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80 anos do Monitor Parnaíba – última parte

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Monitor Parnaíba durante ‘saída tipo’ com veteranos, em comemoração aos 75 anos da incorporação – foto A. Galante

O Parnaíba nos dias de hoje e o futuro

Por Fernando “Nunão” De Martini

Esta última parte da série sobre os 80 anos do monitor Parnaíba começa com a visita da equipe do Poder Naval / Forças de Defesa à Base Fluvial de Ladário, no Mato Grosso do Sul, no final de 2012, para apurar informações, fotografias e documentos históricos e também embarcar no navio, em preparação para o livro Monitor Parnaíba 75 anos – mais do que um navio, uma história da Marinha e matéria especial da edição 8 da revista Forças de Defesa (ambos publicados em 2013). Esta série sobre os 80 anos baseou-se principalmente nessas duas publicações, acrescentando também bastante material.

Em seguida, trazemos entrevista com o então comandante do navio, capitão de corveta Marcelo Nascimento Ribeiro da Silva, que traz várias informações sobre as perspectivas do emprego do navio nos próximos anos (e décadas). Finalizando, acrescentamos tanto ao longo do texto, quanto numa seção extra, fechando a série, diversas fotos tanto de nossa autoria quanto do acervo recente do navio e do 6º Distrito Naval, ainda não publicadas no site. Boa leitura!

Rio Paraguai, 14 de novembro de 2012: poucos dias após o aniversário de 75 anos do Parnaíba, a equipe da revista Forças de Defesa teve o privilégio de navegar no histórico navio, numa “saída-tipo” junto com veteranos. Era o ponto alto de uma semana que passamos em Ladário, conhecendo o 6º Distrito Naval, a rotina da Base Fluvial, da Flotilha de Mato Grosso, de seus navios, dos marinheiros, e dos fuzileiros do Grupamento de Fuzileiros Navais de Ladário.

Pesquisamos imagens e outros documentos nos arquivos do navio e da base, com a ajuda de seus militares, e presenciamos também a chegada de uma nova geração: 65 marinheiros recrutas (MN-RC) formados lá mesmo em Ladário, mostrando o orgulho de serem o mais novo capítulo da história da Marinha na fronteira Oeste. A cerimônia foi presidida pelo então comandante do 6º Distrito Naval, contra-almirante Rodolfo Frederico Dibo, sucedido pouco depois pelo contra-almirante Edervaldo Teixeira de Abreu Filho.

Também percorremos várias das dependências da Base Fluvial de Ladário em Mato Grosso do Sul, presenciando o seu dia-a-dia, as preparações para as missões, manutenção e operação das aeronaves Esquilo (UH-12) do Esquadrão HU-4, subordinado ao 6º Distrito Naval. Andamos ao longo de suas muralhas históricas da década de 1870, eriçadas de canhões de várias épocas, numa imagem que contrasta com as diversas instalações mais modernas da base localizada próxima à fronteira com a Bolívia.

Navegamos embarcados no monitor Parnaíba ao longo do Rio Paraguai, presenciando também uma típica “abarrancagem”: faina em que o navio, em meio a uma comissão, enfia a proa num barranco da margem, sendo amarrado a uma árvore. Comprovamos a excelente manobrabilidade proporcionada pelos dois hélices e dois lemes, tanto na abarrancagem quanto na atracação e na saída do cais, quando em muitos momentos o navio, em baixa velocidade, parece até mesmo ser equipado com “bow thrusters”.

Já em alta velocidade, subimos o rio passando em frente à Base Fluvial de Ladário e aos demais navios atracados, o navio de transporte fluvial (NTrFlu) Paraguassu, o navio de apoio logístico (NApLog) Potengi, o navio de assistência hospitalar (NAsH) Tenente Maximiano, o aviso de transporte fluvial (AvTrFlu) Piraim, e os navios-patrulha (Npa) Piratini, Pirajá, Penedo e Poti.

Flotilha do Mato Grosso em exercício – foto Comunicação Social do 6º Distrito Naval

Percorremos praticamente todos os compartimentos do monitor, do alto do tijupá ao fundo das praças de máquinas, consideradas pelo almirante Moura Neto (que frequentemente visita seu antigo comando) como as mais limpas da Marinha. Visitamos desde coberta de proa até o estreito compartimento da máquina do leme. Conversamos com os integrantes de sua histórica tripulação de 75 anos, muito bem adestrada, e entrevistamos seu comandante (veja a seguir), para completar o panorama deste veterano da Segunda Guerra Mundial, o navio de 3ª classe (classificação por porte) com maior poder de fogo da Marinha.

E podemos dizer que o “Jaú do Pantanal”, o “casco nº 1” do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, o “Caverna Mestra da Armada”, está em plena forma aos 75 anos (tempo de serviço do navio em 2012, quando da publicação original deste texto na revista Forças de Defesa nº8), pronto para outras décadas de serviço cumprindo sua missão assim designada:

“Participar de operações atinentes à Patrulha Naval nos rios da bacia do Rio Paraguai; Operações Ribeirinhas singulares ou combinadas; Busca e Salvamento da vida humana; Socorro e Salvamento, Assistência Cívico-Social (ACiSo) às populações ribeirinhas, cooperar em ações de inspeção naval e, quando necessário, em atribuições subsidiárias, a fim de contribuir para a aplicação do Poder Naval da Flotilha de Mato Grosso na área de jurisdição do Comando do 6º Distrito Naval.”

Monitor Parnaíba atracado a contrabordo do navio transporte fluvial Paraguassu, em Ladário – foto Nunão

Entrevista: ‘Acredito que o Parnaíba tenha mais uns 30 anos de vida útil, tranquilamente’

Em novembro de 2012, entrevistamos o então comandante do ‘Parnaíba’, capitão de corveta Marcelo N. Ribeiro da Silva

FORÇAS DE DEFESAO senhor poderia resumir sua carreira na Marinha até a chegada ao comando do Parnaíba?

Capitão de corveta Marcelo Nascimento Ribeiro da Silva – Sou guarda marinha da turma de 1998. Minha habilitação é em máquinas, e o primeiro navio em que servi foi o navio varredor Anhatomirim, em Salvador, como chefe de máquinas. Em 2002 fiz o curso de aperfeiçoamento de superfície para oficiais de máquinas e, em seguida, servi no navio-patrulha Bocaina, do 4º Distrito Naval (Belém), como chefe de máquinas e como imediato. Em 2008, recebi meu primeiro comando, o navio-patrulha Guanabara, também do 4º DN. Em 2010, servi no Rio de Janeiro como assistente do almirante Monteiro Lopes, comandante em chefe da Esquadra e, em 2011, servi como chefe de máquinas do navio-escola Brasil na sua 25ª Viagem de Instrução. Depois, servi na Logística do Comando da Força de Superfície e, em 5 de junho de 2012, assumi o comando do monitor Parnaíba, aqui em Ladário.

