Dois tempos da Esquadra Brasileira num só cais: as imagens da inauguração dos píeres de Mocanguê, em 1985
Nas imagens aéreas de 1985, os píeres recém-concretados da futura Base Naval do Rio de Janeiro abrigam, lado a lado, o presente e o passado da Marinha do Brasil — a moderna fragata Niterói ao lado dos veteranos contratorpedeiros norte-americanos da Segunda Guerra Mundial, que cumpriam então seus últimos anos de serviço
A primeira foto tomada do alto, foi feita num daqueles dias de céu claro sobre a Baía de Guanabara. No canto inferior, sobre a esplanada de pedra, uma tropa em uniforme branco está perfilada em formatura — o sinal inequívoco de uma cerimônia. À frente dela, avançando água adentro, estende-se um conjunto de píeres de concreto ainda claros, novos, dispostos em ângulo reto. Rebocadores aguardam encostados às paredes do cais. E, atracados a esses píeres, os navios: uma fileira de embarcações de guerra cinzentas e, mais ao fundo, os navios oceanográficos Almirante Saldanha (H10) e Almirante Câmara (H41), além de dois navios hidrográficos.
As imagens registram a inauguração dos píeres da então estação naval da Ilha de Mocanguê, em Niterói, em 1985 — a instalação que, no ano seguinte, em 12 de maio de 1986, seria oficialmente elevada à condição de Base Naval do Rio de Janeiro (BNRJ). Mais do que um marco de engenharia portuária, as fotografias capturaram um instante raro: a Esquadra brasileira retratada exatamente na fronteira entre duas eras.
Uma base nascida para abrigar a Esquadra
A história da base começa pouco antes. A Ilha de Mocanguê havia sido doada à Marinha pelo Governo Federal em dezembro de 1973. Em janeiro de 1976 autorizou-se o núcleo de implantação da futura instalação, oficialmente criada como Estação Naval do Rio de Janeiro em julho de 1977. Já em agosto daquele ano o Navio-Oficina Belmonte atracava no primeiro píer de Mocanguê, e, dias depois, seis contratorpedeiros eram transferidos do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro para a nova organização.
O objetivo era concentrar e apoiar os meios da Esquadra num cais próprio, dentro da baía de Guanabara, ao lado de Niterói, sem depender exclusivamente do histórico Arsenal de Marinha, na Ilha das Cobras, do lado carioca. A expansão dos píeres registrada na foto de 1985 era um passo decisivo nesse processo de consolidação — a base ganhando, literalmente, o espaço de atracação de que a frota precisava.
A protagonista do futuro: a fragata Niterói (F40)
Em destaque, junto ao cais interno, está a peça mais moderna do conjunto: a fragata Niterói (F40), navio-líder da classe que mudou a imagem da Marinha do Brasil nos anos 1970. Logo atrás dela aparece a fragata Liberal (F43), unidade classificada como de Emprego Geral (E/G), identificável pelo segundo canhão de 4,5 polegadas na popa.
Projetadas pela britânica Vosper Thornycroft segundo o projeto Mark 10, as seis unidades da classe Niterói — quatro construídas no Reino Unido e duas no próprio Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro — representaram a solução qualitativa de um ambicioso plano de reaparelhamento concebido no fim da década de 1960. Eram navios de concepção moderna, com mísseis antissubmarino, antinavio e antiaéreos, representando décadas de evolução tecnológica.
A Niterói e suas irmãs encarnavam, na imagem, o rumo que a Marinha pretendia seguir. À sua volta, porém, repousava o que esse rumo estava prestes a deixar para trás.

Os veteranos: os contratorpedeiros que vieram da guerra
Os demais navios de guerra cinzentos da foto pertenciam a outra geração — a dos contratorpedeiros norte-americanos veteranos da Segunda Guerra Mundial, transferidos para o Brasil entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, todos modernizados sob o programa FRAM e com boa capacidade antissubmarino.
O grande casco de duas chaminés em destaque, marcado D34, é o Mato Grosso, da classe Allen M. Sumner, ex-USS Compton (DD-705). Curiosamente, era o único dos cinco Sumners brasileiros que não havia passado pela modernização FRAM II: conservou a configuração de armamento dos anos 1950 — inclusive as duas torres de canhões a vante — e recebeu, no Brasil, um lançador de mísseis antiaéreos Seacat herdado do antigo Mariz e Barros.
Atracados a contrabordo, mais à direita, estão dois outros veteranos. O D25 é o Marcílio Dias, da classe Gearing (FRAM I), ex-USS Henry W. Tucker (DD-875) — um dos dois melhores contratorpedeiros da frota da época e navio-capitânia do Primeiro Esquadrão. Ao seu lado, o D33 é o Maranhão, da classe Fletcher (designada classe “Pará” no Brasil), ex-USS Shields (DD-596), incorporado à Armada em 1972.
Esses contratorpedeiros eram, como os chamavam os marinheiros que neles serviram, “valentes” — navios com cara e jeito de navio de combate, que formavam marujos em fainas de passagem de combustível e exercícios antissubmarino, alguns deles operando o pequeno helicóptero Westland Wasp a partir de seus conveses de voo.
O retrato de uma transição
É essa convivência que torna as imagens tão expressivas. Num mesmo cais recém-inaugurado, a Marinha do Brasil de 1985 exibia, lado a lado, os navios que representavam seu futuro e os que encarnavam seu passado glorioso, porém em vias de encerramento. Os contratorpedeiros da Segunda Guerra cumpririam ainda alguns anos de serviço antes de sua baixa: o Marcílio Dias, por exemplo, seria desativado em 1994 e afundado como alvo pelo submarino Tamoio — um destino que comoveu muitos dos que haviam servido a bordo.
