Scapa Flow, 1919: o dia em que a Alemanha afundou sua própria frota
Scapa Flow, Escócia – Em 21 de junho de 1919, sete meses após o Armistício que encerrou os combates da Primeira Guerra Mundial, a Baía de Scapa Flow, nas ilhas Órcades, tornou-se palco de um dos atos mais dramáticos da história naval: o afundamento deliberado da Frota de Alto-Mar alemã por suas próprias tripulações.
Internados sob custódia britânica desde novembro de 1918, os navios alemães aguardavam o destino que seria definido pelo Tratado de Versalhes. Mas, temendo que a frota fosse entregue definitivamente aos Aliados, o contra-almirante Ludwig von Reuter decidiu agir por conta própria. Na manhã de 21 de junho, ele transmitiu a ordem para que seus comandantes abrissem válvulas, escotilhas e tomadas d’água, condenando ao fundo do mar a maior parte do que restava do poder naval imperial alemão. O ato contrariava diretamente os termos do Armistício, que proibiam a destruição de navios antes de sua entrega, evacuação ou restauração.
Ao todo, 52 dos 74 navios alemães internados foram afundados em cerca de cinco horas, somando aproximadamente 400 mil toneladas de material naval perdido, segundo o Imperial War Museums. A esquadra incluía encouraçados, cruzadores de batalha, cruzadores leves e contratorpedeiros, muitos deles veteranos da Batalha da Jutlândia.
Da rendição à humilhação
A Frota de Alto-Mar alemã havia sido entregue aos Aliados após o Armistício de 11 de novembro de 1918. Entre 25 e 27 de novembro, os navios foram conduzidos sob forte escolta até Scapa Flow, grande ancoradouro natural usado pela Royal Navy nas Órcades.
A situação dos alemães era ambígua. A guerra não estava formalmente encerrada, mas suspensa. Os navios estavam desarmados, vigiados e isolados. As culatras dos canhões foram removidas, as comunicações sem fio foram cortadas e os contatos entre os tripulantes alemães e o mundo exterior ficaram rigidamente controlados.
As condições a bordo eram ruins. A Alemanha vivia fome, bloqueio, desorganização econômica, crise política e revolução. Muitos marinheiros estavam contaminados pelo espírito dos conselhos de soldados e trabalhadores que haviam sacudido a Marinha Imperial no fim da guerra. Um relato publicado pelo U.S. Naval Institute lembra que, quando a frota partiu da Alemanha em novembro de 1918, ainda havia forte influência dos conselhos revolucionários entre as tripulações.
Para oficiais como von Reuter, a situação era duplamente humilhante: a frota estava intacta, mas impotente; os navios ainda ostentavam nomes gloriosos da Marinha Imperial, mas aguardavam passivamente uma decisão dos vencedores.
O medo da captura

À medida que se aproximava a assinatura do Tratado de Versalhes, cresceu entre os alemães o temor de que os navios fossem definitivamente repartidos entre as potências vencedoras. O tratado previa severas limitações ao poder militar da Alemanha, e a frota internada era vista por muitos oficiais alemães como um símbolo que não poderia cair intacto nas mãos dos antigos inimigos.
Segundo o relato do vice-almirante Friedrich Ruge, então jovem oficial da Marinha alemã internado em Scapa Flow, von Reuter acreditava que, se a Alemanha recusasse o tratado, o estado de guerra poderia ser retomado. Nesse cenário, ele considerava seu dever impedir que os navios fossem capturados e usados contra a própria Alemanha.
O problema era que o almirante alemão não sabia que a assinatura do tratado havia sido adiada por dois dias. As autoridades britânicas tinham essa informação, mas ela não chegou a von Reuter. No dia 21 de junho, o vice-almirante britânico Sydney Fremantle, responsável pela vigilância, estava fora de Scapa Flow em exercícios com parte de suas forças.
Essa ausência abriu a janela para a ação alemã.
