FS Colbert: o último cruzador francês entre a era dos canhões e dos mísseis

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FS Colbert (C 611) - 4

 

Por décadas, o cruzador C 611 simbolizou a ambição naval francesa do pós-guerra, serviu como vitrine diplomática de Charles de Gaulle, tornou-se museu em Bordeaux e terminou sua história desmontado às margens da Gironde

O cruzador FS Colbert (C 611) foi um dos últimos grandes navios de guerra franceses concebidos na lógica clássica da artilharia naval, mas viveu o suficiente para atravessar a transição tecnológica que transformou as marinhas ocidentais durante a Guerra Fria. Nascido como cruzador antiaéreo, armado com uma poderosa bateria de canhões, ele terminou sua carreira operacional como cruzador lançador de mísseis, equipado para enfrentar a ameaça dos aviões supersônicos e dos combates navais de longo alcance.

O navio recebeu o nome de Jean-Baptiste Colbert, ministro de Luís XIV e figura central na construção do poder marítimo francês no século XVII. Foi a sexta unidade da Marinha francesa a ostentar esse nome e o segundo cruzador batizado em sua homenagem. O antecessor, um cruzador pesado lançado no período entreguerras, teve destino dramático: foi afundado em Toulon, em 1942, durante o autoafundamento da frota francesa para impedir sua captura pelos alemães.

A construção do novo Colbert começou nos estaleiros de Brest em 1953, em um momento em que a França buscava reconstruir sua força naval e reafirmar sua posição estratégica no pós-Segunda Guerra Mundial. Lançado ao mar em 24 de março de 1956, iniciou provas em 1957 e entrou oficialmente em serviço ativo em maio de 1959.

O projeto seguia a linhagem do cruzador De Grasse, mas o Colbert incorporava melhorias de máquinas, superestruturas e arranjo interno. Era uma unidade imponente, com cerca de 180 metros de comprimento, deslocamento superior a 11 mil toneladas em plena carga e velocidade máxima na faixa dos 32 nós. Sua função principal era proteger grupos navais, especialmente porta-aviões, contra ataques aéreos.

Na configuração original, o navio era dominado por sua artilharia. O armamento incluía oito torres duplas de 127 mm e dez torres duplas de 57 mm, formando uma densa cortina de fogo antiaéreo. Era a culminação de uma doutrina que ainda via o canhão como o principal instrumento de defesa da esquadra contra aeronaves inimigas. Mas essa doutrina envelheceria rapidamente.

Nos anos 1950, a aviação naval e tática evoluía em ritmo acelerado. A chegada dos jatos supersônicos, dos mísseis antinavio e das armas guiadas reduziu drasticamente o valor de navios baseados apenas na cadência de tiro de seus canhões. O Colbert nasceu poderoso, mas nasceu tarde. Quando entrou em serviço, o mundo naval já caminhava para a era dos sensores, dos sistemas de direção de tiro avançados e dos mísseis superfície-ar.

Ainda assim, durante seus primeiros anos, o cruzador teve papel relevante na organização da Marinha francesa. Em 1964, uma reorganização naval o transformou em navio-almirante da Esquadra do Mediterrâneo, baseada em Toulon. Nessa função, o Colbert operava no centro de uma força composta por porta-aviões, escoltas e fragatas, servindo como plataforma de comando, defesa aérea e representação de poder.

Mas a história do Colbert não se limitou ao campo estritamente militar. O cruzador tornou-se também um instrumento diplomático da França gaullista. Em 1961, repatriou os restos mortais do marechal Hubert Lyautey. Em 1964, participou da viagem de Charles de Gaulle pela América do Sul. Três anos depois, transportou o presidente francês ao Canadá, em uma visita que entraria para a história por causa do célebre discurso “Vive le Québec libre!”, pronunciado em Montreal.

A bordo do Colbert, De Gaulle encontrava uma espécie de território francês flutuante, conveniente para a liturgia presidencial e para a simbologia de uma França independente, soberana e capaz de projetar influência além da Europa. O navio ganhou, por isso, uma aura política incomum para uma unidade de combate.

