Projeto 1240 Uragan: o ‘navio voador’ soviético que fazia mais de 60 nós
Conhecido pela OTAN como classe Sarancha, o MRK-5 combinava enormes hidrofólios de titânio, turbinas a gás e um armamento comparável ao de navios muito maiores. A extraordinária complexidade, porém, impediu sua produção em série
Durante a Guerra Fria, a União Soviética desenvolveu alguns dos projetos navais mais incomuns de seu tempo. Submarinos com cascos de titânio, ekranoplanos capazes de voar rente ao mar e embarcações de ataque extremamente velozes surgiram de uma indústria disposta a explorar soluções técnicas radicais para compensar limitações estratégicas e enfrentar as grandes forças-tarefa do Ocidente.
Entre essas experiências estava o Projeto 1240 Uragan, conhecido pela OTAN como classe Sarancha. Tratava-se de um pequeno navio lança-mísseis apoiado sobre enormes hidrofólios, capaz de erguer quase todo o casco para fora da água e avançar a uma velocidade superior a 60 nós — cerca de 111 km/h.
Apenas uma unidade foi construída: o MRK-5. Apesar de seu desempenho impressionante e de um poder de fogo incomum para uma embarcação de pouco mais de 400 toneladas, o navio permaneceu como um protótipo solitário, vítima da própria sofisticação.
A revolução dos pequenos barcos lança-mísseis
O Projeto 1240 nasceu em uma época em que os mísseis antinavio estavam alterando profundamente o equilíbrio do combate naval. A União Soviética havia sido pioneira na instalação dessas armas em pequenas embarcações costeiras, concebidas para lançar ataques rápidos contra navios muito maiores.
A importância dessa combinação ficou evidente em outubro de 1967, quando lanchas egípcias da classe Komar, de fabricação soviética, afundaram o destróier israelense Eilat com mísseis P-15. Foi a primeira destruição de um navio de superfície por mísseis antinavio em combate e demonstrou que embarcações pequenas, rápidas e relativamente baratas poderiam ameaçar unidades de elevado valor.
A Marinha Soviética procurou então ampliar ainda mais a mobilidade dessas plataformas. Uma das soluções consideradas foi combinar mísseis de grande alcance com a tecnologia dos hidrofólios — asas submersas que, ao gerar sustentação hidrodinâmica, levantam o casco e reduzem drasticamente a resistência provocada pela água.
O desenvolvimento do Uragan começou em 1964 no TsKB-5, atual Escritório Central de Projetos Marítimos Almaz, sob a direção do engenheiro Vadim Mikhailovich Burlakov. O objetivo era criar um navio de ataque com hidrofólios profundamente submersos e controlados automaticamente, capaz de conservar estabilidade mesmo em velocidades muito elevadas.
Tecnologia testada em um navio civil
Antes da construção do navio militar, os projetistas soviéticos desenvolveram o Typhoon, uma embarcação civil de passageiros movida por turbinas a gás e equipada com hidrofólios controlados automaticamente.
Concluído em 1969, o Typhoon foi empregado comercialmente durante a década de 1970. A embarcação podia manter cerca de 44 nós e alcançar aproximadamente 50 nós em condições favoráveis. Sua operação permitiu estudar o comportamento das asas, dos sistemas automáticos de estabilização e da propulsão em uso cotidiano.
Os dados obtidos foram incorporados ao Projeto 1240. O resultado seria um navio muito maior e mais pesado do que os hidrofólios militares então existentes, projetado para transportar não apenas mísseis leves, mas armamentos encontrados normalmente em corvetas.
Um navio apoiado sobre asas gigantescas
A característica mais visível do Uragan era seu conjunto de hidrofólios. As asas dianteiras atravessavam parcialmente a superfície da água, enquanto o conjunto de popa permanecia totalmente submerso durante a navegação em alta velocidade.
As asas eram produzidas em liga de titânio, enquanto grande parte do casco utilizava uma liga de alumínio e magnésio. Quando recolhidos, os enormes hidrofólios projetavam-se para os lados do navio em ângulos próximos de 45 graus, conferindo ao MRK-5 uma aparência que não se confundia com a de qualquer outra embarcação.
Uma rede automática controlava a sustentação, a altura do casco sobre a água, a inclinação longitudinal e o balanço lateral. O sistema precisava reagir continuamente às ondas e às mudanças de velocidade para impedir que o navio perdesse estabilidade.
O Projeto 1240 tinha cerca de 50 metros de comprimento de casco, ultrapassando 56 metros quando considerados os componentes externos. O deslocamento carregado chegava a aproximadamente 432 toneladas. Com os hidrofólios recolhidos e projetados para os lados, sua largura total podia ultrapassar 20 metros.
À época, era considerado um dos maiores — e possivelmente o maior — navio militar de hidrofólios já construído.
