Submarino Kursk no dique seco, depois de recuperado do fundo do mar

Submarino Kursk no dique seco, depois de recuperado do fundo do mar

Em 12 de agosto de 2000, duas explosões enviaram ao fundo do Mar de Barents um dos mais poderosos submarinos nucleares russos. Vinte e três homens sobreviveram inicialmente na popa, enquanto uma operação de resgate marcada por falhas, informações contraditórias e demora em aceitar ajuda estrangeira transformava o desastre naval em uma crise nacional

Há 26 anos, na manhã de 12 de agosto de 2000, o submarino nuclear russo K-141 Kursk desaparecia nas águas do Mar de Barents durante um grande exercício da Frota do Norte. A bordo estavam 118 homens. Nenhum retornaria.

Mais do que um dos piores acidentes da história submarina, a perda do Kursk tornou-se um retrato da Rússia que emergira da dissolução da União Soviética: uma potência militar ainda equipada com máquinas formidáveis, mas afetada por falta de recursos, deterioração do material, problemas de treinamento e falhas de comando. A investigação posterior descreveu níveis significativos de negligência, equipamentos obsoletos e deficiências organizacionais dentro da Marinha.

O desastre também se transformaria na primeira grande crise pública enfrentada por Vladimir Putin, então havia poucos meses na Presidência. Vinte e seis anos depois, Putin continua presidente da Rússia.

O símbolo de uma Marinha que tentava voltar ao mar

O Kursk pertencia ao Projeto 949A Antey, conhecido pela OTAN como classe Oscar II. Com aproximadamente 154 metros de comprimento e deslocamento submerso próximo de 24 mil toneladas, era um enorme submarino nuclear de mísseis de cruzeiro projetado durante a Guerra Fria para atacar grupos de batalha de porta-aviões norte-americanos. Sua principal bateria ofensiva era formada por 24 mísseis antinavio P-700 Granit, além dos tubos de torpedos instalados na proa.

Construído em Severodvinsk, lançado em 1994 e incorporado à Frota do Norte naquele mesmo ano, o submarino recebeu o nome da cidade de Kursk e da batalha travada naquela região em 1943, um dos confrontos mais célebres da Segunda Guerra Mundial.

Sua presença no exercício naval de agosto de 2000 tinha forte valor simbólico. Depois de uma década em que a antiga Marinha soviética sofrera severos cortes orçamentários e perda de prontidão, Moscou tentava demonstrar que sua principal frota oceânica ainda podia realizar operações de grande escala. A própria investigação do acidente acabaria expondo justamente o contraste entre essa ambição e o estado de parte da estrutura naval russa.

Duas explosões em 135 segundos

Por volta das 11h28 do dia 12, o Kursk preparava-se para realizar um ataque simulado contra navios da Frota do Norte quando ocorreu a primeira explosão em sua seção de torpedos.

A conclusão oficial da investigação russa, apresentada em 2002 pelo procurador-geral Vladimir Ustinov, atribuiu o início da catástrofe ao vazamento de peróxido de hidrogênio altamente concentrado — HTP — de um torpedo de 650 mm. Em contato com determinados materiais, o composto sofre decomposição extremamente rápida, produzindo grandes quantidades de calor, vapor e oxigênio.

A primeira detonação provocou um incêndio na proa. Apenas dois minutos e 15 segundos depois, os torpedos armazenados no primeiro compartimento explodiram em cadeia. O segundo evento foi muito mais violento, devastando a parte dianteira do submarino e inundando rapidamente vários compartimentos. Dados acústicos analisados posteriormente indicaram ainda tentativas da tripulação de salvar o navio antes que ele atingisse o fundo.

O Kursk terminou imóvel a aproximadamente 108 metros de profundidade.

Para a maioria dos homens que estavam nos compartimentos dianteiros, não havia possibilidade de sobrevivência.

Mas nem todos morreram imediatamente.