Para uma Esquadra que, ao longo dos anos 1980, ainda dependia de meios usados adquiridos por oportunidade como paliativo enquanto a indústria naval nacional não dava conta de construir o suficiente, a cena resume bem o dilema histórico da Marinha do Brasil: equilibrar a qualidade dos poucos navios novos com a quantidade dos muitos navios veteranos, mantendo a frota operativa entre uma geração e outra.
Os píeres claros da foto de 1985 não são mais novidade; tornaram-se parte da paisagem. Mas a imagem permanece como um documento precioso: o instante em que a Esquadra brasileira posou, sem saber, para o retrato de sua própria passagem de tempo.■


Não sei se nessa época já haviam os píeres do DHN, onde hoje são concentrados os navios hidrográficos.
Não, não existiam, eles ficavam no pier da ilha fiscal, aonde inclusive se situavam a Diretoria Geral de Navegação e a SupNav ( superintendência de Navios da DHN),
Que depois deu lugar ao GNHO, já em Niterói, com pier próprio
Obrigado, Eric!
Boa tarde! Era uma época em que os militares da base sofriam e comiam o 🍞 que o diabo amassou! Porém tinha o principal, que era a condição financeira. Diferente do que está acontecendo atualmente.
Não verdade a Brioza nunca foi para turista, a vida era dura sim,mas tínhamos um bom soldo, pelo menos o picado do D32 era na marca, tínhamos até máquina de refri, porto a fora só orelhadas, e tínhamos moral, consideração, Hoje é melhor se esconder.
Excelente memória dos áureos tempos da MB. Servi nas duas FCN da foto, FTEROI E FLIBER.
Cheguei na ilha..vindo da eamsc ..para servir a bordo do lendário D-32 CT SANTA CATARINA (TIGRE DO CARIBE).. nesta época nossa marinha passava por momentos difíceis.. com a mudança de governo …mas foi uma epoca memorável …saudações MARUJOS…viva a MARINHA
Naquela época não tinha quase infra estrutura direcionada aos militares tanto da Base como para os militares da Esquadra. Hoje tem Bancos/Farmácia/clínica odontológica/Ambulatorial/Centro de fornecimento de Fardas (PDU)/ lavanderia/lanchonete entre outros disponíveis. Obs: Domingo a corrida da Nascar foi dentro da Base naval de Anduril em San Diego na Califórnia, pensa em uma estrutura “Monstruosa” fornecida a USN o USS Carl Vilson parece que está terminando os trabalhos de reparos e vitalização por lá é Claro a “Marujada” se deu bem, assistiu a corrida 0800 (de graça) no convés do CVN 70 (montaram até uma arquibancada no convés do Carl… Read more »
Eu assisti essa corrida. Não sei se foi só pra marketing ou se foi de verdade, mas eles falaram que os narradores da corrida transmitiriam direto do passadiço do Carl Vinson. A Base é monstruosa mesmo. Tem até aeródromo junto. Partes da pista de corrida foi montada usando taxiways.
Além do Carl Vinson, mostraram bastante durante as transmissões um LCS, eu só nunca sei a classe dele, é aquele com casco diferentão que lembra um trimarã.
O ^LCS^ mostrado é o USS Cincinnati que permaneceu atracado temporariamente ali que é reservado para os NAes.
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Um mnemônico que você pode usar para memorizar é associar a letra ^I^ da palavra trimaran com o ^I^ de ^Independence^ a outra versão é a ^Freedom^.
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Eu sempre lembro das classes por causa das naves de Armaggedom, também Freedom e Independence. E sei que esse é o nome das classes de LCS. Só não sabia qual delas é a trimaran.
Quando estive no Mingão no início da década de 90, não lembro de ter nada nele em termos de estrutura para a tripulação além do básico. Mas anos mais tarde, no final da mesma década, quando visitei a Bosísio, tinha até antena da DirecTV. O São Paulo, que veio depois, tinha lojinha de conveniência e até caixa eletrônico via satélite. Fiquei impressionado com aquilo hehehehehe
Não lembro se era nessa base onde a Apple testou secretamente um carro próprio do projeto Titan. O espaço aéreo era fechado para a aviação civil. Parece que chamavam o local de Estação naval.
Servir no CT Maranhão D33 excelente navio, sendo um veterano (velho) não precisavamos ficar lambendo como o pessoal que servia nas fragatas.
Bom dia, servi no lendário NDCC Garcia D’avila, o G28 em 1988, uma tripulação sensacional, o contra mestre era o saudoso Sargento Ivan, lembro bem o dia em que foi recebido a bordo, foi memorável, apesar das dificuldades daquela época.
Cara, eu fico abismado como o Brasil é parado no tempo e a gente não consegue construir nem coisa de concreto. O fato de ter uma base somente no Rio de Janeiro. Todo o esquadra concentrado no Rio de Janeiro chega a ser ridículo. A gente não consegue abrir bases, a gente não consegue construir estrutura física. Isso chega a ser deprimente.
Meu pai trabalhava para a Odebrecht nessa época. Ele participou da construção desse pier. Ganhou até uma placa de homenagem da Marinha.
Parabéns!
Belo registro !
Só não é belo o fim que deram para o Almirante Saldanha !!
Servi no PAMESQ como oficial Médico bons tempos