Classe Pegasus: os barcos de patrulha lança-mísseis com hidrofólio da Marinha dos EUA
Criados para enfrentar lanchas-mísseis soviéticas nos mares estreitos da OTAN, os seis hidrofólios da Marinha dos Estados Unidos terminaram perseguindo narcotraficantes no Caribe. Rápidos e fortemente armados, tornaram-se vítimas dos custos de sustentação, da pequena escala da frota e do fim da Guerra Fria
Durante pouco mais de uma década, seis pequenas embarcações da Marinha dos Estados Unidos produziram uma das imagens mais extraordinárias da Guerra Fria naval: cascos inteiros erguidos sobre a água, sustentados por asas submersas, avançando a mais de 50 nós enquanto deixavam atrás de si uma extensa esteira de espuma.
Eram os navios da classe Pegasus, oficialmente classificados como Patrol Combatant Missile Hydrofoil — PHM. Construídos pela Boeing Marine Systems, reuniam velocidade de lancha, sensores de navio de guerra e poder de fogo suficiente para ameaçar embarcações muitas vezes maiores. Cada unidade podia transportar oito mísseis antinavio RGM-84 Harpoon e um canhão automático OTO Melara de 76 mm.
A classe, entretanto, quase não operou no cenário para o qual havia sido concebida. Em lugar dos mares Báltico, do Norte e Mediterrâneo, onde deveria ajudar a conter forças navais do Pacto de Varsóvia, sua principal base tornou-se Key West, na Flórida. Ali, os sofisticados hidrofólios passaram boa parte da carreira em patrulhas costeiras, exercícios e operações contra o tráfico de drogas.
A ameaça das lanchas-mísseis soviéticas

O projeto nasceu no ambiente estratégico criado pela disseminação dos pequenos navios soviéticos armados com mísseis antinavio. Classes como Komar e Osa demonstravam que embarcações relativamente baratas poderiam ameaçar destróieres, fragatas, navios anfíbios e comboios em águas costeiras.
A ameaça ganhou credibilidade em outubro de 1967, quando o destróier israelense Eilat foi afundado por mísseis P-15 Termit — conhecidos no Ocidente como SS-N-2 Styx — lançados por lanchas egípcias. A ação mostrou que pequenos combatentes dotados de armas guiadas poderiam impor riscos desproporcionais às grandes unidades de superfície.
No início da década de 1970, as marinhas da OTAN estudaram um novo patrulheiro rápido capaz de responder a esse tipo de ameaça. A opção pelo hidrofólio foi influenciada pela combinação de velocidade, comportamento no mar e capacidade de transportar sensores e armamentos relativamente pesados. Alemanha Ocidental e Itália participaram das discussões, enquanto outros integrantes da aliança acompanharam o projeto como observadores.
A ideia era criar uma força de pequenos combatentes que pudesse deslocar-se rapidamente entre pontos de estrangulamento, ilhas, bases avançadas e rotas costeiras. Em uma guerra europeia, esses navios poderiam realizar emboscadas, proteger comboios, vigiar passagens marítimas e atacar forças soviéticas que tentassem operar nos flancos da OTAN.
Do Tucumcari ao programa PHM
A base tecnológica do programa foi o USS Tucumcari, hidrofólio experimental de aproximadamente 60 toneladas construído pela Boeing. A embarcação demonstrou o emprego de asas totalmente submersas, propulsão por jato d’água e sistemas automáticos de controle para manter o casco estável acima das ondas.
Em 1968, após as experiências iniciais com pequenos hidrofólios, a Marinha começou a estudar um sistema de patrulha maior. A conclusão era que uma embarcação de alta velocidade, autonomia moderada, boa estabilidade e pequena tripulação poderia complementar os navios convencionais a um custo inferior por unidade.
A futura classe Pegasus seria, segundo os responsáveis pelo programa, uma ampliação direta do conceito do Tucumcari. O deslocamento cresceria para a faixa de 170 toneladas na concepção inicial, permitindo a instalação de mísseis, canhão, radar de direção de tiro e equipamentos de comunicação. A Boeing recebeu em novembro de 1971 um contrato para desenvolver o projeto, produzir planos técnicos e adquirir componentes de longo prazo.
Desde o início, porém, o programa carregava sinais de risco. Um relatório do órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos, o então General Accounting Office — atualmente Government Accountability Office — advertiu em 1972 que os planos de aquisição estavam incompletos. Ainda não estavam plenamente definidos os sensores, armamentos e testes operacionais que deveriam anteceder a produção. O programa previsto ultrapassaria US$ 500 milhões em valores da época.