O então capitão de corveta Marcelo N. Ribeiro da Silva, no comando do Parnaíba em navegação no rio Paraguai em 2012 – foto Nunão

FDNo dia-a-dia, quais as diferenças entre outros navios que comandou e o Parnaíba?

CC Ribeiro da Silva – O Guanabara é um navio de 4ª classe, menor tanto na quantidade de oficiais quanto no conforto, enquanto o Bocaina é um navio de 3ª classe, como o Parnaíba.
O Bocaina é um navio de construção inglesa, bem confortável e bem mais novo, ao contrário do Parnaíba, que já tem 75 anos (relembramos aos leitores que a entrevista foi dada em 2012, quando o navio completou 75 anos de sua incorporação). Operativamente falando, o Bocaina atua muito em área fluvial, mas também no mar, enquanto o Parnaíba foi construído exclusivamente para navegar em rio. Contudo, historicamente, ele já navegou no mar. No quesito missão, ambos se confundem, pois são utilizados em Patrulha Naval e Inspeção Naval, embora o Parnaíba possa operar com aeronave orgânica. Essa flexibilidade trazida pelo convoo faz com que, operativamente, o Parnaíba seja mais moderno que o Bocaina ou o Guanabara. Além disso, o Parnaíba é considerado o navio de 3ª classe com o maior poder de fogo, com 3 canhões e 6 metralhadoras. É um navio pronto para a guerra, muito bem armado.

FDO Parnaíba realiza muitas saídas? E as comissões, são de longa duração?

CC Ribeiro da Silva – As comissões não são longas. A última Operação ÁGATA, por exemplo, durou 15 dias. Na realidade, o que ocorre é uma rápida sequência de comissões. Às vezes, você chega de uma comissão, fica com o navio atracado por 3 ou 4 dias e já emenda outra. Para se ter uma ideia, no segundo semestre de 2012, que foi meu primeiro semestre de comando, acumulei 70 dias de mar. Caso eu mantenha essa média, serão mais de 140 dias de mar no comando do navio. Hoje em dia, são poucos os navios que batem essa marca dentro do período de um ano. O Parnaíba realmente é um dos navios que mais navegam na região. É um navio com uma estrutura bem resistente, com um casco de encouraçado.

Monitor Parnaíba com o Destacamento Aéreo Embarcado formado sobre o convoo – foto acervo do Parnaíba

FDEntão o navio não fica muito tempo parado em manutenção?

CC Ribeiro da Silva – O Parnaíba é um navio muito confiável em máquinas, equipamentos e material, sendo apenas necessário fazer as manutenções de rotina. É um navio que apresenta pouquíssimas avarias. Às vezes fazemos viagens sem avaria alguma. O sistema de manutenção adotado pela Marinha do Brasil, que chamamos de sistema de manutenção preventiva (SMP), é o principal responsável pela longevidade dos nossos navios. Há previsão de um período de manutenção geral (PMG) para o segundo semestre de 2013.

FDO senhor poderia descrever a última comissão internacional do navio?

CC Ribeiro da Silva – Recentemente, participamos da Operação BRASBOL, uma Operação Combinada com a Marinha da Bolívia. Foram 7 dias de comissão que resumiram uma Operação Ribeirinha. Na simulação, um partido inimigo dominou uma área da região de interesse para os dois países. Nós operamos em conjunto para expulsar esse inimigo, havendo um desenvolvimento da parte terrestre com emprego dos Fuzileiros Navais, assim como uma parte de Controle Fluvial, dentro das águas compartilhadas.

Monitor Parnaíba abarrancado em margem do rio Paraguai – foto Nunão

FDHá algo que o senhor gostaria de destacar, como situações que só ocorrem na “Marinha Fluvial”, coisas que lhe surpreenderam no início de seu comando?

CC Ribeiro da Silva – A faina de abarrancagem foi algo diferente para mim, quando você praticamente encalha o navio e o amarra a uma árvore. Logo na minha primeira comissão, estávamos chegando a Forte Coimbra, numa noite fria, e o Paraguassu já estava abarrancado. Tive que fazer minha primeira abarrancagem no Parnaíba ao mesmo tempo em que atracava a contrabordo do Paraguassu, tomando muito cuidado, pois o Paranaíba é um navio de couraça, muito mais pesado que o Paraguassu. Essa operação foi uma prova de fogo para mim, pois eu já estava sozinho como comandante. Foi minha segunda operação no comando. A navegação fluvial é algo bem característico, e mais ainda aqui na área. Bater o navio no fundo do rio é algo rotineiro. Aqui temos determinados locais geralmente críticos, chamados passos, que ou são estreitos ou têm profundidade bem baixa, por isso a necessidade de navegar a baixa velocidade. Há ainda o fato de o rio ser balizado. Há baliza de correr margem, baliza indicando que se deve atravessar a margem, baliza indicando que o navio deve navegar no meio do rio etc. Isso é outra coisa bem característica daqui, o que me causou certa estranheza. Mas o que mais me surpreendeu, de fato, foi a abarrancagem

FDComo o senhor vê a vantagem tática de usar uma aeronave para esclarecimento?

CC Ribeiro da Silva – Taticamente é uma vantagem excelente. A aeronave dá um alarme antecipado, e não é necessário expor o navio em caso de ataque. É possível ter conhecimento prévio da área, do posicionamento do seu inimigo, e fazer um ataque com a própria aeronave. Percebemos bem essa vantagem em operações com um inimigo figurativo. Esse navio chega a ser uma “covardia” aqui na área, com o armamento que ele tem, e ainda por cima levando uma aeronave. É difícil algum outro navio, por aqui, se contrapor ao Parnaíba.

FDSeria possível futuramente o navio utilizar VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados)?

CC Ribeiro da Silva – Na última Operação Ribeirinha que fizemos já houve a presença de um VANT. Podemos dizer que o uso de VANT será outra vantagem, pois ele não faz barulho e pode ser utilizado à noite com seus sensores térmicos. Seria possível a utilização de certos tipos de VANTs no Parnaíba, uma vez que o navio possui convoo.

FDO senhor sente falta de um terminal tático-inteligente no navio, que possa receber indicação de alvo de outras plataformas, em Operações Conjuntas? Algo como um COC (Centro de Operações de Combate)?

CC Ribeiro da Silva – O que talvez seja crucial para melhorarmos no futuro é a parte de comunicações. Um COC não seria o caso para esse navio. Já a questão da comunicação é uma deficiência para qualquer navio na área. Às vezes, numa operação, não se consegue falar com navios de uma área adjacente devido às características da região, com rios, pantanal, e há também a questão climática. Tudo isso dificulta a propagação das ondas de rádio. A instalação de equipamento de comunicação via satélite, de um computador para criptografia, seriam investimentos necessários, que certamente incrementariam as comunicações.

