HMS Eagle: o gigante da Royal Navy que levou a aviação naval britânica da Segunda Guerra à era do jato

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Porta-aviões HMS Eagle (R05)

 

Porta-aviões da classe Audacious serviu entre o início dos anos 1950 e 1972 e, ao lado do HMS Ark Royal, permaneceu entre os maiores navios-aeródromo já construídos para a Marinha Real até a chegada da classe Queen Elizabeth

O HMS Eagle (R05) foi um dos grandes símbolos da transição da Royal Navy da era dos porta-aviões blindados da Segunda Guerra Mundial para a aviação naval a jato da Guerra Fria. Pertencente à classe Audacious, o navio entrou em serviço no início da década de 1950 e permaneceu ativo até 1972, período em que representou uma das principais capacidades de projeção de poder marítimo do Reino Unido.

Até a chegada dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth no século XXI, o HMS Eagle e seu navio-irmão, o HMS Ark Royal, foram os dois maiores porta-aviões já construídos para a Marinha Real britânica. Ambos simbolizavam uma ambição estratégica herdada da Segunda Guerra: manter o Reino Unido como potência naval global, capaz de operar grupos aeronavais em qualquer teatro de interesse.

Um projeto nascido na Segunda Guerra Mundial

O HMS Eagle nasceu como parte de um programa britânico concebido durante a Segunda Guerra Mundial. Originalmente, o navio foi iniciado como HMS Audacious, em 24 de outubro de 1942, no estaleiro Harland & Wolff, em Belfast, na Irlanda do Norte.

A classe Audacious foi pensada como uma evolução dos porta-aviões blindados britânicos, incorporando lições da guerra no Atlântico, no Mediterrâneo e no Pacífico. O objetivo era construir navios maiores, mais robustos e capazes de operar aeronaves mais pesadas do que os modelos anteriores.

Com o fim da guerra, no entanto, a Royal Navy enfrentou cortes profundos. Dos quatro navios planejados originalmente para a classe, apenas dois seriam concluídos: o futuro HMS Eagle e o HMS Ark Royal. A construção avançou lentamente no ambiente de austeridade do pós-guerra, e o navio só seria lançado ao mar em 19 de março de 1946, pela então princesa Elizabeth, futura rainha Elizabeth II.

A embarcação recebeu o nome Eagle após a reorganização do programa, tornando-se o décimo quinto navio da Royal Navy a ostentar esse nome histórico.

Um porta-aviões da era de transição

O HMS Eagle, construído pela Harland & Wolff, em Belfast, e concluído em 1951. Aqui, ele é visto no final da década de 1950, em alta velocidade com seus helicópteros Whirlwind no ar, prontos para resgate durante operações aéreas. O Eagle serviu até 1972, quando foi colocado na reserva, antes de ser vendido para sucata em 1978

Quando ficou pronto, o HMS Eagle ainda refletia parcialmente a lógica dos porta-aviões da Segunda Guerra. Mas o mundo naval já havia mudado. A aviação embarcada caminhava rapidamente para a era do jato, exigindo conveses maiores, catapultas mais potentes, melhores sistemas de frenagem e procedimentos de pouso mais seguros.

O Eagle foi, por isso, constantemente modernizado ao longo de sua carreira. Entre suas principais adaptações estiveram a instalação de convés de voo em ângulo, catapultas a vapor, sistema de pouso por espelho e equipamentos de parada capazes de lidar com aeronaves mais rápidas e pesadas.

Essas inovações foram decisivas para a aviação naval moderna. O convés em ângulo permitia que uma aeronave que não prendesse o cabo de parada pudesse arremeter sem colidir com aeronaves estacionadas à frente. O sistema óptico de pouso melhorava a precisão da aproximação. As catapultas a vapor, por sua vez, permitiam lançar aeronaves a jato com maior carga de combustível e armamento.

O HMS Eagle tornou-se, assim, uma plataforma de adaptação. Ele não foi apenas um porta-aviões grande; foi um navio que acompanhou, durante duas décadas, a revolução técnica da aviação naval.

De Suez à Guerra Fria

O HMS Eagle passou por uma grande modernização entre 1959 e 1964 em Devonport. Esta foto foi tirada após essa modernização e mostra o navio atracado no cais ferroviário sul de Portsmouth

Um dos momentos mais marcantes da carreira do HMS Eagle ocorreu durante a Crise de Suez, em 1956. Na Operação Musketeer, o Reino Unido e a França intervieram militarmente no Egito após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser.

