Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)

A Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865) nasceu em razão das profundas diferenças políticas, culturais e econômicas entre os Estados industriais do Norte e os Estados agrícolas do Sul.

O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Abraham Lincoln, fazia todos os esforços para impedir o separatismo. As negociações para evitar aquele conflito armado entre o Norte e o Sul fracassaram.

A Carolina do Sul, primeiro Estado a se separar da União, deu início a formação dos Estados confederados e a Guerra da Secessão.

No final da guerra, a vitória dos Estados do Norte, em função da sua superioridade militar e econômica, assegurou o ressurgimento dos EUA como uma União Federal e transformou o país numa crescente potência econômica.

No que se refere à guerra naval vale salientar a evolução tecnológica dos meios navais e as consequentes alterações na tática durante os combates.

A missão do poder naval da União, que possuía a maioria dos navios mercantes e de guerra, era bloquear os portos sulistas a fim de impedir a chegada de armas e suprimentos. Além disso, o bloqueio também prejudicava a exportação dos bens econômicos do sul, em especial, sua principal fonte de renda, o algodão. Por outro lado, os confederados atacavam o comércio marítimo do Norte e buscavam romper o bloqueio naval.

Até o século XIX, os navios de guerra eram de madeira, tínham propulsão a vela e o armamento já possuía canhões de diferentes calibres. O canhão sobre rodas possibilitava o recuo durante o tiro, seu carregamento e seu reposicionamento com a boca para fora do costado.

O canhão devido ao seu poder de destruição, produziu significativas alterações na história militar, em especial, na guerra naval. À medida que o peso dos canhões aumentou surgiu a necessidade de instalá-los no convés abaixo do convés principal pelos bordos. Naquele período, os navios de madeira começaram a revestir seus cascos com chapas de ferro para resistir aos ataques dos canhões cada vez mais potentes e precisos.

A introdução da máquina a vapor a bordo estabeleceu, num primeiro momento, uma propulsão mista. Os navios continuavam usando à vela. A máquina a vapor era utliizada para mover uma roda com pás nas laterais ou na popa das embarcações. A gradual transição da propulsão a vela para o motor a vapor melhorava a capacidade de manobra dos navios e exigia estações de reabastecimento de carvão. As rodas laterais, que seriam substituídas pelos hélices, eram vulneráveis para a guerra naval e tiravam o espaço dos canhões a bordo.

Nos dias 8 e 9 de março de 1862, em Hampton Roads, na Virgínia, tivemos a primeira batalha naval entre dois navios encouraçados. O CSS Virginia versus o USS Monitor.

O CSS Virginia dos confederados foi construído a partir do casco de madeira da Fragata USS Merrimack. O navio possuía propulsão a vapor, chapas de ferro, doze canhões de diferentes calibres e um esporão[1] na proa.

As obras vivas, que ficavam abaixo da linha d’água, nem sempre tinham couraça. Assim sendo, fez reaparecer o esporão (RAM), que ficava sob à água. Nesse sentido, a tática do abalroamento poderia ser usada como na guerra naval na antiguidade. O esporão foi empregado em Hampton Roads.  O CSS Virginia, que podia se aproximar em função da sua couraça, afundou o USS Cumberland por meio do esporão.

O USS Monitor da União já tinha leme, hélice, possuía uma couraça de ferro e dois canhões montados numa torre giratória, que permitia conteirar e atirar sem ter que manobrar o navio. Era um navio moderno que trazia muitas inovações tecnológicas. Porém, o navio afundou em dezembro de 1862.

 

 

Essa batalha tinha o propósito de contribuir para redução do bloqueio naval que a marinha do Norte fazia sobre os portos sulistas. O resultado final do combate foi inconclusivo. Porém, a batalha de Hampton Roads teve uma grande influência sobre as demais potências navais da época. Estas passaram a fazer modificações na construção naval em função do término do uso integral da madeira nos navios de guerra. O aumento da capacidade dos navios encouraçados em suportar os tiros dos canhões assegurava a superioridade deles sobre os navios de madeira.

Torre giratório do USS Monitor

Naquele período, a espessura das couraças foi sendo gradativamente aumentada para proteger os navios em relação aos projetis dos canhões. O aparecimento do projetil explosivo afetava ainda mais os navios de madeira.

Finalmente, um importante fato a ser mencionado é que os navios encouraçados já vinham sendo construídos na Europa na primeira metade do século XIX (França e Inglaterra), mas foi a partir da Guerra da Secessão a crescente afirmação deles em relação aos navios de madeira.

