Fogo contra um aliado: o dia em que a Marinha Real britânica destruiu a frota francesa em Mers-el-Kébir

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Mers el Kebir shelling of French Squadron

Bombardeio do esquadrão francês em Mers el Kebir

 

Em 3 de julho de 1940, poucas semanas após a queda da França, Winston Churchill ordenou que a Royal Navy abrisse fogo contra a esquadra francesa ancorada na Argélia, para impedir que caísse nas mãos de Hitler. Em menos de quinze minutos de bombardeio, morreram quase 1.300 marinheiros que, dias antes, eram aliados — num dos episódios mais controversos da Segunda Guerra Mundial


No fim da tarde de 3 de julho de 1940, ao largo do porto militar de Mers-el-Kébir, perto de Orã, na Argélia francesa, dois navios que pouco antes lutavam do mesmo lado se encararam. De um lado, a Força H da Marinha Real Britânica, com o cruzador de batalha HMS Hood à frente. Do outro, a flor da Marinha francesa, ancorada em seu próprio porto. Pouco antes das 18 horas, os canhões de 381 mm britânicos abriram fogo. Era a primeira vez em cerca de 125 anos que as marinhas da Grã-Bretanha e da França trocavam tiros — e o alvo, desta vez, era um ex-aliado.

O episódio, parte da Operação Catapult, mataria 1.297 militares franceses (alguns relatos falam em cerca de 1.250) ao custo de apenas dois tripulantes e cinco aviões britânicos. Foi, nas palavras de um veterano comandante da própria Royal Navy, uma das tarefas mais detestáveis que a Marinha britânica já teve de cumprir.

A queda da França e o medo de uma frota

Para entender o ataque é preciso entender o pânico. Em junho de 1940, a França — aliada da Grã-Bretanha — ruíra diante da blitzkrieg alemã em poucas semanas. Em 22 de junho, o novo governo do marechal Pétain assinou um armistício com a Alemanha, que entraria em vigor no dia 25. Da noite para o dia, Londres se viu praticamente sozinha contra Hitler.

E havia um problema de proporções estratégicas: a Marinha francesa. Era, então, a quarta maior força naval do mundo, e seus navios de grande porte representavam a segunda maior concentração de encouraçados da Europa, atrás apenas da própria Royal Navy. Para uma ilha que dependia inteiramente do mar — para importar comida, receber armas dos Estados Unidos, manter contato com o Império e impedir uma invasão alemã —, a hipótese de aquela frota cair nas mãos do Eixo era intolerável. Somadas, as marinhas alemã, italiana e francesa poderiam virar o equilíbrio de forças no Atlântico e no Mediterrâneo.

O armistício previa, em seu Artigo 8, que a Alemanha declarava “solene e firmemente” não pretender usar a frota francesa. Para o Gabinete de Guerra britânico, porém, a promessa de Hitler não valia o papel em que fora escrita. Churchill — que fora Primeiro Lorde do Almirantado e conhecia bem o valor do domínio do mar — decidiu não correr o risco.

A frota francesa em Mers-el-Kebir

Operação Catapult: capturar, neutralizar ou destruir

A resposta britânica foi a Operação Catapult, um conjunto de ações simultâneas para tirar a frota francesa do tabuleiro. Na noite de 3 de julho, navios franceses ancorados em portos britânicos, como Plymouth e Portsmouth, foram abordados e apreendidos — na maior parte sem resistência, embora a tomada do submarino Surcouf, então o maior do mundo, tenha custado a vida de três militares britânicos e um francês. Em Alexandria, no Egito, o esquadrão do almirante René-Émile Godfroy seria neutralizado de forma pacífica, por acordo local negociado pelo almirante britânico Andrew Cunningham. Mais tarde, em julho, viria o ataque a Dakar.

O cerne da operação, porém, estava em Mers-el-Kébir, onde se concentrava a parte mais poderosa da frota: os encouraçados mais antigos Bretagne e Provence, os modernos e velozes cruzadores de batalha Dunkerque e Strasbourg, o porta-hidroaviões Commandant Teste e seis grandes contratorpedeiros. No porto vizinho de Orã havia ainda destróieres e submarinos.

