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Relatório diz que ‘mini-Aegis’ Type 054A não resolve o problema da Marinha Chinesa

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A Type 054A "Liu Zhou" esteve no Rio de Janeiro em 2013
A Type 054A “Liu Zhou” esteve no Rio de Janeiro em 2013 – Fotos: Alexandre Galante

 

Roberto Lopes

Editor de Opinião da Revista Forças de Defesa e

autor do livro “As Garras do Cisne”

Um relatório produzido por sete especialistas¹ do Centro de Política de Defesa e Segurança Internacional da Rand Corporation – a mais renomada instituição civil de altos estudos (“think tank”) dos Estados Unidos –, concluiu que todos os préstimos da festejada fragata média Tipo 054A da Marinha chinesa – conhecida nos círculos navais como uma “mini-Aegis” (referência aos navios dotados do sistema de combate americano Aegis) – não conseguem compensar as deficiências que, nessa sua última fase de expansão, a força de superfície da Esquadra chinesa vem exibindo.

O estudo, denominado “Da incompleta transformação militar da China: Avaliando as fraquezas do Exército Popular de Libertação” será apresentado, na próxima quarta-feira (18.02), em Washington, pela Comissão Econômica e de Segurança EUA-China.

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Segundo o Poder Naval pode apurar, o trabalho, entre outras assertivas, conclui: apesar de ser o resultado de um projeto elogiável – por sua capacidade de compactar inúmeros sensores e diferentes tipos de armamento numa plataforma de apenas 4.000 toneladas –, a 054A (codinome Otan: Jiangkai II) é um navio pequeno demais para transportar todos os mísseis de médio alcance HQ-16 que seriam recomendáveis a uma unidade incumbida de prover defesa de área.

De acordo com a mesma linha de raciocínio, a limitação na carga de mísseis deixa a fragata chinesa em situação de desvantagem, caso tenha que lidar com um ataque de saturação de mísseis anti-navio (supersônicos e hipersônicos).

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A Type 054A “Liu Zhou” durante Passex em 2013

 

Capacidade ASW – A fragata 054A permaneceu, até dez anos atrás, um bem guardado mistério para os estrategistas ocidentais.

Em 2006 já havia a certeza de que ela não constituía apenas uma evolução da classe 054, mas a primeira tentativa dos chineses de produzir um modelo de embarcação de combate distanciado da escola russa de projetos navais. E ainda com a adoção de design clean (não-anguloso), casco de inclinação acentuada, superestrutura de material composto com baixa assinatura radar e magnética, e outras características de furtividade  (stealth) – isso apesar de o seu casco ser, com ligeiras adaptações, o mesmo do programa 054.

Em outubro de 2013, uma força-tarefa chinesa, capitaneada pela fragata “Liu Zhou” (a 054A de numeral 573), realizou uma operação PASSEX defronte ao litoral fluminense (a 50 milhas da bôca da Baía da Guanabara), com uma flotilha da Marinha integrada pela fragata “Constituição”, pelo submarino “Timbira” e pelo navio-patrulha oceânico “Apa”.

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Entre 2006 e 2010 vigorou, na Marinha chinesa, o plano de produzir 14 unidades da 054A, planejamento esse alterado, hoje, para 23 unidades. Mas no Ocidente ninguém sabe, ao certo, que tipo de sobrevida os chefes navais chineses pretendem dar a esse modelo de navio.

O estudo da Rand Corporation assinala que a Esquadra chinesa reconhece seu preparo deficiente para a guerra anti-submarino – função que a 054A cumpre de forma apenas secundária –, o que pode levar a Força a, nos próximos anos, priorizar meios navais de superfície e aéreos para o combate a submarinos.

Um ano atrás, em um artigo intitulado China’s “Near Seas” Threat – Less than Meets the Eye?” (“Ameaça aos ‘Mares Próximos’ da China – Menos do que os Olhos podem encontrar?”) – disponível em http://www.e-ir.info/2014/02/05/chinas-near-seas-threat-less-than-meets-the-eye/ –, o analista de Defesa canadense David Mcdonough, da Universidade da Columbia Britânica, lançou o primeiro alerta.