O plano de uma grande frota comum da OTAN também não se concretizou. As necessidades nacionais divergiam, enquanto Alemanha Ocidental e Itália desenvolveram ou adotaram soluções próprias. A Marinha dos EUA, tradicionalmente concentrada em porta-aviões, cruzadores, destróieres e submarinos oceânicos, acabou reduzindo sua ambição a apenas seis hidrofólios.
Um navio que “decolava” sobre a água
Em baixa velocidade, o Pegasus navegava como uma embarcação convencional, com o casco apoiado na superfície. Nessa configuração, motores diesel acionavam jatos d’água e proporcionavam deslocamentos econômicos, embora relativamente lentos.
Para atingir alta velocidade, o navio baixava suas estruturas com asas submersas e acionava uma turbina a gás General Electric LM2500. Conforme acelerava, a sustentação hidrodinâmica elevava o casco para fora da água. Apenas os suportes e os hidrofólios permaneciam submersos, reduzindo drasticamente o arrasto provocado pelas ondas.
O processo lembrava uma decolagem. Sistemas automáticos ajustavam continuamente as superfícies de controle para manter altura, inclinação e estabilidade. Com o casco fora da água, o navio podia ultrapassar 50 nós — cerca de 93 km/h — e conservar desempenho elevado mesmo em condições de mar que limitariam lanchas convencionais.
A classe media aproximadamente 40,5 metros de comprimento e deslocava cerca de 214 toneladas carregada, segundo os registros históricos da Marinha. Sua tripulação era de apenas 24 militares, embora outras configurações publicadas indiquem pequenas variações no número de oficiais e praças.
Poder de fogo de uma embarcação muito maior
O armamento era excepcional para um navio dessas dimensões. Dois lançadores quádruplos instalados na popa acomodavam até oito mísseis RGM-84 Harpoon. Desenvolvido para ataques além do horizonte, o Harpoon utilizava navegação inercial durante a fase inicial e radar ativo na aproximação final.
Um único Pegasus podia, teoricamente, lançar uma salva capaz de saturar as defesas de um navio inimigo. A concentração de oito mísseis em uma plataforma de pouco mais de 200 toneladas oferecia uma densidade de poder de fogo superior à de muitos combatentes de superfície consideravelmente maiores.
Na proa ficava um canhão Mk.75 de 76 mm, versão norte-americana do OTO Melara Compact. A arma podia ser empregada contra navios, aeronaves e alvos costeiros, com cadência próxima de 80 tiros por minuto. O sistema de direção de tiro Mk.92 das cinco unidades de produção era derivado de equipamentos empregados em fragatas.
O projeto apresentava, contudo, uma limitação característica dos pequenos navios-mísseis: os Harpoon podiam alcançar alvos além da distância de detecção proporcionada pelos sensores da própria embarcação. Para explorar plenamente o alcance dos mísseis, o PHM dependeria de informações fornecidas por aeronaves, helicópteros, navios maiores ou sistemas costeiros.
A ausência de uma defesa antiaérea de médio alcance também deixaria os hidrofólios vulneráveis diante de aeronaves, helicópteros de ataque ou mísseis lançados a longa distância. Sua sobrevivência dependeria da velocidade, da surpresa, da dispersão e do emprego coordenado com outras forças.
Pegasus, Hercules, Taurus, Aquila, Aries e Gemini

O primeiro navio, USS Pegasus (PHM-1), foi lançado em novembro de 1974 e incorporado à Marinha em 9 de julho de 1977. A extensa fase de testes fez com que houvesse um intervalo considerável antes da formação completa do esquadrão.
As outras cinco unidades — USS Hercules, USS Taurus, USS Aquila, USS Aries e USS Gemini — foram construídas pela Boeing em Renton, no estado de Washington, e incorporadas entre 1981 e 1982. Os nomes remetiam a figuras e constelações da mitologia.
Os seis navios integraram o Hydrofoil Special Trials Unit, posteriormente reorganizado como Patrol Combatant Missile Hydrofoil Squadron 2, baseado em Key West. A posição permitia acesso ao Golfo do México, ao estreito da Flórida, ao Caribe e às áreas de treinamento próximas de Porto Rico.
