Indonésia inicia construção de seu primeiro submarino Scorpène em estaleiro nacional
Cerimônia de corte da primeira chapa de aço em Surabaya marca o início da construção de dois Scorpène Evolved com baterias de íons de lítio; programa prevê ampla transferência de tecnologia francesa para a indústria naval indonésia
A Indonésia iniciou oficialmente a construção de seu primeiro submarino Scorpène Evolved com a realização, em 7 de agosto de 2026, da cerimônia de corte da primeira chapa de aço nas instalações do estaleiro estatal PT PAL Indonesia, em Surabaya, na ilha de Java.
O evento representa a passagem do programa Scorpène for the Republic of Indonesia (SRI) para sua fase de construção física e constitui um dos principais marcos do esforço de Jacarta para desenvolver capacidade própria de fabricação de submarinos.
O programa envolve a construção de dois submarinos Scorpène Evolved Full LiB, desenvolvidos pelo grupo francês Naval Group. Diferentemente de uma aquisição convencional, as duas embarcações serão construídas na própria Indonésia pela PT PAL, dentro de um amplo processo de transferência de conhecimentos, tecnologias e competências industriais.
Transferência de tecnologia é elemento central do programa
A Indonésia selecionou formalmente Naval Group e PT PAL para o programa em 28 de março de 2024, dentro da parceria estratégica de defesa estabelecida entre Paris e Jacarta.
Segundo o Naval Group, o contrato prevê que os dois submarinos sejam integralmente construídos no estaleiro da PT PAL, utilizando a infraestrutura já existente da empresa indonésia e combinando-a com tecnologia, treinamento e conhecimentos industriais franceses.
O objetivo vai além da entrega das embarcações.
A transferência de tecnologia deverá permitir que engenheiros e técnicos indonésios adquiram conhecimentos relacionados à construção, integração, operação e manutenção de submarinos modernos, reduzindo progressivamente a dependência do país em relação a fornecedores estrangeiros.
Antes do início da construção, equipes da PT PAL passaram por processos de treinamento e qualificação, inclusive junto ao Naval Group na França. Em dezembro de 2025, as duas empresas realizaram uma etapa de qualificação para o corte do aço destinado ao programa, preparando o estaleiro indonésio para iniciar a fabricação das estruturas definitivas.
Para Jacarta, o SRI é considerado parte de uma estratégia mais ampla destinada a fortalecer tanto a soberania marítima quanto a autonomia industrial de defesa do arquipélago.
Scorpène Evolved terá baterias de íons de lítio
Os submarinos indonésios serão uma versão avançada da família Scorpène, denominada Scorpène Evolved Full LiB, equipada com um sistema energético baseado integralmente em baterias de íons de lítio.
Segundo o Naval Group, essa configuração oferece maior quantidade de energia utilizável, recarga mais rápida e maior disponibilidade de potência independentemente do nível de carga das baterias. Na prática, o sistema permite manter velocidades elevadas por períodos maiores e aumenta a mobilidade tática durante operações submersas.
O projeto indonésio terá aproximadamente 72 metros de comprimento, deslocamento em superfície entre 1.600 e 2.000 toneladas e velocidade submersa superior a 20 nós.
A profundidade operacional divulgada pelo fabricante é superior a 300 metros.
O Naval Group também informa autonomia superior a 78 dias dentro de uma missão de 80 dias, com mais de 12 dias de autonomia submersa, dependendo do perfil operacional.
O elevado grau de automação permite operar a embarcação com uma tripulação de apenas 31 militares.
Armamento para guerra antissubmarino e antissuperfície
O Scorpène Evolved contará com seis tubos lança-armas e capacidade para transportar até 18 armas, incluindo torpedos pesados e mísseis antinavio.
O submarino será equipado com o sistema de combate SUBTICS, desenvolvido pelo Naval Group para reunir informações provenientes dos sensores, acompanhar contatos e gerenciar o emprego de armamentos.
A plataforma foi concebida para executar missões de:
- guerra antissubmarino;
- guerra antissuperfície;
- coleta de inteligência;
- vigilância marítima;
- operações especiais;
- infiltração de forças especiais.
Sua capacidade para operar tanto em águas oceânicas quanto em regiões costeiras é particularmente importante para a Indonésia, país formado por mais de 17 mil ilhas e localizado junto a alguns dos principais estreitos e rotas marítimas do Indo-Pacífico.