Um ultimato impossível

Cruzador de Batalha HMS Hood

A missão coube à Força H, sob o comando do vice-almirante Sir James Somerville, que reuniu, além do Hood, os encouraçados HMS Valiant e HMS Resolution, o porta-aviões HMS Ark Royal, dois cruzadores e onze contratorpedeiros. Para negociar, os britânicos escolheram o capitão Cedric “Hooky” Holland, ex-adido naval em Paris e fluente em francês, enviado ao porto a bordo do destróier HMS Foxhound.

O ultimato apresentado ao comandante francês, almirante Marcel-Bruno Gensoul, oferecia quatro alternativas: juntar-se aos britânicos e seguir lutando contra alemães e italianos; navegar até um porto britânico, de onde as tripulações seriam repatriadas; rumar para um porto francês das Antilhas (ou para os Estados Unidos), onde os navios seriam desmilitarizados; ou afundar a própria frota. Caso recusasse todas, os navios seriam destruídos.

Gensoul, ferido em seu orgulho, recusou-se a receber Holland pessoalmente, alegando diferença de patente — exigia tratar com o próprio Somerville. Pelas horas seguintes, as negociações se arrastaram à distância, enquanto a Força H patrulhava o horizonte e a frota francesa preparava-se para o combate. O almirante francês informou a Paris apenas parte das opções britânicas e respondeu que seus navios se defenderiam pela força; reiterava que jamais os entregaria a alemães ou italianos. Para pressioná-lo, aviões Swordfish do Ark Royal minaram a entrada do porto — gesto que Gensoul considerou má-fé. Ao fim da tarde, um telegrama do Almirantado britânico cobrou solução imediata: reforços franceses estariam a caminho.

Quinze minutos de fogo

Às 17h54, Somerville mandou abrir fogo. Os encouraçados britânicos despejaram salvas de 381 mm sobre um ancoradouro onde os navios franceses estavam amarrados pela popa, voltados para terra, com uma única saída estreita — presos, como a frota persa em Salamina, pela própria geografia.

O resultado foi devastador. À terceira salva, o velho encouraçado Bretagne foi atingido, explodiu e adernou: só naquele navio morreram cerca de mil homens. O Provence e o cruzador de batalha Dunkerque foram seriamente avariados e encalhados; o contratorpedeiro Mogador teve a popa arrancada.

Projéteis franceses caem entre o HMS Hood e o HMS Valiant durante o ataque a Mers-el-Kébir

Em meio à fumaça e ao caos, porém, ocorreu o feito mais notável da jornada: o cruzador de batalha Strasbourg, sob o comando do capitão Louis Collinet, soltou as amarras e escapou pela passagem estreita, levando consigo vários contratorpedeiros, furando o bloqueio e os ataques aéreos britânicos até chegar a Toulon, na França, no dia seguinte, praticamente intacto.

Em poucos minutos, quase 1.300 marinheiros franceses estavam mortos. As perdas britânicas se resumiram a dois tripulantes e algumas aeronaves.

 

A fúria de Vichy e o cálculo de Churchill

A reação francesa foi de ultraje. O governo de Vichy lançou intensa campanha de propaganda contra a Grã-Bretanha, demonizando Churchill como autor de um massacre de aliados. O almirante Darlan chegou a ordenar que a frota francesa atacasse a Royal Navy onde a encontrasse — ordem revogada no dia seguinte por Pétain e pelo ministro Baudouin. A retaliação acabou limitada a bombardeios aéreos contra Gibraltar. O episódio também envenenou as relações entre Churchill e Charles de Gaulle, líder da França Livre, e contribuiu para que forças coloniais francesas resistissem aos gaullistas na malograda Batalha de Dakar, em setembro de 1940.