Canhão de 76mm do Parnaíba – foto Nunão

FDO armamento principal do navio não é muito antigo? Vocês praticam tiro noturno?

CC Ribeiro da Silva – O canhão de 76mm que temos, apesar de ser bem antigo, é extremamente preciso, o que comprovamos nos exercícios de tiro que fazemos. Porém, seu uso depende do contato visual com o alvo. Quanto ao tiro noturno, só é possível se o alvo estiver sendo iluminado, devido à necessidade de contato visual com o alvo (nota: dois anos após essa entrevista, foi informada pela Marinha a execução de exercícios com o Parnaíba que confirmaram a possibilidade de utilização do canhão para a tarefa de Apoio de Fogo Naval com tiro indireto, o que foi noticiado no Poder Naval). 

FDEm caso de necessidade de um engajamento noturno, não seria ideal possuir um sensor de visão noturna a bordo, uma alça optrônica?

CC Ribeiro da Silva – Se tivéssemos sensores térmicos integrados à alça de tiro do canhão, talvez até equipamento de visão noturna, creio que já seria suficiente, e talvez não seja uma adaptação difícil. Nós já utilizamos óculos de visão noturna emprestados dos Fuzileiros e foi possível ver nitidamente outras embarcações e até uma pessoa andando na floresta, à noite.

FDA substituição do navio já foi cogitada, recentemente?

CC Ribeiro da Silva – Não. Até agora não há nenhum plano para substituí-lo. Acredito que o Parnaíba tenha mais uns 30 anos de vida útil, tranquilamente. Damos muita importância à manutenção, e ainda mais no caso de um navio histórico como este. Acabamos adquirindo um carinho pelo navio, que é nossa segunda casa. Muitos de nós passamos mais tempo no navio do que com a família, e há pessoas que moram no navio. Há planos para novos navios-patrulha fluviais, principalmente para Manaus. Caso algum novo navio venha para cá, não deverá substituir o Parnaíba, e sim operar junto com ele.

Grupo de Visita e Inspeção (GVI) – foto acervo do Parnaíba

Percorra agora o monitor Parnaíba por dentro e por fora, numa visita guiada pelo Poder Naval

Como finalização digna dos 80 anos do navio, convidamos os leitores a percorrer diversas partes do monitor Parnaíba, começando pela parte externa, de proa a popa. Nosso objetivo é dar aos leitores do Poder Naval a sensação de visitar esse histórico e muito ativo navio ao vivo, e dividimos essa “visita guiada” por temas para facilitar.

Armamento: canhão de 76mmL50 – Nossa primeira parada é no convés de proa, onde podemos ver mais imagens de seu armamento principal, um canhão de 76mm/L50, que ocupa desde 1959 o espaço onde antes foram instaladas peças de 152mm e 120mm (para saber mais sobre os armamentos anteriores, acesse matérias anteriores da série).

Na época em que esse canhão de 76mm foi instalado no Parnaíba (e também no monitor Paraguassu) a Marinha havia incorporado dez corvetas classe “Imperial Marinheiro” equipadas com peças desse calibre, ao mesmo tempo em que desativava navios que participaram incessantemente de missões na Segunda Guerra Mundial, como pequenos caça-submarinos e corvetas (estas originariamente navios mineiros varredores construídos na década de 1930, e inicialmente equipados com canhões de 4 polegadas / 101mm), dotados desse canhão. Assim, passou a haver disponibilidade de vários desses canhões para equipar os meios distritais, que foram padronizados nesse calibre (o que incluiu os monitores da Flotilha de Mato Grosso).

Essas armas, fabricadas em grande quantidade no início da década de 1940 ainda eram bastante modernas e dotadas de farta munição – que não tem faltado até hoje. O canhão de 76mm/L50, apesar de sua idade (em algumas das inscrições e instruções em suas peças pode ser visto o ano de 1942, como na foto abaixo à direita), é mantido em boas condições e até hoje é elogiado pela precisão, sendo empregado pelo monitor principalmente em apoio de fogo naval em operações ribeirinhas (sendo exercitado tanto o tiro direto quanto o indireto), fazendo com que o navio supere em capacidade de combate qualquer outro empregado na bacia do rio Paraguai.

Canhão de 76mm do Parnaíba sendo carregado com munição de exercício – pode-se ver cinco integrantes de sua guarnição e dois estojos de munições já disparadas – foto acervo do Parnaíba

Observando a foto acima, por um lado chama a atenção a falta de proteção balística para a guarnição do canhão, o que já foi tema de estudos na Marinha e que se mostra como uma questão importante. Por outro, deve-se ter em mente que, devido ao alcance da arma, uma missão de apoio de fogo a um desembarque de fuzileiros (exemplo de emprego mais comum para o navio) se daria preferencialmente a uma distância do objetivo que colocaria a guarnição fora do alcance de armas leves, e as margens já teriam passado por reconhecimento por parte de embarcações leves de apoio. Ainda assim, é opinião deste autor que, aos 80 anos do navio, está na hora de se retomar o planejamento para um substituto mais moderno desse tipo de canhão instalado há cerca de 50 anos e que, embora tenha sido operado com sucesso em dezenas de navios da Marinha do Brasil por décadas, atualmente só equipa o Parnaíba e a corveta Caboclo. 

Características básicas de canhões americanos 76mm/L50 construídos à época da peça que equipa o Parnaíba (e que podem ser diferentes do desempenho e dados atuais):

  • Peso do canhão: 798kg
  • Peso do reparo completo: 3 a 4 toneladas
  • Comprimento do tubo: 4,05 m
  • Elevação: -15 / +85º
  • Conteira: 360º (limitada pela superestrutura do navio)
  • Operação: manual
  • Cadência máxima (dependendo do modelo): 15 a 20 disparos por minuto – em geral se emprega cadências menores
  • Alcances: 2.740m (elevação de 2º), 4.150m (elevação de 4,3º), 14.600m (43º)

Contra ameaças mais próximas, de superfície e aéreas, o navio é dotado de outros armamentos, que mostraremos agora ao deixar o convés de proa e nos dirigirmos à meia-nau.

