Os ouvidos secretos do oceano: a história do SOSUS, a rede que escutou os submarinos soviéticos por quatro décadas

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Sosus

 

Nascida de um truque acústico usado para salvar náufragos, a SOund SUrveillance System transformou o fundo do Atlântico e do Pacífico num imenso aparelho de escuta. Por décadas, ela ouviu cada submarino soviético que cruzava os mares — até que um espião dentro da própria Marinha dos EUA entregou o segredo a Moscou


Por Alexandre Galante

Em algum momento dos primeiros anos da Guerra Fria, os operadores de uma instalação ultrassecreta da Marinha dos Estados Unidos começaram a registrar, em suas fitas, um som grave e insistente que vinha das profundezas do oceano e ninguém conseguia identificar. Apelidaram a fonte misteriosa de “Monstro Jezebel”. A explicação só viria mais tarde, e era, ao mesmo tempo, decepcionante e reveladora: o “monstro” eram as vocalizações de baleias-azuis e baleias-comuns. O episódio dizia muito sobre o sistema que as captara — uma rede de escuta tão sensível que ouvia o canto dos maiores animais do planeta a centenas de quilômetros de distância, mas cuja própria existência era um dos segredos mais bem guardados do Ocidente.

Esse sistema chamava-se SOSUS, sigla de SOund SUrveillance System. E sua história começa, curiosamente, não com a guerra, mas com a vontade de salvar vidas.

O canal sonoro que atravessa os oceanos

Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, cientistas confirmaram a existência de um fenômeno extraordinário: uma camada da água do mar em que o som de baixa frequência se propaga por distâncias enormes, como se percorresse um tubo. É o chamado canal SOFAR (SOund Fixing And Ranging). A Marinha americana logo enxergou nele uma aplicação humanitária. A ideia era simples e engenhosa: o sobrevivente de um avião abatido ou de um navio afundado lançaria ao mar uma pequena carga explosiva calibrada para detonar dentro desse canal sonoro. O estouro percorria centenas de quilômetros e era captado por estações de escuta espalhadas pela costa; comparando os horários de chegada do sinal em cada estação, era possível calcular a posição do náufrago. O projeto deu nome ao próprio canal.

Foi esse princípio — ouvir um som distante em vários pontos e triangular sua origem — que um cientista perceberia poder ser virado do avesso. Em vez de localizar quem queria ser encontrado, por que não localizar quem queria permanecer oculto?

De Jezebel a Caesar

No início de 1950, a Marinha dos EUA já considerava os submarinos soviéticos — herdeiros diretos da tecnologia alemã da Segunda Guerra Mundial — uma ameaça grave à segurança americana. Numa série de reuniões técnicas secretas, Frederick Hunt, que dirigira o Laboratório de Som Submarino da Universidade de Harvard durante o conflito, defendeu uma tese ousada: a Marinha poderia usar o canal SOFAR para detectar submarinos a centenas de quilômetros de distância, simplesmente escutando o ruído que eles próprios produziam.

A ideia foi levada adiante sob enorme sigilo. Ainda em 1950, o Escritório de Pesquisa Naval (ONR) contratou a gigante das telecomunicações AT&T e seu braço industrial, a Western Electric, para desenvolver um sistema de vigilância submarina baseado no canal sonoro. O esforço inicial recebeu o codinome “Projeto Jezebel”. O sistema resultante ganhou o nome — então altamente classificado — de SOSUS, mais tarde batizado, em sua designação não secreta, de Projeto Caesar.

Ouvidos no fundo do mar

O conceito virou engenharia em escala monumental. Arranjos de hidrofones — microfones submarinos — foram assentados no leito do oceano e ligados por cabos a centros de processamento em terra, as Instalações Navais, ou NAVFACs. O primeiro protótipo em tamanho real foi instalado em janeiro de 1952, ao largo da ilha de Eleuthera, nas Bahamas: uma linha horizontal de cerca de 300 metros, com 40 hidrofones, pousada a aproximadamente 440 metros de profundidade. Quando o arranjo detectou um submarino americano usado como alvo de teste, a Marinha decidiu instalar dispositivos semelhantes ao longo de toda a costa leste dos Estados Unidos. Dois anos depois, estendeu a rede à costa oeste e ao Havaí.

