Classe Sverdlov: os últimos grandes cruzadores de canhões da Marinha Soviética
Cruzador Sverdlov, no início da década de 1960
No início da década de 1950, enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido começavam a olhar para mísseis, aviões a jato e submarinos nucleares como o futuro da guerra naval, a União Soviética colocou no mar uma das mais impressionantes séries de cruzadores de artilharia já construídas. Eram os navios do Projeto 68bis, conhecidos no Ocidente como classe Sverdlov.
Grandes, fortemente armados e com uma silhueta que ainda evocava os cruzadores da Segunda Guerra Mundial, eles nasceram de uma concepção naval que estava prestes a desaparecer. Ainda assim, serviriam durante décadas e se tornariam símbolos da transição da Marinha Soviética de uma força costeira para uma frota capaz de projetar presença política e militar muito além das águas da URSS.
A grande frota que Stalin queria construir
A origem da classe está diretamente ligada aos planos de Josef Stalin para reconstruir o poder naval soviético depois da Segunda Guerra Mundial. O conflito havia demonstrado a importância das grandes frotas oceânicas, especialmente para os Estados Unidos e o Reino Unido, e Stalin desejava transformar a URSS também em uma potência marítima de primeira grandeza.
Os planos soviéticos do pós-guerra previam uma frota composta por dezenas de cruzadores, grandes cruzadores de batalha do Projeto 82 Stalingrad e, eventualmente, porta-aviões. Segundo o U.S. Naval Institute, Stalin chegou a declarar em 1948 que a União Soviética não conseguia apoiar plenamente seus aliados porque “não temos uma Marinha”.
O Projeto 68bis foi aprovado em 1947. Em essência, era uma evolução ampliada dos cruzadores Projeto 68K da classe Chapayev, concebidos antes da guerra. O novo projeto mantinha a arquitetura geral, a maquinaria e o calibre principal, mas incorporava casco soldado, maior capacidade de combustível, sistemas de controle de tiro aperfeiçoados e uma defesa antiaérea significativamente reforçada.
A construção ocorreu simultaneamente em vários estaleiros de Leningrado, Nikolaev e Molotovsk, atual Severodvinsk, demonstrando a recuperação acelerada da indústria naval soviética depois da devastação provocada pela guerra.
Ao todo, 14 cruzadores Projeto 68bis foram concluídos, entrando em serviço entre 1952 e 1955. Outros navios chegaram a ser iniciados dentro do programa 68bis-ZIF, que previa defesa antiaérea modificada e maior proteção contra os efeitos de armas nucleares, mas nenhum deles foi terminado.
Doze canhões de 152 mm
O Sverdlov era oficialmente classificado como cruzador leve, por causa do calibre de sua bateria principal, mas suas dimensões estavam longe de ser modestas.
Os navios mediam cerca de 210 metros de comprimento, tinham boca de aproximadamente 22 metros e deslocavam 13.600 toneladas em condição padrão e cerca de 16.640 toneladas carregados. Duas turbinas a vapor, alimentadas por seis caldeiras, desenvolviam aproximadamente 110 mil hp e permitiam velocidade superior a 32 nós.
Sua principal característica visual eram as quatro grandes torres triplas MK-5bis, duas à vante e duas à ré, cada uma armada com três canhões B-38 de 152 mm. A bateria principal totalizava, portanto, 12 peças.
A defesa antiaérea pesada era composta por 12 canhões de 100 mm em seis torres duplas, complementados originalmente por 32 canhões automáticos de 37 mm, instalados em 16 reparos duplos. Os cruzadores também possuíam dois conjuntos quíntuplos de tubos lança-torpedos de 533 mm e capacidade para transportar dezenas de minas navais.
Para um projeto essencialmente baseado na guerra de artilharia, o Sverdlov recebeu uma quantidade considerável de equipamentos eletrônicos. Radares controlavam o tiro das baterias de 152 e 100 mm, enquanto outros sistemas realizavam busca aérea, vigilância de superfície e navegação.
A blindagem incluía cinturão principal de aproximadamente 100 mm, torres com proteção de até 175 mm e convés blindado. O casco era extensamente subdividido para aumentar a sobrevivência em combate. Segundo o Museu Naval Central da Rússia, o Mikhail Kutuzov possuía autonomia logística de até 30 dias.

O Sverdlov surpreende o Ocidente
O impacto internacional da nova classe ocorreu em junho de 1953.
O cruzador Sverdlov, primeiro da série, atravessou o Báltico e o Mar do Norte para participar da revista naval de Spithead, organizada no Reino Unido em comemoração à coroação da rainha Elizabeth II. Era uma rara oportunidade para os serviços de inteligência ocidentais examinarem de perto um dos novos grandes navios soviéticos.
Sua chegada provocou considerável interesse. O Sverdlov havia sido incorporado apenas no ano anterior, apresentava linhas elegantes, grande velocidade e uma formidável bateria de artilharia. Uma reportagem da época do U.S. Naval Institute descreveu o navio como a vitrine da Marinha Soviética.