Armamento: canhões de 40mmL70 – Saindo do convés de proa e subindo uma escada lateral, acessamos o nível do passadiço e do convoo do navio. Andando alguns passos na direção da chaminé, chegamos aos dois reparos de canhões Bofors 40mmL70 (arma sueca que também foi produzida sob licença por outros países) instalados na modernização de 1997, disponibilizados pela fragata Liberal quando esta passou por modernização (Modfrag). As duas peças representam o padrão desse armamento de emprego antiaéreo e de superfície na década de 1970, no caso do Parnaíba, com direção local (nas fragatas classe “Niterói”, eram direcionados de forma semi-automatizada por alças ópticas, eletro-ópticas ou radar de direção de tiro). Os reparos têm proteção balística parcial e, na foto ao lado, podem ser vistos com uma guarnição de quatro homens. Nas imagens abaixo, outros ângulos dos dois canhões do tipo que equipam o Parnaíba, ladeando a chaminé, posições que conferem bons ângulos de tiro em ambos os bordos e em direção à popa, com poucas interferências para alvos aéreos que necessitem de maior ângulo de elevação, exceto em direção à proa do navio. Ambos oferecem alto poder de fogo e cadência também no tiro de superfície, podendo engajar alvos mais próximos, nas margens dos rios onde opera o navio.

 

Características básicas de canhões 40mm/L70 construídos à época das peças que equipam o Parnaíba (e que podem ser diferentes do desempenho e dados atuais):

  • Peso do canhão: 175kg
  • Peso do reparo completo: 2,8 a 3,3 toneladas, dependendo do modelo
  • Elevação: -5 / +90º (a elevação negativa também varia conforme o modelo)
  • Conteira: 360º (limitada pela superestrutura do navio)
  • Operação: automática (carregador com munição de pronto uso que é alimentado manualmente com pentes de 4)
  • Cadência máxima: 240 disparos por minuto
  • Alcances: 12.000m (horizontal máximo), 4.000m (vertical máximo – o alcance efetivo para alvos aéreos é de cerca de 3.000m para aeronaves em voo baixo)

A tripulação do navio foi solícita em trazer exemplos das munições empregadas pelas armas do monitor Parnaíba que vemos nas imagens abaixo, junto a um dos reparos de canhões de 40mm. As munições de 76mmL50 ainda constam no catálogo da Fábrica de Munições da Marinha, controlada pela Emgepron, em seus modelos EX de exercício; EX-T de exercício traçante,
AE com alto explosivo; e AE-T alto explosiva traçante.

Também consta do catálogo as munições de 40mm/L70, nos modelos EX-T de exercício traçante; AE-T-AD alto explosiva, traçante, com autodestruição; EX-AA de exercício, anti-aérea, com espoleta de proximidade; PFAE alto explosiva, com espoleta de proximidade e granada pré-fragmentada; e 3P alto explosiva, com granada pré-fragmentada e espoleta de proximidade programável. Os pesos totais desses modelos 40mm/L70 são de 2,5kg, com projétis pesando 880g (EX-AA e PF-AE), 960g (EX-T e AET-AD) e 975g (3P).

A Fábrica de Munições da Marinha também produz a munição dos canhões de salva de 47mm (veja mais à frente essas peças). Para se ter ideia de tamanho e comparar, o comprimento completo da munição de 40mm, vista nas fotos abaixo em pente com 4 unidades, é de 53,3cm.

 

Armamento: metralhadoras de 20mmL70 – Voltando em direção ao passadiço do navio, subimos mais uma escada para o nível do tijupá, onde encontramos, entre diversas antenas de comunicação e ladeando o mastro tripé onde se encontram as antenas de radar, quatro metralhadoras Oerlikon 20mm/L70, projeto originalmente suíço e que foi produzido em massa nos Estados Unidos (e outros países) durante a Segunda Guerra Mundial.

Na imagem ao lado, pode-se ver as inscrições do fabricante original (GM Corp) e a inscrição Mk4, que se refere ao modelo mais comum de produção. Metralhadoras desse tipo foram instaladas no Parnaíba em 1943, quando o navio foi adaptado no Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras para operações de guerra no Atlântico (saiba mais acessando ao final as matérias anteriores da série). Os reparos incluem escudos balísticos simples, que eram padrão na época do conflito, quando o principal emprego da arma era antiaéreo – hoje, ainda que possa agregar peso de fogo contra aeronaves em voo baixo, o principal emprego é na proteção aproximada do navio contra alvos de superfície (na água e nas margens).

Já que estamos falando de metralhadoras, não custa descer duas escadas e voltar ao nível do convés e caminhar rapidamente na direção da popa, onde encontraremos mais duas armas de 20mm (vistas na última foto abaixo, à direita). Apenas a título de curiosidade, na época da Segunda Guerra Mundial as duas metralhadoras de popa ocupavam o nível superior (sobre a casaria), onde originariamente havia dois morteiros de 81mm. Em 1959, foram realocadas um nível abaixo, para o convés de popa onde estão atualmente, para dar lugar a dois canhões de 40mm/L60 sobre a casaria (não confundir com os atuais), os quais foram retirados na modernização de 1997 para liberar espaço à instalação do convoo para operação de helicóptero.

 

Características básicas de metralhadoras americanas 20mm/L70 construídas à época das peças que equipam o Parnaíba (e que podem trazer algumas diferenças em desempenho e dados atuais):

  • Peso da metralhadora: 68kg
  • Peso do reparo completo (incluindo proteção balística): 430kg
  • Elevação: -5 / +87º
  • Conteira: 360º (limitada por interferências do navio – a elevação e a conteira são manuais)
  • Operação: automática
  • Cadência máxima cíclica: 450 disparos por minuto (a cadência prática costuma ficar entre 250 a 320 disparos)
  • Alcances: 2.154m (elevação de 10º), 4.389m (elevação de 45º), efetivo de 910m para aeronaves em voo baixo.

Canhões de salva de 47mm – Após ver as posições dessas duas metralhadoras da popa, voltemos em direção à proa para subir novamente ao nível do passadiço. Nos chamados “lais” ou asas do passadiço, encontraremos duas relíquias que são mantidas no navio para uso em cerimônias, como canhões de salva. São dois canhões de 47mm (na tradição britânica eram chamados de 3 pounders, ou 3 libras, devido ao peso do projétil que disparavam) originariamente da bateria secundária de contratorpedeiros da Esquadra de 1910, mencionada em outras matérias desta série. Alguns desses contratorpedeiros estavam finalmente dando baixa à época da incorporação do Parnaíba (1937), e seus canhões de 102 e 47mm foram aproveitados em outros navios. Ainda que por vários anos fossem empregados pelo monitor em exercícios, com o tempo esse calibre foi relegado na Marinha para saudações militares (tanto que, em navios modernos, pode-se instalar um modelo simples faz parte do catálogo da Fábrica de Munições da Marinha / Emgepron). Como não são armamento de emprego operacional, não trazemos aqui suas características originais.