De forma bem objetiva, ele primeiro destacou a firmeza demonstrada pelos almirantes chineses em constituir uma frota de navios-aeródromos, e depois escreveu que “a China pode fazer relativamente pouco para prevenir submarinos de outras nações entrando em seus mares próximos. A razão é simples. A capacidade da China para a guerra anti-submarina (ASW) é fraca, especialmente contra os submarinos nucleares altamente capacitados da América. Submarinos [de propulsão] diesel avançados do Japão também seriam alvos difíceis, devido ao seu silêncio e considerável resistência proporcionada pela tecnologia de propulsão independente do ar”.

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Treinamento – Outro ponto coincidente entre o estudo de Mcdonough e a pesquisa da Rand Corporation: a falta de experiência de oficiais e marujos chineses, devido ao seu reduzido intercâmbio com Marinhas estrangeiras.

“Outro fator que não deve ser ignorado é a falta de experiência operacional do Exército Popular de Libertação (PLA). Pouco se sabe realmente sobre como o PLA irá se comportar em um ambiente de combate”, adverte Mcdonough. “Parte dessa incerteza é tecnológica. Por exemplo, o PLA incorporou recursos avançados em muitos projetos militares novos, do revestimento stealth para aeronaves ao radar phased array e lançadores verticais em navios de guerra. Mas nós sabemos pouco sobre a qualidade dessas tecnologias ou as atuais capacidades oferecidas por estes novos designs. Menos ainda se sabe sobre o quão bem o PLA pode operar tais plataformas – embora o tempo de vôo de treinamento modesto atribuído aos pilotos e a limitada experiência da Marinha em submarinos torne difícil que sejamos otimistas”.

O relatório da Rand Corporation é igualmente sombrio.

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Ele diz que “o PLA enfrenta deficiências em matéria de estruturas de comando desatualizadas, qualidade de pessoal, profissionalismo e corrupção”. E insinua que esses problemas não estão perto de desaparecer:

“O sistema de pessoal militar da China continuará a ser atormentado por oficiais e soldados insuficientemente treinados e inexperientes nas áreas de combate moderno, que prejudicam a capacidade da Força de aplicar equipamentos e conceitos modernos de forma eficaz”.

¹ Michael Chase, Jeffrey Engstrom, Tai Ming Cheung, Kristen Gunness, Scott Harold, Susan Puska e Samuel Berkowitz.

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kfir
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kfir

Bem, a avaliação nos indica, que a China tem consciência de seus problemas, também tem consciência destes docs, há um esforço ENORME, do atual presidente chines, no combate a corrupção. China’s State-Owned Companies Sweat as ‘Graft-Busters’ Converge http://thediplomat.com/2015/02/chinas-state-owned-companies-sweat-as-graft-busters-converge/ Xi’s Anti-Corruption Campaign: Moving China’s ‘Cheese’ http://thediplomat.com/2015/02/xis-anti-corruption-campaign-moving-chinas-cheese/ Então, estão tentando resolver os problemas, mesmos os submarinos nucleares serem barulhentos… então penso, que melhoraram o navio, e em uso, os problemas começam a aparecer, o que cria a possibilidade de uma nova geração, de um produto melhor… Como técnico industrial e administrador, não vejo um problema de projeto, necessariamente um mal, mas a… Read more »

Delmo Almeida
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Delmo Almeida

Kfir, eu diria que vontade os chineses possuem, concorda???

Dalton
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Dalton

Os chineses já começaram a construir os DDGs
“52D” de 7500 toneladas e os “”55” deverão deslocar mais de 10000 toneladas.

Não à toa os EUA querem aumentar o tamanho de seus DDGs Arleigh Burkes para acomodar o novo radar AMDR
e que deverão começar a entrar em serviço dentro de
8 anos.

Rodrigues
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Rodrigues

Fora os “52C” que já possuem e com certeza são mais capazes do que as “54A”.

samuel r silva
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samuel r silva

Avaliação feita no texto parece um couco preconceituosa , eu vejo China melhorando a cada dia ainda não chegou perto EUA mais podemos dizer que no máximo em 10 anos eles serão 2 marinha mais poderosa do mundo, pudera nossa marinha possuir pelo menos 5 desses navios .

kfir
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kfir

Delmo Almeida Tem chineses, caçando empresários Br, no linkedin para fazer negócios…até parecem possuírem um banco de dados comum, em outros casos há pessoas que falam FLUENTEMENTE o pt, e rastreiam sites de empresas, e entram em contato oferecendo produtos. Até estrutura para contrabando prontas apresentam…coisa que só doido aceita… o risco não compensa de maneira nenhuma. Acho que estão dispostos, e com vontade…sobre a fragata, poderiam usar mais de uma para complementar a capacidade de defesa… um link talvez … ESPECULAÇÃO: acredito que a automação possa ser a real ameaça…pois vejo no futuro fabricas inteiras sem a necessidade de… Read more »

kfir
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kfir

samuel r silva

guerra psicológica…se alguém tiver algum livro sobre isso, eu compro!
humildemente aceito indicações de bibliografias.

