A História Naval e o Cinema: ‘Treze dias que abalaram o mundo’ – 2000

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Destróier USS Vesole da Marinha dos EUA interceptando o navio soviético Potzunov que transportava mísseis, durante o bloqueio naval dos EUA a Cuba. (Foto de Carl Mydans/The LIFE Picture)

Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)

Treze dias que abalaram o mundo (2000)
Diretor: Roger Donaldson
Ator Principal: Kevin Costner

O filme retrata de forma envolvente um periodo de muita tensão no Sistema Internacional.  Aconteceu durante a Guerra Fria, em 1962, e ficou conhecido como a Crise dos Mísseis em Cuba. Esta crise ocorreu entre 16 de outubro e 28 de outubro daquele ano.

Vale mencionar que, em 1959, a revolução cubana culminou com a chegada ao poder do líder revolucionário Fidel Castro e com a implantação do regime socialista na ilha.

Este fato histórico aproximou Cuba da extinta União Soviética e despertou nos Estados Unidos da América (EUA) um sentimento de ameaça ideológica na região.

Em 1961, houve uma tentativa fracassada de derrubar o regime de Fidel Castro, por meio da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, por exilados cubanos treinados nos EUA. Naquele período, o governo Kennedy também planejava a Operação Mongoose para derrubar o regime cubano.

Enquanto isso, em julho de 1962, o líder soviético Khrushchev fez um acordo com Fidel Castro para instalar mísseis nucleares na ilha a fim de evitar qualquer tentativa de invasão.

Em 14 de Outubro, um avião U-2 dos EUA sobrevoou e identificou, por meio de fotografias, locais onde mísseis nucleares balísticos estavam sendo instalados em Cuba.

No dia 16 de outubro, as imagens foram apresentadas na Casa Branca e teve início a Crise dos Mísseis.

Estes mísseis com grande poder de destruição poderiam atingir, praticamente, boa parte do território norte-americano.

Em 22 de outubro, o Presidente Kennedy, diante dessa grave crise, decidiu fazer um bloqueio naval contra Cuba, o qual foi chamado de “Quarentena” para não configurar um ato de guerra.

O bloqueio naval, que teve início no dia 24 de outubro e foi considerado um ato de agressão por Khrushchev. O bloqueio naval é uma operação que visa à obtenção de um certo grau de controle sobre determinada área marítima, com o propósito de impedir ou dificultar a passagem de forças navais e ou navios mercantes do inimigo. Deve ser declarada formalmente, devido as suas implicações em relação ao Direito Internacional.

Todas as embarcações com destino a Cuba seriam inspecionadas por forças militares norte-americanas.

Desse modo, somente seriam liberadas aquelas que não tivessem armamentos ou materiais para serem utilizados nas instalações para lançamento dos mísseis.

A Marinha dos EUA foi fundamental na crise, demonstrando a importância da força naval para a defesa nacional. O emprego do poder naval contribuiu para evitar a guerra.

A primeira linha seria mantida por 12 contratorpedeiros da Força-Tarefa 136, criada especificamente para a quarentena.

Quando  a  operação terminou, havia um navio aeródromo, dois cruzadores, vinte e dois destróieres e duas fragatas de mísseis guiados em duas linhas de quarentena (conhecidas como “Walnut” e “Chestnut”.)

Durante a operação de bloqueio haviam sido estabelecidas regras de engajamento. Um navio de guerra que interceptasse um navio que se aproximasse da linha de quarentena deveria içar uma bandeira de sinalização ou uma luz piscante significando – “você deve parar imediatamente”!

No dia 26 de outubro, o navio petroleiro soviético Graznyy não respondeu as ordens de parada de um navio de guerra norte-americano. Após cumprir todos os procedimentos das regras de engajamento, o navio só parou após a realização de tiros de advertência.

Em 27 de outubro, para escalar a crise de uma possível guerra, um dos aviões norte-americanos quando estava tirando fotos de Cuba foi abatido e o piloto morreu.

Mesmo assim, prevaleceu a negociação diplomática para evitar a guerra nuclear entre EUA e a URSS. No mesmo dia, Khrushchev informou que qualquer acordo deveria incluir a remoção dos mísseis dos EUA da Turquia, que eram considerados uma ameaça à URSS.

