Lockheed Martin e Marinha dos EUA testam ‘caçador de submarinos’ com inteligência artificial
Sistema SensorMAX processou dados acústicos coletados por sonoboias lançadas de helicópteros MH-60R e recebeu, ainda durante as missões, modelos de inteligência artificial retreinados em menos de cinco minutos
A Lockheed Martin e a Marinha dos Estados Unidos demonstraram durante a RIMPAC 2026 um sistema de inteligência artificial desenvolvido para acelerar a detecção e o acompanhamento de ameaças submarinas.
Denominada SensorMAX, a tecnologia utiliza inteligência artificial e aprendizado de máquina para analisar energia espectral e dados acústicos captados abaixo da superfície do mar. O sistema procura auxiliar as tripulações na identificação rápida de possíveis ameaças durante operações de guerra antissubmarino.
A demonstração foi realizada ao largo do Havaí com dois helicópteros MH-60R equipados com o sistema. Segundo a Lockheed Martin, a tecnologia pode ser retreinada rapidamente quando encontra um novo ruído ou uma assinatura acústica ainda não reconhecida, recebendo em seguida uma atualização transmitida durante a própria missão.
Sonoboias funcionaram como microfones submarinos
Durante os exercícios, os helicópteros MH-60R lançaram sonoboias no mar para captar os sons existentes no ambiente submarino.
Esses sensores funcionaram como microfones subaquáticos, enviando continuamente os dados acústicos ao SensorMAX. As informações também foram transmitidas para uma estação em terra, permitindo que operadores acompanhassem o ambiente e trabalhassem na classificação das assinaturas detectadas.
O sistema atuou como uma espécie de especialista portátil em sonar, monitorando permanentemente os sinais recebidos das sonoboias e auxiliando as tripulações na identificação de possíveis contatos.
A interface desenvolvida para o SensorMAX permite administrar simultaneamente até oito canais de vigilância provenientes de sonoboias. De acordo com a Lockheed Martin, essa capacidade representa o dobro daquela disponível nos sistemas anteriores mencionados pela empresa.
Inteligência artificial pode ser retreinada em menos de cinco minutos
Um dos principais elementos demonstrados na RIMPAC foi a capacidade de atualizar rapidamente o modelo de inteligência artificial utilizado pela aeronave.
Quando uma nova assinatura acústica era identificada, os operadores classificavam e rotulavam o som detectado. Em seguida, o modelo era retreinado com os novos dados, gerando um pequeno pacote de atualização.
Esse pacote era então transmitido por um enlace de dados criptografado diretamente para o helicóptero e para os demais elementos da força naval. Segundo a fabricante, cada ciclo de retreinamento levou menos de cinco minutos.
O processo foi estruturado em quatro etapas: captura do sinal, classificação, retreinamento e distribuição do novo modelo. A proposta é permitir que o sistema aprenda durante a própria operação, em vez de depender exclusivamente de atualizações realizadas depois do retorno da aeronave à base.
Atualizações transmitidas durante o voo
O SensorMAX conta com capacidade de atualização remota, conhecida pela sigla OTA, de over-the-air. Isso permite que os novos modelos de inteligência artificial sejam enviados à aeronave sem interromper a missão.
A Lockheed Martin trabalhou com a empresa FUSE Inc. na criação do mecanismo de distribuição segura e resiliente do software. A solução foi utilizada para transmitir aos helicópteros os modelos treinados e outros componentes dos sistemas de missão.
Na prática, a tripulação pode receber um classificador atualizado enquanto continua acompanhando os contatos submarinos. A empresa considera que essa capacidade poderá reduzir o intervalo entre a detecção inicial de uma ameaça e a preparação das ações necessárias para acompanhá-la ou enfrentá-la.
Demonstração envolveu ameaça submarina
Os dois MH-60R participaram de uma série de missões de guerra antissubmarino contra uma ameaça subaquática durante o exercício.
As sonoboias forneceram os dados, enquanto o SensorMAX acompanhou continuamente os sinais recebidos e auxiliou na identificação do alvo. Paralelamente, os operadores em terra retreinaram os modelos com novos sons e enviaram as informações processadas de volta às aeronaves.
A Lockheed Martin afirmou que o resultado demonstrou a possibilidade de combinar helicópteros tripulados e sistemas acústicos apoiados por inteligência artificial para detectar e acompanhar ameaças submarinas com maior rapidez.
A empresa relaciona o teste à intenção da Marinha norte-americana de ampliar a cooperação entre plataformas tripuladas e sistemas não tripulados ou automatizados em futuras operações.
Sistema não depende de uma única plataforma
Segundo a fabricante, o SensorMAX foi concebido para processar informações provenientes de diferentes sensores, tanto em aplicações militares quanto comerciais.
Por ser descrito como leve e portátil, o mesmo núcleo de processamento poderia ser utilizado em aeronaves, navios ou instalações terrestres. A proposta é permitir que diferentes plataformas compartilhem uma capacidade comum de classificação baseada em inteligência artificial.
Essa arquitetura também busca evitar que o sistema fique limitado a um único tipo de sonoboia, aeronave ou plataforma naval. Qualquer sensor acústico compatível poderia, em princípio, ampliar a rede de vigilância em torno de navios e outros meios considerados de elevado valor.
Empresa investe recursos próprios no projeto
Devon Rodgers, vice-presidente e gerente-geral da divisão de Sistemas de Missão Submarina da Lockheed Martin, afirmou que o ambiente operacional atual exige maior rapidez na entrega de capacidades e na incorporação de tecnologias comerciais aos sistemas militares.
Segundo o executivo, a demonstração realizada durante a RIMPAC mostrou como os engenheiros da companhia procuram atender a essa necessidade.
Rodgers acrescentou que a Lockheed Martin está investindo recursos próprios no amadurecimento de tecnologias de inteligência artificial, combinando inovações comerciais com a experiência de engenharia da empresa para atender às futuras necessidades da Marinha dos Estados Unidos.
Objetivo é acelerar a cadeia de guerra antissubmarino
O SensorMAX pretende reduzir o tempo necessário para transformar um ruído submarino detectado por sensores em uma informação utilizável pelas tripulações e pelos comandantes da força naval.
Ao atualizar o classificador durante o voo, o sistema pode adaptar-se mais rapidamente a sons ainda não incluídos em sua base de dados inicial. Essa capacidade seria particularmente relevante diante de novos submarinos, alterações no ambiente acústico ou contatos que apresentem assinaturas diferentes das já conhecidas.
A demonstração realizada na RIMPAC 2026 validou o funcionamento integrado das sonoboias, dos helicópteros MH-60R, da estação terrestre, do enlace criptografado e do processo de retreinamento da inteligência artificial.
Com o teste, a Lockheed Martin procura apresentar o SensorMAX como uma ferramenta capaz de ampliar a consciência situacional das tripulações e acelerar as etapas de detecção, classificação e acompanhamento de ameaças submersas.■
