Classe Albany: os cruzadores da Segunda Guerra que renasceram como gigantes lança-mísseis
USS Albany (CG-10), em 1966
No início da Guerra Fria, a Marinha dos Estados Unidos retirou canhões, torres e praticamente toda a superestrutura de três grandes cruzadores pesados e os reconstruiu para uma nova era. Equipados com mísseis Talos, Tartar e ASROC e cobertos por enormes antenas de radar, os navios da classe Albany tornaram-se alguns dos exemplos mais radicais da transição entre a guerra naval da artilharia e a guerra dos mísseis
No final da década de 1950, a Marinha dos Estados Unidos enfrentava um problema para o qual os cruzadores construídos durante a Segunda Guerra Mundial não haviam sido concebidos. Bombardeiros a jato soviéticos, armas nucleares e mísseis antinavio ameaçavam atacar grupos de porta-aviões a distâncias muito superiores ao alcance efetivo da tradicional artilharia antiaérea naval.
Ao mesmo tempo, a US Navy possuía na reserva numerosos cruzadores relativamente novos, grandes, rápidos e estruturalmente robustos, construídos durante a enorme expansão naval norte-americana da década de 1940.
A solução encontrada foi extraordinária: aproveitar os cascos e sistemas de propulsão desses navios e reconstruí-los praticamente do convés principal para cima.
Dessa ideia surgiria a classe Albany. Os três navios efetivamente convertidos foram o USS Albany (CA-123), derivado da classe Oregon City, e os USS Chicago (CA-136) e USS Columbus (CA-74), da classe Baltimore. Depois da reconstrução, passaram a ostentar respectivamente as designações CG-10, CG-11 e CG-12.
Dos canhões de 203 mm à era do míssil

Os cruzadores pesados norte-americanos da Segunda Guerra Mundial haviam sido concebidos em torno de grandes baterias de artilharia. O Albany, por exemplo, antes da conversão possuía nove canhões de 8 polegadas — 203 mm — distribuídos em três torres triplas, além de 12 peças de 5 polegadas e 23 canhões antiaéreos de 3 polegadas. Sua tripulação ultrapassava 1.300 homens.
Poucos anos depois, a Marinha decidiu que praticamente tudo isso deveria desaparecer.
A experiência inicial norte-americana com cruzadores de mísseis havia sido menos radical. Os USS Boston e USS Canberra, por exemplo, conservaram suas torres de 8 polegadas à vante enquanto receberam lançadores de mísseis Terrier na parte posterior. Outros seis antigos cruzadores leves da classe Cleveland também foram transformados em navios lança-mísseis.

A classe Albany representaria o passo seguinte.
A Marinha queria um cruzador “double-ended”, capaz de empregar grandes mísseis antiaéreos tanto pela proa quanto pela popa, oferecendo cobertura de longo alcance aos grupos de porta-aviões independentemente da direção da ameaça. Para acomodar os sistemas Talos, Tartar, radares, computadores e instalações de comando, os cruzadores pesados foram escolhidos porque ofereciam mais espaço e maior margem de crescimento que os cruzadores leves.
O programa de conversão aparece nas fontes especializadas do U.S. Naval Institute como SCB-173 — e não SCB-172, como é reproduzido em algumas referências sobre a classe.
O navio praticamente desaparecia durante a reconstrução

Chamar o processo de “modernização” quase não faz justiça à dimensão da obra.
No caso do Albany, o cruzador foi reconstruído do convés principal para cima. As torres de artilharia desapareceram, assim como as estruturas que caracterizavam o navio original. Em seu lugar surgiu uma gigantesca superestrutura repleta de antenas, radares de busca, equipamentos de direção de tiro, computadores e lançadores de mísseis.
O resultado era tão diferente que, visualmente, pouco restava para identificar o antigo cruzador pesado.
Uma das características mais marcantes era a altura das novas estruturas. Os radares precisavam ser instalados o mais alto possível para ampliar o horizonte de detecção, enquanto os volumosos sistemas eletrônicos da época exigiam grande quantidade de espaço interno.

Isso criou um problema de peso acima da linha d’água.
A solução foi empregar extensivamente alumínio na superestrutura, reduzindo o peso no alto do navio. Uma descrição contemporânea publicada em 1963 pelo Proceedings, do U.S. Naval Institute, ressaltava que toda a extensa nova superestrutura do Albany utilizava alumínio justamente para compensar o peso elevado dos radares, lançadores e equipamentos eletrônicos.
Essa arquitetura produziu uma das silhuetas mais peculiares da história da US Navy: um longo casco típico da Segunda Guerra Mundial sustentando enormes blocos de superestrutura, grandes radares e dois complexos de mastros e chaminés.
Era quase como observar duas gerações de engenharia naval fundidas em um único navio.

