Classe Kynda: os primeiros cruzadores de mísseis soviéticos criados para enfrentar os porta-aviões dos EUA
No início da década de 1960, uma silhueta incomum começou a aparecer nos mares controlados pela União Soviética. Sobre um casco pouco maior que o de um destróier, enormes lançadores quádruplos apontavam para vante e para ré, carregando mísseis antinavio capazes de transportar ogivas convencionais ou nucleares. Era o Project 58, conhecido pelos soviéticos como classe Grozny e pela OTAN como classe Kynda.
Construídos entre 1960 e 1965, os quatro navios da classe representaram uma ruptura com os cruzadores tradicionais armados com grandes canhões. Sua razão de existir era outra: aproximar-se suficientemente de uma força naval inimiga e lançar uma salva de mísseis contra seus navios de maior valor, especialmente os porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos.
O próprio escritório de projetos Severnoye, responsável pelo desenvolvimento, considera o Project 58 um marco por ter reunido, numa mesma plataforma, armamento de mísseis antinavio e antiaéreos em uma época em que a transformação tecnológica da guerra naval estava apenas começando.
A revolução dos mísseis de Khrushchev
A origem do Project 58 está ligada à mudança radical ocorrida no pensamento militar soviético durante o governo de Nikita Khrushchev.
A Segunda Guerra Mundial havia terminado com o porta-aviões ocupando o centro da guerra naval. Nos anos 1950, os Estados Unidos possuíam uma frota de grandes navios-aeródromos capaz de lançar bombardeiros e, posteriormente, aeronaves armadas com bombas nucleares contra o território soviético.
Moscou não tinha condições econômicas ou industriais de responder construindo uma frota equivalente de porta-aviões.
A alternativa escolhida foi assimétrica: mísseis antinavio de longo alcance lançados por submarinos, aeronaves e navios de superfície.
Em 25 de agosto de 1956, o Conselho de Ministros soviético autorizou o desenvolvimento de um novo navio inicialmente descrito como destróier armado com “armas reativas guiadas”, denominação então utilizada para os mísseis. Em dezembro, o comandante da Marinha soviética, almirante Sergei Gorshkov, aprovou os requisitos técnicos. O desenvolvimento foi entregue ao TsKB-53, posteriormente conhecido como Severnoye Design Bureau, sob a liderança de V. A. Nikitin.
Curiosamente, aquilo que se tornaria um cruzador começou formalmente como destróier. O casco tinha forte parentesco conceitual com os destróieres soviéticos do Project 56 e o deslocamento continuava pequeno para os padrões de um cruzador.
A classificação mudou durante a construção. A combinação de poder ofensivo, sistemas de comando e armamento de mísseis levou a Marinha soviética a criar na prática uma nova categoria: o “raketny kreyser” — cruzador de mísseis.
O P-35 transformava um pequeno navio em ameaça estratégica
O coração do Project 58 era o sistema antinavio P-35, conhecido no Ocidente como SS-N-3B Shaddock.
Dois gigantescos lançadores quádruplos SM-70 dominavam visualmente o navio, um à vante e outro à ré. O cruzador podia colocar oito P-35 imediatamente disponíveis para lançamento, além de transportar outros oito como recarga, totalizando 16 mísseis.
O P-35 era muito diferente dos pequenos mísseis antinavio que se tornariam comuns posteriormente. Com mais de quatro toneladas e aproximadamente 10 metros de comprimento, era praticamente uma pequena aeronave não tripulada supersônica.
Podia voar a cerca de Mach 1,3 e atingir alvos a até 450 quilômetros (240 milhas marítimas), dependendo da versão e do perfil de voo. A arma podia receber ogiva convencional ou nuclear.
Para explorar todo o alcance do P-35, entretanto, era necessário solucionar um problema que acompanharia a Marinha soviética durante toda a Guerra Fria: encontrar e acompanhar um porta-aviões a centenas de quilômetros no oceano.
A orientação era fornecida por um radar ‘Scoop Pair’ para alvos até o horizonte (25 milhas). Para alvos além do horizonte, era usado o enlace de dados por aeronaves de asa fixa ou helicópteros, incluindo o Tu-16 Badger, o Tu-95 Bear-D, o Ka-25 Hormone e o Ka-27 Helix.