A transformação mais importante de sua vida operacional ocorreu entre 1970 e 1972. Submetido a ampla modernização em Brest, o cruzador deixou para trás parte de sua identidade original de navio de canhões e foi convertido em cruzador lançador de mísseis. A peça central da nova configuração era o sistema antiaéreo Masurca, instalado em uma rampa dupla na popa, com mísseis superfície-ar de médio alcance. Mais tarde, o navio também receberia mísseis antinavio Exocet MM38, reforçando sua capacidade ofensiva.

Lançador de mísseis superfície-ar Masurca do Colbert. O míssil era baseado nos mísseis RIM-2 Terrier e RIM-24 Tartar e podia alcançar alvos a mais de 50 km de distância e 22.000 metros de altitude

A modernização deu sobrevida ao Colbert, mas não eliminou suas limitações. Era uma adaptação de uma plataforma concebida em outro tempo. O navio continuava grande, caro de operar e exigente em tripulação. Em uma Marinha cada vez mais orientada para escoltas especializadas, fragatas modernas e sistemas integrados, o velho cruzador tornava-se um símbolo prestigioso, mas pesado.

Na segunda metade dos anos 1970, voltou a exercer a função de navio-almirante da Esquadra do Mediterrâneo. Suas missões passaram a combinar representação, presença naval, apoio humanitário e exercícios. O navio participou de ações em Agadir, em 1960, e de evacuação em Bizerte, em 1961. Em 1988, representou a França nas comemorações do bicentenário da Austrália.

Curiosamente, apesar de sua aparência marcial e de seu poder de fogo, o Colbert ganhou na Marinha francesa a reputação de navio que nunca disparou em combate. Sua única participação em uma operação de guerra ocorreu já no fim da carreira, durante a Guerra do Golfo, em 1991, na Operação Salamandre. Na ocasião, integrou o dispositivo naval francês enviado para reforçar as forças posicionadas na região após a invasão do Kuwait pelo Iraque.

Poucos meses depois, em 24 de maio de 1991, o Colbert foi retirado de serviço. Era o fim da carreira militar de um navio que havia atravessado três décadas de transformações estratégicas: do pós-guerra à Guerra Fria tardia, da artilharia antiaérea aos mísseis guiados, da diplomacia gaullista ao conflito do Golfo.

A segunda vida do cruzador começou em 1993, quando foi convertido em navio-museu em Bordeaux. Amarrado nos cais da cidade, tornou-se uma atração turística e histórica. Visitantes podiam percorrer conveses, compartimentos, cabines e áreas técnicas, incluindo setores normalmente fechados ao público. O navio abrigava exposições sobre a Marinha, meteorologia e modelos arquitetônicos, além de restaurante e espaços de eventos.

Durante alguns anos, o sucesso foi expressivo. O Colbert chegou a ser apontado como o navio-museu mais visitado da França e uma das atrações históricas mais populares de Bordeaux. Sua presença ajudou a marcar a paisagem dos cais e a estimular a circulação turística na região.

Mas a convivência com a cidade tornou-se cada vez mais difícil. Parte dos moradores e associações locais criticava o impacto visual e urbano do antigo navio de guerra. A manutenção era cara, a estrutura envelhecia e o modelo de gestão revelou-se frágil. Embora o Estado francês permanecesse proprietário da unidade, os custos práticos de conservação pesavam sobre a associação responsável pelo museu. Sem recursos suficientes e sob pressão política local, o museu fechou ao público em outubro de 2006.

Colbert no porto de Bordeaux como navio museu (2006)

Em 31 de maio de 2007, o Colbert deixou Bordeaux rebocado. Seguiu para a região de Brest e depois para o cemitério naval de Landévennec, onde permaneceu inativo. Durante esse período, partes de seus sistemas foram aproveitadas para manter o porta-helicópteros Jeanne d’Arc, com o qual compartilhava elementos tecnológicos de propulsão e máquinas.

A última etapa veio quase uma década depois. Em 2016, o antigo cruzador foi levado para Bassens, próximo a Bordeaux, para desmantelamento. O processo incluiu trabalhos de descontaminação e corte da estrutura. Em 2018, o Colbert havia desaparecido fisicamente, encerrando a trajetória do último grande cruzador francês.

