Classe Kresta I: os cruzadores que levaram a Marinha Soviética aos oceanos
Em 1969, um cruzador soviético acompanhou o porta-aviões norte-americano USS John F. Kennedy no Mediterrâneo. A cena, registrada em fotografia, condensava a disputa naval da Guerra Fria: Moscou já não pretendia manter seus grandes navios apenas nas proximidades do próprio litoral. Queria seguir as forças da OTAN e demonstrar que poderia ameaçá-las longe de casa. O cruzador pertencia à classe que a aliança ocidental chamou de Kresta I.
Na nomenclatura soviética, tratava-se do Projeto 1134 Berkut. Desenvolvido durante a expansão da frota conduzida pelo almirante Serguei Gorshkov, ele sucedeu aos cruzadores da classe Kynda, que haviam introduzido uma expressiva capacidade de ataque com mísseis antinavio, mas reuniam muito armamento em cascos relativamente pequenos. O novo projeto buscava oferecer melhores condições para operar no oceano, com espaço suficiente para sensores, defesa aérea e um helicóptero embarcado.
Quatro navios, uma nova configuração
O programa resultou em quatro navios, todos construídos no estaleiro A. A. Zhdanov, em Leningrado: Admiral Zozulya, incorporado em 1967; Vitse-Admiral Drozd, em 1968; e Vladivostok e Sevastopol, em 1969. Cada um media cerca de 156 metros de comprimento e deslocava aproximadamente 7.170 toneladas com carga plena. Duas turbinas a vapor, acionando dois eixos, permitiam velocidade máxima estimada em 34 nós.
Sua marca visual eram os quatro mísseis antinavio P-35 — designados SS-N-3 Shaddock pela OTAN — instalados em lançadores duplos nas laterais da superestrutura dianteira. Eram armas destinadas a atingir grandes unidades de superfície, especialmente os grupos de porta-aviões norte-americanos. Para explorar seu alcance além do horizonte, o navio precisava de informações sobre a posição do alvo transmitidas por outros meios, como a versão de reconhecimento do helicóptero Ka-25.
Havia, porém, uma troca importante em relação à classe Kynda. Enquanto os navios anteriores levavam oito P-35 prontos para disparo e mais oito para recarga, cada Kresta I dispunha de apenas quatro, sem uma reserva equivalente a bordo. O casco maior não significava, portanto, uma salva antinavio maior. A vantagem procurada pelos projetistas estava na capacidade de cumprir outras tarefas e de permanecer no mar como parte de uma força-tarefa.
Para sua proteção, os cruzadores receberam dois lançadores duplos de mísseis antiaéreos M-1 Volna, canhões duplos de 57 mm e sistemas de guerra eletrônica. Contra submarinos, contavam com tubos de torpedos de 533 mm e lançadores de foguetes RBU-6000 e RBU-1000. Radares de busca, sonar de casco e equipamentos de direção de tiro compunham um conjunto mais abrangente do que o simples armamento de ataque sugeria.
A presença de um hangar para um Ka-25 foi outra diferença decisiva. Os Kynda possuíam plataforma de pouso, mas não instalações permanentes comparáveis para manter o helicóptero a bordo. No Projeto 1134, a aeronave podia apoiar tanto a busca de submarinos quanto a localização de navios distantes. Isso ampliava as possibilidades do cruzador, embora o desempenho de seus mísseis continuasse dependente da qualidade das informações recebidas.
Da vigilância ao salvamento
Os quatro navios serviram em diferentes teatros. O Admiral Zozulya operou no Atlântico e no Mediterrâneo, inclusive durante o grande exercício soviético Okean-70. O Vladivostok navegou pelo Índico e pelo Pacífico, fez escalas em portos africanos e asiáticos e participou de missões próximas às áreas de treinamento da Marinha dos Estados Unidos. Essas viagens davam expressão concreta à presença oceânica que Moscou buscava construir.
A trajetória do Vitse-Admiral Drozd mostra que a classe não se limitava à vigilância de forças adversárias. Em março de 1972, o cruzador participou do resgate da tripulação do submarino nuclear soviético K-19, atingido por um incêndio no Atlântico. Anos depois, voltou ao Mediterrâneo e visitou portos líbios durante a crise entre a Líbia e os Estados Unidos, em 1986.
O Sevastopol também atravessou os oceanos: após servir na Frota do Norte, foi transferido para o Pacífico e percorreu a rota marítima do Ártico em 1981. O deslocamento ilustrava tanto o alcance geográfico da Marinha Soviética quanto a necessidade de redistribuir seus principais combatentes entre frotas separadas por enormes distâncias.
Uma classe de transição
A classificação dos Kresta I acompanhou as mudanças de prioridade em Moscou. Embora seu armamento mais característico fosse antinavio, eles foram designados por anos como grandes navios antissubmarino. Em 1977, passaram a ser classificados como cruzadores de mísseis. A produção já havia mudado de direção: o Projeto 1134A, conhecido no Ocidente como Kresta II, aproveitou a experiência do casco anterior, mas privilegiou a guerra antissubmarino. Dez unidades dessa variante foram concluídas.
Dois Kresta I, o Admiral Zozulya e o Vitse-Admiral Drozd, receberam posteriormente canhões antiaéreos AK-630 para reforçar a defesa aproximada. A modernização não impediu o envelhecimento dos navios. O Sevastopol deixou o serviço em 1989; o Vitse-Admiral Drozd, em 1990; o Vladivostok, em 1991; e o Admiral Zozulya, já depois do fim da União Soviética, em 1994. O destino do Drozd teve um último episódio dramático: vendido para desmantelamento, afundou em 1992 enquanto era rebocado para a Índia.
Os Kresta I foram uma etapa na aprendizagem soviética de operar forças de superfície longe de suas bases. A partir deles, a Marinha passou a construir navios cada vez mais especializados para acompanhar porta-aviões, caçar submarinos e sustentar uma presença regular nos mares onde a Guerra Fria era observada — muitas vezes a curta distância — pelas duas superpotências.■
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Próximos Kresta ll e kara
Excelente artigo ! Vemos um navio com superestrutura geometricamente complexa que não deveria ser nada discreta em relação aos radares inimigos, portanto, bem diferente das estruturas “limpas” que vemos atualmente. Curiosamente, o que o artigo destaca como a “marca visual” desses cruzadores Kresta I são os lançadores laterais dos mísseis P-35, esses sim me pareceram altamente discretos nas perspectivas fotográficas disponibilizadas, a ponto de que eu não os teria reconhecido sem a ajuda das plantas em perspectivas sagital e longitudinal superior apresentadas na escala 1:600.
Uma curiosidade.
Por que a OTAN renomeia os navios, mísseis russo/soviéticos?
Da mesma forma que os EUA deram nomes de mulheres a bombardeiros japoneses antes e durante a guerra, como ^Val^, ^Betty^, etc
.
Criando-se uma linguagem própria padronizando os nomes, facilita muito a troca de informações ainda mais quando havia pouca informação e os nomes poderiam soar muito ^estranhos^ e/ou difícil memorização.
Obrigado
Acho que esse navio russo apareceu na série The Last Ship.