Talos: a arma principal

No centro da transformação estava o RIM-8 Talos, um dos mais ambiciosos mísseis superfície-ar de sua época.
Desenvolvido a partir do programa Bumblebee iniciado ainda durante a Segunda Guerra Mundial, o Talos era uma arma enorme. Com o booster instalado, media cerca de 10 metros de comprimento e pesava aproximadamente 3,5 toneladas. Sua instalação exigia grandes paióis, sistemas automáticos de movimentação, radares dedicados e instalações de direção de tiro.
Os Albany receberam dois lançadores duplos Talos, um na proa e outro na popa.
Uma publicação contemporânea atribuía ao sistema alcance da ordem de 65 milhas náuticas nas versões então existentes, permitindo ao cruzador atacar bombardeiros muito antes que eles chegassem às proximidades do porta-aviões protegido.
Essa era uma mudança fundamental de filosofia.
Na Segunda Guerra Mundial, um cruzador defendia um porta-aviões criando uma barreira de fogo com canhões antiaéreos. Na década de 1960, um Albany procuraria destruir o atacante a dezenas de quilômetros da força naval.
Tartar para a defesa mais próxima

O enorme Talos não era adequado para todas as situações.
Para ameaças que penetrassem a defesa de longo alcance, os navios receberam o RIM-24 Tartar, míssil muito menor e destinado à defesa aérea de curta e média distância.
Dois lançadores duplos foram posicionados lateralmente, próximos à grande superestrutura. O Tartar complementava o Talos, formando uma defesa em camadas contra aeronaves inimigas.
A combinação fazia parte da famosa família norte-americana dos “3-T”: Talos, Terrier e Tartar. Os Albany não empregavam o Terrier, mas reuniam o maior e o menor integrante dessa família num mesmo casco.
Em teoria, o cruzador poderia detectar uma formação aérea a grande distância, engajá-la inicialmente com Talos e utilizar Tartar contra os atacantes que conseguissem atravessar a primeira barreira.
Tudo isso dependia, porém, de uma quantidade extraordinária de eletrônica para os padrões da época.
Uma floresta de radares e computadores
Os grandes lançadores explicam apenas parte da aparência incomum dos Albany.
Mísseis guiados exigiam que o navio localizasse o alvo, acompanhasse seu movimento, calculasse a solução de interceptação e orientasse as armas até o engajamento. Isso significava radares de busca aérea, radares de direção de tiro e computadores ocupando espaços que anteriormente seriam reservados a peças de artilharia, paióis e alojamentos.
Naquela época, muitos desses equipamentos eram analógicos, volumosos e exigiam grande quantidade de operadores e técnicos.
O custo da transformação demonstra a dimensão tecnológica do empreendimento. Em 1963, a conversão e modernização do Albany era estimada em US$ 165 milhões a US$ 175 milhões da época, mais de quatro vezes o preço original de construção do cruzador. Grande parte da despesa estava associada justamente à eletrônica, aos computadores analógicos, aos radares e aos sistemas de controle de tiro.
O programa rapidamente demonstrou por que converter navios antigos nem sempre significava economizar dinheiro.
ASROC e guerra antissubmarino
A proteção de um grupo de porta-aviões também exigia enfrentar submarinos soviéticos.
Por isso, os Albany receberam um lançador de oito células para o ASROC — Anti-Submarine Rocket, capaz de transportar uma arma antissubmarino até as proximidades de um contato detectado pelo sonar.
Os navios também possuíam dois conjuntos triplos de tubos lança-torpedos antissubmarino. A concepção da época previa que Albany, Chicago, Columbus e o cruzador nuclear USS Long Beach reunissem defesa aérea de longo alcance com capacidade ASW, funcionando como poderosos escoltas dos grupos de porta-aviões.
Isso transformava os Albany em verdadeiros centros de defesa de força-tarefa, capazes de coordenar operações aéreas e engajar ameaças acima e abaixo da superfície.
A Marinha descobriu que ainda precisava de canhões
Por alguns meses, o Albany chegou a representar de forma quase absoluta a crença de que o futuro pertencia aos mísseis.
Quando concluiu seus primeiros testes, não possuía sequer um canhão convencional. Uma publicação do início de 1963 o descrevia como a primeira conversão norte-americana totalmente dedicada a mísseis, com Talos à vante e à ré, Tartar, ASROC e torpedos antissubmarino.
Mas a experiência rapidamente provocou uma reconsideração.
O problema era simples: mísseis eram excelentes contra aeronaves, mas um navio de guerra ainda poderia ter de enfrentar pequenas embarcações, realizar disparos de advertência ou atacar um alvo de superfície a curta distância.
Em 1963, a Marinha decidiu instalar dois canhões de 5 polegadas/38, um em cada bordo.
O Proceedings registrou na época que a decisão refletia uma mudança de pensamento dentro da própria Marinha sobre a conveniência de entregar todo o armamento de um grande combatente exclusivamente aos mísseis.
Era uma pequena admissão de que, apesar da revolução tecnológica, o velho canhão ainda não estava morto.
Testes que pareciam ficção científica
Os primeiros exercícios do Albany mostravam o quanto a guerra naval havia mudado em menos de duas décadas.
Em 30 de janeiro de 1963, durante testes de sistemas de armas, o cruzador lançou simultaneamente três mísseis antiaéreos, numa demonstração descrita na época como o equivalente moderno de uma salva da antiga bateria principal de canhões.
Os sistemas Talos, Tartar e ASROC foram testados com sucesso, e o navio regressou a Boston exibindo as tradicionais vassouras que simbolizavam um “clean sweep” — uma campanha de provas bem-sucedida.
Mas o desenvolvimento dos primeiros mísseis navais norte-americanos esteve longe de ser simples.
