A ‘Grande Muralha Subaquática’ da China: a corrida secreta para tornar o oceano transparente
Uma investigação recente revelou a escala de um esforço chinês que combina dezenas de navios de pesquisa, centenas de sensores no fundo do mar e inteligência artificial para mapear e “ouvir” os oceanos. O objetivo duplo: corroer a furtividade dos submarinos americanos perto da Ásia e proteger o próprio arsenal nuclear submarino de Pequim
Durante 2024 e 2025, um navio chamado Dong Fang Hong 3, navio de pesquisa da Universidade Oceânica da China, cruzou repetidamente as águas em torno de Taiwan e da ilha de Guam — o principal bastião submarino dos Estados Unidos no Pacífico —, além de trechos estratégicos do Oceano Índico. Em outubro de 2024, segundo a própria universidade, ele inspecionou um conjunto de potentes sensores submarinos chineses, capazes de identificar objetos no fundo do mar perto do Japão; voltou ao mesmo ponto em maio de 2025. Em março daquele ano, varreu as águas entre o Sri Lanka e a Indonésia, cobrindo as aproximações do estreito de Málaca.
O Dong Fang Hong 3 não navegava sozinho. Uma investigação da agência Reuters publicada em março de 2026, baseada no rastreamento de mais de cinco anos de movimentação de 42 navios de pesquisa, revelou pela primeira vez a verdadeira dimensão de uma operação chinesa de mapeamento e monitoramento que se estende pelos oceanos Pacífico, Índico e Ártico. Embora muitas das missões tenham finalidade civil declarada — estudos climáticos, pesca, prospecção mineral —, nove especialistas em guerra naval que analisaram os dados concluíram que elas também servem a um propósito militar. “É francamente impressionante ver a enorme escala da pesquisa científica Marinha chinesa”, resumiu Ryan Martinson, professor especializado em estratégia marítima chinesa no U.S. Naval War College, alertando que, por décadas, a Marinha americana pôde presumir uma vantagem assimétrica no conhecimento do “campo de batalha” oceânico — vantagem agora ameaçada.
Esse esforço tem um nome que ecoa a história e a geografia da China: a “Grande Muralha Subaquática”.

A muralha que escuta
O conceito veio a público em 2016, quando um dos maiores conglomerados estatais de construção naval da China — então a China State Shipbuilding Corporation — exibiu, num estande de exposição, detalhes de um sistema que batizou de “Projeto Grande Muralha Subaquática”. A revista britânica Jane’s Defence Weekly foi a primeira a noticiá-lo, e a comparação saltou aos olhos: tratava-se, na prática, de uma versão chinesa do SOSUS, a rede de hidrofones que os Estados Unidos espalharam pelo fundo do Atlântico e do Pacífico durante a Guerra Fria para detectar os submarinos soviéticos.

A diferença de perspectiva é o que torna esses sistemas tão poderosos. Enquanto o sonar de casco de um navio, o sonar rebocado ou as sonoboias lançadas por aeronaves “escutam” o submarino de cima para baixo, os arranjos fixos no leito do mar fazem o contrário: “escutam” de baixo para cima, a partir do fundo, onde o alvo é mais difícil de esconder. Os alicerces dessa tecnologia foram lançados há mais de uma década — já em 2011, o Ministério da Ciência e Tecnologia chinês investiu dezenas de milhões de yuans num sistema de detecção por fibra óptica instalado a cerca de 100 quilômetros da costa da ilha de Hainan, onde fica uma das principais bases de submarinos da China.
De acordo com o relato que originou a discussão pública mais recente, em 2017 o governo chinês teria aprovado um plano quinquenal para implantar redes de sensores nos mares da China Meridional e Oriental, as águas que cercam Taiwan, de modo a monitorá-las em tempo real. Anos depois, a China também teria instalado dispositivos de escuta no fundo do mar nas imediações de Guam.
O “oceano transparente”
Por trás da muralha há uma ambição científica maior. Por volta de 2014, o cientista Wu Lixin, da Universidade Oceânica da China, propôs criar o que chamou de “oceano transparente” (透明海洋): uma rede de sensores, boias e arranjos submersos capaz de monitorar, em tempo quase real, as condições do oceano numa vasta área. O projeto recebeu rapidamente o equivalente a dezenas de milhões de dólares do governo da província de Shandong.