“Há 23 pessoas aqui”

Na popa, 23 tripulantes sobreviveram às duas explosões e conseguiram reunir-se no nono compartimento, onde existia uma escotilha de salvamento.

Entre eles estava o capitão-tenente Dmitri Kolesnikov, de 27 anos.

Quando seu corpo foi recuperado meses mais tarde, os mergulhadores encontraram uma nota em seu uniforme. Kolesnikov havia começado a escrevê-la horas depois da explosão. Nela registrou que homens de diferentes compartimentos haviam conseguido chegar à popa e fez a contagem dos sobreviventes: 23 pessoas.

Também deixou a frase que se transformaria no mais doloroso testemunho da tragédia: “Nenhum de nós consegue chegar à superfície.”

A existência da nota destruiu a versão inicial de que todos os tripulantes teriam morrido instantaneamente.

Os exames posteriores indicaram que os homens tentaram manter o compartimento habitável utilizando cartuchos químicos de superóxido de potássio, capazes de absorver dióxido de carbono e liberar oxigênio. Em algum momento, porém, um desses dispositivos provavelmente entrou em contato com água do mar contaminada por óleo, provocando uma reação violenta e um incêndio súbito. Evidências forenses apontaram queimaduras em alguns corpos e sinais de fogo dentro do compartimento.

Quanto tempo os 23 permaneceram vivos continua sendo objeto de discussão. As evidências disponíveis indicam sobrevivência por algumas horas, e não por vários dias.

Essa distinção é importante: não há base sólida para afirmar que os 23 marinheiros ainda estariam vivos quando equipes britânicas e norueguesas finalmente chegaram ao submarino. A demora russa em aceitar auxílio estrangeiro foi real e duramente criticada, mas não é possível demonstrar que uma aceitação imediata teria necessariamente permitido salvá-los.

Uma operação de resgate marcada por fracassos

O desaparecimento do submarino não resultou imediatamente numa operação internacional.

Os meios de salvamento da própria Frota do Norte tentaram repetidas vezes acoplar veículos de resgate à escotilha traseira do Kursk. As tentativas foram prejudicadas pelo estado dos equipamentos, problemas técnicos, condições do mar e dificuldades para posicionar os submersíveis sobre o navio.

Um dos veículos ficou sem bateria; outro sofreu problemas durante as operações. Ao todo foram realizadas numerosas tentativas de acoplamento, sem sucesso.

Reino Unido e Noruega ofereceram capacidades especializadas de salvamento. Moscou demorou dias para aceitar a assistência. Um relatório posteriormente publicado pelo Senado dos Estados Unidos registra que a rede independente NTV criticou abertamente a recusa de ajuda estrangeira durante os primeiros cinco dias da crise.

Quando os mergulhadores noruegueses finalmente examinaram a popa, encontraram uma situação desconfortável para a narrativa oficial: a escotilha externa, que os russos haviam tido enorme dificuldade para acessar e sobre a qual chegaram a circular informações de danos graves, podia ser aberta. Em 20 de agosto, os noruegueses conseguiram abri-la; posteriormente constatou-se que o compartimento interno estava inundado.

Já não havia qualquer possibilidade de resgate.

Informações falsas e a teoria de uma colisão com a OTAN

Enquanto a operação fracassava no mar, a comunicação oficial transformava o acidente numa crise política.

Nos primeiros dias surgiram relatos russos sobre supostos sinais acústicos vindos do submarino e sobre condições que permitiriam à tripulação sobreviver. Também foi apresentada publicamente a hipótese de que o Kursk teria colidido com um submarino estrangeiro.

Em 14 de agosto, o comandante da Marinha russa, almirante Vladimir Kuroyedov, apontou uma colisão com um submarino da OTAN como possível causa. Autoridades navais continuariam promovendo versões relacionadas a uma interferência externa mesmo depois do acidente.

A investigação oficial acabaria descartando essa tese.