A preocupação britânica não foi apenas estética.
Pesquisas posteriores baseadas nos relatórios de inteligência da Royal Navy indicam que o aparecimento da classe Sverdlov contribuiu para a percepção de que grandes cruzadores soviéticos poderiam atuar como corsários contra as rotas marítimas ocidentais. A ameaça ajudou inclusive a justificar a manutenção de porta-aviões britânicos, a reativação do encouraçado HMS Vanguard e o desenvolvimento do avião de ataque que se tornaria o Blackburn Buccaneer.

O misterioso caso do Ordzhonikidze
Outro integrante da classe tornou-se protagonista de um dos episódios clássicos da espionagem naval da Guerra Fria.
Em abril de 1956, o Ordzhonikidze chegou a Portsmouth transportando o líder soviético Nikita Khrushchev e o primeiro-ministro Nikolai Bulganin em uma visita oficial ao Reino Unido.
O mergulhador britânico Lionel “Buster” Crabb, antigo oficial da Royal Navy, teria sido enviado pelo serviço secreto britânico para inspecionar secretamente a parte submersa do cruzador e obter informações sobre suas hélices, manobrabilidade e equipamentos.
Crabb desapareceu durante a missão. Um corpo decapitado seria encontrado mais de um ano depois, e as circunstâncias exatas de sua morte jamais foram completamente esclarecidas. Documentação histórica sobre a inteligência naval britânica relaciona diretamente a operação ao interesse ocidental pelas características do Ordzhonikidze.
O mesmo cruzador teria posteriormente uma carreira ainda mais incomum. Em 1962, foi transferido para a Indonésia, onde recebeu o nome Irian e se tornou, por algum tempo, o maior navio de guerra do país.

