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Tipo 209, o “best seller”

Com o fim da produção dos submarinos Tipo 205, 206 e 207, os estaleiros alemães enfrentaram uma diminuição de trabalho, mas a elevação do limite de tonelagem permitida para seus submarinos para 1.000t abriu a possibilidade de um mercado maior de exportações.

Tal situação encaixou-se como uma luva, pois muitas marinhas de diversos países estavam à procura de submarinos de propulsão convencional, com equipamentos eletrônicos modernos e que exigissem um mínimo de tripulantes altamente qualificados.

Nasceu então o Tipo 209, que possuía exatamente essas qualidades. A Grécia foi o primeiro país a fazer uma encomenda em 1971-72, de quatro unidades, baseados no projeto IK-36, que ficaram conhecidos como classe “Glavkos”. Uma nova encomenda de mais quatro unidades foi feita no meio da década de 70. Todas as unidades foram construídas pela HDW, na cidade de Kiel.

Os primeiros Tipo 209 eram similares em forma aos Tipo 205/206, mas com dimensões maiores, baterias de maior capacidade e uma propulsão mais potente. O casco é totalmente liso, com hidroplanos retráteis montados na parte baixa da proa, controles de profundidade em cruz na popa e hélice de 5 pás.

O cuidadoso desenho do casco e o poderoso motor elétrico permitem uma arrancada de 23 nós sob a água (43km/h), bem maior que os submarinos convencionais em serviço na época. Projetados para patrulhas de até 50 dias, armados com 8 tubos de torpedos de 533mm, e equipados com sistemas eletrônicos modernos, os 209 foram um sucesso absoluto de vendas nas décadas seguintes.

O Professor Ulrich Gabler (1913-1994), fundador da IKL – Ingenieurkontor Lübeck, adivinhou com maestria as necessidades das marinhas do mundo.

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Desenvolvimentos

O projeto do 209 cresceu à medida que foram surgindo novos clientes e novas missões. O sistema de propulsão, inicialmente equipado com motores diesel de sucção, mudou para motores com supercharger, dotados de maior desempenho.

Algumas encomendas recebidas com perfis de missão no Caribe ou no sudeste asiático, tornaram necessário o desenvolvimento de sistemas de ar condicionado adequados para a tripulação e equipamentos eletrônicos. Dependendo dos requisitos específicos de clientes diferentes, o tamanho dos submarinos aumentou a partir do deslocamento original de 1.000t, e em alguns casos, em mais de 50%.

O tamanho e espaço adicional foram necessários para acomodar aumento de alcance, alojamentos da tripulação, mais equipamentos eletrônicos e aumento na profundidade de operação. A capacidade das baterias foi melhorada em baixo e alto consumo, resultando em velocidade máxima e alcance mantidos, apesar dos aumentos no comprimento e deslocamento, o que demonstra a eficiência hidrodinâmica do casco.

O Tipo 209 evoluiu em cinco variantes (o último número na designação indica a tonelagem): Tipo 209/1100, 209/1200, 209/1300, 209/1400 e Tipo 209/1500.

Sessenta e dois submarinos foram adquiridos pelos seguintes países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Grécia, Índia, Indonésia, Peru, África do Sul, a Coreia do Sul, Turquia e Venezuela.
O maior operador do tipo 209 é a Marinha da Turquia, que opera 14 submarinos Tipo 209, sendo 6 de 1.200t (encomendados entre 1976 e 1990) e oito submarinos de 1.400t (encomendados entre 1994 e 2007).

Os Tipo 209 são geralmente armados com 14 torpedos, mas na Grécia, Turquia e Coréia do Sul eles também são armados com mísseis antinavio Sub-Harpoon. Também é possível atualizar esses submarinos com propulsão AIP, através de inserção de um módulo no casco.
O mais recente cliente foi a África do Sul, que adquiriu três novos submarinos 209/1400 em 2006, ao custo de US$ 285 milhões cada (clicar na foto e no arranjo do submarino abaixo).

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Especificações técnicas

1100 1200 1300 1400 1500
Deslocamento (submerso) 1.207 t 1.285 t 1.390 t 1.586 t 1.810 t
Dimensões 54,1×6,2×5,9 m 55,9×6,3×5,5 m 59,5×6,2×5,5 m 61,2×6,25×5,5 m 64,4×6,5×6,2 m
Propulsão Diesel-elétrica, 4 diesels, 1 eixo
5.000 shp 6.100 shp
Velocidade
(superfície)
11 nós (20 km/h) 11,5 nós
Velocidade
(submerso)
21,5 nós 22 nós 22,5 nós
Alcance (superfície) 11.000 milhas (20.000 km) a 10 nós (20 km/h)
Alcance
(snorkel)
8.000 milhas (15.000 km) a 10 nós (20 km/h)
Alcance (submerso) 400 milhas (700 km) a 4 nós (7 km/h)
Endurance 50 dias
Profundidade máxima 300m
Armamento 8x 553 mm tubos de torpedo

  • 14 torpedos
  • Integração UGM-84 SubHarpoon ou SubExocet SM-39
Tripulação 31 33 30 36

Batismo de fogo e destaque em exercícios navais

Durante a Guerra das Malvinas entre a Argentina e a Grã-Bretanha em 1982, o submarino IKL-209 San Luis da Armada Argentina, permaneceu 36 dias na área do conflito. A ameaça do submarino argentino obrigou os britânicos a montarem um enorme esforço anti-submarino para tentar neutralizá-lo, incluindo uma ponte-aérea com aviões anti-submarino Nimrod partindo da Ilha de Ascensão.