A expectativa de uma força amplamente distribuída pela OTAN havia desaparecido. A Marinha norte-americana possuía agora uma pequena unidade especializada, instalada longe do provável cenário de confronto com a União Soviética.
Da guerra naval à perseguição de traficantes
A missão que deu maior visibilidade operacional aos PHM foi o combate ao narcotráfico. Sua velocidade permitia interceptar embarcações rápidas utilizadas para transportar drogas entre o Caribe, as Bahamas e a costa da Flórida.
Os hidrofólios operavam em cooperação com a Guarda Costeira, muitas vezes embarcando equipes especializadas que possuíam autoridade legal para abordar e revistar embarcações suspeitas. A Marinha fornecia sensores, velocidade e capacidade de permanência; a Guarda Costeira realizava as ações policiais.
O USS Aries, por exemplo, participou de operações antinarcóticos poucos meses depois de chegar a Key West. Em 1983, realizou sucessivas missões com destacamentos da Guarda Costeira. Entre janeiro e março de 1987, passou um total de 33 dias envolvido em patrulhas de interdição de drogas.
Os navios também participaram de exercícios da frota, operações com países latino-americanos e testes táticos. Fragatas podiam atuar como navios de apoio, fornecendo combustível, manutenção, comunicações e informações de sensores. Em 1984, a fragata USS Estocin serviu como “navio-mãe” para Gemini, Pegasus e Aquila durante um exercício próximo de Porto Rico.
O emprego policial expôs uma contradição. Um sistema concebido para disparar salvas de Harpoon contra combatentes soviéticos estava sendo usado principalmente para alcançar pequenas embarcações de contrabandistas. A velocidade continuava valiosa, mas grande parte de seu sofisticado poder de fogo tornava-se desnecessária para a missão cotidiana.
Velocidade tinha preço
A tecnologia dos hidrofólios impunha uma logística própria. Turbinas, jatos d’água, estruturas móveis, sistemas automáticos de controle e asas submersas exigiam manutenção especializada. Danos ou desgaste nos suportes e superfícies de controle não podiam ser tratados como reparos comuns de um casco convencional.
O consumo de combustível aumentava significativamente durante a navegação sobre os hidrofólios. A autonomia, embora adequada para operações regionais, limitava deslocamentos prolongados e aumentava a dependência de bases ou navios de apoio. Estudos da época chegaram a propor fragatas como unidades logísticas capazes de estender o raio de ação de grupos de PHM.
A frota de apenas seis navios agravava a equação. Treinamento, peças, instalações e equipes técnicas precisavam ser mantidos para uma classe pequena, sem a economia de escala associada aos grandes programas navais.
As críticas ao gerenciamento surgiram ainda durante a construção. Em 1979, o GAO concluiu que o preço do contrato das cinco unidades de produção havia sido superestimado em cerca de US$ 336 mil e que mudanças nos requisitos poderiam gerar aproximadamente US$ 624 mil em custos adicionais sem a correspondente redução contratual. Os valores eram pequenos diante do programa total, mas ilustravam os problemas de controle de custos que acompanhavam o PHM.
O fim da Guerra Fria encerra a experiência
A dissolução da União Soviética eliminou o adversário que justificara a criação dos hidrofólios. Ao mesmo tempo, a Marinha enfrentava cortes orçamentários e iniciava uma grande redução de sua frota.
Manter seis navios especializados, caros e com infraestrutura exclusiva tornou-se difícil de justificar. Suas missões antinarcóticos poderiam ser executadas por navios da Guarda Costeira, patrulheiros convencionais, aeronaves e outras unidades navais. Já o ataque a navios inimigos poderia ser realizado por submarinos, aeronaves, destróieres e fragatas com maior autonomia e capacidade de sobrevivência.
Em junho de 1993, os seis hidrofólios deixaram Key West em formação, dirigindo-se à Base Anfíbia Naval de Little Creek, na Virgínia. Pegasus, Hercules, Taurus, Aquila, Aries e Gemini foram desativados em 30 de julho de 1993, encerrando uma experiência operacional iniciada 16 anos antes.