O programa Talos sofreu graves problemas iniciais de confiabilidade, especialmente nos sistemas de direção de tiro e nos equipamentos eletrônicos quando submetidos às condições do ambiente marítimo. A Marinha criou uma estrutura especial para resolver os defeitos, padronizar alterações, melhorar treinamento, logística e manutenção. Segundo a história técnica publicada pelo U.S. Naval Institute, somente por volta de 1966 o Talos poderia ser considerado plenamente operacional.
O Columbus participou diretamente desse processo, servindo entre 1963 e 1964 em testes destinados a validar melhorias do sistema.
O Chicago e o Talos em combate no Vietnã
A classe não ficou limitada à função de símbolo tecnológico da Guerra Fria.
O USS Chicago teve uma extensa carreira no Pacífico e participou das operações norte-americanas durante a Guerra do Vietnã. Ali, a combinação de grandes radares e mísseis Talos mostrou que a enorme reconstrução podia produzir resultados reais em combate.
Em maio de 1972, um Talos disparado pelo Chicago derrubou um MiG norte-vietnamita a aproximadamente 48 milhas de distância, um dos raríssimos abates de aeronaves realizados pelo gigantesco míssil naval.
O navio também empregou uma versão antirradiação do Talos contra instalações de radar no Vietnã do Norte, com a Naval History and Heritage Command registrando um ataque considerado provavelmente bem-sucedido.
O emprego mostrava uma capacidade particularmente avançada para o período: o mesmo míssil concebido primordialmente para destruir bombardeiros poderia ser adaptado para atacar emissões de radar em terra.
De seis planejados a apenas três
A escala inicialmente imaginada para o programa era maior.
Segundo a história de classificação de cruzadores publicada pela Naval History Magazine, em determinado momento a US Navy pretendia converter seis cruzadores pesados dentro do conceito SCB-173. Os planos passaram por diversas alterações, com diferentes cascos sendo substituídos à medida que navios em serviço eram desativados e ficavam disponíveis para reconstrução.
No fim, somente Albany, Chicago e Columbus foram transformados.
Os planos para outras conversões, entre elas USS Bremerton e USS Rochester, foram abandonados. O motivo principal era o custo gigantesco dos trabalhos, enquanto outros programas competiam pelo orçamento — particularmente a prioridade estratégica atribuída à nova força de submarinos nucleares armados com mísseis Polaris.
A conta já havia mostrado o problema: gastar cerca de US$ 165 milhões para reconstruir um cruzador existente aproximava o custo da conversão daquele de navios completamente novos.
Três destinos diferentes
O USS Columbus foi o primeiro dos três a deixar o serviço ativo. Depois de servir durante cerca de 14 anos na Frota do Atlântico em sua configuração de cruzador de mísseis, foi descomissionado em Portsmouth em 31 de janeiro de 1975.
O USS Chicago, que teve a carreira operacional mais associada ao Pacífico e ao Vietnã, permaneceu ativo até 1º de março de 1980, quando foi descomissionado em San Diego.
O líder da classe foi o último. O USS Albany deixou o serviço em 29 de agosto de 1980, depois de também ter servido como navio de comando e capitânia em forças norte-americanas no Atlântico e no Mediterrâneo. Permaneceu na reserva durante mais uma década antes de ser vendido para desmantelamento em 1990.
Nenhum dos três foi preservado como navio-museu.
Gigantes de uma era de transição
Os Albany tiveram uma carreira relativamente curta se comparada ao investimento necessário para criá-los, mas sua importância histórica não pode ser medida apenas pelo tempo de serviço.
Eles nasceram exatamente durante uma ruptura tecnológica.
Seus cascos haviam sido projetados quando o poder de um cruzador era medido pelo número e calibre de seus canhões. Quando retornaram ao serviço, sua capacidade de combate dependia de radares, computadores, enlaces de dados e mísseis guiados.
O Albany resume essa transformação de maneira particularmente impressionante. Comissionado originalmente em 1946 como um cruzador pesado tradicional, saiu do estaleiro em 1962 tão profundamente modificado que uma publicação do U.S. Naval Institute o descreveu décadas depois como “quase irreconhecível”.
E talvez seja justamente essa a melhor forma de compreender a classe.
Os Albany não foram simplesmente cruzadores antigos que receberam mísseis. Foram cascos da Segunda Guerra Mundial transformados em plataformas da era eletrônica, construídos num momento em que ninguém sabia exatamente como seria o grande combatente de superfície do futuro.
Parte das soluções empregadas neles desapareceria: enormes mísseis como o Talos, radares especializados para cada sistema de armas e complexos lançadores alimentados por grandes paióis horizontais acabariam substituídos por mísseis mais compactos, radares multifunção e, posteriormente, lançadores verticais.
Outras ideias sobreviveriam e se tornariam essenciais: defesa aérea em camadas, integração entre sensores e armas, capacidade de acompanhar numerosos alvos simultaneamente e utilização do cruzador como núcleo da defesa aérea de uma força naval.
Pouco depois, essa evolução conduziria a sistemas cada vez mais integrados e, finalmente, ao Aegis e aos cruzadores da classe Ticonderoga.
Os estranhos e imponentes Albany ficaram no meio desse caminho.
Tinham sob o convés a engenharia naval da década de 1940 e, acima dele, uma tentativa de imaginar a guerra naval das décadas seguintes.
Por isso, mais de seis décadas depois de sua entrada em serviço, continuam sendo talvez uma das representações visuais mais impressionantes da velocidade com que o míssil transformou a guerra no mar.■







