Quando presidentes dos EUA interferem em projetos militares: de Theodore Roosevelt a Donald Trump
O presidente Theodore Roosevelt (em pé na torre de 12 canhões à direita) discursa para oficiais e tripulantes no convés de popa do USS Connecticut (encouraçado nº 18), em Hampton Roads, Virgínia, após seu retorno da viagem da Frota do Atlântico ao redor do mundo, em 22 de fevereiro de 1909. Acervo do Tenente-Comandante Richard Wainwright Jr., USN, 1926. Fotografia do Comando de História e Patrimônio Naval dos EUA
A participação direta de presidentes norte-americanos em programas de armamentos não começou com Donald Trump. Ao longo da história, chefes de Estado influenciaram projetos navais, cancelaram aeronaves, ressuscitaram programas e, em alguns casos, contrariaram frontalmente recomendações técnicas das próprias Forças Armadas
A decisão do presidente Donald Trump de determinar que a Marinha dos Estados Unidos estude o retorno das catapultas a vapor aos futuros porta-aviões, somada à sua preferência por uma mudança na posição da “ilha” dos navios da classe Gerald R. Ford, ressucitou uma antiga discussão sobre os limites da interferência política em projetos militares.
Embora o episódio possa parecer excepcional, a história norte-americana registra diversos momentos em que presidentes influenciaram diretamente a escolha, o desenvolvimento e até determinadas características de sistemas de armas. Em alguns casos, essa intervenção ocorreu em oposição às recomendações de engenheiros, almirantes e generais.
O que distingue o caso atual não é, portanto, a existência da interferência presidencial, mas o nível de detalhamento técnico envolvido e o fato de parte das alterações discutidas estar relacionada também à preferência pessoal do presidente quanto à aparência dos navios.
Trump e os porta-aviões da classe Ford

Em 13 de agosto de 2026, Trump assinou um memorando de segurança nacional determinando que a Marinha apresente, no prazo de 60 dias, um plano para substituir, no futuro USS Doris Miller (CVN-81), o sistema eletromagnético de lançamento de aeronaves EMALS por catapultas a vapor.
O documento também determina a análise da substituição dos Advanced Weapons Elevators, elevadores eletromagnéticos utilizados para transportar armamentos entre os paióis e o convés de voo, por sistemas hidráulicos considerados mais tradicionais.
Trata-se de uma intervenção particularmente específica sobre a configuração de um navio de guerra. Tanto o EMALS quanto os elevadores eletromagnéticos fazem parte da arquitetura original da classe Gerald R. Ford e foram desenvolvidos para substituir tecnologias utilizadas durante décadas nos porta-aviões da classe Nimitz.
Paralelamente, segundo o The Washington Post, a Marinha está avaliando outra alteração de grande impacto: deslocar para a frente a superestrutura conhecida como “ilha”, atualmente posicionada próxima da popa nos porta-aviões da classe Ford.
Nos novos navios, essa localização foi escolhida para ampliar a área disponível no convés de voo, melhorar a movimentação das aeronaves e aumentar a eficiência das operações de lançamento e recuperação. Trump, entretanto, teria manifestado preferência por navios com aparência mais próxima dos porta-aviões norte-americanos da Segunda Guerra Mundial.
É importante observar que, até o momento, Trump não determinou formalmente a mudança da posição da ilha. O que existe é uma avaliação técnica conduzida pela Marinha em resposta às preferências manifestadas pelo presidente.
Segundo autoridades citadas pela imprensa norte-americana, um estudo semelhante realizado durante o primeiro mandato de Trump concluiu que uma mudança dessa magnitude poderia acrescentar bilhões de dólares aos custos do programa e provocar atrasos substanciais.
Theodore Roosevelt e o desenho dos couraçados

O precedente histórico provavelmente mais semelhante encontra-se no governo de Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909 e conhecido por seu profundo interesse em assuntos militares e, particularmente, navais.
Antes de chegar à Casa Branca, Roosevelt havia ocupado o cargo de secretário-assistente da Marinha e escrito trabalhos relacionados à história naval. Como presidente, seu envolvimento com a modernização da frota ultrapassou consideravelmente a definição de orçamento e estratégia.
