Porta-aviões Karel Doorman, bombardeiros Tu-16 e a crise que decidiu o destino da Nova Guiné Ocidental

12
Karel Doorman

Porta-aviões Karel Doorman. Foto: @klaasm67 no X

No início da década de 1960, uma disputa colonial aparentemente periférica colocou frente a frente a Holanda e uma Indonésia fortemente armada pela União Soviética. No centro da crise estava a metade ocidental da ilha da Nova Guiné — território que Jacarta reivindicava como parte inseparável da antiga Índias Orientais Holandesas e que os Países Baixos pretendiam conduzir a algum tipo de autodeterminação papua.

A escalada transformaria a região em um dos pontos mais perigosos da Guerra Fria no Sudeste Asiático. De um lado estava o porta-aviões holandês Hr.Ms. Karel Doorman, acompanhado por caças Hawker Sea Hawk e aviões Grumman Avenger. Do outro surgiria uma força indonésia equipada com caças supersônicos MiG-21, bombardeiros Tupolev Tu-16, mísseis antinavio soviéticos e até um enorme cruzador da classe Sverdlov.

A disputa terminaria sem uma grande batalha entre as duas frotas. Mas a combinação de pressão militar, descolonização e temor norte-americano de que a Indonésia se aproximasse ainda mais de Moscou acabou levando à retirada holandesa. O capítulo final, o controverso “Act of Free Choice” de 1969, permanece até hoje no centro da disputa política sobre a legitimidade da incorporação da Papua Ocidental à Indonésia.

Uma questão deixada em aberto pela independência da Indonésia

Quando a Holanda reconheceu a soberania da Indonésia em 1949, a Nova Guiné Ocidental ficou de fora da transferência. Haia sustentava que os papuas eram étnica e culturalmente distintos da maioria da população indonésia e deveriam ser preparados para decidir seu próprio futuro.

Jacarta apresentava argumento diferente: a nova República da Indonésia era sucessora das Índias Orientais Holandesas e, portanto, deveria receber todo o antigo território colonial.

Documentos posteriormente divulgados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos mostram que Washington conhecia claramente as duas posições. Um memorando de 1961 observava que a Indonésia fundamentava sua reivindicação no fato de a Nova Guiné Ocidental ter integrado as Índias Orientais, enquanto os holandeses enfatizavam as diferenças geológicas, étnicas e culturais do território. As negociações realizadas entre 1950 e 1955 não produziram acordo.

Durante os anos seguintes, o presidente indonésio Sukarno transformou a recuperação do chamado “Irian Ocidental” em uma das grandes causas nacionalistas de seu governo.

O Karel Doorman segue para a Nova Guiné

A tensão aumentou dramaticamente em 1960.

Em março daquele ano, a Marinha Real Holandesa anunciou que o porta-aviões Karel Doorman e dois destróieres fariam uma viagem de aproximadamente seis meses pelo Extremo Oriente, incluindo uma passagem pela Nova Guiné Holandesa. Oficialmente, tratava-se de uma missão de “mostrar a bandeira”. Documentos diplomáticos norte-americanos revelam, entretanto, que a movimentação foi interpretada em Jacarta como um significativo reforço militar.

O Karel Doorman era uma embarcação originalmente britânica da classe Colossus, o antigo HMS Venerable, adquirida pela Holanda em 1948. Depois de uma grande modernização entre 1955 e 1958, recebeu convés de voo angulado, catapulta a vapor e sistemas que permitiam operar aeronaves a jato. O navio podia embarcar aproximadamente 20 aeronaves modernas.

O Karel Doorman na Marinha Holandesa

Na viagem de 1960, seu grupo aéreo incluía caças Hawker Sea Hawk, aviões Grumman Avenger e helicópteros Sikorsky S-55. Fontes especializadas holandesas registram uma composição de dez Sea Hawks do Esquadrão 860, oito Avengers do Esquadrão 2 e dois helicópteros de resgate.

Os Sea Hawks eram particularmente importantes. A partir de 1959, os exemplares holandeses haviam sido modificados para transportar dois mísseis ar-ar AIM-9 Sidewinder, dando ao porta-aviões uma defesa aérea muito mais eficiente do que aquela proporcionada originalmente pelos canhões dos caças.