Oito mísseis numa salva
Em teoria, um Kynda poderia realizar um ataque devastador. Na prática, havia limitações.
Os sistemas de orientação disponíveis não permitiam controlar simultaneamente todos os oito P-35 da maneira ideal. Além disso, a recarga dos enormes lançadores era uma operação complicada, especialmente em alto-mar. Os mísseis adicionais permaneciam armazenados em compartimentos nas superestruturas e precisavam ser movimentados até os lançadores por equipamentos mecânicos.
Essas limitações reforçavam uma característica da filosofia soviética: o cruzador era essencialmente uma plataforma de salva.
A prioridade era produzir o maior ataque possível antes que o próprio navio fosse destruído.
Isso também ajuda a explicar por que os soviéticos posteriormente desenvolveriam cruzadores muito maiores, com maior número de armas, melhores sensores e sistemas defensivos mais robustos.
Defesa aérea com o M-1 Volna
Os Kynda não eram apenas plataformas antinavio. À vante ficava um lançador duplo do sistema de defesa aérea M-1 Volna, conhecido pela OTAN como SA-N-1 Goa.
O sistema utilizava mísseis da família V-600 e fornecia ao navio uma defesa antiaérea que seria impensável nos cruzadores convencionais da geração anterior.
Mas seu desempenho era limitado pelos padrões que surgiriam poucos anos depois. O sistema de direção de tiro Yatagan era essencialmente monocanal, permitindo concentrar o engajamento em apenas um alvo por vez. Contra ataques aéreos coordenados, essa característica era uma vulnerabilidade séria.
A artilharia compreendia dois reparos duplos AK-726 de 76 mm instalados à ré. Posteriormente, modernizações acrescentaram sistemas automáticos AK-630 de 30 mm, proporcionando uma defesa aproximada muito mais eficiente contra aeronaves e mísseis.
Para guerra antissubmarino, havia dois lançadores de foguetes RBU-6000 e dois conjuntos triplos de tubos de torpedo de 533 mm.
Navio veloz
O Project 58 media aproximadamente 142 metros de comprimento, tinha boca próxima de 16 metros e deslocava cerca de 5.300 a 5.500 toneladas a plena carga, dependendo da configuração e da fonte.
Sua propulsão utilizava quatro caldeiras de alta pressão alimentando duas turbinas TV-12, com potência total em torno de 91.000 hp, transmitida a dois eixos.
A velocidade máxima chegava a aproximadamente 34 nós, elevada para um navio daquele porte e coerente com sua missão de acompanhar forças navais e rapidamente ocupar posições favoráveis para um ataque com mísseis.
Havia ainda um convés de pouso para o helicóptero Ka-25, mas não um hangar completo. Isso significava que o helicóptero não podia ser mantido permanentemente a bordo em condições comparáveis às oferecidas pelos cruzadores soviéticos posteriores.
Grozny demonstra seus mísseis diante de Khrushchev
O primeiro navio, Grozny, teve a quilha batida em fevereiro de 1960 e foi lançado em março de 1961.
Durante os testes realizados no Mar Branco em 1962, o novo cruzador disparou mísseis P-35 contra antigos navios empregados como alvos. Os testes incluíram lançamentos individuais e salvas, com alvos atingidos a distâncias próximas de 200 quilômetros.
Em 22 de julho de 1962, Grozny realizou lançamentos na presença de Khrushchev. A demonstração ocorreu num momento em que o líder soviético defendia vigorosamente a substituição de grandes navios armados com canhões por plataformas de mísseis.
O cruzador entrou oficialmente em serviço em dezembro daquele ano.
Apenas quatro de uma série que poderia chegar a 16
Os soviéticos chegaram a considerar uma série muito maior. Estudos previam até 16 unidades, mas somente quatro foram concluídas pelo estaleiro Zhdanov, em Leningrado: Grozny, Admiral Fokin, Admiral Golovko e Varyag.
A interrupção não significava que o conceito havia fracassado.
Na realidade, a tecnologia avançava tão rapidamente que o Project 58 começou a envelhecer praticamente no momento em que entrou em serviço.
