Home História Impressionado com Itaguaí? Não é de hoje que a Marinha busca uma...

Impressionado com Itaguaí? Não é de hoje que a Marinha busca uma base na região

13810
35

Artigo acadêmico do colaborador do Poder Naval, Fernando “Nunão” De Martini, fala sobre as iniciativas de parte da Marinha, no início do século XX, em instalar um novo arsenal e estaleiro na região da Baía da Ilha Grande, não muito longe da atual base e estaleiro de submarinos em construção em Itaguaí

Foi publicada a nova edição (número 26) da revista Navigator da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), voltada à publicação de artigos acadêmicos de elevada qualidade e rigor científico, e nela está mais um artigo do colaborador do Poder Naval, Fernando Ribas De Martini (também conhecido pelo apelido “Nunão”). O autor é mestre em História pela Universidade de São Paulo e atualmente realiza, pela mesma instituição, pesquisa de doutorado sobre a construção naval militar brasileira entre os anos de 1930, 40 e 50. Já o artigo aborda um período imediatamente anterior ao da pesquisa de doutorado, focando nas primeiras décadas do século XX.

Com o título Da Grande Guerra à Ilha Grande: a derradeira tentativa, no pós-guerra, de levar o Novo Arsenal de Marinha para fora da Guanabara, o artigo publicado na Navigator aborda uma questão importante da primeira década do século XX, quando o Brasil renovou sua Esquadra com modernos navios de guerra: a falta de estrutura adequada para o apoio.

O fato é que, apesar de renovar seu poder naval com a chamada “Esquadra de 1910”, com 14 navios de guerra de último tipo (dois encouraçados, dois cruzadores e dez contratorpedeiros), o governo e a Marinha falharam em colocar no mesmo patamar de modernidade, simultaneamente, as oficinas e diques para apoiar essa frota. Na época, as então precárias instalações do antigo Arsenal de Marinha tanto se espremiam na região central do Rio de Janeiro quanto se dispersavam caoticamente pela Baía de Guanabara.

O encouraçado Minas Geraes, da Esquadra de 1910, que fazia parte de um ambicioso plano de reaparelhamento naval iniciado pelo ministro da Marinha almirante Júlio César de Noronha, em 1904, e que incluiria um novo arsenal e base na região da Baía de Ilha Grande. Quando concretizado na gestão do almirante Alexandrino Faria de Alencar, com a encomenda dos navios em 1906, o plano de reaparelhamento já não incluía mais a proposta de um novo estaleiro, a ser construído pela empresa vencedora da concorrência dos navios.

O artigo mostra que a Marinha então se dividia entre os defensores da construção de novas instalações na Ilha das Cobras, vizinha às principais oficinas do antigo arsenal, mantendo a Esquadra na Baía de Guanabara, e os que advogavam uma grandiosa estrutura industrial e militar a ser construída mais longe da então Capital Federal: o complexo seria instalado nas enseadas da Ribeira ou de Jacuacanga, região da Baía da Ilha Grande. Locais não muito distantes de onde, hoje, se constrói o grande complexo de estaleiro e base de submarinos de Itaguaí, dentro do programa denominado PROSUB.

O texto trata da disputa entre essas correntes, das decisões, ações e reações de cada lado, antes, durante e após a Primeira Guerra Mundial, conflito para o qual foi mobilizada parte da Esquadra de 1910, já em condições difíceis devido à precariedade de sua manutenção. Em especial, o texto analisa a última tentativa dos defensores da Baía da Ilha Grande, no pós-guerra, que chegaram perto de conseguir seus objetivos antes de malograrem ao final de 1922. A ideia era construir uma “Kiel da América do Sul”, para servir não só de base e estaleiro de reparos da Esquadra, mas para formar um grande complexo siderúrgico e construtor de navios.

Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras (AMIC) ainda em construção em meados da década de 1930, com as carreiras e as principais oficinas ainda por concluir Ao fundo, vê-se parte da área central da cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal. Com a derrota da iniciativa de construir um arsenal, base e complexo industrial na região da Baía da Ilha Grande, a partir de 1922 o foco foi concentrado nas obras do AMIC, atual AMRJ, na Baía de Guanabara – foto DPHDM

Clique aqui para abrir a página de acesso ao artigo (disponibilizado em pdf). E clique aqui para ter acesso a todos os demais artigos publicados no número 26 da revista Navigator.

