Home Ciência e Tecnologia Prosub – as instalações para receber o submarino nuclear

Prosub – as instalações para receber o submarino nuclear

14765
41
Na imagem acima aparecem as duas principais edificações do complexo radiológico da Base Naval. São os diques cobertos (prédios gêmeos na parte inferior). Os números em amarelo representam as cotas do cais. IMAGEM: MB

Por Guilherme Poggio

Dos três grandes empreendimentos modulares do Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) o Empreendimento Modular 18 é o responsável pela infraestrutura industrial do programa. Ele incorpora a construção da UFEM (Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas), do EBN (Estaleiro e Base Naval) e a transferência de tecnologia (ToT) associadas a estes.

Pode soar estranho falar em ToT para infraestrutura industrial uma vez que o Brasil largamente domina este campo. Isto pode ser medito em números. O índice de participação nacional nas obras civis é de aproximadamente 95%, bem acima dos 20% de nacionalização dos equipamentos dos submarinos. Uma parte considerável dos 5% restantes está vinculada à infraestrutura necessária para receber submarinos com propulsão nuclear, seja na etapa de construção, seja na etapa de operação.

Quando nós do Poder Naval visitamos setor Sul do EBN no início deste mês de junho pudemos notar uma área de dimensões consideráveis entre o ESC e o prédio dos simuladores dos submarinos convencionais que estava deserta. Em alguns pontos ela servia para abrigar estruturas pré-moldadas e em outros pontos a vegetação rasteira crescia sem ser incomodada.

Aérea onde será erguido o futuro complexo radiológico da Base Naval. Ao fundo o prédio do ESC onde se encontra o SBR 1.

Esta área que atualmente não desperta interesse do pessoal do canteiro de obras abrigará no futuro o complexo radiológico da Base Naval de Submarinos (BNS). Ela será uma área singular do EBN, pois ali ocorrerá a manutenção dos submarinos nucleares e substituição do combustível deles, quando for necessário.

Dentre as principais obras que serão feitas no complexo radiológico está a construção de dois diques secos cobertos. A própria necessidade da execução de dois diques já demonstra o cuidado especial que se deve ter com esta tecnologia. O objetivo da Marinha é possuir sempre um dique em condições de receber submarinos nucleares em qualquer momento, caso haja uma inesperada docagem emergencial.

Detalhe da planta do projeto do complexo radiológico. O dois diques serão construídos em paralelo.  IMAGEM: MB

Os diques não serão obras comuns ou simples projetos de engenharia civil. Neles serão aplicadas técnicas de engenharia sísmica, a mesma engenharia empregada em regiões que sofrem com abalos provocados por terremotos. Estruturas que empregam técnicas de projeto e construção de engenharia sísmica são muito mais robustas e, portanto, muito mais caras.

Só como exemplo, as estruturas dos diques não serão apoiadas sobre sedimentos inconsolidados ou solo de alteração de rocha. Todos estes materiais serão escavados e removidos até a exposição da rocha sã. Deste ponto em diante até a cota mais baixa no interior do dique tudo será preenchido com concreto de alta resistência.

A imagem acima apresenta um seção geotécnica do local onde serão implantados os diques. A área em azul abaixo do dique da direita representa os materiais inconsolidados que serão substituídos por concreto de alta resistência. Nas obras do dique da esquerda será necessário remover parte do substrato rochoso. IMAGEM: MB

Todas essas exigências não são um capricho da Marinha. Elas são necessárias para que as instalações sejam certificadas pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). A CNEN é uma autarquia federal responsável pelo licenciamento de instalações nucleares e radioativas em território nacional. Ela também executa o controle, o transporte e o armazenamento de rejeitos radioativos.

As obras do complexo radiológico acompanharão o desenvolvimento do submarino nuclear e como a prioridade é a conclusão da fabricação dos submarinos convencionais, elas (as obras do complexo) serão executas em uma etapa futura. A ilustração abaixo apresenta os três grandes conjuntos de prédios e as respectivas datas de entrega, segundo calendário de 2009. As edificações em verde já foram entregues e são aquelas vinculadas à fabricação, operação e manutenção dos submarinos convencionais. O último conjunto de edificações (cor laranja) é aquele vinculado ao programa do submarino nuclear e será o último a ser entregue.

