1822             -                NAVIOS DE GUERRA BRASILEIROS            -               Hoje

 

Cv Forte de Coimbra - V 18

Classe Imperial Marinheiro

 

Reprodução do texto "Muito Obrigado Corveta Forte de Coimbra", publicado na Revista Marítima Brasileira n.º 4/6, abr./jun. 1997, de autoria do CMG (RRm) Ronaldo Pereira Vilaça.

"Muito Obrigado Corveta Forte de Coimbra"

" A 13 de novembro de 1996 recebemos a trágica noticia: a Corveta Forte de Coimbra encalhara na véspera, próximo à entrada da barra do porto de Natal e se debatia em vão sobre os arrecifes da Baixinha. Nos dias que se seguiram, vários ex-tripulantes, alguns parentes dos atuais tripulantes e muitos curiosos, entristecidos mas esperançosos, acompanhavam o mais perto que puderam as tentativa de desencalhe feitas pela nossa Marinha, com extremo profissionalismo, mas infelizmente sem êxito. era incrível, mas a Corveta se recusava a desencalhar. Enquanto o tempo passava, ela permanecia imóvel, "chorando lágrimas de ferrugem pelos escovens envelhecidos", como diria um certo poeta marinheiro cujo nome não me recordo.

Nós, que fazemos a Marinha do Brasil, amamos tanto nossos navios que consideramos, em vários aspectos, semelhantes a um ser humano, a começar pelo batimento da quilha, ou seja, pela fecundação do ovulo. No lançamento ao mar, o navio desliza pela carreira do estaleiro como em um parto normal. Ele também é batizado, passando a ser chamado por um determinado nome. Nos seus primeiros dias, é submetido a uma avaliação operacional, para verificar se tudo nele funciona, à semelhança do que faz o pediatra com o recém-nascido. Como o homem, o navio se comunica (sirene, apito, transceptores, etc. ...), tem sentidos, até bastante aguçados, graças aos seus sensores (radar, sonar, ecobatimetro, etc ...), tem alma (forjada pela fibra, competência e abnegação de seus tripulantes, vez por outra adoece (avarias), é tratado em hospitais específicos (bases navais e estaleiros), envelhece e morre. No entanto, sua morte é mais triste do que a do homem, pois muito raramente um navio morre nos braços de seus entes queridos: o mar, o rio e sua tripulação. Normalmente, docado em um estaleiro, sem tripulantes a bordo, tem seu corpo esquartejado e vendido como ferro velho. por isso. parece que alguns navios, que tiveram vidas gloriosas, recusam-se a morrer deste modo e decidem fazer do oceano a última morada.

Ora, a Corveta Forte de Coimbra tinha 41 anos de idade. Embora robusta, poderíamos considerar que ela era uma saudável anciã de 82 anos, se compararmos a vida útil de um navio com a do homem. Assim, naturalmente já estava sentindo o peso da idade. Além disso, há pouco mais de um anos esteve muito mal e tudo indicava que morreria, pois tinha uma grave lesão em um órgão vital: um eixo de manivelas, não mais disponível no mercado. Felizmente, foi salvo graças ao transplante deste órgão de sua irmã gémea, a Corveta Iguatemi, que agonizava em Belém.

Depois do transplante, fez várias viagens, durante as quais demonstrou que parecia estar inteiramente recuperada. Entretanto, creio que imaginou estar tendo a "visita da Saúde", como dizemos no Nordeste, em relação aos enfermos terminais que têm uma súbita melhora antes de morrer. assim, acreditou que seus dias estavam contados e resolveu ter uma morte digna. Contando com a cumplicidade de Netuno, escolheu as proximidades da boca da barra de Natal como local ideal para ser seu túmulo.

Apesar de sua tripulação ter feito um esforço sobre-humano para salva-la, ali morreu abraçada pelo mar que tanto amou e acariciou, nas vazantes, pelas águas do seu querido Potengi, onde costumava descansar no cais da Base Naval de Natal, após brilhar nas fainas realizadas. Caprichosamente, ficou cravada na pedra da Baixinha, em uma posição visível à grande distância, como um monumento à bravura daqueles que, juntamente com ela, salvaram dezenas de embarcações e vidas humanas no mar, durante esses seus 41 anos de excelentes serviços prestados à Marinha do Brasil.

Minha Corveta, os que a avistarem compreenderão o seu gesto e a grandeza dos seus feitos.

Muito obrigado por tudo, querida Forte de Coimbra,. Fique certa de que aqueles que conviveram com você ou souberam de suas façanhas jamais a esquecerão."