A chave está no que esses sensores medem. A detecção de submarinos depende do som — e a forma como o som viaja debaixo d’água é ditada por temperatura, salinidade e correntes. Quem conhece com precisão essas variáveis numa determinada região consegue prever o desempenho do próprio sonar e o do adversário, identificar as “sombras acústicas” onde um submarino pode se esconder e, no limite, transformar a incerteza do oceano em informação operacional. Analistas descrevem o topo dessa arquitetura como um cérebro de inteligência artificial — apelidado em alguns relatos de “Deep Blue Brain” — que funde enormes volumes de dados ambientais e de sensores numa única consciência situacional, integrada ao que se tem chamado de “Rede do Oceano Azul” (Blue Ocean Network).
Mapear para caçar — e para se esconder
O propósito dessa empreitada é duplo, e é isso que a torna estratégica. De um lado, ela busca corroer a maior vantagem dos submarinos americanos perto da Ásia: a furtividade. Os dados de rastreamento analisados pela Reuters mostram um esforço de levantamento do fundo do mar concentrado em águas militarmente sensíveis — em torno das Filipinas, perto de Guam e do Havaí, junto a instalações americanas no atol de Wake, no Pacífico Norte. Para Peter Scott, ex-comandante da força de submarinos da Austrália, esses dados seriam de valor incalculável na “preparação do campo de batalha” para os submarinos chineses; qualquer submarinista que se preze, observou, dedica enorme esforço a entender o ambiente em que opera.
De outro lado, a muralha tem uma lógica defensiva: proteger o próprio dissuasor nuclear submarino chinês. Os submarinos lançadores de mísseis balísticos da classe Jin (Tipo 094), armados com mísseis JL-3 capazes de atingir partes dos Estados Unidos a partir de “águas-bastião” próximas à costa chinesa, só têm valor estratégico se sobreviverem a um primeiro ataque. Um oceano “transparente” perto de casa ajuda a China a expulsar os submarinos americanos que tentam rastrear seus SSBN — e, ao mesmo tempo, o mapeamento de longo alcance, que se estende até o Índico e o Ártico, prepara o terreno para que os submarinos chineses operem com mais confiança além da Primeira Cadeia de Ilhas. Tudo isso se enquadra na chamada “fusão militar-civil” (military-civil fusion), pela qual dados coletados sob bandeira científica alimentam o planejamento de defesa.
O alerta de Washington
O tema deixou de ser especulação de analistas para ocupar o Congresso americano. Em depoimentos à Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, no início de 2026, o vice-almirante Richard Seif descreveu o esforço chinês como uma arquitetura de vigilância submarina em camadas, voltada a contestar a liberdade de manobra dos submarinos dos EUA por meio de “sensoriamento do leito marinho e vigilância em rede” nos principais corredores marítimos — capaz, inclusive, de interferir em infraestrutura submarina, como cabos. O contra-almirante Mike Brookes, por sua vez, afirmou que a China encara a guerra submarina como peça central de uma “confrontação de sistemas”, integrando sensores aéreos, de superfície, de fundo de mar e submarinos numa única rede para controlar áreas marítimas-chave e forçar o recuo dos submarinos adversários.
Os números ajudam a entender a urgência do alerta. A China já opera mais de 60 submarinos — cerca de 32 deles de propulsão nuclear, segundo levantamento do United States Studies Centre, ante 71 dos Estados Unidos, todos nucleares. Mas o ritmo mudou de lado: entre 2021 e 2025, a Marinha do Exército de Libertação Popular superou pela primeira vez a americana tanto em número de submarinos nucleares lançados (dez contra sete) quanto em tonelagem incorporada. Estimativas citadas pela imprensa de defesa projetam a frota chinesa rumo a cerca de 70 submarinos até 2027 e 80 até 2035, com ênfase crescente em plataformas nucleares, incluindo os novos submarinos de mísseis de cruzeiro Tipo 095 (Shang III), dotados de lançadores verticais.
A resposta: a furtividade não basta mais
A constatação central, já antecipada por especialistas, é que os submarinos americanos não podem mais confiar apenas em sua furtividade para escapar da detecção no Mar da China Meridional e em áreas próximas ao continente chinês. Bryan Clark, ex-oficial da Marinha dos EUA e pesquisador sênior do Hudson Institute, defende que os Estados Unidos desenvolvam uma nova estratégia para confundir ou suprimir os sensores chineses — empregando veículos submersíveis não tripulados capazes de bloquear os sistemas de vigilância, atuar como iscas ou destruir os próprios sensores.
Essa lógica já se traduz em política. A resposta ocidental mais visível é o pacto AUKUS, anunciado em setembro de 2021, pelo qual Estados Unidos e Reino Unido ajudam a Austrália a obter seus primeiros submarinos de propulsão nuclear. O programa passou por turbulências: o governo Trump concluiu, no fim de 2025, uma revisão que reafirmou o apoio à iniciativa, e em 30 de maio de 2026, em Singapura, os três países ajustaram o plano — a Austrália passará a receber três submarinos Virginia já em serviço (padrão Bloco IV), em vez da mistura de navios novos e usados prevista antes, em entregas escalonadas a partir de 2032. Também em 2026 foi anunciado o primeiro projeto-bandeira do “Pilar II” do AUKUS, justamente voltado a veículos submarinos não tripulados e cargas para vigilância do leito marinho — capacidade que deve começar a ser entregue em 2027, antes mesmo do primeiro submarino nuclear. A guerra dos sensores, portanto, já tem resposta na guerra dos drones submarinos.
Por que o Brasil deve observar
À primeira vista, a disputa parece distante do Atlântico Sul. Não é. A “Grande Muralha Subaquática” sinaliza uma mudança de paradigma que interessa diretamente a um país com 5,7 milhões de quilômetros quadrados de águas jurisdicionais — a chamada Amazônia Azul. O domínio do mar passa, cada vez menos, pelo simples número de navios na superfície, e cada vez mais pelo controle do que se mede e se escuta no fundo do oceano: batimetria, perfis acústicos, vigilância persistente. Não por acaso a Marinha do Brasil desenvolve seu próprio Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) e leva adiante, no âmbito do PROSUB, a construção de seu primeiro submarino de propulsão nuclear — meios que só fazem sentido pleno se acompanhados de conhecimento detalhado do ambiente submarino brasileiro.
A história se repete com novos atores. Onde, na Guerra Fria, os Estados Unidos espalharam o SOSUS para ouvir os soviéticos, hoje é a China quem tece a rede — e são os submarinos ocidentais que precisam reaprender a passar despercebidos. A diferença é que, desta vez, a muralha não é só de hidrofones: é de sensores, satélites, navios de pesquisa, inteligência artificial e drones. O oceano, que sempre foi o melhor esconderijo do mundo, está ficando transparente. E quem enxergar primeiro através dele terá uma vantagem decisiva nos combates das profundezas.■