No início do século XX, oficiais reformistas da Marinha, entre eles William Sims, passaram a criticar diversos aspectos dos couraçados norte-americanos. As objeções incluíam a localização da artilharia secundária, a proteção das barbetas, a disposição interna dos paióis, a blindagem e a organização das torres.
Sims possuía acesso direto ao presidente e apresentou pessoalmente várias dessas preocupações. Roosevelt decidiu então participar do debate, em vez de deixar a questão exclusivamente sob responsabilidade dos órgãos técnicos da Marinha.
Em julho de 1908, convocou uma conferência no Naval War College, em Newport, para discutir os projetos dos futuros couraçados. O próprio presidente presidiu a reunião, que reuniu engenheiros navais, oficiais operacionais e responsáveis pelos departamentos encarregados da construção dos navios.
Roosevelt pressionava por alterações porque acreditava que algumas decisões tomadas pela burocracia naval prejudicavam a eficiência em combate. Quando encontrou resistência, manifestou publicamente sua insatisfação com aquilo que considerava excessivo conservadorismo institucional.
A semelhança com Trump reside justamente na disposição de questionar decisões técnicas consolidadas dentro da Marinha. A diferença fundamental está na motivação: Theodore Roosevelt concentrava suas preocupações essencialmente no desempenho militar e na capacidade de combate dos navios.
Franklin Roosevelt contrariou a Marinha e acelerou novos porta-aviões

Franklin D. Roosevelt protagonizou outro dos episódios mais significativos de intervenção presidencial em um programa naval. Em 1941, meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, FDR acreditava que os Estados Unidos precisariam aumentar rapidamente o número de porta-aviões disponíveis.
Naquele momento, a indústria naval norte-americana produzia diversos cruzadores leves da classe Cleveland. Roosevelt propôs converter alguns desses cascos, ainda em construção, em porta-aviões leves capazes de entrar em serviço com maior rapidez.
A proposta encontrou resistência dentro da própria Marinha. O Bureau of Ships e o General Board argumentavam que as conversões produziriam porta-aviões inferiores aos navios construídos especificamente para essa função e poderiam ainda prejudicar o programa de cruzadores.
Em outubro de 1941, o General Board decidiu formalmente contra a conversão. Roosevelt, entretanto, rejeitou a conclusão e determinou que novos estudos fossem realizados, pressionando diretamente pela reconsideração da proposta.

O resultado foi a classe Independence, formada por nove cruzadores convertidos em porta-aviões leves. Os navios possuíam limitações evidentes, como hangares menores, conveses relativamente estreitos e características marinheiras inferiores às dos grandes porta-aviões da classe Essex.
Ainda assim, Roosevelt estava preocupado principalmente com o tempo necessário para colocar novos conveses de voo em operação. Os primeiros navios da classe entraram em serviço em 1943 e participaram das principais ofensivas norte-americanas no Pacífico.
Nesse caso, o presidente contrariou diretamente os órgãos técnicos da Marinha, mas sua decisão estava vinculada a uma necessidade estratégica concreta: acelerar a disponibilidade de poder aeronaval durante uma guerra de dimensões globais.
Truman e o cancelamento do USS United States

Harry Truman protagonizou uma intervenção de natureza diferente no final da década de 1940. A Marinha planejava construir o USS United States (CVA-58), um grande porta-aviões concebido para operar aeronaves pesadas capazes de participar da missão de ataque nuclear.
A construção teve início em abril de 1949. Apenas alguns dias depois, o secretário de Defesa Louis Johnson, com o apoio da administração Truman, determinou o cancelamento do programa.
A decisão desencadeou uma grave crise institucional. Diversos almirantes consideravam que o recém-criado Departamento de Defesa estava sacrificando a aviação naval em benefício da Força Aérea e de seus bombardeiros estratégicos B-36.
O episódio ficou conhecido como “Revolta dos Almirantes” e demonstrou até que ponto uma decisão política podia modificar a estrutura futura das Forças Armadas, mesmo diante de forte oposição por parte da liderança militar.
Truman não interferiu em detalhes específicos do projeto, como posição de sensores ou configuração do convés. Sua administração, entretanto, tomou uma decisão mais abrangente: eliminou completamente um grande programa naval já em andamento.