O pequeno casco acumulava grandes lançadores, radares, antenas e sistemas de armas nas partes superiores, criando problemas de peso alto. Ao mesmo tempo, tornava-se evidente que futuros cruzadores precisariam de maior autonomia, melhores condições de habitabilidade, sensores mais poderosos, defesa aérea superior e instalações adequadas para helicópteros.
O resultado foi o desenvolvimento de navios maiores, começando pelos Project 1134/Kresta I. A própria história do Severnoye Design Bureau coloca os projetos 58, 61 e, posteriormente, 1134 entre os programas que criaram as novas categorias de cruzadores de mísseis e grandes navios antissubmarino da Marinha soviética.
Da Frota do Norte ao Pacífico
Os quatro Kynda tiveram carreiras extensas.
O Grozny começou na Frota do Norte, passou para a Frota do Mar Negro em 1966 e posteriormente para a Frota do Báltico. Realizou diversas visitas internacionais, incluindo Cuba, Iugoslávia, Marrocos, França, Síria, Polônia e Alemanha Oriental. Foi retirado de serviço em 1991.
O Admiral Fokin e o Varyag foram destinados à Frota do Pacífico, proporcionando à União Soviética uma capacidade de ataque com mísseis contra forças navais americanas no Extremo Oriente.
O Varyag foi retirado em 1990, enquanto o Admiral Fokin permaneceu até 1993.
A história mais longa pertenceu ao Admiral Golovko. Inicialmente incorporado à Frota do Norte, foi transferido para o Mar Negro em 1968. Depois do colapso soviético, permaneceu disponível para a Marinha Russa e chegou a servir como navio-capitânia da Frota do Mar Negro na segunda metade da década de 1990, numa época em que a falta de recursos havia retirado de operação muitos navios mais novos. O cruzador só deixou definitivamente a frota em 2002, cerca de quatro décadas depois de sua construção.
Um navio de transição

Os Kynda apresentavam numerosas deficiências. Eram pequenos para a quantidade de armamento transportada, tinham defesa aérea limitada, pouca proteção estrutural e dependiam fortemente de sistemas externos para explorar todo o alcance de seus mísseis. A recarga dos P-35 em mar aberto era pouco prática e o convés para helicópteros estava longe de representar uma capacidade aérea embarcada permanente.
Entretanto, quando o Grozny apareceu em 1962, mostrou que um navio relativamente pequeno podia possuir uma capacidade ofensiva anteriormente associada a embarcações muito maiores. O canhão deixava de definir o poder de fogo de um cruzador. O alcance dos sensores, a qualidade das informações de alvo e o número de mísseis que podiam ser colocados no ar em poucos minutos passavam a determinar sua ameaça.
Essa ideia seria levada muito mais longe pelos soviéticos nos Project 1134, 1164 Slava e, finalmente, nos gigantescos cruzadores nucleares Project 1144 Kirov.
O Project 58 foi, assim, uma espécie de primeiro esboço daquilo que se tornaria uma característica central da Marinha soviética durante a Guerra Fria: navios de superfície concebidos não para disputar simetricamente o domínio dos oceanos com os porta-aviões americanos, mas para ameaçá-los com salvas maciças de mísseis lançadas a grande distância.











Próximo Kresta l
E Kresta II.
Seria indispensável esboçar as características e capacidades do sistema de vigilância oceânica soviética pra entender os trade-offs (geralmente apodados de deficiências e vulnerabilidades) dos seus combatentes de superfície. Grosso modo, radares OTH, vasos apontadores (tripulados e atritáveis), satélites de inteligência/vigilância, etc, formavam camadas de alerta de movimento inimigo (grupos de ataque centrados em porta-aviões) logo transmitidos a bombardeiros de longo alcance e combatentes de superfície pra entrega missílica. A marinha soviética jogou quase ou sempre na defensiva territorial, seja continental ou de bastiões estratégicos.
Jogo bastante com ele no Sea Power.
Dúvida: por que a Otan não usava os nomes que a URSS dava para os seus armamentos?!!
Era porque não sabiam os nomes quando descobriam as armas, ou era birra? rsrsrs
Inicialmente não sabiam os nomes.
Próximos pela ordem : Kresta l e ll , Kara e SLava
Aguardo ansioso, esta série de artigos está boa demais!
Como não gostar dessa máquina de guerra impressionante?