Mas o Karel Doorman também carregava uma carga que revelava a verdadeira preocupação de Haia: 12 caças Hawker Hunter desmontados e dois helicópteros Alouette II, destinados a reforçar permanentemente as forças aéreas holandesas na Nova Guiné. Os aviões foram desembarcados em Biak e reativados para operações locais.

A reação indonésia foi imediata. O governo de Sukarno protestou e classificou a movimentação naval como ameaça à paz regional. A própria embaixada norte-americana em Jacarta alertou que a presença do porta-aviões poderia estimular a Indonésia a acelerar sua corrida armamentista e aumentar a aquisição de armas do bloco soviético.

Foi exatamente o que aconteceu.

Moscou arma a Indonésia

Em janeiro de 1961, uma delegação liderada pelo ministro da Defesa, general Abdul Haris Nasution, viajou a Moscou e assinou um grande acordo para aquisição de equipamentos militares soviéticos.

Documentos norte-americanos registram que a Indonésia informou que compraria bombardeiros, caças, submarinos e outros sistemas em resposta direta ao reforço holandês na Nova Guiné. Os créditos militares soviéticos, inicialmente avaliados em cerca de US$ 500 milhões, chegaram a mais de US$ 830 milhões ainda em 1961.

Um memorando enviado ao presidente John F. Kennedy em setembro de 1961 era particularmente explícito: Washington estimava que a Indonésia estivesse recebendo cerca de US$ 800 milhões em armamentos soviéticos para intimidar os holandeses e alterar o equilíbrio militar em torno do Irian Ocidental.

Entre os equipamentos que chegaram à Indonésia estavam MiG-17, MiG-19 e os então modernos MiG-21, além de bombardeiros Il-28 e Tupolev Tu-16 Badger.

Tu-16KS, estes equipados com mísseis ar-superfície AS-1 Kennel

Fontes históricas das próprias Forças Armadas indonésias registram 14 Tu-16 convencionais e 12 Tu-16KS, estes equipados com mísseis ar-superfície AS-1 Kennel, designação da OTAN para o soviético KS-1 Kometa. Também foram recebidos MiG-21 supersônicos e numerosos helicópteros, aviões de transporte e radares.

A combinação Tu-16/AS-1 representava uma ameaça inteiramente nova para a Marinha holandesa.

O AS-1 era um grande míssil de cruzeiro antinavio propulsionado por turbojato, capaz de transportar uma pesada ogiva e atacar navios a dezenas de quilômetros de distância. A própria Força Aérea Indonésia recorda que o sistema Kometa proporcionava alcance entre aproximadamente 70 e 110 quilômetros.

Para um porta-aviões leve como o Karel Doorman, enfrentar vários Tu-16 lançando mísseis simultaneamente representaria um problema muito mais difícil do que combater aviões convencionais.

O cruzador Irian aumenta ainda mais a pressão

RI Irian (201), ex-Ordzhonikidze

A Marinha da Indonésia também passou por uma expansão extraordinária.

Submarinos da classe Whiskey, lanchas lança-mísseis e outros navios soviéticos começaram a chegar ao país. O símbolo máximo dessa transformação foi um cruzador do Projeto 68bis, classe Sverdlov, transferido pela União Soviética e rebatizado Irian.

Com cerca de 16 mil toneladas carregado e uma bateria principal de 12 canhões de 152 mm, era incomparavelmente maior que qualquer combatente de superfície que a Indonésia havia operado anteriormente.

Em 1962, o U.S. Naval Institute registrava que o Irian havia sido declarado pronto para tarefas operacionais, enquanto a Marinha indonésia também anunciava a existência de um esquadrão equipado com mísseis guiados.

O efeito psicológico era tão importante quanto o militar. Em poucos anos, a Holanda havia deixado de enfrentar uma força regional relativamente modesta para encarar um país equipado com alguns dos sistemas soviéticos mais modernos disponíveis fora do Pacto de Varsóvia.

Sukarno lança a Operação Trikora

Em 19 de dezembro de 1961, Sukarno anunciou em Yogyakarta o Tri Komando Rakyat — Trikora.