Carter cancelou o B-1; Reagan o recuperou
Na aviação, um dos exemplos mais conhecidos envolve o bombardeiro estratégico Rockwell B-1. Durante a década de 1970, o B-1A era desenvolvido para substituir parte da frota de B-52 da Força Aérea dos Estados Unidos.
O programa já havia produzido protótipos e avançava nos testes de voo quando o presidente Jimmy Carter anunciou, em junho de 1977, o cancelamento da produção da aeronave.
A decisão refletia uma opção estratégica mais ampla. Carter considerava que os B-52 armados com mísseis de cruzeiro, combinados com o desenvolvimento secreto de novas tecnologias furtivas, poderiam cumprir a missão de dissuasão de maneira mais eficiente.
Quatro anos depois, o presidente Ronald Reagan adotou posição oposta. Em 1981, anunciou a aquisição de 100 aeronaves derivadas do projeto original, ressuscitando o programa.
O avião retornou profundamente modificado como B-1B Lancer, com alterações estruturais, aerodinâmicas e eletrônicas substanciais. O caso demonstrou como mudanças de governo podem alterar completamente o destino de grandes programas militares.
Nem Carter nem Reagan determinaram pessoalmente características específicas de engenharia. Contudo, suas decisões presidenciais determinaram diretamente se uma das principais aeronaves estratégicas norte-americanas seria produzida ou abandonada.
Abraham Lincoln e o interesse direto por novas armas
A participação presidencial no desenvolvimento de equipamentos militares remonta à própria Guerra Civil Americana. Abraham Lincoln demonstrava forte interesse por novas tecnologias e frequentemente recebia inventores que apresentavam armas e equipamentos à administração federal.
Um dos episódios mais conhecidos envolveu o rifle de repetição Spencer, que oferecia uma cadência de tiro muito superior à dos mosquetes convencionais utilizados pelos exércitos da época.
Diante da resistência existente em alguns setores militares, Lincoln participou pessoalmente de uma demonstração e chegou a realizar disparos com a arma.
O presidente não estava interferindo no projeto técnico do rifle, mas sua participação demonstra que a Casa Branca, em determinados momentos, exerceu influência direta sobre a adoção de novas tecnologias militares.
Quando a decisão estratégica se transforma em decisão de engenharia?
O presidente dos Estados Unidos exerce constitucionalmente a função de comandante-em-chefe das Forças Armadas. É, portanto, natural que defina prioridades estratégicas, níveis de investimento e capacidades militares consideradas essenciais.
Um presidente pode decidir que o país necessita de mais submarinos, menos bombardeiros, novos mísseis, maior capacidade nuclear ou uma determinada estrutura de forças. Essas escolhas fazem parte do controle civil sobre os militares.
A questão torna-se mais sensível quando a decisão política começa a avançar sobre aspectos tradicionalmente reservados à engenharia e ao planejamento operacional.
Qual tipo de catapulta deve lançar aeronaves? Onde deve ficar a ilha de um porta-aviões? Qual tecnologia deve movimentar os elevadores de armas? Essas escolhas estão associadas a milhares de variáveis de projeto.
Mover a ilha de um porta-aviões pode alterar a circulação das aeronaves, a aerodinâmica sobre o convés, a distribuição de pesos, a localização de sensores, cabos, tubulações, elevadores e instalações internas.
Da mesma forma, substituir catapultas eletromagnéticas por sistemas a vapor em um navio concebido desde o início em torno de uma ampla arquitetura elétrica pode demandar modificações muito mais profundas do que a simples troca de um equipamento.
Trump não é o primeiro, mas o episódio permanece incomum
A história demonstra que Donald Trump não é o primeiro presidente norte-americano a interferir diretamente em grandes programas militares. Theodore Roosevelt discutiu projetos de couraçados, Franklin Roosevelt contrariou a Marinha em relação aos porta-aviões leves e Truman apoiou o cancelamento de um superporta-aviões já em construção.
Jimmy Carter cancelou o B-1, Ronald Reagan ressuscitou o programa e Abraham Lincoln chegou a participar pessoalmente da avaliação de novas armas durante a Guerra Civil.
O caso envolvendo os porta-aviões da classe Gerald R. Ford, entretanto, apresenta características próprias. O primeiro navio, USS Gerald R. Ford (CVN-78), já se encontra operacional, enquanto os demais estão em diferentes estágios de construção, testes e preparação para entrada em serviço.
