sexta-feira, maio 27, 2022

Saab Naval

US Navy: gigante com pés de barro

Destaques

Alexandre Galante
Ex-tripulante da fragata Niterói (F40), jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

O capitão de corveta Aidan Talbot, da Royal Navy, participou de um intercâmbio de dois anos no setor de logística da Marinha dos EUA, em San Diego, Califórnia, trabalhando no apoio à Esquadra do Pacífico, na época crítica do esforço repentino exigido pela Operação Iraq Freedom.
Talbot confessa-se gratificado pela experiência. Como a maior parte do pessoal da Royal Navy, ele tinha a impressão de que a US Navy fosse uma organização poderosa e “azeitada”, com muito dinheiro, com excelentes equipamentos e com o que havia de melhor em Tecnologia da Informação (TI).
Ao final do seu intercâmbio, ele sumariza a US Navy como tendo muito excesso de pessoal, com técnicas primárias de administração, com uma incrível inércia institucional e prejudicada pela “interferência política” externa do Departamento de Defesa e de políticos e interna, dos diversos escalões e órgãos da própria Marinha.

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Sobre a dimensão da US Navy, ele informa que esta conta com mais de 700 navios e 377 mil militares na ativa. San Diego, por exemplo, é a maior concentração de pessoal militar dos EUA em todo o mundo – mais de 250 mil militares vivem na região (o dobro desse número se for considerado o pessoal da reserva). Argumenta que esse gigantismo traz consigo níveis consideráveis de ineficiência.
Talbot critica também alguns aspectos que considera falhos na política de pessoal da US Navy, tais como uma aparente falta de planejamento para recrutamento e recompletamento de pessoal e uma tendência a empregar conscritos para resolver problemas de falta de pessoal. Avalia o excesso de mão-de-obra como um sério problema da US Navy.
Outro problema por ele identificado é a real qualificação do pessoal. Reconhece que, sem dúvida, a US Navy possui pessoal que se sobressai. Porém verificou que, nos Estados Unidos, as Forças Armadas ainda funcionam como uma “rede de segurança social”. Para muitos, a incorporação é ainda a única forma de escapar de situações pessoais e familiares desesperadoras. Muitos recrutas que são incorporados não estão buscando servir ao país em uma carreira militar, mas obter vantagens com os benefícios adicionais: moradia barata, excelente assistência médica gratuita, auxílio educação, dentre outros.
Quanto aos oficiais, embora reconheça as exceções, Talbot observa que, em sua maioria, são dedicados no desempenho de suas tarefas, mas carentes de imaginação, de iniciativa e de originalidade. Avalia que são muito bons no conhecimento técnico dos sistemas, porém menos dotados de qualificações como liderança e gerenciamento. O autor considera uma ironia o país que cunhou a expressão “pensar além dos limites do problema” ter tanta dificuldade cultural de colocá-la em prática.
Talbot avalia que as políticas conjuntas dos EUA são outro problema sério. O próprio tamanho das forças já é um fator complicador. Lembra que, contando a USCG e o USMC, os Estados Unidos possuem, na realidade, cinco Forças Armadas, uma das quais – a Guarda Costeira – nem pertence ao Departamento de Defesa. Cada uma das Forças possui seus próprios sistemas e procedimentos para a obtenção de material e serviços e para preparo do pessoal. Além disso, a mentalidade dominante é a de forças singulares. Existe uma expectativa de que uma ação conjunta exitosa na operação Iraq Freedom traga melhoras nesse aspecto crítico.
A esperança nos programas de mudanças em vias de implementação é por Talbot manifestada, embora reconheça que existe grande resistência por parte do pessoal mais jovem e mais moderno em aceitá-los.
Concluindo, considera que os poderes reais da US Navy são: a quantidade de meios à disposição, seu vigor financeiro, a amplitude e a diversidade da base industrial de Defesa, o evidente apoio político e nacional usufruído pelas Forças Armadas, sua capacidade de inovar em tecnologia quando tem vontade e, sem dúvida, o volume e o impacto de todo o poder de fogo ofensivo que ela pode colocar em ação.

