A História Naval e o Cinema: Capitão Phillips (2013)
Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)
A história naval e o cinema são uma coletânea de resenhas sobre filmes e séries cinematográficas, que abordam fatos marcantes da guerra no mar e da vida naval. As resenhas podem ser baseadas em fatos reais ou fictícios e tem as seguintes finalidades: despertar nos leitores o interesse em assistir ou rever os filmes e as séries selecionadas; utilizá-las no meio acadêmico como fonte histórica; e contribuir para o fomento da mentalidade de defesa nacional.
O filme histórico é a narrativa de um fato passado, que pode ser considerado um documento histórico. Entretanto, o cinema é arte e entretenimento e, nesse sentido, os filmes e as séries podem se afastar, em menor ou maior grau, da verdade documental. O cinema possui liberdade artística para narrar um fato histórico, que nem sempre estará plenamente de acordo com o que aconteceu na realidade. Por outro lado, existe uma responsabilidade de como se leva a história para o cinema.
Muitas pessoas não farão uma pesquisa sobre aquele fato ou em relação aquela figura histórica. Assim sendo, ficarão somente com o poder da imagem e da narrativa daquela obra. A leitura cinematográfica da história é a história retratada por meio das lentes do cinema.
Segundo o historiador norte-americano Robert Rosenstone, autor do livro “A história nos filmes, Os filmes na história”, lançado em 2010 no Brasil:“O filme histórico tem tanto valor quanto os livros acadêmicos, pois ambos seriam diferentes formas midiáticas de descrever as verdades sobre o passado”.
A sinergia entre a história naval e o cinema contribui para o aprendizado lúdico daquela disciplina. Tanto para os que já são familiarizados com essa área do conhecimento quanto para aqueles que passaram a se interessar pelo assunto. Os filmes do genêro Drama, que permanecem exercendo um grande fascínio sobre o público em geral, são caracterizados por uma narrativa atraente, emoções intensas e uma trilha sonora marcante.
Na Antiguidade, à medida que as civilizações foram se desenvolvendo, a circulação de riquezas pelo mar provocou o aparecimento da pirataria. A dependência do comércio marítimo e a defesa das valiosas cargas eram essenciais para a sociedade.
No alvorecer do século XXI, a globalização produziu um significativo aumento no tráfego mercante internacional. No mesmo período, Na costa leste africana, principalmente, no Golfo de Áden, a pirataria estava intensamente presente. Os piratas da Somália intensificaram os ataques aos navios para exigir um resgate pelo sequestro da tripulação. Nos dias de hoje, a pirataria continua ativa naquela área marítima.
À despeito do hiato temporal existente entre a Antiguidade e os dias atuais, permanece a necessidade do Estado combater a pirataria. Para tal, são empregados meios navais, aeronavais e forças especiais. Os atos de pirataria geram grandes custos para os países africanos e para as empresas que ficam submetidas a estas ameaças.
Nesse sentido, diversos Estados da União Européia, os Estados Unidos e a China passaram a adotar medidas de segurança para combatê-la.
Este filme foi inspirado num fato real. Invasão do navio de bandeira norte-americana Maersk Alabama, por piratas somalis, no dia 8 de abril de 2009.
O Maersk Alabama estava navegando isolado no Golfo de Áden no Oceano índico. Durante um exercício de segurança, duas lanchas são detectadas no radar se aproximando do navio pela popa em alta velocidade. Naquele momento, devido a avaria no motor de uma das embarcações pirata e o receio do aparecimento da Marinha dos EUA, somente uma embarcação permaneceu na perseguição ao Maersk Alabama. O comandante do navio (interpretado pelo ator Tom Hanks) aumentou a velocidade e começou a acompanhar o contato pelo radar.
Na sequência, um tripulante do navio entrou em contato com a Marinha Real Britânica para informar sobre possível ataque de piratas.
Logo após, o comandante determinou um conjunto de medidas para impedir que os quatro piratas que estavam na embarcação subissem no navio: a tripulação deveria estar em postos de alerta; o navio começou a realizar manobras em ziguezague; mangueiras lançando jatos d‘água e fechamento dos principais compartimentos. Ressalto a possibilidade da instalação de concertinas, ou seja, cercas de arame, nas bordas dos navios.
Estas medidas foram insuficientes para evitar a subida dos piratas no navio por meio de uma escada. Em pouco tempo, eles chegaram no passadiço[1] armados com fuzis AK47.
A partir daquele instante, anunciaram o sequestro da embarcação e que a tripulação seria feita refém. Ao longo do dia, os piratas desistiram do sequestro do navio e decidiram levar somente o capitão Phillips como refém. Sendo assim, lançaram ao mar uma das embarcações de salvamento do Maersk Alabama com quatro piratas e o capitão Phillips para chegar ao litoral da Somália.
A Marinha dos EUA, ao tomar conhecimento do sequestro, respondeu por meio da Força Tarefa Combinada 151[2], composta por três navios de guerra: o destróier USS Bainbridge (DDG- 96), a fragata USS Haliburton (FFG-40) e o navio de assalto anfíbio USS Boxer (LHD-4).
Durante a travessia para chegar a Somália o combustível da embarcação de salvamento acabou. Os piratas aceitaram que eles seriam rebocados pelo navio USS Bainbridge. No dia 11 de abril, militares dos Navy SEAL[3] (atiradores de elite) embarcaram no USS Bainbridge para conduzir as ações táticas.
No dia 12 de abril, os atiradores tinham as condições desejáveis para efetuarem os tiros de precisão nos piratas, que estavam no interior da embarcação de salvamento. Dessa forma, terminou o sequestro do capitão Phillips.
- CAPITÃO PHILLIPS (2013)
- Diretor: Paul Greengrass
- Atores Principais: Tom Hanks e Barkhad Abdi
[1] A ponte de comando ou passadiço é o compartimento de um navio onde existem equipamentos de navegação e a partir do qual o mesmo é comandado.
[2] A Combined Task Force (CTF-151) é uma força-tarefa multinacional que realiza operações para dissuadir, interditar e reprimir a pirataria na região do Chifre da áfrica.
[3] Unidade de operações especiais da Marinha norte-americana cuja sigla representa os ambientes em que operam: no mar, no ar e na terra (Sea, Air, Land).




O ator que fez o vilão atuou muito bem, especialmente considerando que este foi sua estreia no cinema. Tom Hanks ficou impressionado com ele. Depois da primeira cena juntos, Abdi desligou o personagem assustador e começou a sorrir e brincar, pois estava contente de atuar com Hanks.
Lembro que alguns membros da tripulação ficaram fulos da vida como o filme retratou o capitão e os marinheiros.