Submarino Type 209 da África do Sul

Submarino Type 209 da África do Sul

Oferta da TKMS prevê três submarinos convencionais, treinamento e apoio logístico; financiamento alemão pode ser decisivo para um país sem capacidade submarina operacional desde a perda do ARA San Juan

A proposta alemã para fornecer três submarinos Type 209NG à Armada Argentina voltou ao centro do debate sobre a reconstrução da capacidade submarina do país. Apresentada pela TKMS, a oferta combina uma evolução modernizada de um projeto conhecido pelos submarinistas argentinos com condições de financiamento apoiadas pelo governo alemão.

A Argentina analisa atualmente duas alternativas principais: três submarinos Type 209NG oferecidos pela TKMS e três unidades da classe Scorpène, propostas pela francesa Naval Group. A decisão permanece indefinida e deverá depender tanto das características operacionais das plataformas quanto das condições de crédito, dos custos de sustentação e da disponibilidade orçamentária do governo argentino.

Alemanha oferece três submarinos e financiamento de longo prazo

Nos termos divulgados pela Reuters em janeiro de 2025, a proposta alemã abrangia a construção e a entrega de três submarinos Type 209, além de peças de reposição e treinamento das tripulações argentinas. O valor estimado do contrato era de aproximadamente €2,2 bilhões, com entregas projetadas para 2034 e 2035.

O comitê de orçamento do Parlamento alemão avaliava conceder garantias estatais de até €4,1 bilhões para respaldar a operação. Esse limite não representava necessariamente o preço dos submarinos, mas a cobertura financeira máxima associada aos riscos da exportação e ao financiamento de longo prazo. Segundo o documento consultado pela Reuters, a concessão de crédito com prazos ampliados era uma condição para que Buenos Aires pudesse escolher a TKMS.

A oferta alemã, portanto, não se apoia apenas no desempenho do submarino. Para a Argentina, que enfrenta restrições fiscais e dificuldades históricas para financiar grandes projetos militares, as garantias soberanas e as condições de pagamento poderão ter peso semelhante ao das especificações técnicas.

Armada Argentina está sem submarinos operacionais

A necessidade de uma decisão tornou-se crítica após a perda do ARA San Juan, desaparecido no Atlântico Sul em novembro de 2017 com 44 tripulantes. Desde então, a Armada Argentina não dispõe de um submarino em condições de cumprir patrulhas operacionais.

O ARA Salta, da classe Type 209, permanece impossibilitado de navegar e é utilizado apenas para treinamento estático no cais. Já o ARA Santa Cruz, irmão do San Juan e pertencente à classe TR-1700, não retornou ao serviço após um prolongado programa de reparos e modernização.

A preservação de instalações, doutrina e pessoal especializado não substitui a experiência adquirida no mar. A ausência prolongada de unidades operacionais compromete a formação de comandantes, operadores de sonar, técnicos, mantenedores e tripulações completas, tornando a recuperação futura mais complexa e dispendiosa.

Type 209NG moderniza um projeto conhecido

A designação Type 209NG identifica uma evolução contemporânea da família de submarinos diesel-elétricos que se tornou um dos maiores sucessos de exportação da indústria naval alemã.

Segundo as informações divulgadas sobre a oferta, a nova versão incorpora o sistema de combate ORCCA, sensores e atuadores atualizados, novos equipamentos de propulsão e mastros e superfícies de controle acionados eletricamente. O projeto também utiliza maior automação para elevar a segurança, a eficiência operacional e a capacidade de sobrevivência da embarcação.

Uma das características destacadas é a possibilidade de utilizar baterias convencionais de chumbo-ácido ou baterias de íons de lítio sem a necessidade de alterações estruturais significativas. Essa flexibilidade permitiria começar com uma configuração mais conservadora e incorporar novas soluções energéticas durante futuras modernizações.

O Type 209NG também é apresentado com grupos geradores diesel de nova geração, menor consumo energético e um sistema propulsivo concebido para reduzir a assinatura acústica. Em operações submarinas, o nível de ruído é um dos fatores fundamentais para evitar a detecção por sonares inimigos.

Custo menor vem acompanhado de limitações

A principal vantagem econômica do Type 209NG está associada ao seu porte mais compacto e à utilização de uma arquitetura derivada de uma família amplamente testada. Isso poderá reduzir os custos de aquisição, operação e infraestrutura quando comparados aos de submarinos convencionais maiores.