Numerosos ataques foram feitos contra contatos falsos, com o lançamento por parte dos britânicos de um grande número de armas, o que levou ao esgotamento de seus estoques de torpedos anti-submarino. Mesmo assim, o San Luis sobreviveu e ainda conseguiu lançar ataques contra navios britânicos, sem contudo obter êxito, devido a falhas nos torpedos.

Em todos esses anos, os Tipo 209 têm demonstrado excelente desempenho em diversas operações navais, levando até potências militares como os EUA a mudarem táticas anti-submarino e a cogitarem a volta da operação pelas grandes potências de submarinos convencionais.

Durante a operação Linked Seas’ 97, com Marinhas da OTAN, o submarino Tamoio IKL-209/1400, construído no Brasil com transferência de tecnologia,  “roubou a festa” quando conseguiu penetrar a cobertura anti-submarino de navios, helicópteros e outros submarinos e “afundar” o navio-aeródromo espanhol Príncipe de Astúrias.

Em setembro de 2007, durante o Exercício AMAZOLO, também com navios da OTAN, (ver notícia no BlogNAVAL antigo), o submarino Tipo 209/1400 SAS Manthatisi, conseguiu penetrar uma cobertura anti-submarino de 7 navios (incluindo as fragatas classe “Valour” SAS Amatola e SAS Isandlwana).

O Manthatisi permaneceu o tempo todo indetectado e “afundou” primeiro a unidade de alto valor que a força-tarefa tentava proteger. Depois, “afundou” cada uma das escoltas, uma após a outra. Feitos semelhantes foram repetidos por outros submarinos Tipo 209 de várias marinhas, enviados aos EUA para participarem do programa DESI (Diesel Electric Submarine Initiative), que visa preparar a US Navy para esse tipo de ameaça.

Para conhecer por dentro o último IKL-209 incorporado à Marinha do Brasil, clique aqui.

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Jornalista especializado em temas militares, editor-chefe da revista Forças de Defesa e da trilogia de sites Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres. É também fotógrafo, designer gráfico e piloto virtual nas horas vagas. Perfil no Facebook: https://www.facebook.com/alexandregalante

17 Responses to “100 anos de submarinos alemães – parte 3” Subscribe

  1. Coralsea 16 de dezembro de 2008 at 8:00 #

    Galante

    Agora me bateu uma dúvida; não existia uma versão 209/1700??
    Creio que a Argentina tem/tinha dois deles….

  2. Alexandre Galante 16 de dezembro de 2008 at 8:35 #

    Coralsea, o TR 1700 argentino é projeto da Thyssen-Nordseewerke (TNSW), enquanto o Tipo 209 é projeto da IKL/HDW.
    Somente em 2004 é que a HDW foi comprada pela ThyssenKrupp, formando a atual ThyssenKrupp Marine Systems.
    Vamos publicar um post só sobre o TR 1700 e o Dolphin israelense, antes de abordarmos o Tipo 212 e 214.

  3. Norberto Pontes 16 de dezembro de 2008 at 8:58 #

    Maravilhosa matéria sobre os submarinos alemães.
    Dentre os principais compradores, marinhas sul americanas.

  4. Corsario-DF 16 de dezembro de 2008 at 10:01 #

    E depois existem pessoas que querem Naes!!! Sem dúvida alguma os Nae são muito importante para projeção do poder, mas o Submarino é a arma definitiva, pois como o próprio texto traz, a RN “gastou” todo seu estoque de arma ASW e não conseguiu afundar o Sub argentino. Não entraremos no mérito dos seus torpedos não funcionarem (pois até as bombas burras deles também não funcionavam). Mais uma excelente matéria Galante, aguardo ansioso as próximas.

    PS: Você tem notícias do MO? Ele está bem? Espero que se recupere logo.

    Sds.

  5. Vassily Zaitsev 17 de dezembro de 2008 at 19:35 #

    Corsário,

    Como o próprio nome diz, (burras), as bombas usadas pelos pilotos argentinos, a grande maioria datava da IIGM, ou pouco depois. Nada mais natural que uma relativa porcentagem viesse à falhar.
    Agora, relacionar o mesmo histórico com o fato de os torpedos tb terem falhado, é um pouco de ingenuidade sua (com perdão da palavra).
    Os SST-4 eram novos, modernos para a época (considerado entre os melhores). Os submarinos idem. O que aconteceu foi que na hora de montar os torpedos, os técnicos argentinos inverteram a posição de um giroscópio. Ao receberem comandos para realizar curvas para um lado, iam para outro. Culpa dos argentinos que não souberam fazer uma manutenção básica.

  6. Aurélio 17 de dezembro de 2008 at 21:31 #

    Alexandre

    Os argentinos, por ocasião da guerra das Malvinas andaram estudando a possibilidade de colocar um reator nuclear no TR 1700. Não me surpreenderia, se, algum dia destes, lêssemos que, os israelenses colocaram um reator nuclear num dos seus submarinos Dolphin.

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