Havia, porém, uma limitação física determinante. Os primeiros arranjos precisavam ficar na borda da plataforma continental, voltados para as águas profundas — mas os cabos da época não passavam de cerca de 240 quilômetros. As NAVFACs tinham, portanto, de ser erguidas justamente nos pontos do litoral onde a quebra da plataforma chegava mais perto da terra firme.

Ler o som como quem lê a fala

Captar o ruído era só metade do problema; era preciso interpretá-lo. A solução veio de uma tecnologia inesperada. A AT&T adaptou um aparelho recém-inventado para analisar os sons da fala humana — o espectrograma sonoro — e o transformou nos instrumentos LOFAR (Low Frequency Analysis and Recording), instalados nas NAVFACs. Eles decompunham os sons graves do oceano e mostravam quais frequências estavam presentes. Cada submarino, com suas máquinas e hélices, deixava uma “assinatura acústica” característica, que aparecia desenhada nos chamados LOFAR-gramas. Em instalações como a NAVFAC Centerville Beach, a cerca de 360 quilômetros ao norte de São Francisco, fileiras de operadores vigiavam dia e noite esses traçados de frequência contra o tempo, decifrando o tráfego oculto sob as ondas.

Low Frequency Paper Gram (LOFARgram)

Foi nesse esforço de interpretação que surgiu o “Monstro Jezebel” — e a revelação de que ele era, na verdade, um coro de baleias. O sistema funcionava: ouvia primeiro os ruidosos submarinos diesel soviéticos e, depois, os nucleares.

A rede cresce

À medida que mais submarinos soviéticos passavam a entrar no Atlântico Norte a partir de suas bases nos mares de Barents e Branco, a Marinha americana ampliou a malha de escuta, instalando NAVFACs também na Islândia e no País de Gales. Em meados da década de 1970, o SOSUS já reunia 20 NAVFACs, dois comandos de Sistemas Oceânicos — um no Atlântico, outro no Pacífico — e cerca de 3.500 militares.

Na década de 1980, cabos mais avançados, parentes próximos dos usados nas linhas telefônicas transoceânicas, permitiram afastar os arranjos das estações em terra. Vários sítios costeiros do Atlântico e do Caribe foram concentrados em uma única e mais moderna Instalação Naval de Processamento Oceânico (NOPF) em Dam Neck. À rede fixa somou-se uma componente móvel: navios equipados com o SURTASS (Surveillance Towed Array Sensor System), um arranjo rebocado de mais de 2.400 metros de comprimento. O conjunto — sensores fixos no fundo mais os rebocados pelos navios — passou a se chamar Sistema Integrado de Vigilância Submarina, o IUSS. No auge da Guerra Fria, no fim dos anos 1980, o IUSS contava com 11 NAVFACs/NOPFs, 14 navios SURTASS, os dois comandos oceânicos e cerca de 4.000 pessoas.

O espião que silenciou os oceanos

Submarino nuclear de ataque classe Victor III

Por mais sofisticada que fosse, a maior arma do SOSUS era o segredo — e foi exatamente o segredo que ruiu. A inteligência soviética acabou descobrindo a existência da rede e seu sucesso notável em rastrear submarinos a longas distâncias, graças às informações vendidas pela rede de espionagem Walker-Whitworth. John Walker, suboficial da Marinha americana e especialista em comunicações de submarinos, repassou incontáveis mensagens navais a Moscou de 1968 até sua prisão, em 1985. Jerry Whitworth, outro especialista em comunicações, foi recrutado por Walker para ajudá-lo na traição.

Com a vantagem revelada, a Marinha soviética concentrou esforços em silenciar seus submarinos — e conseguiu. No fim da Guerra Fria, a capacidade do IUSS de detectar e seguir os submarinos nucleares soviéticos a longas distâncias havia caído de forma significativa. Os modernos submarinos diesel-elétricos, ainda mais silenciosos, tornaram a escuta passiva um desafio cada vez maior. A guerra acústica do fundo do mar, antes tão favorável a Washington, havia se nivelado.