IMAGEM: MB

Em fevereiro deste ano o almirante Leal Ferreira (Comandante da Marinha) informou que o projeto básico do submarino nuclear foi finalizado e o executivo (projeto detalhado) já começou. Este é um trabalho de mais longo prazo e o submarino deverá ser concluído em 2029, pelas estimativas da Marinha. Em outras palavras, as instalações do complexo radiológico deverão tomar forma no começo da próxima década. Esperamos estar lá para informar os leitores do Poder Naval.

41 COMMENTS

  1. Tenho nestas horas orgulho de ser Brasileiro (isto mesmo) com b maiúsculo, está estrutura dos diques são muito parecidos com as estruturas das usinas nucleares ( proteções, segurança vazamento materiais nucleares), dentro do conceito básico já temos experiências nas Três Angras. Sinto-me realizado mesmo com 40 anos de atrasos teremos no sub nuclear, abrindo espaço para a construção em um futuro de um navio aeródromo para nossa MB, os conceitos do núcleo dos.reatores são muito parecidos, variando capacidade geração de valor. Parabéns Brasil, parabéns MB, parabéns Aramar.

  2. Realmente, a cada reportagem apresentada, a gente vai vendo como Prosub é impressionante.

    Impressiona também toda a resiliência da MB, durante todos estes anos, e que certamente terá nos 11 anos que ainda temos adiante para lançar o Alvaro Alberto, em tocar o projeto em frente.

    Como brasileiro e apaixonado por submarinos, dizer que estou muito orgulhoso é pouco.

  3. Pós guerra 45 . As potências aliadas levaram tecnologia nazista de submarino o último protótico. Vargas não pegou nenhum como modelo esse país é uma colônia.

    • Caro Marcio. A questão das forças armadas no pos-guerra é um assunto bem complexo. Além dessa questão do espolio tecnológico, o Brasil foi convidado para permanecer como tropa de ocupação na Áustria, mas resolveram desmobilizar a FEB. Os oficiais e sargentos da FEB com experiência de combate foram alocados em regiões distantes e foram desprestigiados pelo exército. Sobre a FEB, muita gente diz que isso foi uma decisão de Getúlio porque ele temia um golpe das forças militares que combateram o fascismo na Itália e que não aceitariam o regime do Estado Novo de Vargas. Eu discordo dessa ideia. Na biografia de Varga escrita por Lira Neto, fica claro que o perfil de Vargas era o de não arrumar problemas internos nem se comprometer com soluções. Portanto, não parece ser o tipo de decisão que Vargas tomaria sozinho. Por outro lado, tem uma dissertação de mestrado de um colega aqui do blog que discute o conflito entre os oficiais do EB que ficaram no Brasil e os oficiais que foram lutar. Parece muito mas plausível que a decisão de desmobilizar a FEB tenha sido do próprio comando do EB para evitar e empoderamento dos febianos. Getulio deve apenas ter lavado as mãos e apoiado o comendo do EB. Por outro lado, vários cientistas europeus vieram para o Brasil antes e após a segunda guerra, o que efetivamente deu origem a toda a ciência moderna brasileira em química, física, energia nuclear e agricultura.

      • Camargoer 14 de junho de 2018 at 20:46
        Interessante o que voce postou, particularmente acredito que os motivos foram mais banais. O Brasil não tem histórico de grandes intervenções (creio que o Haiti foi uma escola) então nada mais natural de quem estava na Europa, querer voltar para o Brasil depois do horror da guerra, cumpriram a tarefa e desejavam voltar. Um outro fator é o econômico, manter tropas no exterior é caro e se hoje o Brasil está mal, imagina nos anos posteriores ao final da WW II, tem todo o sentido desmobilizar os militares para economizar dinheiro.