A ordem de afundamento

Por volta do fim da manhã, von Reuter deu o sinal. Nas embarcações alemãs, tripulantes previamente instruídos abriram válvulas de fundo, deixaram portas estanques destravadas, removeram tampas de escotilhas e facilitaram a entrada de água. Em vários navios, as bandeiras alemãs foram içadas novamente enquanto os cascos começavam a adernar.
A cena rapidamente se tornou caótica. Navios de guerra que durante anos haviam simbolizado a ambição marítima do Império Alemão começaram a inclinar, virar e desaparecer. O U.S. Naval Institute registra que 15 dos 16 encouraçados e cruzadores de batalha afundaram em águas profundas, assim como cinco dos oito cruzadores leves e 32 dos 50 contratorpedeiros. Parte dos demais navios foi encalhada em águas rasas por forças britânicas numa tentativa de impedir sua perda total.
A reação britânica veio tarde e com violência. Drifters, rebocadores e contratorpedeiros tentaram arrastar navios para águas rasas. Em alguns casos, militares britânicos abriram fogo para obrigar marinheiros alemães a permanecer a bordo e desfazer o que haviam feito. Testemunhos preservados pelos museus de Orkney relatam tiros, marinheiros no mar, homens em botes com as mãos levantadas e crianças locais assistindo, perplexas, à destruição da frota.
O resultado humano foi menor do que poderia ter sido, mas ainda trágico. O mesmo acervo de Orkney registra que oito marinheiros alemães foram mortos naquele dia, enquanto um nono morreria posteriormente em Scapa Flow como prisioneiro.

Um ato militar, político e simbólico
O afundamento não foi apenas uma decisão naval. Foi também um gesto político. Para von Reuter e muitos oficiais alemães, a rendição da frota representava a capitulação moral da Alemanha. Ao afundá-la, o almirante transformou uma derrota estratégica em ato de desafio.
A memória alemã do episódio seria rapidamente moldada por essa leitura. Uma medalha comemorativa de 1919 preservada pelo Royal Museums Greenwich trazia o busto de von Reuter e a inscrição “inconquistada em sua sepultura escolhida por si mesma”. No reverso, mencionava os navios afundados “antes que o inimigo pudesse tomar posse”, incluindo os cruzadores de batalha Derfflinger, Hindenburg, Moltke, Von der Tann e Seydlitz.
Essa narrativa dialogava com o clima político da Alemanha do pós-guerra. A República de Weimar nascia sob o peso da derrota, da revolução, das reparações e da acusação, difundida por setores nacionalistas, de que civis e políticos haviam traído o Exército e a Marinha. Nesse ambiente, Scapa Flow tornou-se um episódio conveniente para a direita nacionalista: a frota podia ter sido derrotada pela política, mas não se entregara intacta.

O maior cemitério naval da Primeira Guerra
O impacto material foi imenso. O afundamento da Frota de Alto-Mar em Scapa Flow é frequentemente descrito como o maior autoafundamento naval da história. Muitos destroços foram posteriormente reflutuados e desmontados nas décadas de 1920 e 1930, mas alguns permaneceram no fundo da baía e hoje são sítios históricos e pontos de mergulho.
Do ponto de vista britânico, o episódio foi visto como traição aos termos do Armistício. Do ponto de vista alemão, especialmente entre setores militares, foi apresentado como último gesto de honra de uma Marinha derrotada, mas não submissa.
Historicamente, Scapa Flow marcou o fim simbólico da Marinha Imperial Alemã. Os navios que desafiaram a Royal Navy no Mar do Norte desapareceram sem uma batalha final. Afundaram não sob fogo inimigo, mas por decisão de seus próprios oficiais e marinheiros.