Turbinas derivadas de tecnologia aeronáutica
Para alcançar a velocidade pretendida, o Uragan recebeu duas turbinas a gás M-10, com aproximadamente 18 mil cavalos de potência cada. As turbinas transmitiam sua força aos propulsores instalados nas colunas do hidrofólio de popa.
As unidades propulsoras marítimas teriam sido desenvolvidas a partir da família de motores relacionada ao NK-12, o poderoso turboélice utilizado pelo bombardeiro estratégico soviético Tu-95. A potência combinada alcançava cerca de 36 mil cavalos, um valor extraordinário para um navio com pouco mais de 400 toneladas.
Quando navegava lentamente, com o casco apoiado diretamente sobre a água, o MRK-5 utilizava dois motores diesel ligados a jatos d’água. Esse sistema permitia manobrar no porto e navegar sem acionar o complexo conjunto de turbinas e hidrofólios.
Nos testes, o navio atingiu entre 57 e 61 nós. Mesmo em condições de mar relativamente adversas, teria conseguido manter velocidades próximas de 50 nós. Seu alcance variava conforme o regime de navegação: cerca de 700 milhas náuticas em alta velocidade e até 1.500 milhas em deslocamento lento. A autonomia logística era de aproximadamente cinco dias.
Armamento de corveta em um casco de hidrofólio
Apesar das dimensões limitadas, o Uragan transportava uma poderosa combinação de armas ofensivas e defensivas.
Seu principal armamento era composto por quatro mísseis antinavio P-120 Malakhit, designados SS-N-9 Siren pela OTAN. As armas ficavam instaladas em dois lançadores duplos posicionados nas laterais da superestrutura.
O Malakhit era um pesado míssil de cruzeiro subsônico, com alcance máximo divulgado de aproximadamente 150 quilômetros. Concebido para atacar grandes navios de superfície, podia transportar uma ogiva convencional de grande poder destrutivo ou, no contexto da doutrina soviética, uma carga nuclear.
Para defesa aérea, o navio contava com o sistema Osa-M, designado SA-N-4 Gecko pela OTAN. Um lançador duplo retrátil instalado à frente da superestrutura era alimentado por um paiol com até 20 mísseis.
A defesa aproximada era complementada por um canhão rotativo AK-630M de 30 mm, com seis tubos e cadência de milhares de disparos por minuto. O conjunto permitia enfrentar aeronaves, mísseis que conseguissem atravessar a defesa principal e pequenas embarcações de superfície.
Assim, uma plataforma com deslocamento inferior ao de muitas patrulheiras transportava quatro grandes mísseis antinavio, um sistema antiaéreo naval e uma arma automática de defesa de ponto.
Do Báltico ao Mar Negro
A construção do único exemplar começou em Leningrado no início da década de 1970. O MRK-5 foi lançado em 1973 e iniciou seus testes no Báltico alguns anos depois. Em 30 de dezembro de 1977, foi formalmente incorporado à Marinha Soviética.
O ano de 1978 foi dedicado à operação experimental. Depois da conclusão dessa fase, o navio foi transferido do Báltico para o Mar Negro por meio da rede de rios e canais soviéticos.
O MRK-5 chegou a Sevastopol em novembro de 1979 e foi incorporado à 166ª Divisão da 41ª Brigada de Barcos-Mísseis da Frota do Mar Negro. Durante sua carreira, realizou pelo menos dois lançamentos do sistema Malakhit e, segundo registros russos, apresentou bom comportamento no mar.
A velocidade tinha um preço
O desempenho do MRK-5 não foi suficiente para justificar a construção de outros navios. O Projeto 1240 reunia ligas metálicas caras, turbinas especiais, colunas propulsoras móveis, hidrofólios de grandes dimensões e um sistema automático de controle extremamente sofisticado.
Toda essa tecnologia exigia manutenção especializada e pessoal muito bem treinado. Fontes russas indicam que a operação era particularmente difícil para uma marinha cuja tripulação era formada, em grande parte, por marinheiros conscritos que permaneciam pouco tempo no serviço. Falhas de operação e manutenção poderiam provocar avarias em equipamentos exclusivos, sem equivalentes no restante da frota.
Além disso, os grandes hidrofólios aumentavam a largura do navio e exigiam instalações especiais de manutenção. A Frota do Mar Negro chegou a utilizar um pequeno dique flutuante desenvolvido especificamente para apoiar o MRK-5, evidência da infraestrutura adicional exigida pelo projeto.
Na prática, uma corveta convencional poderia oferecer maior alcance, melhor habitabilidade, mais espaço para sensores e armamentos e manutenção menos complexa. A enorme velocidade do Uragan era uma vantagem tática, mas não compensava integralmente seus custos e limitações.
Um futuro que não se concretizou
O MRK-5 permaneceu em serviço em Sevastopol até 1990. Em 19 de abril daquele ano, foi retirado das listas da Marinha para desarmamento e descarte. Dois anos depois, quando já estava fora de serviço, sofreu um incêndio e afundou em águas rasas na baía de Streletskaya. O casco foi posteriormente recuperado e desmontado.
