USS Fiske

USS Fiske após o ataque - foto colorizada

Em 2 de agosto de 1944, um submarino alemão que transmitia informações meteorológicas surpreendeu o navio norte-americano durante uma caçada ao norte dos Açores. O ataque matou 33 tripulantes e deixou outros 50 gravemente feridos

Na tarde de 2 de agosto de 1944, em pleno Atlântico Norte, o contratorpedeiro de escolta USS Fiske (DE-143) aproximava-se de um submarino alemão que acabara de desaparecer sob as águas. Os operadores de sonar norte-americanos haviam restabelecido o contato e o navio iniciava sua corrida de ataque quando foi atingido por um torpedo no costado de boreste.

A explosão ocorreu a meia-nau e foi devastadora. Em poucos minutos, a estrutura do Fiske cedeu e o navio partiu-se em duas seções, obrigando sua tripulação a abandonar a embarcação em meio a destroços, óleo e marinheiros feridos. Trinta e três homens morreram e outros 50 ficaram gravemente feridos.

O responsável pelo ataque foi o U-804, um submarino alemão do Tipo IXC/40 comandado pelo capitão-tenente Herbert Meyer. O afundamento do Fiske seria o único êxito confirmado do submarino durante toda a sua carreira operacional.

Modelo do Tipo IXC/40

Um navio construído para caçar submarinos

O USS Fiske pertencia à classe Edsall, uma das séries de escoltas de contratorpedeiros construídas em grande quantidade pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Esses navios eram menores, mais lentos e mais baratos que os contratorpedeiros convencionais. Sua missão principal era proteger comboios, localizar submarinos e defender mercantes e navios de transporte contra ataques de torpedos.

O Fiske teve a quilha batida em 4 de janeiro de 1943 no estaleiro Consolidated Steel, em Orange, no Texas. Foi lançado ao mar em 14 de março e incorporado à Marinha dos Estados Unidos em 25 de agosto daquele mesmo ano.

Com cerca de 1.200 toneladas de deslocamento padrão, 93 metros de comprimento e velocidade máxima de 21 nós, o navio estava armado com três canhões de três polegadas, peças antiaéreas de 40 e 20 mm, tubos de torpedo, lançadores de cargas de profundidade e um sistema Hedgehog para o ataque a submarinos.

Seu conjunto de sensores e armamentos antissubmarino fazia do Fiske uma plataforma especialmente concebida para enfrentar a ameaça que acabaria por destruí-lo.

Dos comboios à caça ativa

Nos primeiros meses de serviço, o Fiske realizou missões de escolta entre os Estados Unidos e o Norte da África. O navio participou de três travessias de comboios para Casablanca, protegendo mercantes e transportes aliados contra submarinos e ataques aéreos.

Em abril de 1944, durante sua terceira viagem, o comboio foi atacado por aviões torpedeiros alemães no Mediterrâneo Ocidental. Nenhuma das aeronaves inimigas chegou suficientemente perto do Fiske para colocá-lo diretamente sob fogo. O navio retornou a Nova York em maio e, pouco depois, foi transferido para uma missão mais agressiva.

Em junho, o escolta passou a integrar um grupo de caça e destruição organizado em torno do porta-aviões de escolta USS Wake Island (CVE-65).

As chamadas forças “hunter-killer” reuniam um pequeno porta-aviões e vários contratorpedeiros de escolta. Ao contrário dos navios presos à proteção direta de um comboio, esses grupos podiam perseguir contatos submarinos por grandes extensões do oceano, combinando aeronaves, radares, radiogoniometria, sonar e cargas de profundidade.

A estratégia contribuíra para inverter a situação na Batalha do Atlântico. Em 1943, novas tecnologias, maior cobertura aérea e táticas mais eficientes começaram a impor perdas insustentáveis à força de submarinos alemã. Ainda assim, os U-boats continuavam perigosos, especialmente quando conseguiam surpreender seus perseguidores.

A guerra pelas informações meteorológicas

O U-804 encontrava-se no Atlântico como parte do esforço alemão para transmitir informações meteorológicas às forças do Eixo.

Antes da existência de satélites, dados coletados diretamente no oceano tinham grande importância para o planejamento de operações aéreas e navais. A partir do final de 1943, a Alemanha passou a manter submarinos em áreas determinadas do Atlântico Norte para transmitir observações meteorológicas regulares.

As emissões de rádio, porém, também podiam denunciar a presença dos submarinos. Os Aliados utilizavam estações de radiogoniometria de alta frequência para estimar a origem das transmissões e enviar aviões ou grupos navais para investigar.

Em 2 de agosto, o grupo do Wake Island procurava justamente submarinos alemães envolvidos nessas atividades. O Fiske e o destróier de escolta USS Douglas L. Howard (DE-138) foram destacados para examinar um contato visual detectado no Atlântico, ao norte dos Açores.

O contato com o U-804

02 de agosto de 1944: Oceano Atlântico – Torpedeamento do USS Fiske durante patrulha antissubmarino no Atlântico Norte. A imagem foi vista e fotografada por uma aeronave do USS Wake Island (CVW-65). O Fiske está em primeiro plano após ser atingido por um torpedo a meia-nau, na casa de máquinas. A turbulência da água causada pela explosão pode ser vista no canto inferior esquerdo da foto. O USS Douglas L. Howard (DE-138) está ao fundo lançando cargas de profundidade

O submarino alemão navegava na superfície quando foi avistado. Assim que percebeu a aproximação dos navios norte-americanos, mergulhou rapidamente.