Isso significa que alterações introduzidas nesta fase podem exigir redesenhos extensos, aumentar significativamente os custos e provocar novos atrasos em um programa que já figura entre os mais complexos da história naval.
No caso específico da posição da ilha, existe ainda uma característica pouco comum nos precedentes históricos: segundo autoridades norte-americanas citadas pela imprensa, a discussão também está associada à preferência de Trump por porta-aviões cuja aparência se aproxime dos grandes navios da Segunda Guerra Mundial.
Theodore Roosevelt buscava melhorar a eficiência de combate dos couraçados. Franklin Roosevelt pretendia obter novos porta-aviões em menor prazo. Truman, Carter e Reagan tomaram decisões relacionadas a conceitos estratégicos mais amplos.
Alterar a arquitetura de um porta-aviões nuclear de aproximadamente 100 mil toneladas também para atender a uma preferência visual do comandante-em-chefe constitui uma situação consideravelmente mais rara.
Donald Trump, portanto, não inaugurou a tradição de presidentes norte-americanos que interferem em projetos militares. Poderá, contudo, tornar-se um dos casos mais singulares de intervenção presidencial simultaneamente sobre a tecnologia, a arquitetura e a própria aparência dos maiores navios de guerra dos Estados Unidos.
FONTES: Casa Branca, The Washington Post, Naval History and Heritage Command, U.S. Naval Institute, Smithsonian Institution e registros históricos da Força Aérea dos Estados Unidos.

“Sutor ne ultra crepidam” – Apeles
Franklin Roosevelt que aparentemente gostou de ser presidente, reeleito outras três vezes em 1936, 1940 e 1944 tinha como característica assumir como ^nós^, ele e a marinha e ^eles^ o exército que também era responsável pela Força Aérea na época. . Provavelmente o presidente mais simpático a marinha, teve um dos 3 NAes da classe Midway batizado com seu nome após sua morte em abril de 1945 e na opinião de muitos mereceria haver outro com seu nome, ao invés há um Arleigh Burke que homenageia o casal Roosevelt o USS Roosevelt (DDG 80). . Acertada a decisão dele de… Read more »
Os dois presidentes americanos que mais acertaram são justamente a dupla Roosevelt, baita líderes.
Parece que ate estava adivinhando !!!!
A escolha de atributos só podem ser avaliados diante aos requisitos que se deseja atender e suas prioridades. A gestão cabe estabelecer os requisitos estratégicos. Vieses cognitivos ofuscam todos níveis. O texto diz sobre presidentes contra uma razão de engenharia, mas não considera também a miopia de gestores militares. Lyncolm estava certo. O que atrapalha a melhor engenharia é que muitas vezes os requisitos já são apresentados na forma de atributos. USS Monitor, dificilmente teria sido inovador se fosse construído baseado em atributos.
Ted Roosevelt era especialista em combate naval, e foi o maior estudioso da campanha de guerra naval da Guerra Civil Americana, ele inclusive revolucionou a forma de como conduzir uma pesquisa de guerra naval na época. O Trump é só um fanfarrão que tem nostalgia da estética antiga.
“A decisão desencadeou uma grave crise institucional. Diversos almirantes consideravam que o recém-criado Departamento de Defesa estava sacrificando a aviação naval em benefício da Força Aérea e de seus bombardeiros estratégicos B-36.” E eles estavam corretos. Só o SAC englobava mais de 50% de todo o orçamento de Defesa dos EUA. Havia motivo, claro. A Força Aérea havia, na percepção da maioria, terminado a guerra com o Japão e evitado uma invasão sangrenta ao utilizar armamento nuclear. A idéia é que não haveria mais uma guerra convencional por medo da utilização da bomba. Claro que sabemos que não foi assim,… Read more »
O mais engraçado é que somente a intromissão do Laranjão conseguiu dobrar o “dloido” megalomaníaco da Ásis…
No Brasil TODOS os presidentes (ao menos desde 1988) interferiram em projetos militares: todos eles cortaram verbas dos projetos que havia! A maioria deles chamou de contingenciamento, mesmo sendo cortes e teve uns que disseram que era dinheiro melhor gasto em programas sociais….