Classe Atlanta: os pequenos cruzadores que se tornaram guarda-costas dos porta-aviões americanos no Pacífico
USS Atlanta (CL-51)
Projetados originalmente como líderes de flotilhas de destróieres, os oito cruzadores leves da classe Atlanta encontraram sua verdadeira vocação durante a Segunda Guerra Mundial: erguer uma muralha de fogo antiaéreo ao redor dos porta-aviões da US Navy
Quando a Marinha dos Estados Unidos começou a projetar uma nova geração de pequenos cruzadores no final da década de 1930, o avião ainda não havia demonstrado completamente que transformaria a guerra naval. O resultado foi a classe Atlanta, uma família incomum de navios concebida inicialmente para reconhecimento rápido e liderança de flotilhas de destróieres, mas que encontraria na defesa antiaérea sua função mais importante durante a Segunda Guerra Mundial.
O projeto surgiu sob as restrições dos tratados navais internacionais. Em vez das tradicionais baterias de canhões de 6 polegadas dos cruzadores leves americanos, os novos navios receberam uma concentração extraordinária de peças de 5 polegadas/38 calibres de duplo emprego, capazes de combater tanto aeronaves quanto alvos de superfície. A própria história oficial da US Navy registra que os cruzadores de 6.000 toneladas da classe foram projetados em 1937 com uma poderosa bateria antiaérea.
Dezesseis canhões de 127 mm

Os quatro primeiros navios — Atlanta (CL-51), Juneau (CL-52), San Diego (CL-53) e San Juan (CL-54) — apresentavam uma silhueta facilmente reconhecível. Tinham cerca de 165 metros de comprimento, deslocamento padrão próximo de 6.000 toneladas e velocidade superior a 30 nós. O Atlanta atingiu 33,6 nós em suas características oficiais.
O principal destaque eram 16 canhões Mk 12 de 5″/38, distribuídos em oito torres duplas. Três ficavam sobrepostas à vante, três à ré e outras duas eram instaladas lateralmente junto à superestrutura de popa. A configuração produzia uma impressionante concentração de fogo para um navio daquele tamanho.
O 5″/38 viria a ser considerado um dos melhores canhões navais de duplo emprego da guerra, combinando rapidez de tiro, confiabilidade e projéteis capazes de atacar aviões ou navios. Os Atlanta também possuíam tubos de torpedos de 21 polegadas — uma característica incomum entre os cruzadores americanos construídos durante a guerra.
Havia, contudo, limitações. A blindagem era relativamente leve e o enorme número de armas e equipamentos sobre a superestrutura produzia problemas de peso alto. Além disso, apenas dois diretores principais Mk 37 controlavam a numerosa bateria de 127 mm, restringindo quantos alvos podiam ser engajados simultaneamente.
A guerra transforma sua missão
A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial encontrou os primeiros Atlanta chegando à frota. O navio líder foi incorporado em 24 de dezembro de 1941, apenas 17 dias depois do ataque japonês a Pearl Harbor. O San Diego entrou em serviço em janeiro de 1942, seguido pelo Juneau e pelo San Juan em fevereiro.
A guerra rapidamente mostrou onde os novos cruzadores eram mais valiosos: junto aos porta-aviões.
A capacidade de lançar grandes volumes de fogo antiaéreo transformou-os em escoltas naturais das forças-tarefa de porta-aviões que começaram a dominar a campanha do Pacífico. O Atlanta participou da Batalha de Midway protegendo o USS Hornet, enquanto San Diego, San Juan e Juneau combateram durante a campanha das Ilhas Salomão.
Seus radares e armamentos também evoluíram rapidamente. As antigas metralhadoras antiaéreas de 1,1 polegada deram lugar progressivamente aos muito mais eficientes canhões Bofors de 40 mm, enquanto peças Oerlikon de 20 mm reforçavam a defesa aproximada.