O Eagle operou como uma das principais plataformas de aviação embarcada britânica, lançando aeronaves como Hawker Sea Hawk, de Havilland Sea Venom, Westland Wyvern e Douglas Skyraider. A campanha demonstrou a importância dos porta-aviões em operações expedicionárias, especialmente quando bases terrestres próximas não estavam disponíveis ou politicamente garantidas.

Mas Suez também marcou o início de uma constatação amarga para Londres: o Reino Unido ainda possuía meios militares globais, mas sua margem política e econômica para agir como potência imperial independente estava diminuindo. A crise de 1956 acelerou a percepção de declínio relativo britânico e reforçou a dependência estratégica em relação aos Estados Unidos.

Nesse contexto, o HMS Eagle passou a representar não apenas poder naval, mas também a tentativa britânica de preservar relevância global na Guerra Fria.

Caldeiras do HMS Eagle a todo vapor

O grupo aéreo: Buccaneer, Sea Vixen, Gannet e helicópteros

Nas décadas de 1960 e início dos anos 1970, o HMS Eagle operou alguns dos tipos mais importantes da aviação naval britânica do período.

Entre eles estavam os Blackburn Buccaneer, aeronaves de ataque de baixa altitude concebidas para penetrar defesas inimigas e atacar navios ou alvos terrestres; os de Havilland Sea Vixen, caças bimotores de defesa aérea da frota; os Fairey Gannet AEW, usados em missões de alerta aéreo antecipado; e helicópteros como o Westland Wessex e, posteriormente, o Sea King, empregados em guerra antissubmarino, busca e salvamento e apoio geral.

Esse grupo aéreo dava ao Eagle uma capacidade equilibrada para sua época: ataque, defesa aérea, alerta antecipado e guerra antissubmarino. O navio podia atuar como núcleo de uma força-tarefa, protegendo comboios, projetando poder contra terra ou acompanhando movimentos soviéticos em áreas de interesse da OTAN.

A presença de aeronaves de alerta aéreo antecipado era especialmente relevante, pois ampliava a consciência situacional da força naval. Em uma época marcada pelo crescimento da aviação de longo alcance, mísseis antinavio e submarinos soviéticos, enxergar antes era uma questão de sobrevivência.

Um Fairey Gannet AEW do Esquadrão Aéreo Naval 849 da Fleet Air Arm sobrevoando o HMS Eagle no início da década de 1970

O maior porta-aviões britânico antes da nova geração

O HMS Eagle deslocava dezenas de milhares de toneladas e levava uma tripulação que podia chegar a mais de dois mil homens. Seu tamanho era impressionante para os padrões britânicos do pós-guerra. Ao lado do HMS Ark Royal, representava o auge da era dos grandes porta-aviões convencionais da Royal Navy.

Esses navios eram caros, complexos e exigiam enorme infraestrutura de apoio. Mas também ofereciam ao Reino Unido uma capacidade que poucos países possuíam: lançar e recuperar aeronaves convencionais de alto desempenho no mar, longe de bases terrestres.

Durante boa parte da Guerra Fria, o Eagle foi uma das ferramentas mais visíveis da presença naval britânica. Participou de exercícios da OTAN, cruzeiros operacionais, demonstrações de bandeira e missões de prontidão em regiões estratégicas.

A sua silhueta, com grande ilha, convés em ângulo e aeronaves a jato alinhadas no convés, tornou-se uma imagem clássica da Royal Navy dos anos 1960.

Modernizações, custo e decisões políticas

A carreira do HMS Eagle foi profundamente influenciada pelas decisões políticas britânicas sobre o futuro da aviação embarcada. Durante os anos 1960, o Reino Unido enfrentava pressões orçamentárias crescentes e revisões estratégicas que questionavam o custo de manter grandes porta-aviões.

O governo britânico decidiu reduzir gradualmente a frota de porta-aviões convencionais, apostando em uma combinação de bases terrestres, submarinos nucleares, navios menores e, mais tarde, aeronaves de decolagem curta e pouso vertical.