Em 28 de outubro, Khrushchev recuou e emitiu uma declaração de que os mísseis soviéticos seriam removidos da ilha. Porém, exigiu que os EUA não atacassem Cuba.

Em 22 de novembro, o bloqueio naval foi encerrado. Chegava ao fim a maior crise diplomática que soviéticos e norte-americanos tiveram no período da Guerra Fria.

Em abril de 1963, os mísseis balísticos com ogivas nucleares dos EUA foram removidos da Turquia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITES CONSULTADOS

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Felipe M.

Bom filme. Muito legal essa iniciativa de trazer filmes e uma correlação com o tema principal de cada um dos três sites.
Fica a sugestão aí de trazerem sugestões de bons filmes sobre o tema em evidência hoje, a questão árabe israelense.
Além disso, tbm seria legal matérias com sugestões de documentários e livros.

Nesse ensejo, aproveito para sugerir aí aos leitores um documentário que assisti ontem sobre Cuba: Cuba e o Cameraman. Achei bem bacana.

Camargoer.

Olá Felipe. Tem um filme com Robert Redford sobre o contexto da revolução cubana chamado “Havana”. O “Poderoso Chefão 2” também faz um excelente contexto do regime de Fulgêncio Batista antes da revolução cubana.

sergio 02

Assisti recentemente o filme Golda, sobre a primeira ministra Israelense justamente durante a guerra do Yom kippur , muito bom o filme, recomendo.

Esteves

“A Marinha dos EUA foi fundamental na crise, demonstrando a importância da força naval para a defesa nacional. O emprego do poder naval contribuiu para evitar à guerra.” Ok. Tem um autoelogio acima. Hoje mostraram imagens de artefatos de guerra capturados. Durante a semana mostraram vídeos da construção de coisas de guerra com tubos e conexões Tigre. Quem falhou? Como os mísseis chegaram à ilha, como os mísseis foram instalados debaixo do cavanhaque dos norte-americanos, como essa movimentação para construírem a base foi feita? Também em Gaza. Depois de tudo pronto lembro das imagens aéreas. Furor e quase guerra. Mas… Read more »

Felipe Morais

Bom, Cuba era e é um país. Que exportava e importava. Pode ter a vigilância que for, não se consegue monitorar tudo que entra e sai de portos de um país “hostil”. Você consegue ter monitoramento por imagens (hoje se tem o monitoramento digital) e com agentes em campo. Mas é impossível manter um monitoramento 24/7. E hoje a tecnologia implementou e muito as formas de monitorar atividades em outro território. No caso do filme, estamos falando de 06 décadas atrás. O caso de Gaza não se compara com esse caso de Cuba. Território muito menor. Tecnologias de ponta e… Read more »

Esteves

Cuba não era hostil. Cuba era um quintal de Miami e mesmo naqueles anos não está concebível que levaram mísseis, instalações, bases para um local aonde o trafico de drogas ainda seguiu mesmo sob Castro. Os norte-americanos ouviam os submarinos russos em qualquer lugar do globo. Vamos considerar que a guerra fria começou logo após o término da segunda guerra ainda no final dos anos 1940 intensificando-se nas décadas seguintes. E vamos considerar que qualquer navio vindo da Europa do Leste sempre foi suspeito. Souberam? Deixaram escalar por motivos óbvios. Os senhores da guerra estão debruçados. Não souberam? A mesma… Read more »

Felipe M.

*A responsabilidade vem de quem faz. E de quem permitiu fazer.”
Tudo bem. Para mim é inadmissível equiparar a responsabilidade, sob qualquer pretexto, de quem faz e de quem supostamente deixou fazer.
Sem a ação de “quem faz”, nada teria sido feito. Ao passo que sem a omissão de quem “deixou fazer”, “quem faz” teria feito ou tentado de qualquer jeito.
Mas enfim, cada um tem sua visão sobre as coisas.

Esteves

Nesses documentários sobre o assassinato de J Kennedy…são dezenas…um ou outro parece ter sido produzido com pesquisa. A atividade soviética na ilha vinha antes de 1963. A ilha chegou a ser comparada a Casablanca no Marrocos em razão do trânsito fácil de conspiradores, anterior até ao golpe de Castro.

Alguém deixou de fazer a lição de casa.

