Ecranoplano Lun: o porta-mísseis soviético que voava rente ao mar
Na costa do mar Cáspio, perto de Derbent, na Rússia, um casco de quase 74 metros repousa sobre suportes, com oito motores à frente das asas e seis tubos de mísseis sobre a fuselagem. É o Lun, único exemplar concluído do Projeto 903. Hoje peça de museu, ele nasceu de uma pergunta típica da Guerra Fria: seria possível combinar a velocidade de uma aeronave com o armamento de uma embarcação rápida de ataque?
Os soviéticos chamavam essas máquinas de ekranoplanos. Elas deslizam sobre a água sem tocá-la durante o deslocamento, sustentadas pelas asas a poucos metros da superfície. O Lun levou essa ideia a uma finalidade militar específica: aproximar-se rapidamente de navios adversários e atacá-los com mísseis antinavio. A Organização Marítima Internacional descreve os veículos de efeito solo como embarcações sustentadas principalmente por forças aerodinâmicas em voo baixo sobre a água.
Antes do Lun, o “Monstro do Mar Cáspio”

O programa tinha raízes no trabalho do engenheiro Rostislav Alekseyev, pioneiro soviético dos barcos de hidrofólio. A partir dos anos 1960, sua equipe experimentou veículos capazes de sair da água e explorar o chamado efeito solo. O grande protótipo KM começou a ser testado no Cáspio em 1966 e intrigou observadores ocidentais, que o apelidaram de “Monstro do Mar Cáspio”.
A distinção importa: o KM não era o Lun. Era um laboratório de testes maior, sem os seis lançadores que caracterizariam o futuro porta-mísseis. O KM foi perdido em um acidente em 1980; sua experiência, somada à dos ekranoplanos de transporte Orlyonok, ajudou a orientar o Projeto 903. Alekseyev morreu naquele mesmo ano, antes de ver a versão armada concluída.
O princípio físico parecia simples, mas exigia engenharia complexa. Quando uma asa voa perto de uma superfície, diminui a resistência induzida associada à geração de sustentação. O veículo pode, assim, manter grande massa no ar enquanto permanece perto da água. Não se trata de um aerodeslizador sustentado por ventiladores: o ekranoplano depende da sustentação aerodinâmica de suas asas.
Uma máquina entre o navio e a aeronave
O Lun foi construído em Gorky, atual Níjni Novgorod, no interior da Rússia. Seu casco metálico lembrava o de um hidroavião; a envergadura chegava a 44 metros, e a altura, a cerca de 19 metros. Oito motores Kuznetsov NK-87, distribuídos em dois conjuntos de quatro perto da proa, forneciam impulso para vencer a resistência da água na decolagem e sustentar o deslocamento.
As saídas dos motores podiam direcionar o fluxo para baixo na decolagem, aumentando a pressão sob as asas. Uma vez no ar, o veículo operava a poucos metros das ondas. Referências técnicas atribuem-lhe velocidade de cruzeiro próxima de 450 km/h e máxima em torno de 550 km/h — números muito superiores aos de lanchas-mísseis, mas que não devem ser confundidos com velocidade demonstrada em combate.
No dorso da fuselagem, três pares de lançadores transportavam seis mísseis P-270 Moskit, concebidos para atingir alvos de superfície. Havia ainda torres com canhões de 23 mm. Essa combinação explica sua aparência incomum: asas largas para voar rente ao mar, casco para flutuar e armamento de uma unidade de ataque naval.
A baixa altitude oferecia uma possível vantagem tática: reduzir o tempo de alerta de radares de navios, limitados pelo horizonte. Mas voar rente à água não significava ser invisível. A detecção dependeria também dos sensores, da posição dos adversários e do apoio de vigilância. Encontrar e identificar um alvo distante continuava sendo um problema tão importante quanto chegar depressa à área de lançamento.
Do estaleiro à operação experimental
O exemplar foi lançado ao rio Volga em 16 de julho de 1986 e seguiu para a região do Cáspio. Fontes divergem ao resumir sua “entrada em serviço” como ocorrida em 1987 ou 1989. Uma cronologia mais precisa separa construção, provas e emprego: os testes estatais prosseguiram até o fim de 1989, e o Lun passou à operação experimental da Flotilha do Cáspio em 1990.
Essa carreira não se transformou na força de ataque imaginada por seus planejadores. Apenas um porta-mísseis do Projeto 903 foi concluído; não há registro público de emprego do Lun contra navios inimigos. Seu desempenho demonstrava uma possibilidade técnica, mas a utilidade militar de uma frota de gigantes daquele porte permaneceu sem prova em guerra.
O próprio conceito impunha restrições. A pouca altura de voo tornava ondas, obstáculos e mau tempo preocupações permanentes; oito turbinas e uma infraestrutura de apoio especializada também pesavam na operação. Ele podia ser muito mais veloz que um navio, mas não tinha a liberdade de altitude de uma aeronave convencional. O ganho de velocidade vinha acompanhado de uma faixa de emprego estreita.
Um segundo casco começou a ser construído, mas foi redirecionado para o projeto de resgate Spasatel, sem o armamento do Lun. A proposta buscava oferecer resposta rápida a emergências no mar, necessidade ressaltada pelo naufrágio do submarino soviético Komsomolets em 1989. O veículo, porém, não foi concluído. A dissolução da União Soviética e a falta de recursos acabaram com a perspectiva de produção em série. A história dos dois cascos foi documentada pelo Old Machine Press.
Da base naval ao museu
Após o encerramento da fase experimental, o Lun permaneceu durante décadas em Kaspiysk, à beira do Cáspio. Em 2020, foi rebocado em direção a Derbent para integrar um parque de equipamentos militares. A transferência teve dificuldades: o casco ficou retido junto à costa, sofreu exposição às ondas e exigiu nova operação para ser levado a terra. A operação foi acompanhada pela televisão pública russa.
Trabalhos de restauração tiveram início em 2025, com o objetivo de recuperar a aparência do ekranoplano e adaptá-lo à exposição. Em 11 de junho de 2026, o parque “Patriot” de Derbent abriu ao público tendo o Lun como peça central. O traslado não o devolveu ao mar, mas assegurou ao único porta-mísseis concluído da classe um lugar visível na história naval.■










Esse era o lado legal da guerra fria, a URSS criava uns projetos completamente diferentes do que os EUA estavam seguindo.
China concorre com os EUA hoje ma segue praticamente a mesma linha de projetos dos EUA.
Concordo, acho que tem muito a ver com o fato da URSS estar no mesmo nível de fronteira de conhecimento que os EUA, eles se desenvolveram praticamente ao mesmo tempo. Já a China ficou décadas pra trás e precisa correr atrás do atraso, então até a China estar no mesmo nível dos EUA, acho que tudo de lá tende a ser algo parecido. Lembro que mencionei isso numa matéria a semanas atrás e fui massacrado kkkkk
Recentemente os chineses lançaram um Ekranoplano…
A algum tempo atrás os russos demonstraram um conceito de novos Ekranoplanos no IDM 2013,mas nada prosperou.