Essa política atingiu diretamente o Eagle. Embora o navio ainda tivesse valor militar, sua modernização para operar plenamente aeronaves mais avançadas exigiria investimentos elevados. O HMS Ark Royal acabou sendo mantido por mais tempo, enquanto o Eagle foi retirado de serviço em janeiro de 1972.

A decisão foi controversa. Para muitos defensores da aviação naval, o descomissionamento do Eagle reduziu de forma prematura a capacidade britânica de operar aviação embarcada convencional. Dez anos depois, durante a Guerra das Malvinas, a ausência de grandes porta-aviões com catapultas e cabos de parada seria frequentemente lembrada como uma perda estratégica.

 

Desativação e fim

Após ser retirado de serviço, o HMS Eagle foi colocado na reserva e usado como fonte de peças para manter o HMS Ark Royal operacional. O navio permaneceu por alguns anos atracado, enquanto seu destino era discutido.

No fim da década de 1970, já esgotado como reserva de componentes, foi vendido para desmantelamento. Em 1978, seguiu para o sucateamento, encerrando a trajetória de um dos maiores e mais importantes porta-aviões da história britânica.

O seu desaparecimento marcou o fim de uma era. A Royal Navy ainda manteria o HMS Ark Royal até 1979, mas o caminho já estava traçado: os grandes porta-aviões convencionais dariam lugar aos navios menores da classe Invincible, concebidos inicialmente para guerra antissubmarino e depois adaptados para operar o Sea Harrier.

Somente no século XXI, com a chegada dos porta-aviões HMS Queen Elizabeth e HMS Prince of Wales, o Reino Unido voltaria a operar navios-aeródromo de porte superior ao do Eagle e do Ark Royal.

Legado

O HMS Eagle foi uma ponte entre duas épocas: nasceu de um projeto da Segunda Guerra Mundial, amadureceu durante a transição para a aviação a jato e encerrou sua carreira no auge da Guerra Fria.

Sua história resume as contradições da Royal Navy do pós-guerra. De um lado, havia ambição, tradição, conhecimento técnico e capacidade operacional. De outro, restrições econômicas, mudanças políticas e o fim da estrutura imperial que sustentava a presença naval britânica global.

O Eagle mostrou que a Marinha Real ainda era capaz de operar grandes forças aeronavais, mas também revelou o custo de manter essa capacidade em um país que redefinia seu papel no mundo.

Ao lado do HMS Ark Royal, permanece como um dos últimos grandes porta-aviões convencionais britânicos da era das catapultas, cabos de parada e jatos navais pesados. Até a entrada em serviço da classe Queen Elizabeth, nenhum outro navio-aeródromo da Royal Navy teria porte comparável.

O nome HMS Eagle pertence a uma linhagem antiga da Marinha Real. Mas o Eagle da classe Audacious ocupa lugar especial nessa tradição: foi o gigante que levou a aviação naval britânica do legado da Segunda Guerra à modernidade da Guerra Fria — e cuja retirada antecipou um debate que o Reino Unido só resolveria muitas décadas depois, ao retornar ao “clube dos grandes porta-aviões”.■

HMS Eagle (R05) – Principais Características
Porta-aviões da classe Audacious da Royal Navy
País Reino Unido
Operador Royal Navy
Classe Audacious
Tipo Porta-aviões de frota
Estaleiro Harland & Wolff, Belfast
Batimento de quilha 24 de outubro de 1942
Lançamento 19 de março de 1946
Entrada em serviço Outubro de 1951
Baixa 1972
Deslocamento 54.100 toneladas, carregado, após modernização
Comprimento 811 pés e 9¾ pol. / cerca de 247,4 m
Boca máxima 171 pés / cerca de 52,1 m
Calado 36 pés / cerca de 11 m
Propulsão 4 eixos; turbinas a vapor engrenadas; 8 caldeiras Admiralty de três tambores
Potência 152.000 shp
Velocidade máxima 29,5 nós
Autonomia Aproximadamente 4.500 milhas náuticas a 24 nós
Tripulação Cerca de 2.750 militares, incluindo grupo aéreo
Capacidade aérea Até 45 aeronaves e 10 helicópteros na configuração modernizada
Aeronaves operadas Sea Hawk, Sea Venom, Skyraider, Wyvern, Sea Vixen, Buccaneer, Gannet AEW, Wessex e Sea King, entre outras
Convés de voo Convés em ângulo, sistema óptico de pouso por espelho e duas catapultas a vapor
Armamento pós-modernização 4 reparos duplos de 4,5 pol. e 6 lançadores de mísseis superfície-ar Sea Cat
Sensores principais Radar tridimensional Type 984, além de radares de busca e direção de tiro associados
Modernização principal Devonport, 1959–1964; novo convés em ângulo de 8,5°, novas catapultas, novos equipamentos de parada, sensores e acomodações melhoradas
Emprego destacado Crise de Suez, exercícios da OTAN e operações da Royal Navy durante a Guerra Fria
Nota: características variaram ao longo da carreira do navio; a tabela privilegia a configuração modernizada dos anos 1960.