Resenha de artigo da revista inglesa Naval Review de novembro de 2004, publicada na Revista Marítima Brasileira de jan/março de 2006

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Ozawa

Deve ser triste viver num país com uma Marinha assim…

Parodiando as palavras de um conceituado economista ao analisar a situação brasileira à época da escalada hiperinflacionária, “o abismo que eles têm ao final da ladeira é imenso, mas, ainda assim, são bem maiores que o abismo…”

Galante

Mauro, o autor é oficial da Royal Navy, não da US Navy. E ele prestou um serviço à US Navy relatando esses problemas, que certamente devem estar sendo discutidos.

Ozawa

Acredito que mesmo que fizesse parte das fileiras da USN, o denunciante daquela situação, crendo e provando item-a-item e inconteste os problemas descritos neste post, poderia, sim, se manifestar. “O pior conflito é o que acontece dentro de você…”, assim, nada mais justo externá-lo, se legítimo é outra questão, pois, sustentada qualquer organização militar na disciplina e hierarquia, certamente seria legitimamente julgado pelas normas que abraçou e jurou defender, simples assim, ambos estariam corretos em suas posições, o militar que denunciou publicamente e a organização que viesse a expurgá-lo de seus quadros. Estou, obviamente, falando em tese, suscitada pela mensagem… Read more »

Galante

As discussões e troca de opiniões na US Navy são uma coisa comum. Quem já leu a revista Proceedings pôde ver as discussões acaloradas entre tenentes e almirantes no fórum da mesma. Opiniões divergentes sobre determinados assuntos não configuram quebra de hierarquia, embora possam ferir suscetibilidades, ou como dizem na Marinha do Brasil, “fazer marola”.

Ozawa

Opinião divergente certamente não é o problema, agora, em algumas marinhas, não parecendo ser o caso da USN com o advento da “Proceedings”, e felicito-a por isso, o problema seria a opinião divergente publicada…

edilson

Sr. Mauro ao que me parece a Royal Navy não pune seus militares por estes apontarem problemas e soluções para estes em seus quadros (exceptuando-se os arqiuios confidenciais). são inúmeras as reportagens da BBC em que soldados nos campos de batalha sentam a lenha nos problemas de geradospor seus superiores em relação as guerras em andamento. nem por isso há repreensão. no Brasil se um general ousa falar dos problemas institucionais… cadeia… (vide general Heleno ( meu ìdolo)). aqui só so serviços de relações públicas que raramente prestam conta do que fazem, quem dá a notícia é a mídia e… Read more »

Paulo Costa

Discussão interna existe em varias corporações,tudo tem um limite,
para serem construtivas devem ficar no ambito a que pertencem.
Existem situações claro que podem ser debatidas em outras esferas,
depende do grau de profissionalismo da corporação.

Azevedo

Um exemplo do profissionalismo inglês citado acima é o acesso aos relatórios de diversos incidentes (inclusive Malvinas) no site do MinDef deles, o MoD. Os documentos são ostensivos com a omissão do que seria sigiloso.
http://www.mod.uk/DefenceInternet/AboutDefence/CorporatePublications/BoardsOfInquiry/BoardsOfInquirybois.htm

Cinquini

Resumindo: a US Navy é como uma repartição pública, arcaica, com excesso de funcionários e extremamente burocratizada!