Guadalcanal cobra um preço brutal

A noite de 13 de novembro de 1942, durante a Batalha Naval de Guadalcanal, revelou também a vulnerabilidade dos pequenos cruzadores quando colocados em combate de superfície a curta distância.
O Atlanta, capitânia do contra-almirante Norman Scott, entrou em uma caótica batalha noturna contra couraçados, cruzadores e destróieres japoneses. Recebeu um torpedo, diversos impactos inimigos e, na confusão, foi também atingido por salvas de 8 polegadas disparadas pelo cruzador americano USS San Francisco. Scott morreu juntamente com grande parte de seu estado-maior. Incapaz de ser salvo, o Atlanta foi abandonado e afundado por sua própria tripulação naquela noite. A US Navy contabiliza 170 mortos e 103 feridos.
Horas depois viria uma tragédia ainda maior.
O Juneau, já danificado durante a batalha, retirava-se da região quando foi atingido pelo submarino japonês I-26. Uma violenta explosão partiu o navio, que desapareceu rapidamente. Apenas dez tripulantes sobreviveram para serem resgatados dias depois. Entre os mortos estavam os cinco irmãos Sullivan — George, Francis, Joseph, Madison e Albert — cuja morte conjunta se transformou em um dos episódios mais conhecidos da história naval americana da guerra.
Em um único dia, a classe havia perdido metade de seu primeiro grupo.
Surge a subclasse Oakland

A experiência operacional levou a modificações nos quatro navios seguintes: Oakland (CL-95), Reno (CL-96), Flint (CL-97) e Tucson (CL-98), frequentemente tratados como subclasse Oakland ou como segundo grupo da classe Atlanta.
As duas torres laterais de 5 polegadas foram eliminadas, reduzindo a bateria principal de 16 para 12 canhões de 127 mm. Em compensação, aumentou-se a quantidade de armas automáticas de 40 mm e 20 mm, simplificando a disposição da superestrutura e aliviando parte dos problemas de peso. O Oakland, por exemplo, entrou em serviço com 12 canhões de 5 polegadas e uma bateria ampliada de armas antiaéreas.
Esses navios chegaram justamente quando a US Navy avançava pelo Pacífico Central. O Oakland protegeu porta-aviões durante as campanhas das Gilbert, Marshall, Marianas, Filipinas e Okinawa. O Flint participou de ataques contra o Japão e da campanha de Iwo Jima. Já o Reno quase teve o destino de seus antecessores quando foi torpedeado em novembro de 1944, próximo às Filipinas. Apesar dos graves danos e perda temporária de estabilidade, conseguiu sobreviver e foi rebocado por cerca de 700 milhas até Ulithi.
O extraordinário San Diego

Nenhuma unidade da classe acumulou uma carreira de guerra comparável à do San Diego.
O cruzador acompanhou os porta-aviões americanos desde Guadalcanal, atravessou as campanhas das Salomão, Gilbert, Marshall, Marianas, Filipinas, Iwo Jima e Okinawa e participou dos ataques finais contra o arquipélago japonês.
Quando a guerra terminou, o San Diego estava entre os primeiros grandes navios aliados a entrar em Tokyo Bay. Ao todo, recebeu 18 estrelas de batalha, ficando atrás apenas do porta-aviões Enterprise, que conquistou 20, entre todos os navios americanos da Segunda Guerra Mundial.
O desempenho simbolizava perfeitamente a transformação da classe: um projeto pensado para liderar destróieres terminara a guerra como um dos mais experimentados sistemas de proteção dos grupos de porta-aviões.
Uma classe moldada pela revolução aeronaval

A evolução continuaria com a posterior classe Juneau (fotos acima) — não confundir com o Juneau CL-52 perdido em Guadalcanal — que reorganizou novamente as torres e reduziu problemas de estabilidade. Os próprios Atlanta e Oakland sobreviventes foram posteriormente classificados como CLAA, cruzadores leves antiaéreos, em 1949.
