O dia em que o presidente Kennedy perdeu a confiança nos ‘navios só de mísseis’ e mandou instalar canhões no USS Long Beach

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Uma demonstração naval diante do presidente John F. Kennedy, em abril de 1962, terminou com mísseis Terrier incapazes de derrubar um drone que se aproximava da esquadra. O episódio tornou-se parte da história da Marinha dos EUA e ajudou a devolver canhões de 5 polegadas aos modernos cruzadores de mísseis. A versão popular, porém, mistura dois navios: Kennedy observava o exercício a partir do USS Enterprise, enquanto os disparos malsucedidos foram realizados pelo USS Dewey

Em abril de 1962, a Marinha dos Estados Unidos pretendia oferecer ao presidente John F. Kennedy uma demonstração do futuro da guerra naval. No mar, diante do comandante-em-chefe, estavam alguns dos sistemas mais avançados produzidos pela indústria militar norte-americana no início da Era Atômica.

O resultado de uma das demonstrações, contudo, acabaria produzindo exatamente o efeito contrário. Depois que modernos mísseis antiaéreos falharam em destruir uma aeronave-alvo que se aproximava da força naval, Kennedy passou a questionar a ideia de construir grandes navios de guerra dependentes exclusivamente de mísseis.

A consequência mais famosa dessa preocupação seria vista no futurista cruzador nuclear USS Long Beach (CGN-9): duas peças de artilharia de 5 polegadas/38 calibres foram posteriormente instaladas a meia-nau, quebrando o conceito original de um grande combatente de superfície armado exclusivamente com mísseis.

A história é frequentemente contada como se Kennedy estivesse a bordo do Long Beach quando os mísseis do próprio cruzador falharam. Os registros históricos mostram, entretanto, uma sequência mais complexa — e ainda mais interessante.

O USS Long Beach representava o futuro

Quando entrou em serviço em 9 de setembro de 1961, o USS Long Beach era uma das embarcações militares mais avançadas já construídas. Foi o primeiro navio de superfície de propulsão nuclear da história e o primeiro cruzador norte-americano concebido desde a quilha, no período pós-Segunda Guerra Mundial, tendo os mísseis guiados como armamento principal.

O navio simbolizava uma convicção predominante entre muitos planejadores militares na década de 1950: a tecnologia dos mísseis tornaria progressivamente obsoleta a artilharia naval tradicional, da mesma forma que alguns acreditavam que os mísseis ar-ar poderiam tornar desnecessários os canhões nos futuros caças.

No Long Beach, essa filosofia foi levada muito longe. O cruzador recebeu dois lançadores duplos Mk 10 para mísseis antiaéreos Terrier na proa e um lançador Mk 12 para os grandes mísseis Talos na popa, além do sistema antissubmarino ASROC e torpedos.

O enorme bloco da superestrutura abrigava os radares de varredura eletrônica AN/SPS-32 e AN/SPS-33, componentes do sistema SCANFAR. Era uma tecnologia extremamente avançada para o início dos anos 1960 e antecessora conceitual dos sistemas de radar de varredura eletrônica que mais tarde se tornariam fundamentais nos navios equipados com o sistema Aegis.

Mas havia uma característica surpreendente naquele navio de aproximadamente 220 metros de comprimento: quando entrou em serviço, o USS Long Beach não possuía um único canhão de médio calibre.

Para seus projetistas, isso não constituía necessariamente uma deficiência. Representava o futuro.

Kennedy vai ao mar para assistir à nova Marinha

O presidente Kennedy a bordo do USS Enterprise (CVN-65), observando manobras, abril de 1962.

Em abril de 1962, Kennedy realizou uma extensa visita à Frota do Atlântico. O presidente tinha uma relação particularmente próxima com a Marinha: havia servido no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial como comandante da lancha torpedeira PT-109 e mantinha grande interesse pessoal por assuntos navais.

Em 14 de abril, Kennedy embarcou no recém-incorporado porta-aviões nuclear USS Enterprise (CVAN-65), então o maior e mais sofisticado porta-aviões do mundo, para assistir a uma grande demonstração da Frota do Atlântico ao largo da Carolina do Norte.

Além do presidente estavam membros do Congresso, representantes do governo, chefes militares e embaixadores estrangeiros. O objetivo era demonstrar a capacidade da Marinha norte-americana em uma época de intensa competição tecnológica com a União Soviética.

Fotografias preservadas pela John F. Kennedy Presidential Library e pelo Naval History and Heritage Command mostram Kennedy observando as manobras do passadiço do USS Enterprise, frequentemente utilizando binóculos.

