General dos EUA alerta Pentágono sobre falta de destróieres para defesa antimíssil
Comandante norte-americano na Europa teria advertido que, sem outro navio, poderá ser obrigado a priorizar a proteção do território dos Estados Unidos em detrimento da defesa de Israel
O principal comandante militar dos Estados Unidos na Europa alertou reservadamente o Pentágono de que a escassez de destróieres da Marinha está reduzindo sua capacidade de sustentar simultaneamente as missões de defesa antimíssil no Mediterrâneo e as demais responsabilidades estratégicas do comando.
Segundo autoridades ouvidas sob anonimato pelo The Washington Post, o general Alexus Grynkewich, chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos — EUCOM —, enviou uma notificação por escrito aos dirigentes do Departamento de Defesa informando que precisa de pelo menos mais um destróier. Sem esse reforço, o oficial teria de priorizar a defesa do território norte-americano em relação à proteção de Israel contra mísseis balísticos iranianos.
O Pentágono não comentou o conteúdo da comunicação, enquanto o EUCOM também não respondeu às solicitações feitas pelo jornal. Dessa forma, o alerta não foi divulgado oficialmente e seu conteúdo é conhecido por meio do relato de autoridades familiarizadas com a correspondência.
Guerra contra o Irã pressiona disponibilidade naval
A advertência ocorre durante o prolongamento do conflito com o Irã, que aumentou a procura por navios equipados para defesa aérea e antimíssil.
Os destróieres norte-americanos posicionados no Mediterrâneo Oriental vêm sendo empregados para detectar e interceptar mísseis lançados contra Israel. Esses navios também já enfrentaram ameaças provenientes dos houthis no Iêmen, grupo apoiado por Teerã.
Ao mesmo tempo, outra parcela considerável da frota está mobilizada no Mar da Arábia, no Golfo e no Mar Vermelho, onde os Estados Unidos conduzem operações relacionadas ao bloqueio de portos iranianos, à proteção da navegação no Estreito de Ormuz e à contenção das ações houthis contra navios mercantes.
Essa concentração de missões impõe pressão sobre tripulações, sistemas de bordo, estoques de interceptadores e cronogramas de manutenção. Segundo as autoridades citadas pelo jornal, problemas técnicos e trabalhos acumulados depois de meses de operações intensas reduziram a disponibilidade efetiva dos navios.
Cinco destróieres estão baseados em Rota

A Marinha dos Estados Unidos mantém atualmente cinco destróieres da classe Arleigh Burke permanentemente baseados na Estação Naval de Rota, na Espanha:
- USS Arleigh Burke;
- USS Oscar Austin;
- USS Roosevelt;
- USS Bulkeley;
- USS Paul Ignatius.
Esses navios integram a Força Naval Avançada na Europa e estão subordinados à Força-Tarefa 65 e ao 60º Esquadrão de Destróieres. Sua missão inclui apoiar a arquitetura integrada de defesa aérea e antimíssil da NATO e responder a crises nas áreas de responsabilidade dos comandos norte-americanos na Europa e na África.
Um sexto destróier equipado com uma versão atualizada do sistema Aegis deverá ser transferido para Rota ainda em 2026. A expansão de quatro para seis navios foi planejada para ampliar a cobertura contra mísseis balísticos e aumentar a capacidade de presença naval norte-americana no continente europeu.
Entretanto, o número nominal de navios não significa que todos estejam disponíveis simultaneamente. Cada unidade precisa passar por períodos de manutenção, treinamento, certificação da tripulação e reposição de armamentos antes de retornar ao mar.
Dois navios estavam no Mediterrâneo
De acordo com a situação naval informada ao Washington Post, os destróieres USS Paul Ignatius e USS Roosevelt encontravam-se no Mediterrâneo no momento em que o alerta foi feito.
Outras três unidades — USS Arleigh Burke, USS Bulkeley e USS Oscar Austin — estavam em Rota. O jornal não publicou detalhes sobre o estado de prontidão ou as necessidades de manutenção de cada navio, atendendo a um pedido das autoridades militares por razões de segurança operacional.
