Trump Hormuz

Presidente norte-americano teria sinalizado reservadamente a assessores que aceitará uma saída baseada apenas na normalização do Estreito de Ormuz, numa mudança significativa em relação às exigências iniciais de “rendição incondicional” e desmantelamento do programa nuclear iraniano; Teerã, porém, elevou suas condições para reabrir a passagem

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem preparando o terreno político para encerrar a guerra contra o Irã mesmo sem alcançar um acordo sobre o programa nuclear iraniano, desde que Teerã aceite reabrir completamente o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial, segundo reportagem publicada pelo The Wall Street Journal.

De acordo com o jornal, Trump mencionou privadamente a assessores seniores a possibilidade de abandonar a exigência de um acordo nuclear e apresentar a reabertura de Ormuz como suficiente para declarar vitória. O WSJ descreve essa meta como um objetivo significativamente reduzido em comparação com aqueles anunciados no início do conflito.

O jornal relata que o presidente considera terminar a guerra sem um acordo nuclear e vinha preparando uma narrativa de vitória baseada essencialmente na reabertura do estreito.

A mudança representa um recuo considerável em relação à posição adotada por Washington cinco meses atrás.

Da “rendição incondicional” a um acordo sobre Ormuz

Em 6 de março, uma semana após o início da guerra, Trump declarou que não haveria acordo com Teerã que não envolvesse a “rendição incondicional” do Irã. Na ocasião, o presidente também associava o fim do conflito à eliminação da capacidade iraniana de ameaçar os Estados Unidos e seus aliados.

Ao longo dos meses seguintes, a administração norte-americana passou a enfatizar outros objetivos, principalmente impedir que o Irã obtivesse uma arma nuclear, destruir capacidades de produção de mísseis e restaurar a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz.

Mas a Reuters já havia observado em junho que várias das metas anunciadas por Trump haviam sido frustradas ou reduzidas, embora Washington continuasse apresentando os resultados da campanha como uma vitória militar.

Agora, segundo o WSJ, a equação tornou-se ainda mais simples: se o Estreito de Ormuz voltar efetivamente à normalidade, Trump estaria disposto a encerrar o conflito sem resolver imediatamente a questão nuclear.

Isso não significa que Washington tenha abandonado definitivamente o objetivo de impedir uma arma nuclear iraniana. O que está sendo considerado é separar a questão nuclear do encerramento imediato das hostilidades e negociar o problema posteriormente.

Esse modelo, aliás, já havia aparecido no entendimento provisório negociado em junho: a reabertura de Ormuz e o levantamento do bloqueio seriam tratados primeiro, enquanto o programa nuclear seria submetido posteriormente a um período de negociações.

Irã percebe o valor de sua principal moeda de troca

O problema para Washington é que Teerã aparentemente chegou à mesma conclusão: o Estreito de Ormuz tornou-se a principal fonte de poder de barganha iraniano.

Apesar de milhares de ataques norte-americanos e israelenses terem provocado enormes danos às Forças Armadas, infraestrutura e indústria militar iranianas, os Estados Unidos ainda não conseguiram transformar a superioridade militar em liberdade de navegação normal pela passagem.

Antes da guerra, mais de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente passavam pelo estreito. Desde fevereiro, o tráfego permanece muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito.

Dados da Lloyd’s List Intelligence citados pela Associated Press mostram a dimensão da diferença: numa semana recente foram registradas apenas 84 travessias, contra mais de 700 numa semana típica antes da guerra.

Trump reconheceu o próprio problema operacional. Apesar da presença militar norte-americana e do bloqueio de portos iranianos, Teerã mantém capacidade para lançar drones e mísseis contra embarcações ou simplesmente criar incerteza sobre minas navais — suficiente para afastar armadores e seguradoras.

É uma assimetria particularmente desconfortável: a força naval convencional iraniana sofreu perdas enormes, mas não é necessário controlar militarmente todo o estreito para tornar sua travessia comercial perigosa.

Quando Washington achou que o acordo estava pronto

No início da semana passada, o governo norte-americano demonstrava confiança de que uma solução estava próxima.

Irã e Omã avançaram na elaboração de um mecanismo temporário para organizar a navegação. Pelo projeto discutido, navios entrariam no Golfo por uma rota próxima ao litoral iraniano e sairiam por uma rota sob influência omanense. Durante o período provisório, não haveria pedágios ou tarifas obrigatórias de trânsito, segundo fontes familiarizadas com as negociações.

