A ‘Linha do Anzol’: a muralha submarina de sensores que cerca a Marinha Chinesa
Um estudo australiano revelou que Estados Unidos e Japão teceram, no fundo do Pacífico ocidental, uma rede de hidrofones e detectores magnéticos que torna quase impossível a um submarino chinês alcançar o oceano aberto sem ser ouvido. Uma década depois, o cerco apertou — e Pequim começou a procurar formas de rompê-lo
Em algum ponto sob as águas que separam o Japão da Coreia, no estreito de Tsushima, repousa o início de uma linha invisível. Ela desce pela ilha japonesa de Kyushu, passa ao largo de Taiwan, contorna as Filipinas e — segundo a versão mais ousada de sua geografia — curva-se pelo mar de Java, atravessa o estreito de Sunda entre Java e Sumatra e segue até o arquipélago indiano de Andaman e Nicobar, no golfo de Bengala. Não é uma fronteira marcada em mapas oficiais, mas uma fileira de sensores cravada no leito do oceano. Seu apelido, cunhado por um oficial de inteligência militar de Taiwan em 2005, descreve bem o formato: a “Linha de Defesa Submarina Anzol” (Fish Hook Undersea Defence Line).
A existência e o alcance dessa rede foram detalhados em 2015 no livro The Tools of Owatatsumi — referência ao deus-dragão dos mares da mitologia japonesa —, escrito por dois pesquisadores australianos: Desmond Ball, renomado estrategista nuclear e estudioso de inteligência eletrônica da Universidade Nacional Australiana (ANU), e Richard Tanter, especialista em segurança no nordeste asiático. A obra, publicada pela ANU Press, foi a primeira análise estratégica pública de fôlego sobre o segmento submarino dessa arquitetura de vigilância. Boa parte do que se sabe sobre o tema deriva dela.
Um SOSUS para o século XXI, agora apontado para a China
O conceito não é novo. Durante a Guerra Fria, a Marinha dos Estados Unidos cobriu o Atlântico e o Pacífico com o SOSUS, uma malha de hidrofones submarinos que escutava os submarinos soviéticos a centenas de quilômetros. A Linha do Anzol é, em essência, a herdeira asiática daquela ideia — só que voltada para a China e tecnologicamente muito mais sofisticada.
Segundo Ball e Tanter, a rede combina hidrofones fixos no fundo do mar e detectores de anomalias magnéticas (MAD) com dados captados por estações em terra, aviões de patrulha e satélites. O resultado, descrevem os autores, é um sistema de “fios de tropeço” (trip-wires) que torna praticamente impossível a um navio ou submarino chinês romper para o oceano aberto sem ser detectado. Os submarinos baseados na ilha de Hainan, no sul da China, seriam monitorados de perto quer rumassem para o norte, quer para o sul.
As seções setentrionais — do estreito de Tsushima até as Filipinas, passando por Taiwan — seriam instaladas e operadas sobretudo pelo Japão. Já as extensões meridionais, que avançam pelo Sudeste Asiático até as águas próximas da Índia, teriam sido, em sua maior parte, instaladas e operadas pelos próprios Estados Unidos. Aí mora um detalhe politicamente explosivo: Indonésia e Índia, dois bastiões históricos do não alinhamento, dificilmente admitiriam ter autorizado os americanos a grampear seus mares — e, à época, Ball suspeitava que parte desse trabalho pudesse ter sido feita sem o conhecimento ou a permissão de Jacarta e Nova Délhi. O próprio pesquisador não tinha certeza se os trechos do sul eram arranjos acústicos fixos, como os do norte, ou se haviam sido apenas “mapeados e preparados” para o desdobramento rápido de sensores em caso de crise — incluindo arranjos rebocados por navios de superfície e pequenos sensores espalhados pelo fundo do mar a curto prazo, no âmbito de um programa chamado Advanced Deployable System.
Pescar dentro da rede
Uma reportagem original do jornalista australiano Hamish McDonald, no The Saturday Paper, fez uma leitura reveladora dos exercícios militares conjuntos na região. O Balikatan, manobra anual entre Estados Unidos e Filipinas da qual a Austrália passou a participar, era apresentado oficialmente como treinamento para “ajuda humanitária” e resposta a desastres naturais. Mas a presença de uma aeronave de patrulha marítima AP-3C Orion da Força Aérea Australiana — recheada de sensores eletrônicos, infravermelhos e magnéticos, e capaz de lançar boias acústicas — sugeria outra finalidade. Nas palavras do autor, aquilo era “pescar dentro da rede”: exercitar a caça antissubmarino exatamente nas águas que a Linha do Anzol mantém sob escuta.
Não por acaso, esses exercícios se desenrolam perto dos recifes onde a China vinha despejando areia para construir ilhas artificiais — a “Grande Muralha de Areia” que o então comandante da Frota do Pacífico dos EUA, almirante Harry Harris, denunciava em 2015, pontilhada de portos e pistas de pouso para reforçar o controle sobre o mar do Sul da China.