Os navios de guerra mais modernos passavam a ter motor a vapor, cascos de madeira revestidos de ferro ou aço e canhões de diferentes calibres.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITES CONSULTADOS


[1]  Protuberância destinada a perfurar o casco do navio inimigo por meio do choque entre os navios.

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Ozawa

Impossível não olhar para a Classe Zumwalt e não sentir um déjà vu com Hampton Roads em 1862 … Igualmente disruptivos.
E exatos 110 anos depois, naquela mesma cidade na Virgínia, outra revolução aconteceria e o mundo nunca mais seria o mesmo: Elvis Presley faria o show mais antológico de todos os seus concertos, muito mais que Aloha from HawaiiThe Hampton Roads Concert … Foi a secessão da música!

Dalton

Oi Ozawa, sabendo que você também compartilha o gosto por miniaturas, décadas atrás comprei uma do “Monitor” na escala 1/1250, 4 cms de comprimento, mesmo assim com o “pilot house” visível, que custou-me na época uns 5 dólares.
.
Quanto ao Elvis como alguém que conhece alguma coisa o “Aloha” foi o maior show e como você provavelmente sabe Elvis também contribuiu para o Monumento ao USS Arizona em Pearl Harbor e também vi um show dele a bordo do NAe USS Hancock com
o Milton Berle.

Ozawa

Rapaz, “monitores” eu não tenho diecast... Não hoje. Não descarto. Qto ao Elvis, Aloha foi sim o maior espetáculo televisivo do Elvis e o maior do mundo então: 1bi de televisores… etc. Mas para mim Hampton Roads foi melhor não só pq Elvis estava voando baixo (em Aloha ele já dava sinais de esgotamento) como pelo repertório… American Trilogy nesse show ficou eternizado.

A visita de Elvis e Priscilla no monumento do USS Arizona pode ser encontrada no YouTube.

Fabio Araujo

Um empate se olhar pelo fato dos dois navios não terem tido danos graves, mas uma vitória tática do Norte por conseguir manter o bloqueio naval! E um fato interessante é o trabalho da inteligência naval do Norte, uma negra que sabia ler e escondia isso dos sulistas conseguiu trabalhar como escrava na casa do projetista do CSS Virgínia e copiou algumas partes do projeto e informações importantes que eram deixadas peto dela por acharem que ela não sabia ler e escrever, informações como a dificuldade do Virgínia manobrar em águas rasas e levou essas informações para a marinha do… Read more »

Fernando "Nunão" De Martini

“ O resultado final do combate foi inconclusivo. Porém, a batalha de Hampton Roads teve uma grande influência sobre as demais potências navais da época. Estas passaram a fazer modificações na construção naval em função do término do uso integral da madeira nos navios de guerra. O aumento da capacidade dos navios encouraçados em suportar os tiros dos canhões assegurava a superioridade deles sobre os navios de madeira.” Influência não apenas sobre as grandes potências navais, mas também para as potências navais regionais, como o Brasil. Logo que as notícias da batalha chegaram aqui, o sinal amarelo acendeu para a… Read more »

Fernando Vieira

Interessante como esses navios tinham pouca coisa acima da linha d’água. Lembram aqueles “submarinos” utilizados para traficar drogas. Acertar com canhões e mira “no olhômetro” devia ser um pesadelo.

Fernando "Nunão" De Martini

O objetivo dessa pequena borda livre era justamente reduzir a área a ser protegida pelo cinturão blindado, permitindo aumentar sua espessura, ao mesmo tempo em que se reduzia a área exposta ao fogo inimigo.

O princípio funcionava (e funciona) bem em águas abrigadas, como baías e rios.

Fernando Vieira

Enquanto seu inimigo não tiver torpedos está ótimo.
E haja lastro pra fazer um cinturão de ferro mais as chapas superiores, a torre do canhão e o centro de gravidade do navio ainda ficar baixo.

Willber Rodrigues

Na verdade, toda a guerra civil americana foi o 1° vislumbre de uma guerra industrial, que atingiria seu ápice algumas décadas depois, nas 2 guerras mundiais.
Pena que ninguem viu isso na época…

Cristiano GR

Pena que não evitaram as guerras, isso sim.

Rafael M. F.

Chama a atenção a capacidade de manobra do Monitor frente ao Virginia, o primeiro poderia virar 180º na metade do arco do segundo, o que combinado com a torre giratória permitia circular o Virginia mantendo fogo em qualquer posição.

Exepcional insight tecnológico de John Ericsson (o projetista do Monitor).

Last edited 1 mês atrás by Rafael M. F.