Autoridades norte-americanas chegaram a esperar o anúncio de um acordo.

Ele não aconteceu.

Em vez disso, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Mohammad Bagher Zolghadr, apresentou no sábado uma nova série de exigências que vinculava a abertura da passagem não apenas a um entendimento marítimo com Omã, mas a concessões muito mais amplas dos Estados Unidos.

O Wall Street Journal descreveu a movimentação como um golpe nos planos de Trump de utilizar Ormuz como a saída política da guerra.

As condições apresentadas pelo Irã

Segundo a declaração iraniana reproduzida pela Associated Press, Axios e Reuters, Teerã exige que os Estados Unidos:

  • encerrem definitivamente ameaças contra o Irã;
  • terminem as operações militares contra o país e seus aliados regionais;
  • retirem o bloqueio naval contra os portos iranianos;
  • retirem forças norte-americanas das proximidades do Irã;
  • compensem integralmente os danos provocados pela guerra;
  • suspendam as sanções;
  • liberem sem condições os ativos iranianos congelados no exterior.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, reiterou no domingo que a compensação pelos danos de guerra é uma condição para a normalização da passagem. Teerã também afirma que não existem negociações diretas com Washington neste momento, embora mensagens estejam sendo trocadas através de intermediários.

A mudança é especialmente significativa porque, segundo o Axios, até poucas semanas atrás várias dessas exigências eram apresentadas como condições para um acordo de paz e nuclear definitivo. Teerã passou agora a vinculá-las à questão muito mais imediata da simples reabertura de Ormuz.

US$ 300 bilhões

No entendimento provisório negociado em junho estava prevista a criação de um fundo de aproximadamente US$ 300 bilhões destinado à reconstrução e ao investimento no Irã. Segundo a Reuters, esse fundo seria formado inteiramente por capital privado internacional, e não por uma transferência direta de US$ 300 bilhões do Tesouro norte-americano. Mais de US$ 150 bilhões já teriam compromissos indicativos de investidores de diferentes regiões.

Uma fonte iraniana disse à Reuters que Teerã originalmente havia solicitado US$ 400 bilhões em indenizações, proposta recusada por Washington; a ideia do fundo internacional de US$ 300 bilhões surgiu posteriormente como mecanismo distinto.

Ativos congelados podem superar US$ 100 bilhões

Há situação semelhante em relação aos ativos iranianos bloqueados no exterior.

O Irã afirma possuir mais de US$ 100 bilhões em recursos congelados em diferentes países, principalmente provenientes de receitas de petróleo. Entretanto, valores efetivamente acessíveis e reconhecidos variam consideravelmente dependendo do método de cálculo e das jurisdições consideradas.

Nas negociações anteriores, Teerã buscava inicialmente a liberação de aproximadamente US$ 24 bilhões, enquanto discutia posteriormente acesso a montantes adicionais.

A exigência apresentada neste fim de semana foi ampla: liberação incondicional dos ativos congelados, mas não especificou oficialmente “US$ 100 bilhões” como quantia que Washington teria de transferir imediatamente.

Tarifas sobre cada navio

O Irã busca exercer maior autoridade sobre a navegação no estreito e o governo iraniano afirmou nesta segunda-feira que determinados serviços marítimos normalmente implicariam pagamento.

Mas o acordo temporário negociado com Omã previa expressamente que os navios atravessariam as novas rotas sem tarifas ou pedágios durante o período provisório.

Washington se opõe fortemente à criação de um sistema permanente no qual Teerã possa cobrar pela passagem de embarcações por uma rota anteriormente considerada internacional. A questão continua sem solução definitiva.

A saída que Trump procurava tornou-se mais difícil

Politicamente, a situação coloca a Casa Branca diante de três alternativas pouco atraentes.

A primeira seria aceitar parte significativa das condições iranianas e encerrar a guerra, correndo o risco de que o acordo seja interpretado doméstica e internacionalmente como uma concessão a um adversário que sofreu meses de bombardeios norte-americanos.

A segunda seria rejeitar as condições e manter o impasse, prolongando os efeitos econômicos provocados pela restrição da navegação no Golfo.

A terceira seria voltar a ampliar as operações militares, sem garantia de que novos bombardeios conseguiriam eliminar a capacidade iraniana de ameaçar Ormuz.

A Associated Press observa que a situação é particularmente delicada para Trump porque qualquer compromisso pode ser apresentado pelos adversários políticos como derrota, enquanto a continuidade do conflito pressiona preços de energia e estoques de munições antes das eleições legislativas de novembro.