Bota navio feio nisso!!!
O Tamandaré e Barroso eram dessa Classe?
Não. O ^Barroso^ pertenceu a classe Brooklin de 7 unidades enquanto o ^Tamandaré^ por conta de várias diferenças normalmente enquadrava-se em uma subclasse de apenas duas unidades todos incorporados antes do início da guerra.
.
Das duas unidades desta subclasse o USS Helena foi afundado pelos japoneses restando o USS Saint Louis que seria o futuro Tamandaré adquirido juntamente com o então ex USS Philadelphia rebatizado Barroso.
Valeu Dalton!
Durante a Guerra do Vietnã, o USS Chicago atuou com o callsign ‘Red Crown’ e provia cobertura radar das áreas de operações da USN, mas também conseguia fazer o mesmo para a USAF. O radar do Chicago conseguia enxergar até Hanoi, claro que dependendo da altitude do contato. Em algum momento antes da Linebacker, o Chicago foi equipado com o interrogador de IFF dos MiG, sendo capaz de detectar MiGs com precisão à distâncias extremas, sendo que em pelo menos uma ocasião foram capazes de identificar MiGs no solo (fisicamente eu não faço ideia de como isso foi feito, se… Read more »
Imagine que um único navio desses, um só, e há 60 anos atrás, possuía mais mísseis para defesa antiaérea (188 mísseis Talos/Tartar) do que todos os navios da nossa atual marinha juntos! É brincadeira?
Há braços
Realmente era uma capacidade impressionante. Imagina acomodar mais de 100 mísseis enormes (Talos) dentro do casco! Mais os 80 um pouco menores! O navio devia ficar abarrotado de tantas armas.
Lembre que a torreta de um 8″/55 Mk15 (não canhão triplo, onde os três canos se movem em conjunto, mas de três armas, onde cada arma pode ser movida individualmente), contendo cada150 projéteis (110 a 150 quilogramas por projétil), pesava ~300 toneladas. Só na remoção das três torretas liberou-se algo como 900 toneladas. 100 Talos, 350 toneladas, 90 Tartar, 54 toneladas, somando apenas ~400 toneladas. Claro que um míssil ocupa um volume maior que um projetil mas de alguma forma se obteve equilíbrio entre pessoas/volumes/densidades. E houveram outras alterações externas e internas…
Correção: onde se lê ‘pessoas/volumes/densidades’ leia-se ‘pesos/volumes/densidades’. Grato.
Achava os DDG-1000 feios, até conhecer essa aberração. Esses navios não mereceram isso, de lindos cruzadores pesados, a serem, sei lá, essas coisas.
Existe um modelo desse da Trumpeter escala 1350