Em que pese toda a tradição dessas armas e o carinho com as quais são conservadas a bordo, este autor é da opinião que os espaços por elas ocupados, que são boas posições junto ao passadiço e também próximas das guarnições da artilharia principal do navio, poderiam ser melhor aproveitados. Por exemplo, com a instalação de suportes para equipamentos de visão noturna / câmeras termais, com o objetivo de aprimorar a capacidade de vigilância e até mesmo de designação de alvos. Até metralhadoras .50, para prover ainda mais apoio de fogo e proteção contra alvos próximos (mesmo levando em conta que o navio já é fortemente artilhado) poderiam ser de maior valia que as duas relíquias históricas a bordo do Parnaíba. Mas isso é apenas uma opinião. Abaixo, mais fotos dessas belas peças de 47mm Armstrong Whitworth, do início do século XX.

Passadiço – Já que estamos novamente no nível do passadiço, vamos conhecê-lo por dentro. Logo na entrada destacam-se os consoles de controle dos dois motores Cummins Wärtsilä (mostraremos as praças de máquinas mais à frente) e o tradicional timão, que faz par com um sistema moderno de governo eletro-hidráulico, controlado por joystick. Telas de radar, equipamentos de auxílio à navegação, além da mesa de mapas e paineis do sistema de controle de avarias completam o pequeno compartimento. Pelo passadiço é acessada a estação rádio na qual, como é praxe em navios da Marinha, não é permitido fotografar.

Convoo – Saindo do passadiço e seguindo pelo mesmo nível em direção da popa e passando pela chaminé e pelos canhões de 40mm, dos quais já falamos, chegamos ao convés de voo. O navio não é dotado de hangar, mas possui um convoo de área adequada a helicópteros leves do porte do Esquilo (HU-12). Pode-se ver na foto abaixo, à esquerda, os equipamentos de sinalização para auxílio aos pousos das aeronaves. Os limites do convoo, no sentido longitudinal, são a popa do navio e os recessos para as duas lanchas do Parnaíba.

Nível do convés principal – descendo novamente a escada que dá acesso ao passadiço, voltamos ao nível do convés principal, de onde são acessados os diversos compartimentos do Parnaíba, tanto nesse nível quanto abaixo dele.

Um dos dois alojamentos de suboficiais e sargentos do monitor Parnaíba – foto Nunão

A maioria dos compartimentos da chamada casaria do Parnaíba, é dedicada a acomodações, refeitórios / áreas de recreação do pessoal, ou seja, à habitabilidade, sendo dotadas de ar-condicionado para enfrentar o forte calor que caracteriza a região. Começando abaixo do passadiço e seguindo na direção da popa do navio, passamos primeiro pelo refeitório de suboficiais (SO) e sargentos (SG). Este refeitório é seguido de alojamento de SO e SG, a boreste (BE), o qual é ladeado pela enfermaria, a bombordo (BB), seguido por mais um alojamento de SO e SG e seus banheiros (a BE) e dos banheiros de cabos (CB) e marinheiros (MN), a BB.

Continuando em direção à popa, passamos pelos acessos às duas praças de máquinas, cujas alturas incluem o nível da casaria devido às tubulações e outros equipamentos (mas que falaremos a seguir pois a rigor estão no nível do convés inferior).

Logo atrás das praças de máquinas, a BE, está a cozinha, seguida da praça d’armas, também a BE (compartimento de refeição e recreação dos oficiais, que no Parnaíba tradicionalmente convidam o comandante a fazer as refeições com eles) e pelo camarote do comandante, que tem seu próprio banheiro. Estes compartimentos são ladeados, a BB, pelo camarote do imediato, seguido pelo camarote dos oficiais, com seus banheiros. Por fim, fechando a casaria já na altura da popa, está o refeitório e área de recreação de cabos e marinheiros. As duas primeiras imagens abaixo mostram dois ângulos da pequena praça d’armas, que foi restaurada em seu acabamento em madeira para o padrão da época de incorporação do navio. O compartimento é visto, nas imagens, preparado para o almoço, ao qual fomos convidados durante todos os dias em que realizamos nossa pesquisa no navio.  As imagens seguintes mostram, à esquerda, o alojamento (camarote) dos oficiais e, à direita, o refeitório de cabos e marinheiros.

Nível do convés inferior – como se trata de um navio de baixo calado (1,5m) e por razões de compartimentação e estanqueidade, todos os compartimentos abaixo do convés principal só são acessíveis por cima, a partir do nível do convés (ou seja, não se comunicam entre si). Alguns deles têm acesso por dentro de compartimentos imediatamente superiores, como é o caso do que abriga a maquinaria do leme, situado logo abaixo do refeitório de cabos e marinheiros. Na última imagem acima à direita, pode-se ver no piso uma escotilha em cor preta. Abrindo-a, chegamos ao estreito compartimento da máquina do leme (imagem abaixo) onde se pode ver os elementos estruturais que conformam a elegante curvatura da popa do navio, assim como as chapas rebitadas. O casco do Parnaíba foi construído com a técnica da rebitagem, como vimos em matérias anteriores, sendo considerado um navio de construção extremamente robusta (embora essa técnica agregue mais peso a todo o conjunto).

Para seguir para outros compartimentos nesse nível, temos que subir novamente ao convés. Caminhando agora de popa para a proa por bombordo (BB), passamos pela escotilha de acesso a um pequeno alojamento de cabos e marinheiros, que inicialmente abrigava um paiol de mantimentos e foi transformado ainda antes da modernização de 1997 numa coberta extra de cabos e marinheiros, visando desafogar a lotação da principal, situada à proa (da qual falaremos mais à frente). Mas, em geral, esse compartimento abriga o pessoal do destacamento aéreo embarcado, quando o navio opera com helicóptero. Ao lado desse compartimento, fica o tanque de combustível para helicóptero.

Mais à frente, no sentido da proa, depósitos (tanques) separam esses compartimentos, no convés inferior, da praça de máquinas de ré, nossa próxima parada. Continuando a caminhada pelo convés a BB, chegamos ao acesso a essa praça, chamada de Bravo 2, que abriga os motores de propulsão (MCP), dois Cummins Wärtsilä CW-6-170 de 925hp cada um, instalados na modernização de 1997 no lugar das máquinas a vapor de tríplice expansão Thornycroft originais. No foto abaixo à esquerda, tirada da escada de acesso à Bravo 2, vemos um desses motores, na limpa e organizada praça de máquinas de ré. Já a imagem da direita, tirada do centro do piso da praça no sentido da proa, mostra a escada de acesso a BB, pela qual descemos. Clique nas fotos para ampliar e se sentir dentro da Bravo 2 do Parnaíba.

As praças de máquinas são os compartimentos com maior altura do navio, devido a toda a necessidade de tubulações de admissão e exaustão, instalação de linhas de abastecimento e equipamentos auxiliares diversos (em outros navios de guerra também costumam ser os maiores e mais altos compartimentos pelo mesmo motivo). Num navio cujo calado é de apenas 1,5m, como o Parnaíba, parte desse espaço das praças de máquinas “invade” a casaria do convés. Isso fica claro ao ver a foto acima à esquerda: do outro lado da “parede” onde está um relógio fica a cozinha do navio, já no nível do convés principal.