Ferreras
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Ferreras

A China tem paciência e Escala, e como já disse o comentarista Ivan o nome do jogo deles é o “GO”.

O ponto acredito não é comparar os navios EUAXChina de hoje e sim com os de 10,20,30 anos comparado com os atuais verificando o ritmo de evolução de cada um.

Isso definirá o “vencedor”.

Luiz Monteiro
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Luiz Monteiro

Prezados,

Acredito que o relatório produzido pelo Centro de Política de Defesa e Segurança Internacional da Rand Corporation se equivocou ao comparar os contratorpedeiros da Classe Arleigh Burke (AEGIS/SPY) com as fragatas do tipo 054A

Na verdade, o sistema AEGIS/SPY deveria ser comparado ao dos contratorpedeiros do Tipo 052D “Luyang III”, que possui a última versão do Radar AESA “Type 348” .

Como dito pelo Dalton, estes navios possuem deslocamento carregado de 7.500 toneladas e possuem lançadores verticais com um total de 64 células.

Abraços

Delmo Almeida
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Delmo Almeida

Tava sentindo falta do LM!!

Alexandre
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Alexandre

O problema da corrupção é endêmico na China. E não se resolve, porque não há transparência de gestão na China. Aquilo lá e um país não-democrático, que tem, justamente por esta razão, baixa auto-crítica. A forma de combater, precária e insuficientemente, a corrupção por lá são os expurgos do partidão, a cada dez anos, ou um pouco mais. Mas isto não resolve. A melhor chance da China é conduzir um processo de abertura política gradativa e controlada. Mas isto não vai acontecer.

Jodreski
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Jodreski

Acredito que esperar que os navios chineses sejam melhores que os americanos é no mínimo injusto.
Há quantos anos os americanos vem desenvolvendo e aprimorando seus navios? Não existe mágica na construção de qualquer meio ou desenvolvimento de tecnologia militar, isso é o resultado de anos, décadas de pesquisa.
A China cresce e a passos largos, um dia quem sabe a força naval chinesa poderá ser tão grande e bem armada como a americana.
Por enquanto eles já dão uma bela dor de cabeça.
Que inveja!
Obs: Estou elogiando produtos chineses, nem eu acredito rsrsrsrs

Wellington Góes
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Wellington Góes

Comandante LM, gostaria, se possível, de sua opinião sobre às belonaves chinesas. Não sei se o Sr. já teve acesso direto a tais equipamentos, mesmo assim a sua impressão sobre o que ouviu de outros colegas seus poderia nos ser muito úteis.

Até mais!!! 😉

P.S: É uma satisfação poder me direcionar diretamente ao Sr. e espero conversar mais por aqui e/ou outros espaços.

Bosco
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Bosco

Daltão,
Mas e aí, o DDG-51 vai poder acomodar a “antena” de pelo menos 20 pés do AMDR ou não?
Um abraço.

Luiz Monteiro
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Luiz Monteiro

Prezado Wellington,

A satisfação é toda minha.

Tive a oportunidade de ir a bordo dos navios da PLA Navy que estiveram no Rio.

Seria precipitação minha apresentar um laudo detalhado. Mas posso te dizer que gostei da aparência gersl dos navios. Mas não dá para falar das capacidades deles. Teria que participar de alguma comissão, a bordo dos mesmos,
Para falar sobre isso, assim como já fizemos a bordo de navios de várias matinhas.

grande abraço

Fabio Mayer
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Fabio Mayer

E O Brasil não consegue fabricar nem barcos de patrulha de 500 toneladas, que o programa atrasa, encarece e quando vão ao mar, não funcionam direito…é a pátria educadora que não educa porcaria nenhuma!