A maioria foi posteriormente vendida e desmontada. O USS Aries sobreviveu e tornou-se o núcleo do USS Aries Hydrofoil Museum, no Missouri, dedicado à preservação da história dos hidrofólios militares e civis.■

| Informações gerais | |
|---|---|
| Designação | Classe Pegasus |
| Classificação | Patrol Combatant Missile Hydrofoil — PHM |
| Tipo | Navio-patrulha de ataque rápido com hidrofólios e mísseis antinavio |
| País | Estados Unidos |
| Operador | Marinha dos Estados Unidos — U.S. Navy |
| Construtor | Boeing Marine Systems, Renton, estado de Washington |
| Unidades construídas | Seis |
| Período de serviço | 1977–1993 |
| Base principal | Naval Air Station Key West, Flórida |
| Missões | Ataque contra navios de superfície, patrulha costeira, vigilância, escolta, operações especiais e interdição do narcotráfico |
| Dimensões e deslocamento | |
| Deslocamento carregado | Aproximadamente 241 toneladas; algumas fontes oficiais registram 214 toneladas longas para unidades da classe |
| Comprimento | Aproximadamente 40,5 metros |
| Boca do casco | Aproximadamente 8,6 metros |
| Largura com hidrofólios estendidos | Aproximadamente 14,5 metros |
| Calado com hidrofólios recolhidos | Aproximadamente 2,3 metros |
| Profundidade com hidrofólios estendidos | Aproximadamente 7,1 metros |
| Material do casco | Liga de alumínio |
| Propulsão e desempenho | |
| Sistema de propulsão | Propulsão combinada a diesel e turbina a gás, utilizando hidrojatos |
| Propulsão com o casco na água | Dois motores diesel MTU 8V331, acionando dois hidrojatos independentes |
| Potência dos motores diesel | Aproximadamente 630–670 hp por motor, conforme a unidade e a configuração |
| Propulsão sobre os hidrofólios | Uma turbina a gás General Electric LM2500, acionando um sistema de hidrojato Aerojet de alto fluxo |
| Potência da turbina | Aproximadamente 18.000 shp |
| Velocidade máxima sobre os hidrofólios | Até aproximadamente 51 nós — cerca de 94 km/h |
| Velocidade com o casco na água | Aproximadamente 11 nós |
| Alcance sobre os hidrofólios | Cerca de 700 milhas náuticas a 42 nós |
| Alcance com o casco na água | Cerca de 1.700 milhas náuticas a 9–10 nós |
| Condições de mar | Capacidade de operação sobre os hidrofólios em condições de mar de até aproximadamente estado 5 |
| Armamento | |
| Mísseis antinavio | Oito mísseis RGM-84 Harpoon em dois conjuntos de quatro lançadores |
| Canhão principal | Um canhão naval Mk.75 OTO Melara Compact de 76 mm/62 calibres |
| Munição do canhão | Aproximadamente 400 projéteis de 76 mm |
| Defesa antiaérea | Limitada ao canhão de 76 mm, às contramedidas eletrônicas e aos lançadores de despistadores |
| Sensores e sistemas de combate | |
| Radar de busca e navegação | Radar de busca de superfície e navegação da família AN/SPS-63 ou AN/SPS-64, conforme a unidade e a referência |
| Direção de tiro do PHM-1 | Sistema Mk.94 Mod.1 |
| Direção de tiro dos PHM-2 a PHM-6 | Sistema Mk.92 Mod.1 |
| Guerra eletrônica | Receptores de apoio eletrônico e sistemas de alerta contra emissões de radar |
| Contramedidas | Lançadores de chaff e despistadores Mk.34 RBOC ou sistemas equivalentes |
| Tripulação e unidades da classe | |
| Tripulação | Aproximadamente 21 a 24 militares |
| USS Pegasus | PHM-1 — incorporado em 1977 |
| USS Hercules | PHM-2 — incorporado em 1983 |
| USS Taurus | PHM-3 — incorporado em 1981 |
| USS Aquila | PHM-4 — incorporado em 1982 |
| USS Aries | PHM-5 — incorporado em 1982 |
| USS Gemini | PHM-6 — incorporado em 1982 |
| Unidade preservada | USS Aries (PHM-5), preservado como navio-museu no Missouri |







Fantástico!
Uma dessas embarcações americanas, em um acidente, chegou a cortar uma Baleia ao meio…
Já assisti à uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça sobre a Baía de Guanabara enquanto eu estava dentro de um desses:
Era concorrente da Conerj nos anos 80 e durou até início dos anos 2000 se não me engano
Aerobarco, que foi substituído pelo (inacreditável) JumboCat (contém piada…), que hoje apodrece acorado em Paquetá.
Poderia se esquivar de um torpedo?