Nimitz

E tem gente aqui no Brasil que acha que a US Navy não tem defeitos…

Marine

Caros colegas, Sou Brasileiro e Sargento do USMC servindo em mais de 20 paises inclusive treinamento em Marambaia com nossos irmaos e na cidade de Fallujah e digo a todos que sempre a dois lados da mesma moeda…Esse oficial ingles em intercambio provavelmente nao serviu mais do que 2-3 anos com a USN, dificil dizer que ele teria “desvendado” todos os problemas dela em tao curto tempo, ele tambem e “apenas” um LTCDR, sim um oficial de campo mas longe de ser alguem lidando com assuntos estrategicos no alto comando da USN ainda pelo fato de ser estrangeiro as duas… Read more »

Caius

Marine;

Seu comentário ardorosamente defendido mostra claramente de que lado você está. Tècnicamente ele está correto. Porém, aquele
que serve a “qualquer força armada alienígena” não é, nunca foi e
nunca será BRASILEIRO. Numa demonstração de comportamento ético
você bem que poderia devolver seu passaporte.

Saudações Brasileiras.

Caius.

José da Silva

Deixo aqui minha solidariedade ao Marine e meu apoio porque se você tem dentro de voce o espirito guerreiro tem mais é que correr atrás. Não adianta nada jurar a bandeira em publico e depois dessonrar o Brasil como é de costume por ai. Acho gozado brasileiro meter o pau nos norte-americanos e no modo de vida deles, mas na hora do turismo e de ir buscar a muambinha de todo dia, todos lembram de Miami. Mais uma vez meu apoio ao Marine, porque se for como eu penso, correu atrás do seu sonho, o nosso pais é onde vicemos… Read more »

Marine

Agradeco o apoio seus Jose e Mauro, com relacao a questionar meu patriotismo acho apenas inveja daqueles que gostariam poder fazer o que fiz mas quero deixar bem claro que vim pra ca com minha familia quando adolescente – quer dizer, nao tive escolha – mas digo a todos que so falo portugues dentro de casa, tenho toda a familia da minha ainda em BH e sou apaixonado com a ideia de o Brasil um dia ter as Forcas Armadas que merece! Com relacao a minha carreira me considero com sorte por poder servir aqui em uma corporacao tao profissional… Read more »

Marcelo Osrra

Marine Sinceramente apenas um comentario para vc S E M P E R F I !!!!! Parabens cara, se não fosse o USMC não teriamos quase nada para comentar, hoje em dia quase tudo qwu aconteça no mundo militar, seja tatico, logistico, insporação, equipamento, doutrina, etc Continue sempre assm, ” Não planeje, improvise !!!! ” Ser militar é antes de mais nada ter espirito de guerreiro Continue a contar suas experiencias Nosso muito obrigado Marcelo “Ostra” Lopes, o queal tem um filho de seis anos que seu onho é ser um Fuzileiro, tomara ele que quando o for o CFN… Read more »

Farragut

A Royal Navy também pode ter pés de barro, pois sua gerência está sendo questionada pela mídia britânica pelos cortes dos governos trabalhistas.
Um jornal, Telegraph, usou num artigo o fato de que há “mais almirantes do que navios de guerra”. Apesar da falácia, foi interessante saber que aquela marinha, profissionalmente ainda muito bem conceituada, tem 41 almirantes. Há marinhas menores e menos aptas no mundo com cerca do dobro deste número (os FN lá são generais)…

[…] não máquinas, e eles usam suas mentes para criar táticas assimétricas e surpresa, coisas que os oficiais atuais têm dificuldade em lidar. Para ganhar as guerras do futuro, as pessoas são mais importantes, as idéias vêm em segundo […]

josegaldinoreisneto

concordo plenamente com o oficial ingles,fui militar da marinha brasileira ,os nossos oficiais so se preocupam apenas com regulamentos e nada mais.pra que ter uma forca altamente militar e profissional?,segundo os nossos dirigentes nao ha necessidade,armas obsoletas,treinamento inadequado,exploram os militares em situacoes de politicas sociais ,ainda por cima temos oficiais -generais que nao da o minimo para a tropa.quando surge um ,e reserva na certa!servi o corpo de fuzilieros navais por 5anos ,a marinha nao readapta o miltar para a vidacivil .um oficial externadoos problemas da corporacao ,quem sabe a sociedade o escute ereflita. adsumus

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