O próprio WSJ resume o dilema afirmando que as novas exigências iranianas reduziram as opções disponíveis à Casa Branca para encerrar a guerra antes das eleições.

Trump agora diz que está “low-keying” a crise

No domingo, Trump deu outro sinal de mudança de tom.

Em entrevista ao Axios, disse que os Estados Unidos estavam “low-keying it” em relação ao Irã — aproximadamente, adotando uma postura menos ostensiva — e afirmou que Washington estava apenas “semi-negociando” enquanto observava o deteriorado quadro econômico iraniano.

Apenas uma semana antes, segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo Axios, Trump estava inclinado a retomar operações militares em grande escala, mas acabou convencido a reduzir a escalada temporariamente.

Washington aposta que inflação elevada, falta de recursos e o bloqueio naval aumentarão a pressão sobre Teerã.

O Irã aposta no contrário: que a capacidade de manter Ormuz parcialmente paralisado criará pressão econômica e política suficiente sobre os Estados Unidos para obrigar Trump a aceitar concessões.

Irã troca chefe de segurança em momento decisivo

Há ainda uma nova variável.

Neste domingo, Teerã anunciou que Mohsen Rezaei, ex-comandante da Guarda Revolucionária e figura considerada mais assertiva, substituirá Zolghadr na liderança executiva do Conselho Supremo de Segurança Nacional. A mudança ocorre justamente quando as negociações sobre Ormuz entram numa fase crítica.

Não está claro se a substituição alterará a posição iraniana.

Mas a Reuters observa que as novas exigências surgem em meio a divergências internas no regime sobre até onde Teerã deve pressionar Washington ou aceitar um compromisso para aliviar a situação econômica doméstica.

De vitória militar a problema estratégico

O episódio expõe uma contradição que vem acompanhando a guerra desde seus primeiros meses.

Os Estados Unidos demonstraram enorme superioridade militar e atingiram milhares de alvos iranianos. Ainda assim, não conseguiram impor ao Irã a “rendição incondicional” exigida por Trump em março, nem resolveram de maneira definitiva o programa nuclear ou restabeleceram a liberdade de navegação existente antes da guerra.

Agora, o Wall Street Journal relata que Trump está disposto a considerar a reabertura de Ormuz suficiente para encerrar o conflito, deixando o acordo nuclear para depois.

Teerã, contudo, percebeu o valor dessa necessidade norte-americana.

E transformou aquilo que Washington esperava utilizar como porta de saída da guerra em sua principal ferramenta de negociação.

Cinco meses depois de exigir a rendição incondicional do Irã, o presidente dos Estados Unidos considera encerrar a guerra sem obter sequer o acordo nuclear que havia colocado no centro de seus objetivos — enquanto Teerã condiciona a abertura de Ormuz a uma lista de concessões que Washington até agora se recusou a aceitar.■



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27 Comentários
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Fábio Mayer

Trump sabe que o petroleo em alta o fará perder as eleições de meio de mandato. Capaz de, agora, ceder às pressões do Irã, o que seria a maior humilhação militar dos EUA desde o Vietnã.

Antunes 1980

Certeza absoluta que as mídias brasileiras, que são totalmente dependentes do sistema midiático, tecnológico, monetário dos Estados Unidos, irão falar de uma forma que não parecerá uma derrota americana e israelense, mas sim uma decisão em conjunto!
Anotem aí ! Já foi o tempo do jornalismo sério e isento !

Last edited 1 mês atrás by Antunes 1980
Luciano

A mensagem que a Ucrânia e o Irã passaram, com as devidas diferenças, características de cada situação, é que o mundo mudou, e o mais fraco pode resistir.

No caso do Irã é mais emblemático ainda, porque o país não teve uma OTAN inteira de suporte logistico, com muitos sistemas de armas para resistir, passando pelas fronteiras, como a Ucrânia. O Irã teve, talvez, apoio de inteligência da China e da Rússia, mais nada.

Leandro Costa

O mais fraco pode resistir a muito, muito tempo. Mas para isso você precisa passar para o não-convencional, ou seja, não pode atuar na esfera cinética, ou seja, você não pode depender apenas das forças armadas. Guerra é um esforço de amplo espectro.

deadeye

Mostraram que a guerra, deve movimentar toda a sociedade. Principalmente o setor privado no caso da Ucrânia.

