindo mísseis de cruzeiro e balísticos lançados de submarinos, com os primeiros submarinos nucleares soviéticos já em construção. A Marinha americana respondeu com o SOSUS, com os grupos Hunter-Killer baseados nos CVS, com uma reorganização de comando em Washington e nas frotas, e com uma campanha de publicidade destinada a arrancar verbas de um Congresso relutante.
Os exercícios na costa oeste no fim dos anos 1950 demonstraram que “um contra-ataque tático eficaz contra o míssil lançado de submarino ainda não havia sido desenvolvido”. A guerra antissubmarino aérea baseada em porta-aviões cresceu impulsionada pelo dinheiro e pelo ímpeto da Guerra da Coreia. Os planos de guerra da Marinha permaneciam inalterados — os porta-aviões de ataque golpeariam a ameaça submarina em suas bases, em caso de guerra maior. Mas guerras limitadas pareciam muito mais prováveis, e para elas a Marinha apostara pesado na ASW baseada em porta-aviões.■




Baita artigo.
Parabéns!
Doidera 646 submarinos, números da guerra fria eram absurdos.
Isso influenciou tremendamente a doutrina ASW da marinha brasileira ao ponto do NaeL Minas Gerais ter operado como ASW toda a sua carreira.
Sim, e veja que quando o Minas foi incorporado e posteriormente com a adoção do P-16 com os HSS Seabat, a MB estava bem atualizada com a doutrina ASW da época, o problema é que não acompanhamos a evolução depois.
Não?????
Analisando friamente para que mais o ^Minas^ teria servido? . Os NAes similares argentino e australiano também tinham como papel principal a guerra anti submarina a diferença é que até 8 A-4s operavam a bordo juntamente com os ^Trackers^ e helicópteros. . No caso argentino a preocupação maior era o Chile e no caso australiano seria suicídio empregar o A-4 contra os soviéticos caso a Guerra Fria ^esquentasse^ limitando o uso do NAe para escolta de comboios e empregando o A-4 cujo número poderia ser reduzido para 4 como as vezes ocorria para abater aviões de reconhecimento aumentando um pouco… Read more »
Acredito q em um quadro da Guerra Fria, mesmo buscando neutralidade, teríamos de assegurar nossas LCM, q seriam tremendamente ameacadas por submarinos.
Era a saída na época,
O Minas Gerais era muito pequeno para operar eficazmente jatos. No máximo poderíamos fazer como os Australianos e adquirir os pequenos A-4 mas isto certamente sairia mais caro e a FAB iria chiar e não faria se não viesse uma ordem do presidente.
O artigo é excelente.
Pena que não consegui identificar o autor.
A MB operou o Porta-Aviões Minas Gerais, basicamente para funções ASW com os P-16 da FAB e SH-3 da Aviação Naval. A chegada posterior dos Super Puma, permitiu o emprego em operações anfíbias.
O Porta-Aviões São Paulo que permitiria a introdução de uma aviação de caça, teve vida operativa muito curta. Depois de um acidente que vazou vapor, ficou anos tentando sofrer reparos, mas não deu certo e conhecemos como essa história terminou.
Atualizamos a autoria. Obrigado!
Os soviéticos entenderam rápido que, com os recursos de que dispunham, o investimento em submarinos convencionais e depois nucleares era a estratégia mais efetiva que poderiam ter. Esse artigo mostra como estavam certos.
Ah… pobre USS Pharris… levou um torpedo de um Victor III e perdeu toda a proa à vante do ASROC e foi-se junto com a tripulação naquela área. Nem sei se foi reparada.
Em um livro do Tom Clancy de 1986.
Na vida real, isso nunca aconteceu.
Depois de dar baixa na USN, ainda serviu por alguns anos na Marinha do México.
Franz, Franz… assim eu não pego nenhum incauto 😉
🤣🤣🤣 Malvado….🤪🤪🤪