O dia em que o USS Thomas abalroou e afundou o U-233 no Atlântico Norte

Atlântico Norte, julho de 1944 – No fim da tarde de 5 de julho de 1944, em águas agitadas a sudeste de Halifax, na Nova Escócia, um dos episódios mais dramáticos da guerra antissubmarino no Atlântico chegou ao clímax diante da proa do contratorpedeiro de escolta USS Thomas (DE-102). Após uma sequência de ataques com cargas de profundidade que forçaram o submarino alemão U-233 a emergir, o navio norte-americano manobrou para uma solução tão antiga quanto decisiva na guerra naval: o abalroamento.

A fotografia feita a partir do passadiço do Thomas registrou os segundos finais antes do impacto. Na imagem, vê-se a proa do navio norte-americano avançando sobre o U-boat alemão, já na superfície e sob fogo. Pouco depois, o casco resistente do submarino seria rasgado, condenando o U-233 ao fundo do Atlântico. A Marinha dos EUA identifica a cena como o U-233 prestes a ser abalroado pelo USS Thomas no Atlântico Norte, em 5 de julho de 1944, fotografado do próprio passadiço do navio americano.

Um submarino mineiro rumo a Halifax

Perfil do U-234, da mesma classe Tipo XB

O U-233 não era um submarino comum da Kriegsmarine. Tratava-se de um U-boat do tipo XB, uma classe de grandes submarinos originalmente projetada para missões de minagem de longo alcance. Segundo o Uboat.net, o U-233 havia deixado Kiel em 27 de maio de 1944 para uma patrulha de minagem planejada nas proximidades de Halifax, importante porto canadense e ponto vital nas rotas de comboios aliados no Atlântico.

A escolha de Halifax como objetivo não era casual. Durante a Segunda Guerra Mundial, o porto canadense foi uma das principais bases de organização de comboios transatlânticos que levavam tropas, combustível, alimentos e material de guerra para a Europa. Minar seus acessos representaria uma ameaça direta à logística aliada em um momento crítico: poucas semanas após o desembarque da Normandia, em 6 de junho de 1944, os Aliados dependiam intensamente da manutenção das linhas marítimas entre a América do Norte e a Europa.

De acordo com relatório de interrogatório preservado pelo U-boat Archive, o U-233 era um submarino mineiro de cerca de 1.600 toneladas, comandado pelo Kapitänleutnant Hans Steen, e estava em sua primeira patrulha de guerra quando foi interceptado. O relatório afirma que o submarino seguia para Halifax para executar uma operação de lançamento de minas quando foi afundado por navios do Task Group 22.10.

O grupo caçador-matador do USS Card

USS Card (CVE-11)

A força norte-americana envolvida na ação fazia parte do Task Group 22.10, centrado no porta-aviões de escolta USS Card (CVE-11), um dos grupos “hunter-killer” criados pela Marinha dos Estados Unidos para caçar submarinos alemães no Atlântico. O relatório de ação do USS Thomas lista o grupo sob comando do capitão R. C. Young, com o Card como núcleo, acompanhado pelos escoltas USS Thomas, USS Bostwick, USS Breeman, USS Bronstein e USS Baker.

A missão do grupo era explícita: “operar ofensivamente contra submarinos inimigos”. Essa doutrina marcava a evolução da campanha antissubmarino aliada. Em vez de apenas escoltar comboios, os grupos com porta-aviões de escolta e contratorpedeiros de escolta passaram a procurar, perseguir e destruir U-boats antes que eles pudessem atacar as rotas marítimas aliadas.

Na tarde de 5 de julho, o primeiro contato coube ao USS Baker (DE-190). O relatório de ação do Baker informa que, às 19h07 locais, o navio obteve contato sonar com um submarino a cerca de 2.200 jardas, nas proximidades da posição 42°16,5’ N e 59°49’ W. O Baker então iniciou o ataque com cargas de profundidade.

Cargas de profundidade, fogo de canhão e a decisão de abalroar

USS Thomas (DE-102)

Após os primeiros ataques, o Baker lançou um segundo padrão de cargas de profundidade. O relatório descreve uma grande coluna de água misturada com óleo após a detonação, sinal de que o submarino havia sido seriamente atingido. Pouco depois, o radar detectou ecos na superfície e a proa do submarino foi vista emergindo em ângulo acentuado.

O USS Thomas recebeu a ordem de auxiliar o Baker e aumentou a velocidade para 20,5 nós. Segundo seu próprio relatório de ação, às 19h27 o submarino rompeu a superfície; às 19h35, o Thomas abriu fogo com seu canhão de 3 polegadas; e, após observar o U-boat ainda em movimento, decidiu abalroar. Às 19h40, o comandante do Thomas registrou a decisão: mudar o rumo para interceptar e preparar o navio para o impacto.