Mais de um século depois, a imagem dos mastros inclinados, cascos virados e bandeiras alemãs tremulando sobre navios que afundavam continua a resumir a tragédia do pós-Primeira Guerra: uma paz ainda não assinada, uma Alemanha em colapso, uma Europa em rearranjo e uma frota inteira transformada em declaração política no fundo frio de Scapa Flow.■
| Navios Alemães Afundados ou Encalhados em Scapa Flow – 21 de junho de 1919 | |||
|---|---|---|---|
| Navio | Tipo | Situação em Scapa Flow | Destino posterior |
| Baden | Encouraçado | Encalhado | Transferido para controle britânico; afundado como alvo em 1921 |
| Bayern | Encouraçado | Afundado às 14h30 | Reflutuado em setembro de 1934 |
| Friedrich der Grosse | Encouraçado | Afundado às 12h16 | Reflutuado em 1936 |
| Grosser Kurfürst | Encouraçado | Afundado às 13h30 | Reflutuado em abril de 1938 |
| Kaiser | Encouraçado | Afundado às 13h15 | Reflutuado em março de 1929 |
| Kaiserin | Encouraçado | Afundado às 14h00 | Reflutuado em maio de 1936 |
| König | Encouraçado | Afundado às 14h00 | Não reflutuado |
| König Albert | Encouraçado | Afundado às 12h54 | Reflutuado em julho de 1934 |
| Kronprinz Wilhelm | Encouraçado | Afundado às 13h15 | Não reflutuado |
| Markgraf | Encouraçado | Afundado às 16h45 | Não reflutuado |
| Prinzregent Luitpold | Encouraçado | Afundado às 13h15 | Reflutuado em março de 1931 |
| Derfflinger | Cruzador de batalha | Afundado às 14h45 | Reflutuado em agosto de 1939 |
| Hindenburg | Cruzador de batalha | Afundado às 17h00 | Reflutuado em julho de 1930 |
| Moltke | Cruzador de batalha | Afundado às 13h10 | Reflutuado em junho de 1927 |
| Seydlitz | Cruzador de batalha | Afundado às 13h50 | Reflutuado em novembro de 1928 |
| Von der Tann | Cruzador de batalha | Afundado às 14h15 | Reflutuado em dezembro de 1930 |
| Bremse | Cruzador | Afundado às 14h30 | Reflutuado em novembro de 1929 |
| Brummer | Cruzador | Afundado às 13h05 | Não reflutuado |
| Cöln | Cruzador | Afundado às 13h50 | Não reflutuado |
| Dresden | Cruzador | Afundado às 13h50 | Não reflutuado |
| Emden | Cruzador | Encalhado | Transferido para controle francês; desmantelado em 1926 |
| Frankfurt | Cruzador | Encalhado | Transferido para controle americano; afundado como alvo em 1921 |
| Karlsruhe | Cruzador | Afundado às 15h50 | Não reflutuado |
| Nürnberg | Cruzador | Encalhado | Transferido para controle britânico; afundado como alvo em 1922 |
| S32 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em junho de 1925 |
| S36 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em abril de 1925 |
| G38 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em setembro de 1924 |
| G39 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em julho de 1925 |
| G40 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em julho de 1925 |
| V43 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle americano; afundado como alvo em 1921 |
| V44 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V45 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em 1922 |
| V46 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle francês; desmantelado em 1924 |
| S49 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em dezembro de 1924 |
| S50 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em outubro de 1924 |
| S51 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| S52 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em outubro de 1924 |
| S53 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em agosto de 1924 |
| S54 | Contratorpedeiro | Afundado | Parcialmente reflutuado |
| S55 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em agosto de 1924 |
| S56 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em junho de 1925 |
| S60 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle japonês; desmantelado em 1922 |
| S65 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em maio de 1922 |
| V70 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em agosto de 1924 |
| V73 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V78 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em setembro de 1925 |
| V80 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle japonês; desmantelado em 1922 |
| V81 | Contratorpedeiro | Encalhado | Afundou a caminho do desmanche |
| V82 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V83 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em 1923 |
| V86 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em julho de 1925 |
| V89 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em dezembro de 1922 |