Pequim percebe o cerco
A rede não passou despercebida aos chineses. Seus navios de vigilância já navegavam perto das estações costeiras japonesas onde os dados dos arranjos são processados. Em 2006, o Japão prendeu por espionagem um suboficial da marinha lotado na base antissubmarino da ilha de Tsushima: ele havia feito oito viagens a Xangai e fora cooptado por meio de um relacionamento com uma anfitriã de um bar de caraoquê. Em julho de 2013, jornais chineses denunciaram que Estados Unidos e Japão haviam construído “sistemas de monitoramento submarino muito grandes” ao norte e ao sul de Taiwan, com grande número de hidrofones instalados perto de bases de submarinos chinesas.
A conclusão de Ball e Tanter era contraintuitiva. Apesar de toda a assertividade naval chinesa, eram os chineses que estavam encurralados. “As aproximações submarinas ao Japão são hoje vigiadas pelo sistema de detecção de submarinos mais avançado do mundo”, escreveram os autores, acrescentando que a Linha do Anzol impede que os submarinos chineses passem, sem serem detectados, do mar do Leste da China ou do mar do Sul da China para o Pacífico. A vantagem seria tamanha que, segundo eles, o Japão sairia por cima em qualquer confronto submarino com a China mesmo sem recorrer ao poder americano.
O lado perigoso da vantagem
Essa superioridade, porém, vinha acompanhada de riscos inquietantes — e é aqui que o estudo se torna mais perturbador. Como a vantagem japonesa repousa sobre instalações eletrônicas fixas e isoladas, elas se tornam alvos tentadores. A China poderia tentar bloqueá-las com interferência eletrônica ou, mais drasticamente, atacá-las com operações de comando ou armas guiadas. Isso cria uma perigosa pressão por escalada: o Japão se sentiria impelido a destruir as forças navais chinesas antes de perder a capacidade de rastreá-las, e a China, a neutralizar as estações em terra primeiro. Algumas instalações, como o centro japonês de processamento de dados em White Beach, em Okinawa, poderiam — advertiam os autores — ser consideradas importantes a ponto de justificar até um ataque nuclear preventivo.
Os Estados Unidos não conseguiriam ficar de fora. Além das obrigações do tratado de defesa com o Japão, seus próprios sistemas de vigilância estão co-localizados com os japoneses, e as seções setentrionais do Anzol são tão vitais para Washington quanto para Tóquio. No limite, escreveram Ball e Tanter, a Marinha americana se veria compelida a destruir quaisquer submarinos chineses lançadores de mísseis enquanto soubesse onde estavam — antes que cruzassem uma linha rompida e chegassem ao alcance de tiro do território continental dos EUA.
Havia ainda uma implicação geopolítica delicada: a rede dava a Estados Unidos e Japão mais um motivo para desencorajar qualquer reunificação de Taiwan com a China continental, já que isso romperia irremediavelmente o “fio de tropeço”. A ilha não é apenas um aliado — é uma dobradiça física da arquitetura de vigilância.
Uma década depois: o cerco apertou
Passados dez anos desde a publicação do estudo, a maior parte das tendências que ele apontava se confirmou — algumas de forma espetacular.
A preocupação chinesa de 2015 com o porta-helicópteros Izumo, o maior navio de guerra japonês desde 1945, e com a hipótese de ele vir a operar caças F-35B deixou de ser hipótese. O Izumo e seu gêmeo Kaga foram efetivamente convertidos em porta-aviões leves de caças furtivos F-35B de decolagem curta e pouso vertical — o Kaga já com as obras concluídas e o Izumo em fase final, devendo a transformação completa ocorrer por volta de 2027. O Japão encomendou 42 dessas aeronaves e chegou a criar uma nova classificação de casco, CVM, para os dois navios. Tóquio, que por décadas evitou sequer usar a palavra “porta-aviões” por causa de sua Constituição pacifista, opera hoje aviação embarcada de asa fixa pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.
O trecho meridional e mais polêmico do Anzol também saiu da sombra — e da clandestinidade. Longe de ter sido grampeada às escondidas, a Índia tornou-se parceira aberta: a partir de 2019, lançou um cabo submarino de fibra óptica ligando o continente às ilhas Andaman e Nicobar e passou a instalar sensores no fundo do mar do ponto mais ao sul do arquipélago até Sumatra, num esforço crescentemente coordenado com Japão e Estados Unidos. O não alinhamento histórico de Nova Délhi cedeu, na prática, diante da ascensão do poder naval chinês.
E a China, longe de aceitar o cerco, passou a buscar maneiras de rompê-lo. Em 2025, durante uma parada militar em Pequim, o país exibiu pela primeira vez veículos submarinos não tripulados de tamanho extragrande (XLUUV) — drones submarinos apontados por analistas como a ferramenta lógica para atacar e furar a malha de sensores aliada que confina a Marinha Chinesa dentro da chamada Primeira Cadeia de Ilhas.