A demonstração envolveu submarinos, navios de superfície, aeronaves e algumas das armas guiadas mais modernas disponíveis.

Foi então que ocorreu o episódio que entraria para o folclore da engenharia naval norte-americana.

O drone que os Terrier não conseguiram atingir

RIM-2-Terrier

Uma aeronave não tripulada, utilizada como alvo, aproximou-se da força naval simulando uma ameaça aérea. O moderno USS Dewey (DLG-14), um destroyer leader — classificação posteriormente aproximada à de cruzador — deveria demonstrar a eficácia do sistema antiaéreo Terrier.

Segundo uma reconstrução técnica publicada posteriormente sobre as origens do sistema Aegis, o Dewey disparou três mísseis Terrier contra o drone. Nenhum conseguiu destruí-lo.

USS Dewey (DLG-14)

Uma reportagem da revista Time, publicada ainda em 1962, registrou o episódio de maneira ligeiramente diferente, mencionando dois Terrier que passaram pelo alvo sem derrubá-lo. Oficiais da Marinha explicaram na ocasião que os mísseis teriam passado suficientemente perto para destruir o drone caso estivessem equipados com ogivas reais.

A diferença entre duas e três armas provavelmente decorre da forma como a demonstração foi registrada pelas diferentes fontes. O elemento central, entretanto, é consistente: os mísseis não conseguiram derrubar visualmente o alvo diante do presidente.

Para uma demonstração destinada a exibir a superioridade tecnológica da Marinha norte-americana, a situação era embaraçosa.

Mais importante, ela levantava uma pergunta operacional bastante simples: o que aconteceria se aquilo ocorresse em combate?

“E se os mísseis falharem?”

O Terrier fazia parte da primeira geração de grandes sistemas antiaéreos navais norte-americanos. Na década de 1950, a Marinha havia investido intensamente na chamada família “3-T” — Talos, Terrier e Tartar — destinada a proteger grupos de porta-aviões contra aeronaves soviéticas cada vez mais rápidas.

A capacidade oferecida por essas armas era revolucionária. Pela primeira vez, um navio podia engajar aeronaves a dezenas de quilômetros de distância, muito antes que elas chegassem ao alcance dos tradicionais canhões antiaéreos.

Mas os primeiros sistemas de mísseis eram também complexos. Dependiam de radares, computadores analógicos, iluminadores de alvo, enlaces eletrônicos e equipamentos que ainda estavam no início de sua maturidade tecnológica.

O fracasso observado por Kennedy atingia, portanto, diretamente uma questão que transcendia aquele drone: seria prudente eliminar completamente a artilharia de um navio e confiar toda a sua defesa em sistemas eletrônicos e mísseis?

A resposta presidencial acabou sendo negativa.

Kennedy manda os canhões voltarem

USS Long Beach a meia nau. Observar os canhões de destróieres da Segunda Guerra Mundial que foram instalados por ordem do presidente Kennedy

Relatos históricos posteriores vinculam diretamente o fracasso da demonstração à decisão de Kennedy de determinar que os novos cruzadores de mísseis recebessem novamente armamento convencional. A alteração de projeto realizada entre 1962 e 1963 acrescentou ao Long Beach duas peças simples de 5″/38.

Existe documentação contemporânea que confirma a intervenção presidencial na questão dos canhões, embora não permita estabelecer com absoluta certeza que uma única demonstração tenha sido a única causa da decisão.

Uma edição de junho de 1963 da revista Proceedings, do U.S. Naval Institute, relatava que a Marinha tivera “segundos pensamentos” sobre a conveniência de dedicar todo o armamento de um navio exclusivamente aos mísseis. O texto informava que o presidente havia determinado a instalação de dois canhões de 5″/38 no cruzador USS Albany.

A justificativa explicitada à época era proporcionar poder de fogo de curto alcance contra alvos de superfície, inclusive pequenas embarcações soviéticas como os então preocupantes barcos-mísseis da classe Komar, exemplares dos quais haviam aparecido em Cuba.

O mesmo artigo observava que o USS Long Beach, construído originalmente como navio exclusivamente de mísseis, ainda representava precisamente a filosofia que estava sendo reconsiderada.

Fontes modernas do U.S. Naval Institute afirmam ainda que Kennedy determinou que os cruzadores de mísseis recebessem dois canhões de 5″/38 para garantir uma capacidade mínima contra ameaças próximas.