A dimensão reduzida, entretanto, também constitui uma limitação. O menor volume interno restringe a quantidade de combustível, baterias, provisões, armamentos e equipamentos que podem ser transportados, além de reduzir o espaço disponível para futuras modernizações.

Esse aspecto é particularmente relevante para a Argentina, cujo litoral, Zona Econômica Exclusiva e interesses no Atlântico Sul exigem longos deslocamentos e períodos prolongados de patrulha. Analistas navais argentinos defendem que a futura plataforma tenha vocação oceânica, autonomia elevada e condições adequadas de habitabilidade para missões distantes de suas bases.

O debate, portanto, não se limita à comparação entre preços. Buenos Aires terá de determinar se um submarino relativamente compacto atende plenamente às suas necessidades estratégicas ou se uma plataforma maior, como o Scorpène, justificaria um investimento inicial mais elevado.

Forte ligação histórica com a Argentina

ARA San Luis

A escolha do Type 209NG representaria uma retomada da relação histórica entre a Armada Argentina e a indústria submarina alemã.

O principal episódio dessa trajetória foi a atuação do ARA San Luis, um Type 209 argentino empregado durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Mesmo enfrentando problemas no sistema de geração elétrica e na direção de tiro, o submarino realizou uma patrulha de guerra de 39 dias contra a força-tarefa britânica.

A Argentina também operou os submarinos oceânicos TR-1700, igualmente desenvolvidos na Alemanha. O ARA San Juan e o ARA Santa Cruz pertenciam a essa classe, concebida para missões mais longas e com maior velocidade submersa.

Esse histórico significa que a Armada acumulou experiência doutrinária, operacional e técnica com submarinos de origem alemã. Parte desse conhecimento, contudo, corre o risco de desaparecer à medida que se prolonga o período sem operações regulares no mar.

Scorpène permanece como principal concorrente

A proposta rival é baseada no Scorpène da Naval Group. Em 2024, Argentina e França assinaram uma carta de intenção não vinculante relacionada à possível compra de três submarinos, mas o processo não resultou em contrato.

Em fevereiro de 2026, o próprio governo argentino informou que, embora continuasse analisando a necessidade de adquirir submarinos, não existia contrato nem compra formalmente em andamento. A declaração manteve abertas tanto a alternativa francesa quanto a alemã.

A opção francesa poderá receber apoio industrial e logístico do Brasil, que constrói submarinos derivados do Scorpène no âmbito do PROSUB. A participação brasileira poderia oferecer proximidade geográfica para construção, manutenção, treinamento e fornecimento de componentes, embora qualquer arranjo dependa da definição de financiamento e de entendimentos entre os governos envolvidos.

Decisão estratégica continua pendente

A eventual aquisição de três submarinos representaria um dos maiores programas militares argentinos das últimas décadas. Além da compra das embarcações, o investimento terá de contemplar torpedos, eventualmente mísseis, instalações em terra, simuladores, treinamento, peças sobressalentes e apoio técnico durante vários anos.

Mesmo depois da assinatura de um contrato, a recuperação da capacidade não será imediata. As entregas alemãs anteriormente projetadas para 2034 e 2035 indicam que a Argentina ainda enfrentaria um longo intervalo sem submarinos novos, exigindo medidas para preservar pessoal, treinamento e doutrina até a chegada das unidades.

A renovada oferta alemã recoloca o Type 209NG como uma opção de custo potencialmente mais controlado, com financiamento estatal e forte vínculo histórico com a Armada Argentina. Suas limitações de porte e autonomia, porém, precisarão ser confrontadas com as dimensões do Atlântico Sul e com a necessidade de realizar patrulhas oceânicas prolongadas.

Mais do que escolher entre uma proposta alemã e outra francesa, a Argentina terá de definir qual força submarina pretende manter nas próximas décadas — e, sobretudo, assegurar os recursos necessários para transformar sucessivas negociações em unidades efetivamente operacionais.




Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.
Subscribe
Notify of
guest

37 Comentários
oldest
newest most voted
karlbonfim

Aquela proposta da a naval-group de oferecer submarinos da Classe Scorpène, já começou a “fazer água e afundar”!!

Last edited 1 mês atrás by karlbonfim
Moriah

Agora sim… Scorpene para os hermanos, pelo jeito, só made in France.