Houve, contudo, um destinatário que Churchill tinha em mente o tempo todo: os Estados Unidos. Ao destruir a frota de um antigo amigo para não a deixar cair nas mãos do inimigo, a Grã-Bretanha enviou ao mundo — e sobretudo ao presidente Franklin Roosevelt — a mensagem de que lutaria até o fim, custasse o que custasse. Analistas americanos passaram a apostar na capacidade britânica de resistir, o que ajudaria a destravar o apoio material que culminaria no Lend-Lease. Para o próprio Somerville, encarregado de puxar o gatilho, foi outra coisa: ele descreveu a ordem como o maior erro político dos tempos modernos e confessou que toda a tripulação se sentia profundamente envergonhada.

A ironia de Toulon

A pergunta que assombra Mers-el-Kébir até hoje é se o massacre era realmente necessário — e a história ofereceu uma resposta amarga. Em novembro de 1942, quando as tropas alemãs avançaram para tomar a frota francesa concentrada em Toulon, os próprios franceses afundaram seus navios para impedir que caíssem nas mãos do Eixo. Entre os cascos enviados ao fundo estavam o Strasbourg, que escapara em 1940, e o Dunkerque, já reparado. Em outras palavras, dois anos depois, a Marinha francesa fez exatamente o que os britânicos haviam exigido — e teriam obtido, talvez, sem disparar um tiro.

Mais de oito décadas depois, Mers-el-Kébir permanece como um dos episódios mais desconfortáveis da história naval: o momento em que o imperativo brutal do domínio do mar se sobrepôs à lealdade entre aliados, e em que um almirante, contra a própria consciência, abriu fogo sobre os navios aliados. Como reconheceu a própria Marinha Real, foi uma das coisas mais detestáveis que ela já teve de fazer — e, ainda assim, talvez uma das mais reveladoras sobre o que significa lutar para sobreviver.


FONTES: verbete “Attack on Mers-el-Kébir” (Wikipedia); “Force H to Mers-el-Kébir”, U.S. Naval Institute, Naval History Magazine (ago. 2022); “Operation Catapult: Naval Destruction at Mers-el-Kebir” (HistoryNet) e “Operation Catapult: The Attack on Mers-el-Kébir” (Warfare History Network); Royal Marines History Society; British Modern Military History Society; e War History Online. O número de mortos franceses (1.297, com algumas fontes citando cerca de 1.250) e a fração ocorrida no encouraçado Bretagne (cerca de mil) variam ligeiramente conforme a fonte. As avaliações sobre a necessidade e a moralidade do ataque continuam em debate entre historiadores, e este artigo procura registrar os dois lados.



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5 Comentários
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Emmanuel

Guerra é guerra.
E numa não existe amizade. Existem interesses e a defesa e subsistência da sua nação.
O resto é história.

Rodrigo Maçolla

Até pouco anos atrás eu pessoalmente desconhecia esse episódio, que de fato não é muito lembrando de propósito acredito, penso que ainda há detalhes importantes que não foram revelados, porque o almirante Francês Marcel-Bruno Gensoul, não aceitou uma das opções do ultimato?, afinal eram razoáveis, porque informou somente parte delas ao comando?, porque os britânicos não aguardaram mais algum tempo após o termino do ultimato?… Enfim Guerra é Guerra como já disseram mas penso que é um episodio que poderia ter sido evitado sim, Mas a que se entender também que os ingleses aquela altura sozinhos não podiam se dar… Read more »

Iran

Imagino que o almirante francês não aceitou por uma questão de orgulho/soberania, e os britânicos não aguardaram mais tempo porque receberam a informação que reforços da Marinha Francesa estavam a caminho.

Marcos Rego

Não conhecia esse episódio.

Talvez a rivalidade “ainda recente” de Franceses e Ingleses tenha influído na decisão de não rendição.
Com certeza o Desastre de Galipoli não permitiu a Churchill ( no seu entendimento) a possibilidade de errar duas vezes.

Hoje daria um grande filme.

Amaury

Excelente artigo