Sua carreira pós-guerra, porém, foi curta. O rápido desenvolvimento dos aviões a jato, radares mais sofisticados e mísseis antiaéreos começou a tornar obsoleto o conceito de uma embarcação cuja defesa aérea dependia essencialmente de dezenas de canhões. Os navios acabaram retirados do serviço e posteriormente desmontados.
A classe Atlanta permanece, contudo, como produto de um momento singular da história naval. Projetada antes de Pearl Harbor para uma missão que nunca se tornaria realmente central, entrou em combate exatamente quando o porta-aviões substituía o couraçado como núcleo das grandes forças navais. Sua verdadeira utilidade surgiu dessa transformação: não liderando flotilhas de destróieres, mas protegendo com uma tempestade de projéteis os navios que estavam redefinindo a guerra no mar.■



Interessante essa classe Atlanta e também a Juneau. Poderiam dois deles ou até mais ter sido transferidos para a MB como futuras escoltas do Minas Gerais. Deixariam os Barroso e Tamandaré como líderes dos esquadrões de contratorpedeiros. Belos navios, silhuetas elegantes e um tamanho compatível com a MB dos anos 50 a 70, podendo até mesmo ter sido operados aqui nos anos 80. Nomes? Modernização? Retirada da sexta torre e das torres de antiaéreas à ré para construção de um convoo e um hangar de cobertura móvel. Sem a quinta torre, daria para instalar 4 Exocet MM38. Fora a modernização… Read more »
O preço original do Atlanta – o contrato de 1939 foi de US$ 12,226 milhões – comparando um navio da Segunda Guerra com uma reconstrução tecnológica de décadas depois…não custaria menos de US$ 80 milhões. Podia ter feito sentido antes de 1978 quando rompemos o acordo militar com os EUA mas, naqueles anos quem dava valor militar aos MM38?
Muitos anos de vida pra todos que guarneceram essas torretas de MK 12 nos classes “P” da MB 👍⚓️💪🙌
Alcance eficaz a 7,5 Km 😏
Somente isto??
Belos e elegantes navios, poderiam dois deles ter sido transferidos para a MB nos anos 50 e serem futuras escoltas do Minas Gerais. Convoo, Seacat e Exocet seriam boas adições aos navios.
Não seriam vendidos, os EUA tinham então a política de manter um certo equilíbrio entre os países da América do Sul razão pela qual 2 classe Brooklin foram vendidos para Argentina, Brasil e Chile em 1951.
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Ah sim, tinha essa política americana… Uma pena.
Sumiu o comentário e aí postei de novo porque não aparecia…
Tenho na escala 1/1250 ambos, Atlanta com 16 canhões e Oakland com 12 canhões e também o ^Dido^ da Royal Navy com 10 canhões de 5,25 polegadas que precedeu os americanos em dois anos cujo emprego em combate a partir de 1940 foi acompanhado com interesse.
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Os navios americanos eram um pouco maiores e além de terem mais canhões o canhão de 5 polegadas/38 era superior na função AA ao britânico de 5,25 polegadas.
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Quanto custa para visitar o CND?
😃
Centro Nerd do Dalton.
Seria curioso ver o desempenho de um destes desde que atualizada suas centrais de tiro e radar, na baia de San Carlos em 1982….
Ou ainda, como se sairia contra enxame de drones usando radar e diretor de tiro modernos com munição de espoleta de proximidade e incluo nisso quaisquer baterias de 40mm incluídas no pacote.
Sensação de que teremos que voltar a esse tipo de navio por causa dos enxames de drones. Mísseis são caros e precisam ser numerosos para destruir o enxame. mesmo uma salva de “mini-mísseis” ainda não seria capaz de fornecer a cadência necessária. Armas laser, ainda estamos longe delas serem totalmente operacionais.
Restou fazer uma barragem de artilharia para proteger a Frota. Como o Comandante Adama fez para sair do ancoradouro de Ragnar.