Uma ressalva histórica importante

Existe, entretanto, uma pequena inconsistência cronológica nas fontes. Um artigo recente da Naval History, do U.S. Naval Institute, situa a determinação de Kennedy para instalar canhões nos cruzadores em 1961, enquanto as fontes que associam diretamente a decisão à demonstração dos Terrier colocam o episódio em 14 de abril de 1962.

Por essa razão, seria excessivamente categórico afirmar que os canhões do Long Beach foram resultado exclusivo e imediato daqueles disparos malsucedidos.

O que pode ser estabelecido com segurança é que Kennedy assistiu pessoalmente ao fracasso de mísseis Terrier durante a demonstração de 1962; que ele se interessou diretamente pela vulnerabilidade dos navios exclusivamente armados com mísseis; e que sua administração determinou a inclusão de canhões nos grandes cruzadores de mísseis.

O episódio do Dewey tornou-se, assim, a representação mais conhecida de uma mudança de pensamento que já começava a ganhar espaço dentro da própria Marinha.

Os canhões escolhidos eram de outra época

Torretas Mk 30 de canhões de 5 polegadas / 38 calibres, do mesmo tipo instalado a meia nau do USS Long Beach

A solução adotada no USS Long Beach era curiososa. Em um navio com propulsão nuclear, radares de varredura eletrônica e mísseis Talos e Terrier, foram instaladas duas peças 5″/38, uma arma cuja origem remontava à década de 1930.

Os canhões foram posicionados lado a lado, a bombordo e boreste, aproximadamente a meia-nau. Eram montagens simples e abertas, visualmente muito diferentes das torres automáticas e fechadas que equipariam navios posteriores.

A aparência era quase anacrônica. Sob a gigantesca superestrutura quadrada do cruzador e cercadas por alguns dos sistemas eletrônicos mais sofisticados de sua época, as peças pareciam ter sido retiradas diretamente de um destróier da Segunda Guerra Mundial.

Mas sua função era exatamente essa: oferecer uma alternativa simples e independente caso os sistemas mais sofisticados não pudessem ser utilizados.

Além da defesa contra pequenas embarcações, os canhões davam ao Long Beach capacidade para realizar tiros contra alvos costeiros e enfrentar objetivos de superfície para os quais empregar um grande míssil antiaéreo seria inadequado ou economicamente absurdo.

A ironia histórica

 

O episódio tornou-se especialmente interessante porque a história operacional do Long Beach acabaria demonstrando que os mísseis navais não eram uma ideia equivocada. Pelo contrário.

Durante a Guerra do Vietnã, o cruzador utilizou seus mísseis Talos contra aeronaves norte-vietnamitas. Em maio de 1968, o Long Beach conseguiu derrubar um MiG a uma distância de aproximadamente 65 milhas, um marco na história do combate naval com mísseis guiados.

A tecnologia que havia constrangido a Marinha diante de Kennedy em 1962 amadureceu. Sistemas eletrônicos tornaram-se mais confiáveis, os radares evoluíram e sucessivas gerações de mísseis transformaram definitivamente a defesa aérea naval.

Isso, contudo, não eliminou completamente os canhões.

Navios norte-americanos posteriores continuaram levando artilharia convencional, mesmo quando passaram a dispor de sistemas de lançamento vertical com dezenas ou centenas de mísseis.

A lição que atravessou décadas

A decisão envolvendo o Long Beach antecipava um princípio que continua presente no projeto de navios de guerra: não concentrar toda a capacidade defensiva em uma única tecnologia.

Um míssil pode oferecer alcance muito superior ao de um canhão, mas pode sofrer falhas, interferência eletrônica, problemas de sensores ou simplesmente não ser a arma adequada contra um alvo pequeno e próximo.

Décadas mais tarde, os cruzadores da classe Ticonderoga e os destróieres Arleigh Burke continuariam equipados com canhões de 5 polegadas, apesar de carregarem sofisticados sistemas Aegis e dezenas de mísseis Standard, Tomahawk e outras armas.

A própria evolução das ameaças voltou a tornar essa lógica particularmente relevante. Pequenos barcos rápidos, drones e alvos de baixo custo reforçam o problema de utilizar armamentos extremamente caros contra ameaças relativamente baratas.

VÍDEO:  Apresentação da Frota ao Presidente JFK em 1962

FONTES: Naval History and Heritage Command; John F. Kennedy Presidential Library and Museum; U.S. Naval Institute/Proceedings; American Presidency Project; Time; estudos históricos sobre o desenvolvimento do Aegis e documentação histórica da U.S. Navy.