O Fiske e o Douglas L. Howard conseguiram recuperar o contato pelo sonar e iniciaram os preparativos para atacar. A vantagem parecia estar com os escoltas: o submarino estava localizado, dois navios participavam da perseguição e aeronaves do Wake Island podiam ser chamadas para a área.

O U-804, entretanto, lançou torpedos acústicos G7es, conhecidos pelos Aliados como “Gnat”. Diferentemente dos torpedos convencionais, esses armamentos podiam orientar-se pelo ruído produzido pelas hélices de um navio.

De acordo com o histórico oficial do Fiske, a tripulação não detectou o ruído da hélice do torpedo e tampouco observou um rastro na água. O primeiro sinal efetivo do ataque foi a explosão no costado de boreste.

O navio parte-se em dois

O torpedo atingiu o Fiske a meia-nau, próximo às áreas vitais da embarcação. A explosão interrompeu a energia e as comunicações, destruiu compartimentos e comprometeu imediatamente a resistência estrutural do casco.

Em aproximadamente dez minutos, o navio partiu-se em duas seções. Fotografias oficiais registraram marinheiros descendo pelo costado da proa adernada enquanto o escolta afundava. As imagens, preservadas pela Marinha dos Estados Unidos e pelos Arquivos Nacionais, tornaram-se alguns dos registros mais impressionantes da guerra antissubmarino no Atlântico.

A proa desapareceu sob as águas primeiro. A popa permaneceu flutuando durante várias horas, mas não havia possibilidade de salvamento. O Douglas L. Howard acabou afundando a seção restante com tiros de canhão para impedir que se transformasse em perigo à navegação.

Uma fotografia tirada por uma aeronave do USS Wake Island mostra a popa isolada no oceano antes de ser destruída. A cena permite compreender a violência do impacto: um navio com mais de 90 metros de comprimento havia sido literalmente separado em duas grandes partes.

O resgate dos sobreviventes

O escolta USS Farquhar (DE-139) aproximou-se para recolher os sobreviventes. Apesar do risco de um novo ataque submarino, sua tripulação retirou da água os marinheiros que haviam escapado da explosão e do afundamento.

Todos os homens que sobreviveram à perda inicial do navio foram resgatados. Entre eles estavam o comandante e os 50 tripulantes gravemente feridos. Os sobreviventes foram posteriormente levados para Argentia, na então possessão britânica de Terra Nova.

A operação de salvamento limitou a liberdade de ação dos demais escoltas. Havia homens espalhados na água, muito próximos da última posição conhecida do submarino, e as cargas de profundidade lançadas contra o U-804 também poderiam matar os sobreviventes.

O Douglas L. Howard realizou ataques com cargas de profundidade e projéteis Hedgehog, mas precisou agir com cautela. Seus operadores também suspeitaram da presença de um segundo submarino na região. Aproveitando a confusão, o U-804 afastou-se e escapou.

O único sucesso do U-804

O U-804 havia sido incorporado à Marinha alemã em dezembro de 1943. Construído em Bremen, era um submarino oceânico do Tipo IXC/40, concebido para patrulhas de longa duração e operações a grandes distâncias das bases europeias.

Sob o comando de Herbert Meyer, realizou duas patrulhas de guerra. O USS Fiske, com aproximadamente 1.300 toneladas, foi o único navio que conseguiu afundar.

A estatística pode sugerir uma carreira pouco expressiva, mas esconde o custo humano de seu único ataque: 33 mortos, dezenas de feridos e a perda completa de um navio de guerra norte-americano.

O episódio também demonstrou que, mesmo quando perseguidos por forças dotadas de superioridade aérea, sonar e inteligência de sinais, os submarinos alemães ainda podiam reagir e transformar seus caçadores em alvos.

O fim do submarino alemão

Depois de regressar da longa patrulha atlântica, o U-804 passou por trabalhos que incluíram a instalação de um snorkel, equipamento que permitia alimentar os motores diesel e recarregar as baterias navegando próximo à superfície sem expor completamente o submarino.

Em abril de 1945, quando a derrota alemã já se aproximava, o navio deixou a região do Báltico em direção à Noruega. Em 9 de abril, navegava pelo Kattegat, a noroeste de Gotemburgo, acompanhado por outros submarinos, quando foi localizado por aeronaves britânicas.

Treze caças-bombardeiros de Havilland Mosquito dos esquadrões 143, 235 e 248 da Real Força Aérea atacaram o grupo com foguetes.

O U-804 foi atingido, explodiu e afundou. Nenhum dos 55 integrantes de sua tripulação sobreviveu. Na mesma operação, os Mosquito também destruíram os submarinos U-1065 e U-843.

Os Mosquito do Comando Costeiro eram utilizados para atacar submarinos quando estes se aproximavam ou deixavam suas bases, momentos em que precisavam navegar na superfície e ficavam vulneráveis a foguetes e canhões.

Uma última demonstração da letalidade dos U-boats

A perda do USS Fiske ocorreu quando os Aliados já dominavam a Batalha do Atlântico. Os grandes ataques coordenados de submarinos contra comboios haviam perdido muito de sua eficácia, as bases alemãs na França estavam sob crescente pressão e a cobertura aérea aliada alcançava regiões antes consideradas seguras para os U-boats.

Mas o oceano continuava perigoso.

O Fiske era um navio construído para localizar e destruir submarinos. Estava acompanhado por outro escolta, apoiado por um porta-aviões e operava dentro de uma força criada especificamente para caçar U-boats. Mesmo assim, um único torpedo disparado no momento certo bastou para parti-lo ao meio.

O U-804 não afundou mercantes, não interrompeu comboios e não alterou o curso da guerra. Seu único sucesso operacional, porém, deixou uma marca permanente na história da Marinha dos Estados Unidos.■



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