As duas praças de máquinas estão no interior de uma “cidadela” blindada que protege as partes vitais do navio, com proteção vertical (cinturão) de aço de 3 polegadas (76mm) de “non cemented steel”) na linha d’água e horizontal (convés) de 1,5 polegada (aço especial). Outras áreas vitais do restante do navio têm proteção variando de 1 a 1,5 polegada. Esse nível de proteção é semelhante ao da maioria dos cruzadores da Segunda Guerra Mundial. As praças de máquinas são bons lugares para apreciar alguns dos elementos estruturais do navio e partes da blindagem. A foto abaixo mostra um trecho da proteção horizontal de 1,5 polegada na altura do convés principal.

Para visitar a Bravo 1, temos que sair desta praça, voltar ao convés principal e contornar a superestrutura do passadiço para alcançar o acesso que fica a boreste (BE). A praça de máquinas de vante (Bravo 1) abriga os motores auxiliares (MCA) da marca MTU, que são acoplados a geradores elétricos para fornecimento da energia ao navio. Antes da modernização de 1997, a praça abrigava as caldeiras que queimavam óleo tipo bunker e abasteciam de vapor os motores de tríplice expansão da Bravo 2. A imagem da esquerda, abaixo, mostra a Bravo 1 vista no sentido da proa a partir da escada de acesso a BE. Podem ser vistos um dos motores e um dos geradores, assim como os armários dos controles elétricos ao fundo, fotografados mais de perto na imagem da direita, tirada já de dentro da praça. Na terceira imagem, abaixo, vemos os dois MCAs.

Saindo da Bravo 1, nossa caminhada continua pelo convés principal em direção à proa, e passa por cima de outros depósitos (tanques) separados da praça de máquinas de vante por anteparas que formam o chamado “cofferdan” (espaço estreito  que serve para evitar vazamentos de líquidos ou contaminações entre dois compartimentos).

Outros cofferdans fazem a separação para os paióis de munição de 76mm, 40mm e 20mm e de armas leves, mais à frente, além da escoteria (onde se guarda as armas portáteis), compartimentos onde não foi permitida a visita. A blindagem original do navio também protege essas áreas.

Um pouco à frente dos paióis de munição, estão situadas as câmaras frigoríficas do navio e a praça das máquinas frigoríficas, que pudemos visitar. Mas a foto que selecionamos para mostrar essa parte abaixo do convés de proa do navio é do maior alojamento do Parnaíba: a coberta de cabos e marinheiros, repleta de beliches e armários, e cujo formato pode ser percebido pela imagem, tomada do interior da coberta a Bombordo, mostrando claramente o estreitamento do navio em direção à proa. O acesso se dá por uma escotilha centralizada, bem à vante da plataforma do canhão.

Os últimos compartimentos no sentido da proa, bem menores, são o paiol de amarras e o paiol do mestre.

Navegando e abarrancando – Após conhecer o Parnaíba por dentro, finalize essa visita ao navio com um embarque numa saída tipo realizada junto a várias gerações de veteranos da tripulação, dos quais ouvimos muitas boas histórias de seus tempos de serviço no navio, e que vão além dos exercícios de tiro, das missões junto a marinhas amigas, operações reais, patrulhas e inspeções. Caso dos mascotes do navio nas décadas de 1970-80, o cão “Ringo”, que chegou a ter uniforme para desfilar em paradas e do macaco “Quinca”, que após despencar de uma árvore para dentro do navio, quando este navegava num canal estreito durante viagem a Cáceres, por lá ficou. Para dentro também despencaram às vezes alguns peixes, entrando pelas vigias da coberta de cabos e marinheiros, mas ao invés de se tornarem bichos de estimação, seguiram para a cozinha.

Lembranças que também incluem épocas em que Ladário, no verão escaldante daquela região do Pantanal (presenciamos temperaturas bem acima de 40ºC quando lá estivemos em novembro de 2012), era uma localidade ainda mais propensa a receber nuvens de insetos, quando então o embarque no navio para missões mais distantes era considerado um alívio, mesmo que os revezamentos de marinheiros para monitorar as antigas caldeiras fossem ainda mais sacrificantes. Já no inverno, quando ocorriam missões rumo à Argentina e até mesmo gelo acumulava na proa, esse serviço na quente praça de caldeiras era bem menos desagradável.

Veja as fotos acima e abaixo e imagine-se navegando pelo Rio Paraguai, a favor e contra a corrente, enquanto o Parnaíba acelera a 12 nós, com os motores roncando forte, tendo também como fundo sonoro essas e outras histórias como as que ouvimos desses veteranos (algumas impublicáveis como muitas nas vidas dos marinheiros).

Acompanhe toda a faina dos novos tripulantes para abarrancar o navio e depois de atracar de volta à base, quando o navio mostra suas boas características de governo. E deseje, como nós, uma vida longa ao Parnaíba, tanto operacional nas próximas décadas de serviço quanto após o momento de dar baixa, quando merecidamente poderá servir como monumento a grandes histórias fluviais e navais.

Parnaíba na base fluvial de Ladário, atracado a contrabordo do Paraguassu, encoberto pelo monitor – foto Nunão

Agradecimentos

Para a viabilização da pesquisa de todas as informações que culminaram no livro de 75 anos do monitor Parnaíba, pela matéria da revista Forças de Defesa nº 8 e para esta série comemorativa dos 80 anos da incorporação do navio, contamos com o apoio de várias pessoas. Assim, agradecemos ao contra-almirante Rodolfo Frederico Dibo, comandante do 6º Distrito Naval quando de nossa visita, pela acolhida. À tenente Mariana Conte, da Comunicação Social do 6º Distrito Naval, ao comandante do Parnaíba, capitão de corveta Marcelo Nascimento Ribeiro da Silva e ao imediato, capitão-tenente André Luiz Vilela de Assis, pelo sempre pronto atendimento às solicitações, e um especial agradecimento ao chefe de operações do navio, capitão-tenente Luiz Alfredo Zenon da Mata Caffé, pela extensa pesquisa prévia e organização do acervo do navio, além de toda a tripulação do navio pela sempre pronta ajuda às nossas demandas durante a pesquisa e o embarque no navio, em 2012. Agradecemos também aos servidores civis Marcia Prestes Taft, José Antônio Araújo Alves e ao primeiro-sargento (AM) Francisco Carlos de Oliveira Santos, todos da DPHDM (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha), no Rio de Janeiro, por toda a assistência à pesquisa nos arquivos fotográficos e documentos escritos.