Cristiano ciclope

Você também não pode ter traidores e entreguista no governo, pois eles enfraquecem qualquer resistência ao assédio do inimigo!

TJLopes

Na verdade, a resistência tem mais a ver com a impossibilidade (FELIZMENTE) de atualmente as potências atacarem indiscriminadamente populações e infraestrutura civis.

Em ambos os casos, se a Rússia e os EUA tivessem liberdade total de ação, ambos os Estados já estariam de joelhos e pedindo perdão.

Leandro Costa

Viajou na maionese.

Rafa

Liberdade total de ação que vc diz é usar armas atômicas?

comenteiro

Crimes de guerra ininterruptos. Nem precisa de armas atômicas. Felizmente a falta de ética de certos países encontram outros freios.

EduardoSP

Não vamos generalizar conclusões. Cada caso é um caso.
O mapa ajuda muito a explicar a de onde vem a fortaleza iraniana.
Com um canhão de 155mm é possível ameaçar a navegação no estreito.

Matheus

Se o Irã tivesse recebido apoio de inteligência da China, os ataques teriam sido mais precisos e mais mortais.

Afonso Bebiano

E a laranja antropomórfica ainda se acha no direito de ficar indignada quando aparecem os memes inevitáveis de TACO.

Vinicius Momesso

Só leigos acreditavam que Israel conseguiria derrotar o Irã no médio e longo prazo. O Irã provou ter muito mais mísseis e drones, do que Israel tem para se defender. Queira ou não mais a cadeia de montanhas do Irã, onde os armamentos iranianos estão estocados, acabam por ser “AA naturais”.

Cristiano ciclope

Exato, estão fazendo como bandido faz quando vê a patrulinha, espera passar para depois agir, eles destroem a entrada do túmulo onira sai por outra em quanto repara a destruída!

Manus Ferrum

Os montes Zagros mais uma vez tendo participação na História.

Matheus

Acontece que Israel esteve muito perto de conseguir derrotar decisivamente o Irã em 2025, na Guerra de 12 Dias. Israel teria eliminado a liderança do IRGC e política, incluindo Khamenei, mas foi impedido pelo Trump de prosseguir, porque precisaria do apoio logístico americano, o que não obteve aprovação, mas ali se o Trump aprovasse, as chances de derrubar o regime teriam sido muito maiores do que as chances de derrubar em fevereiro desse ano. Na altura daquela época, o IRGC estava desorganizado após a morte de várias lideranças, ter eliminado a liderança política teria pulverizado as chances de reorganização do… Read more »

Leandro Costa

Trump tomando choque de realidade.

deadeye

“Trump always chickens out”

Last edited 1 mês atrás by deadeye
Equilibrium

É impressionante como o cara quer brigar com vários países nos territórios que pertence a eles. Quer ajudar uns num esforço de guerra e depois provocar outros. Quer se manter no poder nomeando várias coisas com seu nome ainda vivo.Que fique bem, mas que não ganhe.

George A.

Ao invés de ficar alardeando que vai abrir o portão e entregar as chaves os responsáveis pela defesa de determinado país do Cone Sul deviam estar revendo a estratégia de defesa nacional pra incorporar estratégias de ataques a alvos de valor econômico pra única ameaça existencial potencial e plausível na vizinhança pra esse país, ao invés de seguir tendo como inimigo hipotético “forças internas” e vizinhos desdentados numa doutrina com ares de anos 60…

Cristiano ciclope

Complicado, de um lado um quer abrir a porteira, do outro tem um patriota implorando para uma potência estrangeira se meter aqui dentro; estamos fudidos!

Jabulani Teimoso

Trump é o arregão profissional, TACO. KKKK

FERNANDO

UAUUUUU, vc retornaram.
To FELIZ!
Tava solitário aqui só EU!

BraZil

CASO isto aconteça!! Vejamos como a grande mídia Brasileira irá noticiar o fato. Lembrem todos que a Globe, a Recorda, o Sbtqia+, são todos subordinados aos norte americanos sim, MAS à esquerda norte americana. Portanto, será um belo exercício de observação de como funciona o stablishment da “imprensa marron engajada” ao noticiar uma derrota dos Republicanos. Observem e analisem.

comenteiro

Eu vi que a esquerda americana seria chamada de centro-direita em muitos países.

Gabriel

Trump não enfiou o pé na jaca… enfiou os dois pés até o joelho num poço de pixe !
Diga-se de passagem, muito bem feito, espero que nunca mais saia de onde se meteu 👍