Para ver matéria anterior do Poder Naval sobre outros artigos acadêmicos publicados pelo autor (e acessá-los), clique aqui.

35 COMMENTS

  1. Muito maneiro a materia,so uma duvida,o texto menciona a ideia de construcao de um grande estaleiro na baia de jacuecanga,hoje em dia existe o estaleiro e a marina verome exatamente nesse local(um dos maiores complexos navais do hemisferio sul do globo). Sera que isso foi feito de forma proposital por influencia desse estudo de 1910 ?

  2. Deveriam mandar tudo pra Baia Grande não faz sentido manter a estrutura da ilha das Cobras. Aproveita e leva a parte administrativa da marinha tb.

  3. A saber, Itaguaí faz parte da área abrangida pela Delegacia de Homicídios da Baixada, onde estou lotado.
    Tem uma criminalidade chata por lá.
    Seria interessante ver se com os investimentos e prosperidade a criminalidade local baixaria.

  4. Sim, com perda grande do pessoal da comissão encarregada do relatório sobre o local. Morreu também o último grande projetista / engenheiro naval do Arsenal na fase final do Império e início da República, Cândido Brasil.

  5. A impressão que dá é que o Brasil desde seus primordios de alguma forma foi sempre “podado” em seus intentos de se fazer “grande”. Digo isso como ação do sobrenatural. Porque não é possivel…

    Agora, tem uma! Coloquei a palavra “podado(do verbo podar)…” Faça seu dever de casa e procure saber o que significa “podar” no reino vegetal.

    Será…? Deus queira que sim!!!

  6. Parabéns, Nunão. Trabalho de gente grande, de pessoa desenvolvida!

    Interessante, também, a análise das aquisições dos meios navais do início do século passado com as aquisições da Armada argentina.

  7. Uma matéria histórica para terminar o ano em alto estilo. O bonito e poderoso encouraçado Minas Gerais, irmão do São Paulo, e ambos participantes da revolta da chibata. O Arsenal certamente vai sair do centro do Rio para um lugar mais adequado. Aproveito para desejar a todos ” Um Feliz Natal e Próspero Ano Novo”, Fazendo votos que não faltem recursos para nossas forças armadas.

  8. O problema é que não apenas a base de Itaguaí como o PROSUB estão na mira da força tarefa da Lavajato e também do Parquet francês.

  9. Falem o que quiser, mas investir nessa infraestrutura foi um baita acerto da MB. Isso aí vai ser útil por décadas e mais décadas que virão.

  10. Bardini, tem razão. Essa base deve fazer inveja em todos os nossos vizinhos. Aliás, quantos países têm capacidade de construir submarinos?

  11. Mário Heredia, a questão não é fazer inveja, vejo isso como coisa de demagogo. O importante é que vamos ter uma excelente infraestrutura para dar um bom suporte a Força de Submarinos e ao desenvolvimento de conhecimentos neste importantíssimo ramo.

  12. Meu comentário não tinha intenções demagógicas, Bardini. Apenas enaltecer a conquista que nosso país alcança ao construir algo tão importante.
    De certo que qualquer marinha vizinha se sentiria orgulhosa em dispor de um estaleiro como o de Itaguaí, mas poucos dispõe de recursos para tal.
    Venho de uma família de militares e sempre fico feliz com cada vitória alcançada por nossas forças. Espero que nos próximos anos alcancemos muitas outras.

  13. Prezado Nunão,

    Ouvi do meu padrasto, que serviu mum caça-pau durante a segunda guerra mundial, que era comum taifeiros africanos, dos países de língua portuguesa (na época, colônias), a bordo dos navios de guerra da
    MB. Acho até que falei isso aqui há alguns anos. Você, nas suas pesquisas, já leu algo sobre isso?
    Abs

  14. Boa noite, Guppy, não vi e não faz parte do meu foco de pesquisa, mas achei bem interessante. Ficarei atento a isso nas minhas visitas a arquivos.

  15. Grande Nunão: belissimo trabalho! Parabens!
    Uma curiosidade: ja existem projetos avançados referentes a um nova base destinada aos elementos do ProSup ?
    Outro ponto que entendo que seja controverso consiste em agregar um estaleiro ao um porto de operaçao. Mesmo havendo sinergias interessantes, considero mais eficiente separar tais atividades em diretorias distintas e locais fisicos independentes. Fabricar um vaso de guerra é totalmente diferente a reformar/reparar/modernizar vasos mais antigos deteriorados. Qual é a sua opiniāo a respeito?