Para esta matéria, foram pesquisados documentos primários como os relatórios do Ministério da Marinha escritos entre 1880 e 1959, na íntegra, além de imagens e documentos diversos arquivados na DPHDM, além do acervo fotográfico e documental (como os diversos volumes do livro do navio) arquivado no monitor Parnaíba e na Base Fluvial de Ladário.

Como referências bibliográficas mais importantes, recomendamos a leitura dos livros “Memórias de um engenheiro naval”, de Júlio Regis Bittencourt (SDM, 2005), “A construção naval militar brasileira no século XX”, de Eduardo Câmara (edição do autor, 2011), assim como dos volumes quarto e quinto da “História Naval Brasileira”, obra editada pela Marinha do Brasil.

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34 COMMENTS

  1. Que belíssima matéria!!!!!!! Belíssimo monitor, ahhhhh, e que belas e estupendas fotos, maravilhoso!!!!!!! Passarei horas me deliciando, aprendendo e curtindo, muito obrigado por postar pra gente!!!!!!

  2. BZ a todos do Naval e principalmente ao Nunão pela iniciativa.
    Excelente serie !

    Me resta uma dúvida apenas, qual seria um canhão atual possível para a atualização do 76mm ? Imagino que peso e tamanho contem bastante.

  3. Bela matéria mesmo, parabéns pena que geralmente ficam meio que restritas aos nichos de especialistas e admiradores. Deveriam fazer parte do noticiário em geral e das salas de aulas.

    E para o canhão de 76mm, em outros debates foi o Ivan Ivanovich, que colocou esse link sobre canhoeiras fluviais russas que utilizam a torre e canhão de 100mm de carros blindados, e creio que uma adaptação assim poderia ser feita com uma torre do Cascavel 90mm utilizando algum veículo que tenha sido desativado e caso seja útilm com parte das modernizações feitas recentemente o que proporcionaria aumento do poder de fogo e proteção balística
    http://sistemasdearmas.com.br/nav/flurusrom.html

  4. Calor mesmo! Belo navio! Esse eh o nosso Encouracado “de bolso”, boa protecao AA com os 40mmL70, eu tentaria aumentar o angilo de disparo deles para a proa tirando aquele 47mm e colocando guarda corpo removovel la.
    Eu o armaria ainda mais! Imagino um toque de modernidade uma .50 Remax com visao noturna, pronto emprego, operda do passadico e acima do passadico. Para canhao proncipal por que nao importar uma torreta de nosso novo obuseiro de 155mm do Exercito, deve caber vem pronta e coloca municao pesada a mais de 30km! Existem varias oitras torretas de CC, mais baratad, que poderiam ser usadas com sucesso! Esse casco aguenta muito!!!!

  5. Fiquei encantado com o misto de poder e tradição desta belonave.
    .
    Os canhões 20mm Oerlikon são assim, um encanto, remontam à artilharia AA tentando abater kamikazes, mas seu reparo completo pesa o mesmo que o reparo de 40mm, um reparo duplo de .50 seria mais leve.
    .
    O casco de cruzador é uma vantagem em uma belonave que pode ser atingida das margens do rio por peças de artilharia e carros de combate.
    .
    Mais eletrônica e sensores, FLIR no heli, capacidade de operar um heli maior, uns Igla e pronto. Vai até 2050.
    .
    Teria que se achar o projeto original, se debruçar sobre este para se planejar uma classe de sucessores para a bacia do Paraná e a do Amazonas.

    • “Os canhões 20mm Oerlikon são assim, um encanto, remontam à artilharia AA tentando abater kamikazes, mas seu reparo completo pesa o mesmo que o reparo de 40mm, um reparo duplo de .50 seria mais leve.”

      Delfim, peço desculpas, tinha uma rebarba de texto do reparo de 40mm nas características da metralhadora de 20mm que levou a esse entendimento errado de sua parte. Já apaguei. Não tenho o peso do reparo completo da metralhadora de 20mm aqui agora pra colocar, mas é muito mais leve do que estava marcado erradamente…
      Mais tarde consultarei nos meus arquivos da época e coloco.

    • AlexII, a resposta está no texto da primeira matéria da série, mas adianto aqui:

      Monitores são navios encouraçados de pequena borda livre para minimizar a área blindada e maximizar a espessura dessa blindagem em relação ao porte (e por isso costumam ter boca bem larga em relação ao comprimento). São quase sempre dotados de armamento bem pesado em relação ao seu deslocamento, geralmente em torre. A “fórmula” dos monitores foi inaugurada por um navio da União na Guerra de Secessão Americana, chamado “Monitor”, que ficou tão famoso que navios subsequentes que seguiram esse estilo passaram a ser chamados de monitores.

      Recomendo ler as partes anteriores da série, que você vai entender ainda melhor.

      Aproveitando: Delfim, coloquei agora o dado certo para o peso do reparo completo de metralhadora de 20mm, tirado de informações detalhadas que tenho de armas similares instaladas, na época da IIGM, em contratorpedeiros.

  6. As fotos internas do Parnaíba são fantásticas! O timão em madeira dá um ar vintage à embarcação. Que o Parnaíba tenha muitos anos de trabalho pela frente e que viva para a eternidade preservado como um museu.

  7. Uau! Incrível! Parabens à MB por manter essa belonave na ativa. Torço que se mantenha por mais 80 anos! Parabéns também ao pessoal da trilogia. O material que vocês produzem está entre os melhores dos melhores!
    A ideia da torre do Cascavel com um canhão de 90mm parece interessante, mas um canhão de 105 mm com munição guiada por gps traria um envelope inédito para esse navio. Seria possível ou viável?

  8. Poxa vida hein, como o navio está bem cuidado. Olhando as fotos do bichão por dentro e tal ele até parece novo,rs. Acredito que pra função que se tem sido empregado ele da pro gasto com folga. Excelente matéria ,como sempre.

  9. Parabéns pelas magnificas fotografias e descrição destas.

    Me fez lembrar de minha visita ao NPaFlu Pedro Teixeira – P 20 do Comando do 9º Distrito Naval, bem mais novo do que o Monitor Parnaíba.

    Grato

    • Jonas Rafael,

      Eu acho que sim, mas a cirurgia teria que ser considerável. O carregador poderia tomar o lugar de parte do próprio paiol de munição, que fica abaixo. A plataforma do canhão também é elevada em relação ao convés, então parte do carregador poderia estar para cima do convés, fechado por chapa, elevando um pouco mais ainda a torreta. Não vejo muitos problemas técnicos quanto a isso, talvez só o custo, necessidade de maior geração de energia para uma torreta elétrica e por aí vai.