A história do FS Colbert é, acima de tudo, a história de uma transição. Ele foi concebido como uma fortaleza flutuante de canhões, transformado em plataforma de mísseis, usado como instrumento diplomático, preservado como museu e finalmente desmontado como relíquia cara demais para sobreviver. Em sua longa carreira, refletiu as ambições, contradições e mudanças da Marinha francesa na segunda metade do século XX.■

Cruzador FS Colbert (C 611)
País França
Marinha Marine Nationale
Tipo original Cruzador antiaéreo
Tipo após modernização Cruzador lançador de mísseis
Série / classe Derivado da série De Grasse
Estaleiro DCAN / DCN Brest, França
Batimento de quilha 9 de junho de 1954
Lançamento 24 de março de 1956
Entrada em serviço 5 de maio de 1959
Baixa Maio de 1991
Deslocamento cerca de 8.000 t padrão; 11.300–11.600 t em plena carga
Comprimento aprox. 180,5 m
Boca aprox. 20,2 m
Calado aprox. 6,5–7,7 m, conforme configuração e carga
Propulsão 2 turbinas a vapor CEM-Parsons; 4 caldeiras Indret; 2 eixos
Potência 86.000 shp
Velocidade máxima aprox. 32 nós
Alcance 4.000 milhas náuticas a 25 nós ou até 7.100 milhas náuticas a 18 nós, conforme fonte e regime de operação
Tripulação cerca de 977 homens na configuração original; cerca de 560–600 após modernização
Armamento original 8 torres duplas de 127 mm/54 Modèle 1948; 10 torres duplas de 57 mm/60 Modèle 1951
Armamento após modernização 2 canhões de 100 mm/55 Modèle 1968; 6 torres duplas de 57 mm/60; 1 lançador duplo de mísseis superfície-ar Masurca; mísseis antinavio MM38 Exocet
Mísseis superfície-ar Masurca Mk 2, com lançador duplo e reserva de até 48 mísseis
Mísseis antinavio 4 MM38 Exocet, instalados no início dos anos 1980
Sensores principais radares DRBV-22A/23, DRBV-20/50, DRBI-10, radares de direção de tiro DRBC e radar de navegação DRBN/Decca, conforme fase de serviço
Blindagem cinturão de 50–80 mm; convés blindado de cerca de 50 mm
Aviação convés de voo para helicóptero, sem hangar permanente
Funções principais defesa antiaérea de força-tarefa, navio-almirante, comando naval, representação diplomática e missões humanitárias
Última operação relevante Operação Salamandre, durante a Guerra do Golfo, em 1991
Destino final navio-museu em Bordeaux entre 1993 e 2007; posteriormente desativado e enviado para desmantelamento

 



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8 Comentários
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Leandro Costa

Uma pena que não tenha sobrevivido. Excelente matéria.

GUPPY

Caso a Guerra da Lagosta tivesse evoluído para as vias de fato, é bem possível que esse cruzador tivesse entrado em ação. Felizmente, para o Brasil, nenhum tiro foi disparado nessa guerra.

Prezado Admiral Dalton, os cruzadores “Barroso-C11” e “Tamandaré-C12” eram páreo para o cruzador francês objeto da matéria?
Abs

Leandro Costa

Guppy, não sou o Dalton, mas vou dar meu pitaco.

Elas por elas, acredito que o Colbert não teria muita vantagem. Ele era um cruzador antiaéreo e seu armamento principal refletia isso. Mesmo sendo cruzadores leves, os classe Brooklyn da MB tinham armamento um pouco mais pesado.

Claro que isso nas CNTP, né? Infelizmente sabemos das condições nas quais nossos Cruzadores se encontravam e, ao mesmo tempo, o Colbert não viria sozinho. As aeronaves do Clemenceau provavelmente dariam cabo dos nossos meios antes que tivessem a chance de se aproximar para dispararem os canhões que não funcionavam.

GUPPY

Thanks!

GUPPY

o termo “navio-almirante”, usado no texto, seria equivalente ao nosso “capitânea”?

Marcelo Andrade

Exato

GUPPY

Obrigado!

Rodrigo Maçolla

Muito legal a matéria, não entendo nada de navios… e de outras coisas também.. 🙂 mas é muito interessante a historia de um navio poderoso que nasceu já no linear de uma doutrina ultrapassado mas poderoso que se reinventou mas foi símbolo de poder… É uma pena não ter sobrevivido mesmo