O Roosevelt havia retornado à Espanha em março após uma patrulha de seis meses e meio nas áreas de responsabilidade da 5ª e da 6ª Frotas. Apenas sete semanas depois, voltou a deixar Rota para uma nova missão, evidenciando a elevada cadência imposta às unidades avançadas.
O Bulkeley também completou uma patrulha de quatro meses em junho, durante a qual executou tarefas de defesa antissubmarino e defesa contra mísseis balísticos.
Onze destróieres estavam no Mar da Arábia
A pressão não se limita à força baseada na Europa. Segundo uma autoridade norte-americana citada pela reportagem, dois porta-aviões — USS George H.W. Bush e USS Abraham Lincoln — operavam no Mar da Arábia acompanhados por pelo menos 15 outros navios de guerra.
Desse total, 11 eram destróieres. Outro navio da mesma categoria, o USS Gonzalez, estava no Mar Vermelho, onde as forças norte-americanas acompanham a ameaça dos houthis à navegação comercial.
A distribuição mostra como um número elevado de unidades da classe Arleigh Burke foi concentrado no Oriente Médio, reduzindo a margem para responder a necessidades no Mediterrâneo, no Atlântico ou em outras regiões prioritárias.
Navios são essenciais para interceptar mísseis balísticos
Os destróieres Arleigh Burke são combatentes de superfície multimissão. Seu sistema de combate Aegis combina radares de varredura eletrônica, computadores de comando e controle e lançadores verticais Mk 41 capazes de receber diferentes tipos de armamentos.
As unidades preparadas para defesa antimíssil podem utilizar interceptadores da família Standard Missile. Em maio de 2025, por exemplo, o USS Bulkeley lançou um SM-3 contra um alvo representando um míssil balístico de médio alcance durante o exercício Formidable Shield. Na mesma campanha, o USS Thomas Hudner empregou um SM-6 contra uma ameaça balística de curto alcance.
Além da defesa antimíssil, os navios precisam permanecer preparados para guerra antiaérea, antissubmarino e de superfície, ataques com mísseis Tomahawk, escolta de porta-aviões e proteção das rotas marítimas.
Essa versatilidade transforma os destróieres em um dos meios mais requisitados da Marinha dos Estados Unidos — e também dificulta sua substituição por outros tipos de navio em situações de crise.
EUCOM precisa continuar atento à Rússia
O dilema de Grynkewich envolve mais do que a proteção de Israel. Como comandante do EUCOM e comandante supremo aliado da NATO na Europa, o general também é responsável por manter forças preparadas para responder a uma possível ação militar russa contra território da Aliança.
Os navios baseados em Rota fazem parte da defesa europeia contra ameaças balísticas e podem operar desde o Ártico até a costa africana. Seu desvio prolongado para o Oriente Médio reduz a flexibilidade disponível para missões diretamente relacionadas à segurança europeia.
A própria Marinha norte-americana descreveu recentemente os destróieres avançados como elementos centrais da segurança e da dissuasão regional. Em 2026, o comando responsável pela geração dessas forças precisou sustentar operações de combate, acelerar reparos e preparar simultaneamente navios para novos desdobramentos.
Alerta revela limites de uma frota global
Comunicações desse tipo fazem parte do processo pelo qual os comandantes apresentam riscos operacionais e disputam recursos militares limitados. Ainda assim, o teor do alerta demonstra que mesmo as maiores marinhas do mundo enfrentam dificuldades quando precisam sustentar simultaneamente operações prolongadas em diferentes teatros.
O problema não consiste apenas na quantidade total de destróieres, mas no número de navios que estão efetivamente armados, certificados, tripulados e disponíveis para emprego imediato.
A chegada da sexta unidade a Rota poderá ampliar a capacidade do EUCOM, mas não elimina o efeito das operações prolongadas sobre manutenção, tripulações e estoques de mísseis. Enquanto o conflito com o Irã continuar exigindo uma concentração excepcional de forças, o Pentágono terá de decidir quais regiões e aliados receberão prioridade em caso de novas crises.■