Uma segunda vida científica

O fim da Guerra Fria, somado ao avanço tecnológico, encolheu drasticamente o sistema. Em 2010, restavam apenas duas NOPFs, cinco navios SURTASS — todos no Pacífico —, um único comando e cerca de mil militares, uma fração do que fora o gigante das décadas anteriores.

Mas o SOSUS não silenciou: mudou de missão. Ainda durante a Guerra Fria, a Marinha já permitia que um punhado de oceanógrafos usasse o sistema para pesquisa. Uma das primeiras aplicações foi medir a velocidade e a direção das correntes oceânicas profundas por meio de boias que derivavam com a água e emitiam sinais acústicos de baixa frequência, captados pelos hidrofones — as chamadas boias SOFAR.

Com o fim do conflito, os cientistas civis ganharam acesso bem mais amplo. Desde o início dos anos 1990, a antiga rede de espionagem ajuda a estudar erupções vulcânicas e terremotos submarinos, a monitorar mamíferos marinhos e suas vocalizações — os mesmos cantos que um dia foram tomados por um “monstro” — e até a medir variações de temperatura em larga escala nos oceanos, calculando com precisão o tempo que o som leva para viajar entre fontes distantes e os receptores.

É um destino curioso para uma tecnologia concebida para a guerra. O sistema que nasceu de um método para salvar náufragos, virou arma secreta para caçar submarinos e acabou degradado por um espião, encontrou sua terceira vida ouvindo o planeta — vulcões, terremotos, baleias e o aquecimento dos mares. No fim, os ouvidos secretos do oceano continuam à escuta. Mudou apenas o que eles procuram.


Fonte: este artigo é uma adaptação jornalística de material histórico sobre o SOund SUrveillance System, baseado em E. Whitman, “SOSUS: The ‘secret weapon’ of undersea surveillance” (Undersea Warfare, vol. 7, nº 2, 2005), e em dados da IUSS-CAESAR Alumni Association. Medidas originalmente em pés e milhas foram convertidas para o sistema métrico de forma aproximada.

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10 Comentários
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Castelani

Muito bacana matéria.
As vezes, a maioria de nós não fazemos nem ideia do que já aconteceu. Imagine do que acontece em segredo até hoje…

Fábio CDC

Espero que os traidores tenham sido executados. É isso o que todos eles merecem.

JuggerBR

Qual a chance de existir um sistema atualizado, instalado perto do Mar da China, silenciosamente monitorando os chineses? A matéria fala que os russos conseguiram anular os sons, mas quem disse que os americanos não conseguiram evoluir o sistema e seguir ouvindo o fundo do mar…

Leandro Costa

Daqui a uns 30 a 40 anos a gente descobre.

Alexandre Galante

A próxima matéria é justamente sobre essa questão 🙂

Sergio

A KGB sempre foi um espetáculo. À sua altura só o Mossad e os ingleses. Sem menosprezar CIA e NSA . Problema dessas últimas é que o inimigo é sempre o adversário ideológico do presidente de plantão. Mesmo que não seja um inimigo dos Estados Unidos enquanto nação.

Esse Walker, aldrich hazen ames etc…esses caras fizeram um estrago por pura ganância.

Last edited 1 mês atrás by Sergio
Macgarem

Quando aquele subimarino Titan explodiu lembro que o James Camerom dias antes de revelarem o que aconteceu falou que a marinha americana já sabia de tudo do acidente e não falou nada.

Provavelmente por essa rede de sonares.

Moriah

Bloop foi o Sosus ou de fato a NOAA?

Ícaro Luiz Gomes

Um sistema desses em um outro outro ponto específico da nossa costa, não seria ruim.

Verluno

1000 anos depois…países bananeiros ainda se preocupam apenas em adquirir o maior navio, a maior bomba, o maior canhão. Enquanto isso no primeiro mundo a segurança cibernética está tão desenvolvida que se tornou tão incompreensível pelas bananias quanto uma granada seria se achada no mato por algum aborígene.