Oganza
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Oganza

Luiz Monteiro, O relatório necessariamente não se equivocou não, pois além de levantar as questões dos obstáculos políticos, logísticos, tecnológicos e de pessoal da Marinha Chinesa, ele leva em conta, mesmo que superficialmente (não era esse o objetivo), o emprego desses navios… … e é por isso que ele faz essa “comparação” dos Burkes Vs Type 054A, justamente pelo fato que serão as Type 054A que terão que dar combate aos Burkes, com os DDs 52 “AEGIS” deles fazendo a proteção dos vasos de alto valor, como os Carrier deles. – Então a comparação, por esse ponto de vista, é… Read more »

carlos alberto de oliveira
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carlos alberto de oliveira

Cara falando sério, se esse relatório é tecnicamente certo, que a China com toda essa tecnologia a seu favor sofre em descobrir a presença de submarino, sofre pra descobrir misseis anti navio,o que dirá dos nossos navios que não tem a metade da tecnologia deles estamos é fritos num conflito de média proporção.

Luiz Monteiro
Visitante
Luiz Monteiro

Prezado Delmo,

Sempre que possível, venho aqui trocar informações e aprender com todos.

Abraços

Dalton
Visitante
Dalton

Bosco…

as antenas de 20 pés viraram um sonho, assim como, o Arleigh Burke IV e uma nova classe de CGs que poderiam lidar com antenas de 20 pés e a expectativa agora ´que os “Ticonderogas” permaneçam em serviço mais do que o planejado enquanto compra-se tempo para pensar em uma nova classe de navios.

O tamanho da antena será de 14 pés e para atender a necessidade de maior geração de energia e também resfriamento os Arleigh Burkes III serão ligeiramente maiores que os Arleigh Burkes IIA.

abraços

Mauricio R.
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Interessante…

Dentro do hangar na 2ª foto, um deck é mais alto que o outro.

Na 3ª foto, a junção da lateral c/ a face frontal do passadiço e o casco deveria criar uma aresta e refletir radar, mas foi atenuado c/ o prolongamento da linha vertical da face frontal do passadiço.

felipe
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felipe

Estou totalmente por fora desses navios. Sejam americanos, chineses ou brasileiros. De qualquer forma, não entendi à crítica do relatório aos navios… Afinal de contas, um navio sozinho deve dar conta de tudo? Dependendo do inimigo, etc, em vez de um navio de 10 toneladas, por que não dois de 5 ton? Um navio menor não é mais manobrável, tipo um caça? Sobre submarinos. Como é que os submarinos operavam antigamente, na segunda guerra, digamos. Saiam pelo mar afora, procurando alvos. Aí, se moviam submersos ou iam mesmo na superfície? Ficavam com o periscópio de fora observando? Falo isso porque,… Read more »

Wagner
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Wagner

A Marinha Chinesa ainda está em evolução, e devemos notar que uma evolução bem acelerada. Análises como essa, que revelam mais arrogancia pro-americana do que efetivamente uma analise objetiva, não acrescentam muito. Quanto a questão deles nao serem um apís democratico, isso nao tem nada a ver : o fato da China já ser a segunda superpotencia mundial, a caminho do primeiro lugar, prova que a democracia não tem nada a ver com desenvolvimento econômico. Democracia é ideologia politica ocidental, da mesma maneira que o comunismo chinês é ideologia deles. De resto, negócios são negócios… Quanto a corrupção, existe em… Read more »

Oganza
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Oganza

Wagner, pelo amor de Deus… vc leu o relatório? Se leu, onde está a arrogância? É como eu disse antes: Infelizmente o espaço só permite colocar o que o Report disse e não COMO ele disse. Inclusive boa parte do que vc chama de arrogância é a percepção dos próprios oficiais chineses publicada em periódicos chineses da Marninha Chinesa… está tudo lá… é só vc baixar o Report… Se vc tiver menos paixão e mais pragmatismo, como um bom russo teria, vc não estaria vomitando essas sandices… …está lá no comment de 13 de fevereiro de 2015 at 17:20 Ps.:… Read more »

roberto
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roberto

pelas imagens china fazendo de tudo pra deixar de lado o modelo defasado russo e a ocidentalizando ao máximo seus navios…

Kojak
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Kojak

Adorei o uniforme dos chinas (última foto).