      Minha sugestão de arma para instalar no lugar do canhão de 76mm é um morteiro de 120mm. Um exemplo naval é da Patria (empresa finlandesa), compacto o suficiente para navios de porte bem menor que o Parnaíba. Acho que a parte inferior do carregador nem precisaria penetrar o convés. A plataforma circular atual para a guarnição poderia ser retirada, dando lugar a uma plataforma para abrigar o carregador e abrigo da tripulação e, sobre ele, a torreta que é bem compacta.

      Seguem imagens e informações da versão naval do morteiro de 120mm da Patria, que, segundo o fabricante, além do tiro indireto também é capaz de tiro direto, para engajar outros navios. Até 10km de alcance e 10 tiros por minuto, e inclui modo de lançamento em que até 5 granadas podem atingir um mesmo objetivo simultaneamente.

      https://www.patria.fi/en/products-and-services/mortar-systems/patria-nemo-navy

      http://www.naval.com.br/blog/wp-content/uploads/2014/05/Morteiro-Nemo-em-embarca%C3%A7%C3%A3o-leve-foto-Patria.jpg

      http://www.naval.com.br/blog/wp-content/uploads/2014/05/Morteiro-Nemo-em-embarca%C3%A7%C3%A3o-foto-Patria-580×348.jpg

      Mas, pra simplificar ainda mais a instalação, a Patria lançou recentemente uma versão já completa em contêiner de 20 pés (cerca de seis metros), capaz de abrigar tudo dentro: guarnição, munição, geração de energia, ar-condicionado, sistema de absorção do recuo e até blindagem opcional, com a torreta em cima. Segundo a empresa, pode ser colocado em navios pequenos.

      https://www.patria.fi/en/products-and-services/mortar-systems/patria-nemo-container

      Retirando a plataforma circular do canhão do Parnaíba e realocando os armários de itens de pronto uso que ficam à vante do passadiço, acho que daria para instalar esse contêiner completo no lugar, e nem precisaria mudar a posição da entrada da coberta de cabos e marinheiros da proa. Basicamente, é aparafusar no convés, pintar de cinza e pronto… A empresa não informa o peso do conjunto, mas notícia do Jane’s, abaixo, diz que são 10 toneladas (vazio, o que entendo ser sem a guarnição e a munição). A notícia inclui uma concepção artística de uma lancha de desembarque com o contêiner. Acho que está na medida do Parnaíba pois, antes do atual reparo de 76mm que tem peso entre 3 e 4 toneladas, havia um reparo de 120mm com peso total de 8 toneladas. E, antes deste, um de 152mm que devia pesar bem mais que 12 toneladas.

      http://www.janes.com/article/68015/idex-2017-patria-launches-nemo-container-to-growing-interest-in-europe-asia

        • MO, ele é conteirável. Dá uma olhada nesse vídeo:

          https://www.youtube.com/watch?v=bNZYuk2dT1Y&feature=youtu.be&list=PLkwS97xlAd4X9_YYadoIPiPVFSAq2jNyI

          Nesse outro, apesar de não estar num contêiner, está numa lancha de pequeno porte, e um dos disparos mostra a capacidade de tiro direto:

          https://www.youtube.com/watch?v=3LfWKfCaIiM

          Deve custar uma baba, mas…

          Fico pensando na possibilidade de uns três desses contêineres completos na Flotilha de Mato Grosso, um instalado no Parnaíba e outros dois disponíveis para instalar em EDVMs novas, que poderiam até ser adaptações (com passadiço blindado e proteção também nas amuradas) das cinco que foram recentemente construídas no AMRJ (Caieiras, Cagarras, Cataguases, Comandatuba e Cotunduba):

          http://www.naval.com.br/blog/2013/12/09/mais-uma-edvm-para-a-marinha/

          Elas têm 21,8m de comprimento, 6,4 de boca e calado carregado de apenas 1,4m, com capacidade para 72t de carga (ou 32t + 80 soldados). Se vacilar dá pra levar um conteiner desses e umas quatro dúzias de fuzileiros ao mesmo tempo, com o conteiner mais recuado e a parte frontal com uma antepara e cobertura pra dar mais conforto e isolamento dos fuzileiros em relação à area do conteiner.

          Ou até mesmo uma classe de EDVM menor, capaz de levar só o conteiner ou soldados.

          • Hummmmmmm Fernadinho, vc diz uma versão morteiristicada das LSM da IIGM, interessante e pratico desde que as EDVM´s tivessem a escolta de um monitor, pois canso que caso contrario seriam alvos faceis

          • MO, acho que dá pra escoltá-las com barcos pequenos e mais rápidos, com metralhadoras, “limpando” o caminho mais próximo às margens. Podem ser até mais algumas LPR-40 como as que foram compradas para a Amazônia ou lanchas semelhantes. Enquanto isso a EDVM dotada de um contêiner de morteiro de 120mm, que tem alcance de 10km, por ser um alvo de maior valor nesse caso permanece um pouco mais afastada da área mais quente, dando apoio de fogo (complementando ou substituindo o Monitor caso ele esteja indisponível) enquanto outras EDVM só com fuzileiros realizam o desembarque.

            Mas o que eu gosto mesmo é da ideia de colocar esse conteiner no convés de proa do Parnaíba. Solução mais simples, que não depende de cortar nada do convés (só a plataforma circular do canhão, além do próprio e dos armários atrás dela, e de realocar as unidades externas dos ar-condicionados da coberta, talvez um ou outro item menor). E que também não deve depender de muita coisa além de uma linha de combustível pra abastecer o gerador dentro do contêiner, que funciona de forma autônoma, e cabeamento para comunicação do passadiço com a guarnição. Tem que instalar os fixadores pra aparafusar o conteiner no convés, mas até aí acho que nada demais. Vai ficar feio que dói, mas pintando de cinza dá uma disfarçada e, pra um navio que já tem bastante puxadinho, um a mais não seria problema…

          • Fernadinho Tadin do Parnaiba, um dos charmes dele é a peça de 3´dele, mas quanto as EDVM´s, acgo que se a força oponente for maqis forte do que se imagina sei ao se uma escolta destas seja eficiente, mas independente, a ideia é boa como uma opção a mais em poder de fogo em ops ribeirinhas

  10. Concordo com o charme, MO, mas daqui a pouco é o canhão que estará fazendo 80 anos, e acho que está na hora de pensar numa arma substituta, se a ideia é que o Parnaíba continue válido por mais algumas décadas.

  11. O EB opera obuseiros de 155mm cujas torretas ficariam excelentes no lugar do 76mm! Uma municao pesada com alcance acima de 30km, mantendo o navio fora do alcance de contra bateria ate do Light Gun 105mm o melhor transportavel/ rebocavel que ha!

    • Obrigado Cassiofrc.
      Eu comentei mais acima que, na minha opinião, um morteiro moderno de 120mm conteirável e automático, como o fabricado pela empresa finlandesa Patria, poderia ser uma boa opção.

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