Indonésia quer dominar tecnologia de submarinos
Quando o contrato foi anunciado em 2024, o então presidente-diretor da PT PAL, Kaharuddin Djenod, destacou que a construção local representava a confiança do governo indonésio na capacidade de seus engenheiros para dominar tecnologias avançadas de defesa.
O objetivo declarado de Jacarta é criar uma base industrial capaz não apenas de construir os dois novos submarinos, mas também de realizar no país sua manutenção e modernização durante todo o ciclo de vida.
O Naval Group estima que a transferência de conhecimentos e a formação de uma cadeia industrial local poderão gerar milhares de empregos altamente qualificados na Indonésia.
A iniciativa também poderá proporcionar à PT PAL uma experiência acumulada rara entre estaleiros do Sudeste Asiático: a capacidade de construir submarinos convencionais modernos a partir de chapas de aço, incluindo fabricação estrutural, integração de sistemas e testes.
Experiência anterior da PT PAL
A PT PAL já possui experiência na construção de submarinos por meio da cooperação realizada anteriormente com a Coreia do Sul.
O terceiro submarino da classe Nagapasa, KRI Alugoro, foi construído com participação significativa do estaleiro indonésio, dentro de um programa baseado no projeto sul-coreano DSME-1400, derivado do Type 209 alemão.
O programa Scorpène, contudo, busca ampliar substancialmente esse domínio industrial.
No novo modelo de cooperação, Naval Group e PT PAL afirmam que os dois submarinos serão construídos na Indonésia, e não divididos entre módulos produzidos no exterior e montagem local.
França amplia presença estratégica no Indo-Pacífico
A aquisição também possui dimensão geopolítica.
Nos últimos anos, França e Indonésia aprofundaram rapidamente sua cooperação militar. Além dos submarinos, Jacarta adquiriu 42 caças Dassault Rafale, colocando a França entre os principais fornecedores de sistemas militares avançados para o país.
A parceria naval está baseada no Acordo de Cooperação em Defesa assinado pelos dois governos em agosto de 2021, seguido por um acordo estratégico entre Naval Group e PT PAL em fevereiro de 2022.
Primeiro submarino poderá levar anos até ser entregue
A cerimônia de corte de aço representa apenas o início de um processo industrial particularmente complexo.
Em declarações durante o evento em Surabaya, o chefe do Estado-Maior da Marinha da Indonésia, almirante Muhammad Ali, afirmou que o ciclo de construção está previsto para durar 96 meses, aproximadamente oito anos.
Outras informações divulgadas anteriormente pela imprensa especializada apontavam a entrega do primeiro submarino para 2032, indicando que o cronograma definitivo ainda poderá depender da evolução da construção, integração e campanha de testes.
Independentemente da data final de incorporação, o corte da primeira chapa de aço representa uma mudança importante para o programa naval indonésio.
A partir de agora, o Scorpène deixa de ser apenas uma aquisição estrangeira e passa a funcionar como uma plataforma de desenvolvimento da própria indústria de submarinos da Indonésia.
Se o programa cumprir seus objetivos de transferência tecnológica, Jacarta não receberá apenas duas novas embarcações de combate: terá adquirido uma parcela significativa do conhecimento industrial necessário para projetar, construir, manter e, futuramente, desenvolver sua própria capacidade submarina.■





A versão brasileira com baterias de lítio aumentaria em quanto a autonomia?
É uma ideia interessante para analisar e, se for o caso, por em prática na manutenção de meia vida.
É importante ter uma parceria para acompanhar a operação dessas baterias neste tipo de operação.
Primeira diferença: o submarino poderia ficar duas ou três vezes mais tempo submerso com essa bateria.
Segunda diferença: essa bateria recarrega muito mais rápido, deixando o submarino muito mais furtivo e letal. Uma bateria de chumbo leva várias horas para recarregar; a de lítio, muito menos tempo.
Outra diferença é a maior velocidade submerso.
Outra diferença seria o menor peso e tamanho da bateria de lítio, que é muito menor em comparação com a bateria de chumbo, que é muito pesada e ocupa muito espaço.
Precisamos deixar essa tecnologia de baterias de lítio maturar e ver se vale a pena quando ela já estiver uns anos no mercado e ver se realmente é seguro, porque o histórico dela é muito mais propenso a acidentes (pegar fogo) do que as de chumbo.