João Furlan

Num mundo ideal na minha visão, o Governo Brasileiro se juntaria para propor a cessão do S-43 Almirante Karam pra Armada Agentina, de modo a condicionar a construção de outros vasos para eles em terras brasileiras, e já ‘aproveitaria’ esse gap para incluir novas unidades para a MB (ao menos +2 subs). Obviamente que nada disso acontecerá, a Argentina não terá plata para colocar o contrato, muito menos o Brasil tem a seriedade para tal empreitada.

Sequim

Pra que? A Armada argentina é problema da Argentina. A MB é problema do Brasil. Cada um que tome conta do seu quintal.

deadeye

Exato, e há uns meses a midia Argentina ainda acusou o Brasil de está em “expansionismo naval”

Last edited 1 mês atrás by deadeye
João Furlan

Faz parte do jogo, fazem barulho lá para verem se conseguem algo em troca, isso sempre houve, e sempre haverá. Sds

Moriah

Nesse caso, faz mais sentido o IKL 209 feito na Alemanha.

João Furlan

Minha visão se baseia nos ganhos da cadeia produtiva no Brasil, empregos no Brasil e dinheiro injetados na economia brasileira por terceiros, ganhos esses que também seriam muito bem aproveitados pela MB, criando escala produtiva. Sempre criticamos a não continuidade dos projetos militares no Brasil, já que o Governo Brasileiro não põe encomendas ele, que faça um bom trabalho diplomático e que use terceiros para dar continuidade nos investimentos. Claro que tudo isso era baseado em uma fantasia, sei que jamais ocorreria na prática.

Afonso Bebiano

Esse mundo ideal está muito distante da realidade.

Carlos Campos

sou favorável, além de receber o pagamento em Peso.

Camargoer.

Carlos,

O Brasil e a Argentina possuem um acordo bilateral de compensação… os argentinos pagam e rece em em peso e os brasileiros pagam e rerecem em reais por meio de uma cãmara de compensação

Esta câmara foi uma das vantagens do acordo Mercosul que desdolarizou grande parte do comércio entre os dois país. O acordo automotivo é substancialmente baseado nesta câmara de compensação.

Fernando Vieira

Graças a isso eu pude ir a Mendoza ano passado e pagar meus vinhos no Pix.

Palpiteiro

Inclusive já podem pagar em Pix

Luís Henrique

Essa ideia é muito bom mas só tem chances em caso de mudança de governo aqui.
Flavio ganhando, ele convence o Milei e fazem a parceria.
Com o governo atual, esquece, Milei não vai comprar nada.

Fernando Vieira

A Argentina agora não tem dinheiro, não acho que Milei vá querer comprar submarinos agora.

E a Argentina também é uma democracia, inevitavelmente haverá eleições lá também e podem trocar o governo.

Relações comerciais entre países são política de Estado, não partidária. As pessoas podem não entender isso, mas governos devem saber disso. Tomara que os governos do Brasil e da Argentina saibam.

Apesar de estarmos vivendo em uma época em que parece que os líderes mundiais se comportam como crianças mimadas.

Last edited 1 mês atrás by Fernando Vieira
deadeye

Três submarinos convencionais, caso saia do Papel, enquanto a MB com apenas 4 convencionais e uma ZEE maior, ehhh Alvaro Alberto..

Heli

O que ainda é muito pouco para o tamanho do nosso mar territorial. 4 Riachuelos, supondo 2 em manutenção, sobrariam 2 para esse pequeno mar. O nucleare então nem se fala, imagine ele parado por 2 anos para terça do combustível do reator e manutenção pesada. Por último, imagine um Riachuelo saindo do RJ para patrulha lá no mar do Amapá, quantos dias de viajem apenas para chegar na zona de patrulha.

Carlos Campos

se vier com baterias de iosn de litio seria um ótimo sub

Moriah

Número exato dos IKL que vimos virar panela no Rio de Janeiro…

Dagor Dagorath

Um peso argentino, neste exato momento, está cotado a 0,00059€.

Acho que os alemães querem experimentar um calote.

Bernardo

Um iene vale menos que um real. O endividamento do Japão é 300%. Pergunta a um alemão do ministério da economia quem tem mais risco de tomar calote: quem compra título do Brasil ou do Japão? Valor de moeda não quer dizer muita coisa.