    • Rommelqe, bom dia. Agradeço os elogios (aliás, aproveito para agradecer aos demais leitores).

      Quanto à principal base atual da Força de Superfície, a BNRJ em Mocanguê (Niterói), não vejo necessidade de mudar de lá. Ela foi construída na virada das décadas de 1970-80, tem bons atracadouros, dique, oficinas para as manutenções de rotina etc. No máximo, creio que será preciso investir em alguns equipamentos mais modernos para esses tipos de manutenções intermediárias de futuros navios mais modernos, que sejam incorporados. Há planos para uma nova base no Maranhão, para iniciar atividades apoiando desdobramentos mais longos da Esquadra na parte norte da costa brasileira, e posteriormente (quando houver novos navios em quantidade adequada) abrigar uma segunda esquadra. Mas será uma base a se somar à BNRJ, não para substituí-la.

      Já saindo do apoio aos navios em operação e indo para as manutenções mais complexas que duram anos, os PMGs (equivalentes ao IRAN de aeronaves, grosso modo) há o AMRJ, que precisa ser igualmente modernizado para isso, pensando no apoio a novos navios que eventualmente não seja feito pelos próprios estaleiros privados construtores. Para ajudar nesse processo de modernização do AMRJ (se for decidido fazê-lo) haverá disponibilidade, provavelmente, da atual oficina de submarinos do AMRJ, daqui a uns dois anos quem sabe, quando suas tarefas forem absorvidas pelo novo complexo de Itaguaí, e essa oficina poderá ser adaptada para apoiar a construção e o reparo de navios de superfície.

      Ambas as instalações (BNRJ e AMRJ) são ativos em que muitos investimentos foram feitos, e pelo que já pude ver, os valores para modernizações gradativas dos mesmos não são proibitivos. São muito mais baixos do que a construção de novas instalações para reparar e construir navios de superfície (falando especificamente de instalações da MB, pois há os estaleiros privados, e historicamente a MB prefere que estes se engajem na construção de navios, pois não é atribuição primária da MB construí-los, embora seja necessária devido aos altos e baixos dos estaleiros privados).

      Sobre construir e realizar manutenções mais pesadas num mesmo complexo, também não vejo problemas, seja ele o AMRJ ou um estaleiro privado que, depois da construção e entrega, receba contratos de manutenção ao longo do ciclo de vida – sejam eles realizados em suas próprias instalações ou por equipes do estaleiro trabalhando nas oficinas do AMRJ. São conhecimentos e práticas que vejo mais vantagens em serem compartilhadas por equipes, mesmo porque na construção de navios de guerra há períodos de pico e de baixa, e o pessoal precisa se manter trabalhando em modernização e manutenções quando nos períodos de baixa nas encomendas de navios novos.

  16. Prezado Nunao,

    Parabéns pelo trabalho. São poucos que gostam de fazer essas pesquisas para resgatar a história naval brasileira.

    Interessante o debate proposto pelo Rommelque.

    Inicialmente esclareço que não há qualquer programa que vise construir uma nova base para operar os navios que advirão do PROSUPER. Quando estes meios, assim como as CCT, ficarão baseados na BNRJ.

    A BNRJ tem capacidade de expansão, caso seja necessário. O que não vejo em um horizonte de 20 anos.

    Uma possível base no Maranhão, com uma segunda Esquadra, é desejável. Porém, antes de se pensar em uma segunda Esquadra é necessário ter a primeira. Entendo que essa Esquadra do norte pode esperar. Concentrando meios principais em um só local, com a possibilidade de deslocamento para qualquer parte, como vem fazendo a FAB, é uma solução de racionalização de custos.

    Quanto ao AMRJ, precisará de modernização, tanto para capacita-lo a construir, quanto manutenir. O AMRJ é fundamental para a MB. Todas as vezes que se tenta implantar um programa de construção naval em estaleiros privados no Brasil, o AMRJ é que resolve a questão.

    Não vejo problema em colocar no mesmo local o estaleiro e a base naval, desde que haja espaço físico necessário e boa infraestrutura. Também não vejo problema em um estaleiro que construiu o navio, fazer sua manutenção. Esse estaleiro conhecerá bem o navio.

    Grande abraço

    • Grato pelas palavras, Luiz Monteiro.
      Espero que possamos em breve testemunhar uma nova fase de modernização das instalações e dos processos do AMRJ. Um Feliz 2018.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here