Contratorpedeiros de escolta lançando cargas de profundidade

O ataque final foi conduzido sob fogo. O Thomas abriu fogo com seus canhões de 3”/50 e com armas automáticas de 20 mm. O relatório do navio registra o gasto de 29 tiros de 3 polegadas e 640 disparos de 20 mm durante a aproximação, antes que os canhões deixassem de ter ângulo para continuar atirando.

Às 19h46min30s, o USS Thomas atingiu o U-233 pelo lado de boreste, aproximadamente 20 a 30 pés atrás da torre de comando. O submarino adernou violentamente, cerca de 70 graus para bombordo, enquanto homens eram vistos saindo pelas escotilhas e pulando ao mar. Instantes depois, o U-boat ergueu-se parcialmente fora d’água e afundou pela popa sob o Thomas, em um ângulo estimado de cerca de 60 graus.

A descrição oficial da Naval History and Heritage Command resume a violência do golpe: o Thomas cortou o casco resistente do U-233 cerca de 20 pés atrás da torre de comando, e o submarino afundou de popa em menos de um minuto.

Batalha do Atlântico. O U-233 (submarino alemão Tipo XB) é abalroado pelo USS Thomas (DE 102), em 5 de julho de 1944, no Atlântico Norte. Fotografia tirada do Thomas no momento em que atingiu o submarino a meia-nau

Sobreviventes e prisioneiros

Depois do afundamento, os escoltas norte-americanos iniciaram o resgate dos sobreviventes. O relatório do Thomas informa que o próprio navio e o Baker, com apoio do Breeman, recolheram homens do mar. Vinte prisioneiros chegaram a bordo do Thomas, incluindo três oficiais — entre eles o comandante Hans Steen —, quatro suboficiais ou equivalentes e treze marinheiros.

O relatório de interrogatório do U-233 registra que 29 homens foram resgatados e levados aos Estados Unidos. O comandante Steen foi retirado da água gravemente ferido e morreu algumas horas depois a bordo de um dos navios de resgate.

O material recolhido dos prisioneiros também teve valor de inteligência. O anexo do relatório do Thomas menciona que rodas de codificação, aparentemente pertencentes a uma máquina elétrica de cifra, foram encontradas com um dos tripulantes alemães e transferidas ao USS Card, junto com objetos pessoais, notas e documentos.

Um registro visual raro da guerra antissubmarino

A fotografia do abalroamento do U-233 é particularmente notável porque captura um momento raramente visto com tamanha proximidade: a transição entre a caçada invisível, conduzida por sonar e cargas de profundidade, e o combate direto na superfície, com canhões, metralhadoras e colisão deliberada.

Em julho de 1944, a Batalha do Atlântico já havia mudado de rumo em favor dos Aliados. A combinação de radar, sonar, inteligência de sinais, escoltas especializados, porta-aviões de escolta e patrulhas aéreas havia reduzido dramaticamente a eficácia dos U-boats. Ainda assim, submarinos como o U-233 continuavam representando ameaça real, especialmente em missões de minagem contra portos estratégicos.

O episódio também ilustra a agressividade dos grupos caçadores-matadores norte-americanos na fase final da campanha atlântica. O USS Thomas, um contratorpedeiro de escolta da classe Cannon, não apenas participou da destruição do U-233, mas também teria envolvimento na destruição de outros submarinos alemães durante a guerra, recebendo quatro estrelas de batalha pelo serviço na Segunda Guerra Mundial.

A imagem da proa do Thomas avançando sobre o U-233 permanece como um dos registros mais contundentes da guerra naval no Atlântico: um instante congelado em que tecnologia, decisão tática e violência física se encontraram a poucas centenas de quilômetros da costa canadense. Para a tripulação do submarino alemão, foi o fim de uma primeira e única patrulha. Para os Aliados, foi mais uma vitória na campanha que assegurou as rotas marítimas vitais para a derrota da Alemanha nazista.■



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4 Comentários
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Guto

Ótima matéria.

Marcelo Andrade

O nosso Navio-Museu Baurú pertenceu a essa classe de DE? Muito parecidos.

Aliás, ótimo passeio, a visita ao Espaço Cultural da Marinha onde tem o Baurú e o Sub Riachuelo, para quem visitar o RJ.

Last edited 1 mês atrás by Marcelo Andrade
Sérgio de S. Carvalho Jr.

Sim, é da mesma Classe Cannon.
Além desse episódio, tiveram mais casos de contratorpedeiros que afundaram U-Boats com abalroamento, como o USS Buckley que atingiu propositalmente o U-66.

Marcos270578

Falar de um Navio de Guerra que fez isso é Mole, mas ninguém Lembra que o Navio Irmão do Titanic, o RMS Olympic fez Isso em 1918 com o U-103 portando apenas 4 Canhões quando serviu como Navio de Transporte de Tropas!!!

Last edited 1 mês atrás by Marcos270578