Last edited 9 meses atrás by Esteves
Dalton

Cuba tornara-se um baluarte da URSS ao longo do ano de 1959 e por conta da fracassada invasão da Baía dos Porcos em 1961 cubanos e soviéticos acertadamente concluíram que apenas armas nucleares em Cuba impediriam uma invasão em larga escala então os mísseis começaram a ser entregues sob controle soviético na ilha a partir de setembro de 1962 com o bloqueio ocorrendo já no mês seguinte, então, a reação por parte dos EUA foi rápida, isso de “deixaram escalar” é outra teoria da conspiração. Felizmente cabeças frias de ambos os lados prevaleceram e chegaram a um acordo, os mísseis… Read more »

Camargoer.

Olá Dalton. A crise dos mísseis é um excelente exemplo da necessidade da diplomacia como meio de resolução de conflitos. Aliás, faltou ao governo dos EUA durante os últimos anos de Eisenhower a boa diplomacia para acolher o governo de Fidel. O regime de Fulgencio Batista era corrupto e violento. A revolução cubana foi muito mais uma resposta doméstica do que uma expansão comunista. Eisenhower avaliou equivocadamente como sendo uma expansão comunista na América. Aliás, é conhecido que Castro buscou se aproximar de Washington, mas sem sucesso. A invasão da Baia dos Porcos, planejada durante a administração Eisenhower foi executada… Read more »

Esteves

Política da época. Apoio norte-americano à regimes violentos sustentados por corrupção.

Teria sido mais inteligente acolher e patrocinar Castro…mas a Sicília é quem mandava.

Camargoer.

Olá Esteves. Falando sem Sicilia, antes dos EUA invadirem a Sicília, os EUA negociaram com a máfia siciliana para evitar uma resistência local, como aconteceu na Operação Tocha, quando as tropas dos EUA foram recebidas á bala pelos franceses.

Creio que Luck Luciano foi deportado para a Itália após o fim da II Guerra. A Mafia Siciliana dominou os EUA por décadas e continua forte na Sicília.

Dalton

Verdade que a reforma agrária e nacionalização de empresas dos EUA não ajudou e os soviéticos não perderam tempo para aproveitar-se dessa deteriorante situação já em 1960 estreitando a relação com Cuba, então, não houve tempo para que que se pudesse fazer alguma coisa, eram tempos de paranoia e desconfiança de todos os lados.

Jagder#44

Salvo engano os russos e americanos é que tiveram a boa vontade de se entender e encerrar a crise. Mas Fidel Castro ficou p da vida, queria sim, usar mísseis russos contra os EUA.

Renato de Mello Machado

Viram.Os EUA não gostaram quando chegaram no seu quintal.Os EUA fazerem bagunça no quintal dos outros pode.

Dalton

Se o “quintal dos outros” é compartilhado por “amigos” dos EUA então pode. As Filipinas certamente querem a presença dos EUA e o Vietnã desde 2018 permite que um NAe – considerado o símbolo máximo do poderio militar dos EUA – visite o país uma vez por ano, demais navios o fazem com mais frequência, isso para citar apenas 2 países. . Muitos se perguntam como os EUA reagiriam se a China por exemplo “desfilasse” navios próximos ao México, só que seria contra -produtivo pois o México não é aliado da China nem há qualquer disputa sobre territórios marítimos muito… Read more »

Emmanuel

Todo mundo quer fazer uma baguncinha em algum momento de sua vida.
Até o Brasil já quis com a Guiana Francesa.

Camargoer.

Caro Na verdade, Jãnio Quadros pensou em aplicar a “solução nacionalista”. Cria-se uma guerra que desperta o sentimento nacional de união e assim garante-se uma ampliação do poder central. Bem, como deu errado, Jânio tentou aplicar a solução “dono da bola”. Ele renunciou quando Jango estava na China. Imaginou que o pessoal do deixa-disso iria pedir para ele ficar, dando plenos poderes. Deu errado de novo. Há poucos anos, o governo brasileiro fez outra lambança diplomática na fronteira com a Venezuela, tentando criar uma falta tensão entre os dois países, que poderia ter levado a uma crise diplomática mais séria.… Read more »

Fernando Vieira

Que história é essa de crise com a Guiana Francesa e o Jânio Quadros? Não lembro disso.
Do Jânio eu lembro mesmo é da vassourinha e dele querendo proibir o biquíni nas praias.