Khrushchev encerra a era dos grandes cruzadores
Quando os Sverdlov começaram a entrar em serviço, porém, a tecnologia naval estava mudando rapidamente.
A morte de Stalin, em março de 1953, removeu o principal defensor da construção em massa dos grandes navios de artilharia. Nikita Khrushchev tinha uma visão radicalmente diferente: acreditava que submarinos, armas nucleares e mísseis guiados ofereciam retorno militar muito maior do que caros cruzadores armados apenas com canhões.
O programa foi progressivamente reduzido e a construção das unidades adicionais acabou interrompida. Cascos parcialmente construídos, alguns já lançados ao mar, foram posteriormente desmontados. A classe terminou com os 14 exemplares efetivamente incorporados.
A ironia era evidente. A União Soviética acabara de criar alguns dos cruzadores de artilharia mais sofisticados do mundo justamente quando o míssil antinavio começava a tornar essa categoria de navio tecnologicamente ultrapassada.
Dos canhões aos mísseis
Os soviéticos tentaram adaptar alguns Sverdlov à nova realidade.
O caso mais importante foi o Dzerzhinsky. Entre 1957 e 1962, sua terceira torre tripla de 152 mm foi retirada para dar lugar ao sistema antiaéreo M-2 Volkhov-M, uma adaptação naval da família de mísseis S-75. A conversão transformou o navio em plataforma experimental para defesa antiaérea guiada.
O experimento não levou à conversão em massa da classe, mas forneceu experiência para a nova geração de cruzadores e destróieres soviéticos concebidos desde o início para operar mísseis.
Outros navios receberam modernizações menos radicais. O Zhdanov e o Admiral Senyavin, por exemplo, foram transformados em navios de comando, recebendo novos sistemas de comunicações, radares e equipamentos para coordenação de forças navais. Unidades modernizadas do Projeto 68A ganharam canhões automáticos AK-230 de 30 mm e eletrônica atualizada.
Uma segunda carreira como navios de comando
Mesmo ultrapassados para enfrentar diretamente porta-aviões e cruzadores de mísseis, os Sverdlov continuaram úteis.
Seu grande casco oferecia espaço para instalações de estado-maior e comunicações, enquanto os 12 canhões de 152 mm ainda forneciam um enorme volume de fogo contra alvos costeiros. Em 1978, o U.S. Naval Institute avaliava que os cruzadores, combinados com os numerosos destróieres soviéticos, davam à URSS uma das mais poderosas capacidades de apoio de fogo a operações anfíbias do mundo.
Também foram empregados como navios-capitânia, unidades de treinamento, plataformas de presença diplomática e embarcações de acompanhamento de exercícios da OTAN.
Durante os preparativos soviéticos para a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, chegou a ser planejado o envio de dois cruzadores Sverdlov, além de destróieres, submarinos e lanchas lança-mísseis para o Caribe. Khrushchev acabou cancelando o destacamento das grandes unidades de superfície antes da operação.
Nas décadas seguintes, os cruzadores operaram no Báltico, Mar Negro, Mediterrâneo, Atlântico, Ártico e Pacífico, acompanhando a crescente presença oceânica construída pelo almirante Sergei Gorshkov.
O fim da classe
A partir do final da década de 1970, a idade começou a cobrar seu preço. A União Soviética já colocava em serviço cruzadores das classes Kresta, Kara, Slava e Kirov, além de grandes forças de submarinos nucleares e navios especificamente projetados para transportar mísseis.
Os Sverdlov foram gradualmente transferidos para a reserva e retirados de serviço durante as décadas de 1980 e início de 1990.
Um deles, o Murmansk, teve um destino particularmente dramático. Depois de ser vendido para desmonte, estava sendo rebocado para a Índia quando o cabo de reboque se rompeu durante uma tempestade em dezembro de 1994. O enorme cruzador derivou sem controle e encalhou em Sørøya, na costa da Noruega, permanecendo durante anos como um gigantesco casco enferrujado antes de ser desmontado.
Outro teve destino muito diferente.
O Mikhail Kutuzov, incorporado à Frota do Mar Negro em 1955, navegou cerca de 211.900 milhas ao longo de sua carreira e foi retirado de serviço em 1988. Depois de uma campanha liderada por veteranos para impedir seu desmonte, acabou preservado.
Em agosto de 2001, o velho cruzador deixou Sevastopol pela última vez e seguiu para Novorossiysk. Hoje permanece atracado na cidade como navio-museu, integrado ao Museu Naval Central da Rússia — praticamente intacto, com suas quatro torres triplas de 152 mm ainda apontando para o horizonte e preservando uma das últimas imagens físicas da época em que Moscou imaginava que a futura grande Marinha Soviética seria construída ao redor de canhões, aço e grandes cruzadores.
| Característica | Dados |
|---|---|
| Dados gerais | |
| Tipo | Cruzador leve de artilharia |
| Designação soviética | Projeto 68bis |
| Designação OTAN | Classe Sverdlov |
| Navios concluídos | 14 unidades |
| Entrada em serviço | 1952–1955 |
| Dimensões e deslocamento | |
| Deslocamento padrão | 13.600 toneladas |
| Deslocamento carregado | 16.640 toneladas |
| Comprimento | 210 m |
| Boca | 21,99 m |
| Calado | 7,38 m |
| Propulsão e desempenho | |
| Propulsão | 2 conjuntos de turbinas a vapor TV-7, 6 caldeiras e 2 eixos |
| Potência total | 110.000 hp |
| Velocidade máxima | 32,7 nós |
| Alcance | 5.700 milhas náuticas a 17 nós |
| Autonomia logística | 30 dias |
| Armamento original | |
| Bateria principal | 12 × canhões B-38 de 152 mm/57 em 4 torres triplas MK-5bis |
| Munição de 152 mm | 2.202 projéteis |
| Artilharia antiaérea pesada | 12 × canhões de 100 mm SM-5-1/SM-5-1s em 6 reparos duplos |
| Artilharia antiaérea leve | 32 × canhões automáticos de 37 mm V-11/V-11M em 16 reparos duplos |
| Torpedos | 10 × tubos de 533 mm em 2 lançadores quíntuplos PTA-53-68bis |
| Minas navais | Até 132 minas, dependendo do modelo empregado |
| Proteção | |
| Cinturão principal | Até 100 mm |
| Convés blindado | Até 50 mm |
| Torres principais | Até 175 mm na face frontal |
| Barbetas | Até 130 mm |
| Torre de comando | Até 130 mm |
| Sensores e tripulação | |
| Radar de busca de superfície | Rif |
| Radar de busca aérea | Gyuys-2 |
| Controle de tiro principal | Sistema Molniya AC-68bis-A com 2 radares Zalp |
| Sonar | Tamir-5N |
| Tripulação | Aproximadamente 1.270 militares, incluindo cerca de 65 oficiais |
Diversos navios receberam modificações ao longo da Guerra Fria, incluindo radares mais modernos,
canhões automáticos AK-230 de 30 mm, sistemas de mísseis antiaéreos, instalações de comando,
comunicações por satélite e, em alguns casos, helicópteros. Por isso, deslocamento, tripulação,
sensores e armamento variavam entre as unidades e ao longo de suas carreiras.
Dados referentes principalmente ao Projeto 68bis em sua configuração original.









Excelente matéria, gostaria de saber mais sobre a estratégia naval soviética!
Zhdanov
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São raros os artigos sobre a marinha soviética, parabéns pela reportagem!