Seu desaparecimento encerrou um dos capítulos ousados da engenharia naval soviética. O Projeto 1240 não originou uma classe operacional, não foi exportado e não participou de combates. Mesmo assim, permanece como exemplo de uma época em que velocidade extrema e poder de fogo concentrado eram vistos como possíveis respostas à superioridade das grandes frotas de superfície.
O Uragan demonstrou que era tecnicamente possível fazer um navio de mais de 400 toneladas “voar” sobre o mar a 60 nós carregando quatro pesados mísseis antinavio. Também revelou os limites dessa filosofia: quanto mais radical a solução, maiores eram os custos, as exigências logísticas e as dificuldades para transformá-la em uma capacidade militar sustentável.■









Uma extravagancia cara…Existem estimativas de que em certos períodos a URSS chegou a utilizar até 25% do seu PIB na área de defesa, não foi a toa que quebrou…
E hoje vemos algo similar, ainda que em bem menor escala, enquanto os países da OTAN se esforçam para aumentar seus orçamentos militares para 5% .
A China que manteve por muito tempo seu orçamento militar/defesa em torno de 1,5% de seu PIB e que nos últimos anos cresceu até 1,7%…este ano de 2026 projeta uma pequena redução para 1,6% do PIB.
Essa história do percentual oficial gasto pela China é bem questionável frente aos avanços qualitativos e quantitativos.
Muitos analistas dizem que o percentual é bem maior, mas os chinas divulgam bem menos no intuito de evitar se porem numa corrida armamentista com os EUA.
Faz algum sentido.
Falta entendimento nestes “analistas”, se fizer as contas o valor do orçamento de defesa da China de 1,7% do PIB é grande, só fica abaixo do americano ↓ China: –PIB nominal – estimativa de 2026 –> US$ 20,852 trilhões -*PIB PPC – estimativa de 2026 –> US$ 44,295 trilhões Valor do orçamento de defesa da China em 2026: Fazendo a conta pelo PIB nominal: 1,7% = US$ 352,4 bilhões Fazendo a conta pelo PIB PPC: 1,7% = US$ 753 bilhões *(O PIB PPC de um país representa uma estimativa do poder de compra, dentro do país, do valor em dólares do… Read more »
Com o PIB de 20,8 tri, a China nesse ritimo injeta quase 315bi em defesa por ano. É muita grana.
Com as tecnologias atuais, um drone não poderia utilizar este conceito? Pequeno e muito rápido?
O Brasil precisa de embarcações desse tipo pra proteção do litoral.
retornando a época em que desenhava alternativas hipoteticas de baixo custo para o Brasil…
Uma canhoneira ou missileira, é facilmente visivel via radar…e num litoral aberto como o Brasileiro , mesmo esta velocidade ai da materia é muito pequena para se aproximar ou se esconder…
Então, a melhor alternativa é mergulhar abaixo n´água…um barco submersivel (não necessita ser um submarino autentico, apenas esconder-se abaixo da lamina)…
Assim, uma missileira pequena ( pequena para poder ser reabastecida e rearmada sem infraestrutura de portos), poderia deslocar-se de forma rapida na superfície até proximo a zona de conflito e daí sim, mergulha e parte lenta e silenciosamente para a patrulha e ataque…
Não é uma embarcação para mais de 7 dias de missão…ela deveria usar armas de saturação e diminuta tripulação…

Uma sugestão para o site. Poderiam como agora pública as diversas classes desses navios da guerra fria tanto do lado americano como soviético.
Tai algo que a China não mostrou até hoje no setor militar, criatividade e saidas diferentes para os desafios de engenharia que a URSS teve nba época.
A China, junto com os EUA, são os países que mais investem (no total) em educação e P&D.
Avança de forma absurdamente rápida em praticamente todos os setores, com ênfase nos mais relacionados com tecnologia..
A Rússia não chegou nem perto de ser uma potência, no nível amplo e não restrito ao militar, que a China chegou. E esta ainda continua avançando.
E, importante, a China não possui as reservas de Petróleo e Gas Natural que a Rússia tem.
Parece uma nave extraterrestre, emocionante ver essas fotos, a URSS realmente era diferenciada, tinha coisas maravilhosas.
Nave estraterrestre?
Já ouviu falar do Monstro do Mar Cáspio? Aquilo sim parecia coisa de ET.
Nos anos 70, os italianos também desenvolveram um barco de patrulha bem interessante usando esse sistema: a classe sparviero. Uma embarcação pequena, 22 metros,60 toneladas, velocidade máxima 93 km/h e autonomia na casa de uns 700 km em velocidade máxima. Poder de fogo bom para o tamanho: um canhão Otobreda 76 mm e dois mísseis antinavio Otomat. Os japoneses compraram 3 ou 4 unidades, mas preferiram equipar a versão deles com um Vulcan M61 e dois mísseis Type-90.