        • Caro Humberto, o EB tinha um efetivo de 100 mil no início da II Guerra e a FEB 25 mil. Contudo, é preciso lembrar que a FEB foi treinada em batalha e possuia o melhor equipamento militar disponível na época, fornecido pelos EUA. A FEB era a melhor tropa da América do Sul no final da II Guerra. Portanto, se fosse para fazer economia, era melhor desmobilizar parte da tropa que tinha ficado no Brasil e manter a FEB, aproveitando sua experiência de combate. Se pensarmos no esforço de Vargas diplomático de Vargas para enviar tropas brasileiras para a Europa (originalmente elas iria para a o norte da África) não faz sentido pensar que ele foi responsável pela sua desmobilização. Pelo contrário, a documentação histórica sugere que o comendado do EB não pretendia enviar tropas para o combate.

    • A Argentina teve muitos nazis no pós-guerra e mesmo assim, inclusive com dois ou mais subs germânicos em suas costas, não conseguiram evoluir na arma submarina até o projeto do Domecq Garcia, que hoje está em abandono….

      • Caro Moriah. A maioria dos cientistas que migraram para o Brasil estavam fugindo do nazismo (antes da guerra) ou da miséria do pós-guerra. Gosto muito de citar a Johanna Döbereiner, que pesquisou a fixação de nitrogênio pelas plantas do cerrado e permitiu a revolução agrícola. Ela foi indicada ao Nobel de química, mas deveria ter recebido o Nobel da paz porque suas pesquisas permitiram a agricultura no cerrado brasileiro e na savana africana. A lista de cientistas (judeus, não-judeus, comunistas perseguidos nos EUA, não-comunistas perseguidos na Europa oriental, etc) que vieram para o Brasil devido a II Guerra é grande.

    • Luiz,

      A Base de Submarinos fica praticamente debaixo da Base Aérea de Santa Cruz, a principal base da caça brasileira. Quando estávamos visitando o estaleiro era comum ouvirmos os F-5 voando ao redor.

      • Mas deixar uma base importante e estratégica como essa sem nenhum guarda-chuva é um risco!

        Tem que ter pelo menos um sistema de defesa de ponto

        • Rafa_positron,

          No futuro a defesa terrestre da base deverá ser atendida por uma unidade dos fuzileiros navais que deverá ser instalada na parte norte da base, que ainda será construída (hoje a parte norte é um canteiro de obras para a parte sul).

          É bastante provável que essa unidade, levando em conta suas atribuições e o valor estratégico da base, conte com meios de defesa antiaérea de ponto. Vale lembrar que o Corpo de Fuzileiros Navais possui um Batalhão de Controle Aerotático e Defesa Antiaérea (BtlCtAetatDAAe).

          Cada coisa a seu tempo.

  4. Um complexo tão caro e importante, que abriga a arma mais poderosa da MB, deveria ser protegido por pelo menos um sistema antiaéreo de médio alcance, ainda que protegido pela base aérea ao lado.

  5. Bom dia!
    Gostaria de saber se o aço utilizado na fabricação dos submarinos podem ser utilizados em Fragatas, porta aviões, carros de combate, etc, etc.
    Quanto mais detalhado “dos porquês” melhor para meus estudos em criar escala de produção para um “pequeno alto forno dedicado”.
    Obrigado

    • Você é engenheiro metalúrgico Marcelo?
      Aços não são fabricados em reator do tipo alto-forno e sim em FEA (forno elétrico a arco) ou LD (Linz-Donawitz). Nesse caso, em especial, é fabricado FEA, devido ao controle mais preciso da composição química.
      sds

  6. Bom dia Poggio.
    Com relação à locação do complexo radiológico , ela segue o bom senso de se colocar todas as manutenções , de todos submarinos , num mesmo local. Perfeito.
    Porem, acidentes acontecem…
    Durante uma manutenção do reator ou reparo de uma avaria de combate ou etc no subnuc, um vazamento pode comprometer toda a base!
    Mesmo com todas salvaguardas que acredito devem existir, não seria mais prudente locar o complexo radiológico perto suficiente para efeito logistico mas longe o suficiente por segurança radiológica?