Por que isso importa para além do Pacífico
A Linha do Anzol é uma daquelas estruturas que moldam o comportamento estratégico de potências inteiras sem jamais aparecer num comunicado oficial. Foi pensando nela que a Austrália — segundo o estudo — vinha se preparando para integrar o dispositivo, com submarinos avançados, assegurando a “interoperabilidade” com as forças americanas e japonesas. É a mesma lógica de cercos sensoriais que hoje se reproduz, em escala menor, em outros teatros marítimos.
Para um país de tradição não alinhada como o Brasil, atento à soberania de suas próprias águas no Atlântico Sul e à modernização de sua força de submarinos, o caso oferece uma lição clara: no século XXI, o domínio do mar passa, além do número de navios, cada vez mais pelo controle do que se ouve no fundo do oceano. Quem escuta primeiro, decide primeiro.
Desmond Ball, um dos autores que revelaram a rede ao público, morreu em 2016, antes de ver suas análises confirmadas pelos acontecimentos. A linha invisível que ele e Tanter mapearam, contudo, continua lá — mais densa, mais conectada e, agora, disputada palmo a palmo no silêncio das profundezas.
Fontes: reportagem de Hamish McDonald, “Japan and US enclose Chinese coast within sensor net” (The Saturday Paper, abril de 2015), baseada no livro de Desmond Ball e Richard Tanter, “The Tools of Owatatsumi: Japan’s Ocean Surveillance and Coastal Defence Capabilities” (ANU Press, 2015).


“Linha de Defesa Submarina Anzol”
…
Este nome é um eufemismo,
o correto seria “Linha de Cerco Submarino Anzol”…
E como em todo cerco, o cercado procura formas de rompe-lo.
Séria possível lançar centenas de drones submarinos para gerar ruído nestes sensores?
Claro, mas seriam detectados e identificados pelo que são.
Se você não falar a palavra “drone” em algum comentário, o Brasil pode perder o próximo jogo, não vamos mexer em nada por enquanto, por superstição (vai que).
Continue usando a palavra drone em CEM POR CENTO dos seus comentários pelo menos até a copa acabar, porque até agora funcionou.
Pois é né, o Japão já invadiu a China, e depois já levou 2 bombas atômicas dos USA, e agora está atuando em cooperação com seu Carrasco.
Se não se agarrar aos EUA vão ser engolidos para China.
Apesar que vendo os últimos conflitos entre potencia militar x países com capacidade militar menores, eu já começo a duvidar que eles seriam terraplanados.
O Japão tá lutando contra a China, contra quem lutou durante…. séculos. Que visão rasa achar que isso ia acabar por causa de uma guerra que não durou nem 10 anos. E se aliar “ao seu carrasco” permitiu ao Japão se tornar maior do que jamais foi. Da mesma forma que houve grandes ganhos quando o Japão foi obrigado a abrir os portos pelos americanos antes à força.
Esse tipo de comentário é um retrato da educação no Brasil. Rasa e ideológica. Conhecimento não ocupa espaço, cara. Se esforça
As vezes eu me pergunto se aquela defesa não foi uma ação para encorojar os inimigos relevantes. Algo como fingir não saber a posição dos submarinos alemaes após a quebra da enigma.
Precisou o Irã destruir tudo no oriente médio para as pessoas entender que os americanos não protegem ninguém.
Os americanos passou a oferecer pacto de segurança em caso de compra de material de defesa de origem americana.
Coisa que os próprios americanos sabe bem que não pode garantir.
A essa altura do campeonato a China já deve ter identificado todas e criado uma solução para destruir todas.
Se isso aconteceu na China você imagina como deve estar o atlântico sul dominada por britânicos e americanos (tudo monitorado).
O submarino argentino que sumiu fazendo patrulha estava sendo monitorado online segundo a segundo.
China está construindo seu próprio sistema SOSUS, abaixo dá uma ideia de quão potencialmente incrível possa ser:
https://x.com/ChinaScience/status/1710912917749838179
Excelente texto…A pergunta é o que o Brasil possui em termos de vigilância e monitoramento de sua Costa. ? Como o texto refere não e apenas possuir navios e vigilância e saber o que se passa nas profundezas….
Submarino ou superfície? Submarino, nada. Só os submarinos mesmo e embarcações de pesquisa. Superfície também nada, só as embarcações e os aviões. Existe um projeto pra um grande etc, mas projeto é projeto. Tem empresas que oferecem um serviço de monitoramento via satélite (da superfície) por SAR e imagens (bom boa resolução, que avisam se uma embarcação saiu do lugar, “seguem” embarcações etc, mas só pra superfície), mas eu desconheço a contratação pelo governo. É um serviço caro e são empresas de fora, imagino que a gente saberia se acontecesse