Dagor Dagorath

O Japão tem mais de US$ 1 trilhão de reservas internacionais de alta rentabilidade enquanto a Argentina tem cerca de US$ 35 bilhões, dos quais um volume de 60% a 70% derivam de empréstimos.

Nativo

Pois é! E o Brasil tem quase dez vezes mais reservas cambiais que os “hermanos”.

Palpiteiro

É isso, além de uma das maiores economias do mundo.

MMerlin

Sem dúvida a confiança no recebimento de títulos do Japão é muito maior. Não a toa boa parte desta confiança se reflete na sua taxa básica de juros, que justificado tem o valor constante próximo à 1% anual. Muito diferente do Brasil que está na faixa de 14,25%. Alguns acham que o valor deveria ser manipulado para permitir um investimento maior do Estado sem ter que gastar tanto com juros. Mas não conseguem entender que este mesmo Estado é uma máquina inchada que, apenas seu custo de funcionamento básico (folha e custos administrativos) somado aos programas sociais, 95% do arrecadado… Read more »

Last edited 1 mês atrás by MMerlin
Palpiteiro

Isso tem mudado no Japão. A taxa de juros aumentou e isso põe o mundo em risco com o carrytrade. O que aconteceu com décadas de juros zero, o mundo captou trilhões no mercado japonês e aplicou por exemplo mais de um trilhão de dólares em títulos americanos, e outros tantos no resto do mundo e ganham dinheiro com a diferença da taxa de juros. Hoje com a dívida japonesa chegando em 300% do PIB, e com a população envelhecendo e não nascendo japonês pra repor a população e bloqueio de imigração, não terá japonês pra pagar a dívida. Com… Read more »

Palpiteiro

Então, Ele está faltando da Argentina, não do Japão. E como observação, se o Japão valorizar sua moeda ou aumentar sua taxa de juros, ele quebra a economia mundial com a inversão do carrytrade. É como achar que a lua é uma banana.

Bernardo

A Moody’s subiu o rating (quanto maior o rating, menor o risco) da Argentina de CAA1 pra B3 com tendência positiva essa semana. Nós somos BAA1 (salvo engano). Japão É A1.
Pra um lugar que só conseguia emitir título com validade de, no máximo, 21 dias há bem pouco tempo, tão indo bem longe. Eu avisei de tudo isso.

Camargoer.

As agências colocava os bancos dos EUA no mais alto nível um dia antes da crise de 2008,

Deadeye

Sim. E quando uma agência de risco diminuía a nota de um Banco…. ele simplesmente ameaçava ir para concorrente e a Agência de risco mudava a nota.

Palpiteiro

Tô vendo que os dois assistiram the big short ou A grande aposta. Recomendo o filme.

BrunoFN

Olha . talvez preço e ”orgulho” dirão mais alto nesse caso .. a proposta da ”Naval-grup” envolve subs construido no Brasil ate sua manutenção seria feita aqui …os Scorpene seriam mais caro , capazes e o fato de o ”brasil” esta diretamente envolvido nisso pode ferir o ”orgulho’ argentino … sim , sao mesquinho a esse ponto .. alguem lembra do Guarani? entao ..e fato que com essa onda de ”’las Malvinas.. bla bla bla” o Reino Unido pode interferir de alguma forma .. e ”capar” alguma capacidades antes presentes na proposta inicial … o 209NG pode de fato ser… Read more »

sub urbano

Como conseguem comparar Brasil e Argentina? Brasil comprou Gripens novos, 5 subs scorpene, 4 tamandares (td indica q serão 8), 2000 Guaranis, projetou o produz o KC390, se aventura até em um submarino nuclear.

Piassarollo

Admiro teu otimismo, mas não precisa exagerar. Gripens novos,ok , só uma meia dúzia por enquanto e estamos longe de ter os sonhados 36. são 4 subs e 4 Tamandaré, e não temos 2000 Guaranis. Sub nuc, por enquanto só o sonho. Mas realmente estamos bem melhores que os Argentinos.

Jabulani Teimoso

Os alemães não temem tomar calote dos argentinos, vão em frente então. Kkkk

Palpiteiro

Essas empresas não vendem no crédito.

Bryan

Eu não entendo quase nada de submarino, apesar de ser uma máquina que me encanta. Mas o Scorpene é algo que me deixa com um pé atrás.