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15 Comentários
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Wagner Figueiredo

E até nos dias de hoje concordo com ele….sempre gostei dos canhões…pelo menos uns dois em casa navio. Os italianos adotam esse sistema…nem que seja de calibres diferentes.. além de ficar mais bonito, da uma segurança a mais em caso de falha dos mísseis!!!!

Helio Eduardo

É uma lição que eu julgo estar solidamente ancorada: nunca confiar em uma só tecnologia.

Eu, particularmente, acredito que a ameaça dos drones e a prória evolução da tecnnologia – com medidas e contra medidas evoluindo quase que em progressão geométrica – terão como resultado a manutenção da artilharia como ultimo recurso, quando todo o resto falhar, seja por avaria, inadequação ou contra medida.

Palpiteiro

Esse é o exemplo de uma falha típica de gestão de projetos. O gestor de projeto entender de riscos do projeto e não entender nada de riscos do produto do projeto. Durante toda a fase do desenvolvimento e neste caso na concepção parece ter faltado identificar todos os modos de falha, mitigar ou eliminalos. O cliente final não aceitou o não atendimento desse modo de falha e não aceitou a entrega.

Dalton

O ^Long Beach^ foi o primeiro navio militar de propulsão nuclear antecedendo por pouco o ^Enterprise^ também de 1961 com sensores e armas avançados para a época.
.
Faltou apenas o canhão e como havia espaço e reserva de peso mais que suficientes então foi fácil a solução, mas de maneira geral cumpriu as expectativas até porque a função principal seria a proteção AA para o próprio ^Enterprise^ inicialmente deixando demais proteções para outros navios.

Renato de Mello Machado

Pode tirar nada não.Quanto mais armas melhor.

Beto

Imagina isso no mar negro kkk

DANIEL ALVES E SILVA

John Kennedy não era um burocrata ou político de carreira. Era um Oficial da Marinha, herói de guerra, comandou uma lancha e salvou sua tripulação. Sabia o que era o combate marítimo. Suas observações à respeito da necessidade de canhões navais na embarcação, fazem sentido até hoje. As defesas de ponto por exemplo, junto com um canhão na defesa antiaérea de curto alcance são imprescindíveis no século XXI, onde drones baratos em enxame são uma dor de cabeça para meios de superfície no mar e aviões caríssimos no ar. Fui militar do EB por 13 anos, Precursor Paraquedista, não sei… Read more »

Fernando Vieira

Amigo, não precisa a guerra da Ucrânia acabar para esses excedentes chegarem aqui. Drone é muito barato, então os traficantes já os conseguem hoje. O Fantástico domingo passado mostrou uma rua em comunidade que os traficantes cobriram justamente para evitar ataques de drones das quadrilhas rivais. Esses drones mudaram totalmente a guerra assimétrica, se as guerras americanas no Iraque e no Afeganistão fossem hoje, as tropas americanas estariam sofrendo muito mais por conta dos drones Eu assisti a um brasileiro que voltou da Ucrânia num desses podcasts. Ele foi bem realista e não fazia propaganda para as pessoas se alistarem… Read more »

Fernando Vieira

Pobre Dewey… Não derrotou nem Truman nem um drone.

Dalton

O Dewey em questão foi um antigo Almirante não o adversário de Truman em 1948.

Alex Barreto Cypriano

Não é, nunca, uma questão de gosto pessoal, é sempre uma decisão prática de prover o meio de defesa adequado ao meio de ameaça. O meio de ameaça é a aeronave, e as aeronaves vieram melhorando, com maiores velocidades – canhões navais não podiam mais com elas, daí o míssil antiaereo. No entreguerras, as 5″/25 cal eram armas pra abater aeronaves quase no zênite (altos ângulos, high ‘angels’) e os 5″/53 cal, pra alvos de superfície; durante a IIGM ambas foram preteridas pelas 5″/38 cal, que tinham dual-use, AA e ASu, e se tornaram as queridinhas de marinheiros e fuzileiros… Read more »

Alex Barreto Cypriano

Corrigindo: onde se lê ‘5″/53 cal’, leia-se ‘5″/51 cal’. Grato.

BVR

Aquelas duas “torres com bulbo” logo acima do míssil na ré do USS Dewey, seriam radares de tiro ?

Curiosidade.

No mais, quando PN traz essas preciosidades marítimas do período da guerra fria é muito gratificante.

Dalton

Sim, mais conhecidos como radares de controle de fogo, (fire Control) neste caso para os mísseis.

BVR

Salve Dalton !
Obrigado pelo retorno.