A saída de do Ancoradouro Ragnar foi incrível mesmo. Acho que a maioria prefere armas de energia dirigida contra drones. Assim como você eu também acho vão demorar mais um pouco e que são de alto custo por enquanto, mas que já existe solução de baixo custo disponível. Armamento de tubo com as boas e velhas espoletas de proximidade. Podem ser de calibre maior (127mm/5in) ou menor 40mm e, quem sabe até 30, 20mm… Bons e pequenos radares de direção de tiro já existem. Dá para recauchutar um bom número de Goalkeepers e CIWS e inventar soluções semelhantes de tiro… Read more »
Imaginei um sistema de tubo em camadas. A primeira seriam com canhões de 5″ ou 3″ com espoletas explosivas criando um escudo de defesa contra o enxame de drones. Com computadores para calcular as soluções de tiro de hoje em dia isso pode ser bastante eficiente.
Os que eventualmente passarem podem ser pegos pelos CIWS. Aliás Goalkeeper é o nome perfeito para o CIWS. Se passar dele é gol.
Exatamente como era na Segunda Guerra Mundial. Primeiro os canhões de grosso calibre engajando a uma distância maior, depois diminuindo a distância e, consequentemente, os calibres.
É por isto que já tem uns anos venho propondo os 40mm de baciada nos navios….a arma laser é efetiva pontualmente, mas nao tem a cadência e capacidade de enquadramento de vários alvos ao mesmo tempo…. Não acho que os navios precisem mais de grosso calibre ou a peça principal, pois misseis do mais simples ou sofsticados podem substitui-los plenamente…a CS usa bateria de foguetes guiados 100 mm com alcance efetivo de 20 km num casco de apenas 200 ton…tem as GLSDBs que chegam a 100 km…um reles projeto antigo FOGMPM da avibras chegava a 20 km sendo que era… Read more »
Tenho a mesma impressão do Fernando Vieira: até laser, armas de PEM e sei lá mais o que chegarem ao estado operacional, tenho a sensação de que o canhão voltará a um certo protagonismo. Aliás, sendo uma arma que, no desespero, funciona até 100% manual, acho que ainda terá vida longa, nem que seja como backup e ultimo e derradeiro recurso.
Curiosa a semelhança desses navios com os CTs da classe Fletcher – foram projetados mais ou menos na mesma época, sendo que os primeiros Fletcher tiveram seu projeto básico estabelecido em 1939, quando os EUA já tinha configurado a estratégia de voltar o principal de sua esquadra para o Pacífico. Parece que tal estratégia desdobrou-se em uma doutrina de esquadras capazes de certa autossuficiência quanto à permanência no mar, o que explica o projeto de uma plataforma com função antiaérea. Se deve observar que o canhão de duplo emprego MK12 se tornou calibre base de uma penca de classes de… Read more »
Bitten, também tenho um modelo do HMS Cairo construído durante a I Guerra convertido em cruzador AA antes do início da II Guerra armado com 8 canhões de 4 polegadas então já havia uma preocupação de como se lidaria com aviões cada vez mais capazes. . Mas era necessário algo maior para ser mais efetivo e devido as restrições de Tratado havia que se investir ainda em cruzadores ^pequenos^ então os britânicos construíram a classe Dido com 10 canhões de 5,25 polegadas posteriores com 8 e os EUA a classe Atlanta 16 canhões de 5 polegadas reduzidos para 12 eventualmente.… Read more »
Já fiz muita “bagunça” com um desses no World os Warships. Adoro a cadência de tiro, assusta os iniciantes. Ideal para emboscadas próximo a ilhas, onde sua elevada velocidade e rapidez de manobra ajudam a escapar da reposta inimiga.
Devia ser um belo espetáculo assistir de perto um desses erguendo as barreira antiaérea diante de um ataque inimigo aos NAe que estavam sob sua proteção.
Foi no Uss Juneau que os cinco irmãos Sullivan morreram, segundo uma outra história ficaram ainda a deriva muito tempo , não sendo de imediato.