| V91 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em setembro de 1924 |
| G92 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V100 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle francês; desmantelado em 1921 |
| G101 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em abril de 1926 |
| G102 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle americano; afundado como alvo em 1921 |
| G103 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em setembro de 1925 |
| G104 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em abril de 1926 |
| B109 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em março de 1926 |
| B110 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em dezembro de 1925 |
| B111 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em março de 1926 |
| B112 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em fevereiro de 1926 |
| V125 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V126 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle francês; desmantelado em 1925 |
| V127 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle japonês; desmantelado em 1922 |
| V128 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| V129 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em agosto de 1925 |
| S131 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em agosto de 1924 |
| S132 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle americano; afundado em 1921 |
| S136 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em abril de 1925 |
| S137 | Contratorpedeiro | Encalhado | Transferido para controle britânico; desmantelado em 1922 |
| S138 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em maio de 1925 |
| H145 | Contratorpedeiro | Afundado | Reflutuado em março de 1925 |


Passagem histórica, que revela os altos custos das ambições desmedidas dos homens, estamos tagenciando as mesmas decisões ambiciosas que vão além da Defesa.
“V127 Contratorpedeiro: Encalhado | Transferido para controle japonês | desmantelado em 1922″ … Como uma coisa leva a outra… A passagem acima me deixou curioso sobre a participação (que ignorava) do Japão na 1ª Guerra Mundial,… dai caí na “cláusula de igualdade racial” proposta pelo Japão após a guerra, que propunha entre outras coisas: “Obter amparo legal para combater leis e políticas discriminatórias (como a proibição de posse de terras e restrições imigratórias) nos Estados Unidos e em domínios britânicos.” Irônico, justo o Japão Imperial ultra fechado para imigrantes, pedindo isto…Claro que faziam algumas exceções: … “Para modernizar rapidamente o… Read more »
Em paralelo há o submarino UB 116 que poucos dias antes do fim da guerra conseguiu entrar em Scapa na tentativa de causar grandes danos e melhorar a situação da Alemanha na rendição já que a guerra estava perdida e foi destruído por minas perecendo toda a tripulação. . No livro ^Royal Oak Disaster^ que de tão bom li de um dia para o outro e conta a missão de sucesso do U 47 em Scapa em 1939 há um breve relato sobre as duas tentativas feitas por submarinos e a do UB 116 ficou em minha memória pela descrição… Read more »
No jogo U-boat você pode tentar repetir a missão do U-47 em Scapa Flow
O almirante alemão agiu corretamente: as naves fatalmente seriam “repartidas” entre os vencedores da guerra (como acabaram sendo) e a Alemanha seria privada de meios navais, como realmente aconteceu.
Após a guerra, a Alemanha foi reduzida a petição de miséria, o que provocou a ascensão de um maluco bem conhecido.
Não teria sido possível reaproveitar os navios alemães pelos aliados, teriam sido desmantelados ou afundados como alvos como foram alguns dos menores.
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A situação econômica na Europa era grave e os britânicos inclusive pediram por um tratado que limitasse a construção naval no fim igualando as marinhas americana e britânica com 15 navios capitais cada, o Japão com 9 e franceses e italianos com 6 cada.
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E a crise de 1929 nos EUA afetou o mundo todo especialmente a Alemanha pondo um fim a uma boa recuperação da economia e facilitando o caminho para os nazistas.
Mestre Dalton, tudo bem? Pra entender a economia alemã nesse período entre guerras, temos que mencionar uma figura fundamental tanto na recuperação econômica antes da crise de 1929, quanto do ‘milagre econômico’ que permitiu a criação da máquina de guerra nazi: Hjalmar Schacht.
Pra quem não o conhece, sugiro o documentário ‘Hjalmar Schacht: The Nazi Economy’s Mastermind’ :