O objetivo declarado era impedir a criação de um Estado papua separado, erguer a bandeira indonésia no Irian Ocidental e preparar uma mobilização nacional. A estrutura militar responsável pela operação começou a deslocar aeronaves e tropas para bases no leste do arquipélago.

A confrontação deixou de ser apenas retórica.

Em 15 de janeiro de 1962, embarcações rápidas indonésias que transportavam infiltradores foram interceptadas no Mar de Arafura por forças holandesas. Uma delas, Matjan Tutul, foi afundada e o comodoro Yos Sudarso, vice-chefe do Estado-Maior da Marinha indonésia, morreu no combate.

Nos meses seguintes, Jacarta intensificou infiltrações por mar e por meio de paraquedistas.

Ao mesmo tempo, preparava uma operação muito maior contra Biak, principal centro militar holandês no território. Bombardeiros Tu-16 foram deslocados para posições avançadas, enquanto MiGs, aviões de transporte, submarinos e forças anfíbias eram concentrados para uma possível invasão.

O equilíbrio estratégico já havia mudado. Uma avaliação norte-americana de 1961 concluía que, embora os holandeses ainda tivessem capacidade de defesa, a superioridade tenderia a passar para a Indonésia à medida que as armas soviéticas entrassem em serviço.

A Guerra Fria pesa sobre Washington

A principal preocupação dos Estados Unidos não era apenas evitar uma guerra entre Holanda e Indonésia.

Washington temia que o conflito empurrasse Sukarno definitivamente para a órbita soviética e fortalecesse ainda mais o Partido Comunista Indonésio, então um dos maiores partidos comunistas fora da União Soviética e da China.

Em novembro de 1961, assessores da Casa Branca advertiam que Moscou já havia fornecido US$ 833 milhões em créditos militares e mais de US$ 500 milhões em compromissos de assistência econômica. Para eles, prolongar a disputa pela Nova Guiné poderia custar ao Ocidente algo muito mais importante: a própria Indonésia.

Kennedy começou, portanto, a pressionar as partes para negociar.

Curiosamente, em uma conversa com Sukarno, o presidente norte-americano chegou a perguntar por que não realizar simplesmente um plebiscito entre os papuas. Sukarno respondeu que o território sempre havia pertencido à Indonésia e questionou a necessidade dessa consulta.

A alternativa diplomática ganhou urgência à medida que os preparativos militares indonésios avançavam.

O Acordo de Nova York

Em 15 de agosto de 1962, Holanda e Indonésia assinaram na sede das Nações Unidas o Acordo de Nova York.

O documento criou uma transição incomum. A Holanda entregaria inicialmente a administração da Nova Guiné Ocidental à United Nations Temporary Executive Authority — UNTEA. Posteriormente, a ONU transferiria o controle administrativo para a Indonésia.

A UNTEA assumiu o território em 1º de outubro de 1962. As forças holandesas começaram a retirar-se e o processo foi concluído em novembro. Em 1º de maio de 1963, a ONU entregou oficialmente a administração à Indonésia.

Portanto, ao contrário de uma versão frequentemente simplificada da história, a Nova Guiné Ocidental não foi transferida diretamente para a Indonésia poucos meses após a assinatura do acordo. Existiu primeiro um período de administração das Nações Unidas.

Mais importante: o acordo exigia que os habitantes fossem posteriormente consultados sobre se desejavam continuar ligados à Indonésia ou separar-se dela.

Essa consulta deveria ocorrer até 1969.

O “Act of Free Choice”

Sete anos depois, a promessa transformou-se em um dos capítulos mais controversos da história da descolonização asiática.

Em vez de organizar uma eleição direta envolvendo toda a população adulta, a Indonésia optou por um sistema baseado em assembleias representativas e no princípio tradicional de consulta conhecido como musyawarah.

Foram constituídos conselhos ampliados reunindo 1.026 representantes de uma população estimada em cerca de 800 mil habitantes. Entre 14 de julho e 2 de agosto de 1969, essas assembleias manifestaram-se unanimemente a favor da permanência do território na Indonésia.

A forma como esses representantes foram selecionados e as condições nas quais votaram são objeto de controvérsia histórica.