FONTE: Royal Museums Greenwich / Imperial War Museums / Royal Navy / fontes históricas navais




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13 Comentários
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Leandro Costa

Hmmm… Westland Wyvern e Buccaneer….

* fap fap fap fap fap fap… *

Fábio CDC

EDITADO

WAGNER FIGUEIREDO

Ta ai um projetinho bom p o Brasil “brincar” de potencia marítima!!! rsrsrs

Moriah

Um navio interessante com seus dois hangares e os Phantom lançados por cabos de aço. Sua não sucessão foi mais um erro britânico que lhe custaria bem caro anos depois… Um detalhe que chama a atenção é o radar Type 984 3D que parecia um enorme relógio de pulso…

https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTwzAn011f3VnoLsMDRnlYKhnrGZZk-QNlGpMBeAFG6kK8uiyKb525qkiw&s=10

Leandro Costa

Moriah os Phantom sempre foram lançados assim. Assim como os A-4, F-8, Tracker, Skyraider, etc. Era o sistema normal da época em que foram desenvolvidos. O sistema mais moderno, que usa a holdback bar com a aeronave conectada diretamente no shuttle, foi introduzido na década de 60, acho que a primeira aeronave a ser projetada com esse sistema foi o A-6, mas não tenho certeza.

Dalton

Confesso que não lembrava Leandro então ao pesquisar o A-6 foi o segundo logo depois do E-2C.

Leandro Costa

Obrigado Dalton! Graças à sua resposta eu pude encontrar isso: “On 19 December 1962, an E-2A Hawkeye, flown by naval aviator Lieutenant Commander Lee Ramsey was catapulted from the flightdeck of the USS Enterprise (CVAN-65) during the first at sea test of a nose-tow gear designed to replace the catapult bridle system and reduce the time required between aircraft launches on aircraft carriers. This gear would also make aircraft hookups to the catapult safer. Shortly after the Hawkeye, an A-6 Intruder was launched also via nose-tow gear. Another name for the nose-tow gear was launch bar and the tow link… Read more »

Marcelo Andrade

Esses cabos eram perdidos no mar? Os Super Etendart tb eram, assim como os A-4 da MB

Dalton

Os 2 hangares se devem a um projeto antigo e ultrapassado, que foi copiado pelos japoneses antes da guerra, mas mesmo estes tardiamente abandonaram a idéia como por exemplo visto no excelente NAe Taiho de 1944. . Acabou predominando o padrão americano um único hangar mais alto para aeronaves que tornavam-se maiores, oferecendo melhores condições de manutenção, favorecendo elevadores laterais que não roubam espaço no hangar, como adotado pelos atuais ^Queen Elizabeth^ e ^Prince of Wales^. . O(s) sucessor(es) do ^Eagle^ e do ^Ark Royal^ que teriam capacidade similar ao ^Charles de Gaulle^ de 2000 – que os franceses não… Read more »

Luciano

A despeito de sua funcionalidade, como o Fairey Gannet era feio! Os de outras nacionalidades também seguiam a risca a feiura como marca: o Bréguett Alizé ! Menção honrosa de feiura vale para o Tu-91, que, embora fosse um avião de ataque, foi pensado para operar em porta-aviões também!

Iran

O HMS Ark Royal é o porta-aviões britânico que caçou o Graf Spee no Uruguai e afundou o Bismarck, ou estou confundindo?

Wilson Look

Está confundindo, são dois navios diferentes mas com o mesmo nome, o que você mencionou foi torpedeado durante a guerra.

Iran

Ah entendi, obrigado por elucidar