  7. Complementando: uma base danificada por explosões convencionais pode ser reconstruída “n” vezes.
    Uma base com vazamento radioativo ficará inutilizada por séculos !!
    Aliás , como é feito nos paises que já operam subnucs? Tudo junto também?

  8. Longe quanto?! 50 Km para tentar “fugir” da radiação?!
    E o transporte…a logística, etc?! Pior ainda caso aconteça um acidente Rodoviário ou qualquer outro modal. Só estaria abrindo mais “salva guardas” desnecessárias/redundantes.

  9. Caros amigos, eu conheço bem a região e posso dizer que o complexo está estrategicamente bem posicionado, pois a geografia do lugar permite isso, proteção de acesso ao complexo pela barreira natural da restinga da Marambaia e ilhas, além da navegabilidade ser muito complexa pois uma vez que sair do canal ficará encalhado pois a área em torno é muito rasa, só para se ter uma idéia essa região a profundidade local era de no máximo 4 metros hoje está dragada chegando a 20 metros, fui um dos mergulhadores responsáveis pela parte de operações de mergulho da base de submarinos na fase inicial de construção, quanto a defesa aérea temos a base aérea de Santa Cruz e Campo dos Afonsos para dar um suporte aéreo caso haja necessidade, lembrando que estamos em tempo de paz.

  10. Temos ainda os SABER. Temos os IGLAS. Temos os vetores Grippen. Temos artilharia antiaérea, temos submarinos, temos minagens..é uma região de “morretes”. Como em Angra, os ventos sempre sobram para noroeste..ou seja..para o alto Mar, afastando eventual nuvem de radiação do continente.

    • Até onde sei é nessa área que será, oportunamente, construído um galpão exclusivamente para realizar período de manutenção geral dos submarinos convencionais, que sairão do mar via shiplift. Como isso só vai ocorrer daqui a uns 7 anos com o primeiro submarino a lançar no fim deste ano, deve estar no fim da fila das edificações a fazer.

      • Valeu pela informação. Dei uma espiada na base pelo google maps e os tilhos já foram construídos nessa área. Tudo indica que se algo for feito por lá será para a armazenagem e manutenção de submarinos.

  11. Y eu pensando ki certas informações deveriam ser sigilosas ou ter um certo resguardo em divulgar com planta baixa e tudo… Sei lá… Bombas inteligentes existem ….

  12. Grande projeto para a indústria naval brasileira, algo sem precedentes na América Latina. O que mais me preocupa é o fato de que não se fala em meios para a defesa aérea de um complexo vital para a soberania do nosso país. Já houve alguma discussão ou informação sobre o interesse do governo em adquirir algum sistema de defesa anti-aérea para o complexo, como os S-300/400, ou até os próprios sistemas Pantsir-S1 que ficaram na mídia por tanto tempo e depois nada mais se falou sobre?

  13. Nunão, esses dois diques terão shiplift ou usarão o que já existe (sendo assim o único)???
    Pq se a ideia de ter dois diques exclusivos para os subnukes, me parece falho só ter um shiplift tanto para os convencionais quanto para os nukes!
    Abs

    • Flávio, dique construído em terra e shiplift são coisas totalmente diferentes.

      O dique é cavado, seu fundo fica abaixo do nível do mar, assim são os diques… depois de cheio de água, abre-se a porta-batel para o mar e o submarino ou navio entram. Fecha-se a porta-batel, esvazia-se o dique e o navio ou submarino pousa no fundo do dique, sobre picadeiros. Esse fundo está abaixo do nível do mar e a porta impede que a água entre. Para sair, enche-se o dique, a embarcação flutua, e quando a água de tro do dique fica no nível da de fora, abre-se a porta.

      O shiplift é coisa totalmente diferente, ele baixa para debaixo do nível da quilha da embarcação e serve para elevá-la até o nivel do solo, acima, ou para que a embarcação seja colocada sobre ele e então baixada até flutuar.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here