Em 2002, a Procuradoria-Geral concluiu que o desastre começara no próprio Kursk, com a falha do torpedo movido a peróxido de hidrogênio. O relatório de 133 volumes encontrou, segundo o resumo divulgado, graves problemas de disciplina, manutenção, equipamento e organização — embora tenha causado controvérsia ao não responsabilizar criminalmente qualquer pessoa pela destruição do submarino.

Putin permanece em Sochi

A tragédia também marcou profundamente a imagem do recém-empossado Vladimir Putin.

Quando o Kursk afundou, Putin estava em férias em Sochi, no Mar Negro. Ele permaneceu no local durante os primeiros dias da emergência e demorou a se pronunciar publicamente, decisão que provocou forte reação num momento em que familiares aguardavam informações sobre os 118 homens.

A postura contrastava com a dimensão da tragédia que se desenrolava diante das câmeras.

Quando finalmente encontrou familiares dos tripulantes em Vidyayevo, Putin enfrentou um ambiente hostil. Pais, esposas e mães cobraram explicações sobre a demora do resgate, as informações contraditórias e a resistência em aceitar auxílio internacional. Registros daquele encontro mostraram uma tensão incomum entre cidadãos russos e a liderança do Kremlin.

O Kursk e o início de uma nova relação com a imprensa

Outro legado da tragédia foi a relação entre Putin e a televisão independente.

A NTV e outros veículos fizeram cobertura crítica da resposta do Kremlin. Segundo relatório do Senado norte-americano sobre a evolução do sistema político russo, o desastre do Kursk tornou-se um momento importante no processo de crescente controle estatal sobre os grandes meios de comunicação.

Nos meses seguintes, a pressão sobre a NTV e seu proprietário, Vladimir Gusinsky, aumentou. Em abril de 2001, a Gazprom assumiu o controle efetivo da emissora e substituiu sua direção editorial. A ORT também acabaria submetida a maior controle político.

Seria simplista afirmar que a destruição da imprensa independente russa começou exclusivamente com o Kursk. As disputas entre Kremlin, oligarcas e empresas de comunicação já existiam. Mas historiadores e analistas políticos frequentemente enxergam a crise de agosto de 2000 como um dos primeiros confrontos em que Putin percebeu o poder político de uma televisão nacional fora do controle direto do Estado.

Uma tragédia maior que o submarino

Em 2001, o casco do Kursk foi finalmente içado do fundo do Mar de Barents numa gigantesca operação de engenharia realizada com participação de empresas holandesas. A seção da proa, demasiadamente danificada e perigosa para ser recuperada junto com o restante do navio, foi previamente separada. O casco permitiu aos investigadores reconstruir grande parte da sequência que destruíra o submarino.

Os 118 homens não voltaram vivos.

Mas o Kursk deixou um legado que ultrapassa a história naval. O desastre expôs as dificuldades materiais da Rússia pós-soviética, mostrou as limitações de uma força naval que tentava recuperar rapidamente o prestígio perdido e revelou graves deficiências em procedimentos de salvamento e gerenciamento de crise.

Também inaugurou uma característica que se tornaria recorrente nas décadas seguintes do poder de Vladimir Putin: o conflito entre a narrativa oficial do Estado e os veículos, familiares e investigadores que buscavam versões independentes dos acontecimentos. Um relatório do Senado dos Estados Unidos classificaria posteriormente o episódio como um momento seminal na progressiva captura do espaço televisivo russo pelo Kremlin.■



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7 Comentários
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Piassarollo

Na verdade essa tragédia expôs a arrogância e o egocentrismo de um ditador.

Vinicius Momesso

Trump!??

Mauricio Pacheco

pô meu amigo, comparar Trump com o Ditador Putin, já é viajar demais!

Carlos Eduardo Oliveira

Já foi feito um filme sobre esse caso.
Filme muito bom, por sinal.

curisco

Opa! onde?

Sávio Ricardo

Qual nome?

Piassarollo

Kursk a última missão, tem no youtube