Documentos norte-americanos posteriormente desclassificados mostram que diplomatas dos EUA consideravam o resultado praticamente predeterminado. O National Security Archive, com base nesses documentos, relata que as autoridades indonésias rejeitaram uma consulta por sufrágio universal e selecionaram pouco mais de mil representantes, enquanto milhares de militares estavam posicionados no território. Relatórios diplomáticos norte-americanos também registraram repressão política e forte sentimento favorável à independência em determinadas regiões.

O representante do secretário-geral da ONU, Fernando Ortiz Sanz, chegou a propor uma combinação entre voto individual nas áreas mais desenvolvidas e consultas coletivas no interior. Jacarta rejeitou essa fórmula. O relatório da ONU registrou ainda que as garantias de liberdade de expressão, movimento e reunião previstas no Acordo de Nova York não haviam sido plenamente implementadas e que a administração mantinha rígido controle político.

Ainda assim, Ortiz Sanz concluiu que, dentro das limitações geográficas e políticas existentes, havia ocorrido um “ato de livre escolha” segundo a prática indonésia.

A ONU “toma nota” do resultado

Em 19 de novembro de 1969, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 2504.

O texto não organizou uma nova votação popular nem declarou que o processo equivalera a um referendo universal. A Assembleia “tomou nota” do relatório apresentado pelo secretário-geral e reconheceu o cumprimento da tarefa confiada à ONU pelo acordo de 1962.

A resolução recebeu 84 votos favoráveis e 30 abstenções.

A própria Holanda manifestou reservas. Durante o debate na Assembleia Geral, seu representante reconheceu que existiam dúvidas sobre a maneira pela qual a vontade da população havia sido determinada e observou que o relatório de Ortiz Sanz confirmava que algumas dessas preocupações não eram injustificadas. Mesmo assim, Haia aceitou o resultado.

A Nova Guiné Ocidental permaneceu sob soberania indonésia.

Décadas depois, a sequência iniciada com a viagem do Karel Doorman continua carregada de significado. O porta-aviões, os Tu-16 armados com mísseis antinavio, os MiG-21 e o cruzador Irian pertencem hoje à história militar da Guerra Fria; a questão política que ajudaram a decidir, porém, não desapareceu com eles. A legitimidade do processo de 1969 permanece um dos fundamentos históricos do movimento independentista papua e uma das questões mais sensíveis na relação entre Jacarta e a população indígena da região.■



Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.
Subscribe
Notify of
guest

12 Comentários
oldest
newest most voted
Marcelo Andrade

Este porta-Aviões seria depois comprado pela Argentina e se tornaria o “25 de Mayo”?

Santamariense

Escrevemos a mesma coisa praticamente ao mesmo tempo.

Marcelo Andrade

kkkkkk, transmimento de pensação!!

Santamariense

Isso….Kkkkkkk

Dr. Mundico

Esse mesmo que na Guerra das Malvinas ficou solenemente escondido no porto por falta de capacidade operacional e logistica.
Ter e não manter é pior do que não ter.

Heli

Depois do afundamento do cruzador general Belgrano, foi a coisa certa a fazer. Não podia correr o risco de perder mais esse ativo. Acho que a guerra acabou para a Argentina assim que o quinto Exocet foi disparado.

Santamariense

O Karel Doorman operou na Holanda até 1968, qdo foi adquirido pela Argentina e batizado de ARA Veinticinco de Mayo, tendo operado pelos hermanos de 1969 até 1997.

Marcelo Andrade

Show

Dalton

E antes do ^25 de Mayo^ a Argentina operou outro NAe classe Colossus o ex HMS Warrior entre 1958 e 1971 rebatizado Independencia.
.
Então por um curto período de tempo no inventário se viu 2 NAes como ocorreu com a marinha brasileira com o ^Minas^ e o ^NAeSP^ no ano de 2000.
.

Santamariense

“E antes do ^25 de Mayo^ a Argentina operou outro NAe classe Colossus o ex HMS Warrior entre 1958 e 1971 rebatizado Independencia.”

Exatamente!

João

É interessante como o colonizador não pergunta para os nativos se querem ser colonizados, depois que fazem a porcaria, para se retirar enchem as colônias de exigências.
è extremamente hipócrita como a falta de vergona na cara molda o mundo ocidental.

Last edited 1 mês atrás by João
groosp

Não iria durar muito tempo contra os Tu-16.