Home História Um retrato da nossa Esquadra

Um retrato da nossa Esquadra

472
29

“Estamos deixando morrer a Marinha”, diz o ministro, à página do mencionado relatório. “A Esquadra agoniza pela idade e perdido com ela o hábito das viagens, substituído pela vida parasitária e burocrática nos portos, morrem todas as tradições, agoniza a disciplina, desaparece o panache profissional dos velhos tempos.

O pessoal se burocratiza e cria hábitos e interesses meramente civis. (…)

Estamos na encruzilhada: ou fazemos renascer o Poder Naval sob bases permanentes e voluntariosas, ou nos resignamos a ostentar a nossa fraqueza provocadora, a nossa ingênua pretensão de manter brasileiros mais de oito milhões de quilômetros quadrados de solo, diante de um mundo sequioso e convicto do valor exclusivo da competência e da coragem.

Não procede o argumento da impossibilidade material de criarmos uma força naval que se imponha. O fato de manter nossa força nas águas territoriais, junto dos seus recursos, multiplica-lhe a importância, exigindo do atacante muito maior superioridade material para conseguir vantagens que lhe são roubadas pela distância a que deve agir de suas próprias bases.”

E prossegue: “Estamos completamente desaparelhados, já não diremos para ações bélicas que possam por ventura se impor, mas até para retribuir as simples visitas de cortesia de nações amigas! A nossa Esquadra de mais de 20 anos chegou há muito ao limite máximo de sua vida eficiente. A continuarmos nessa orientação, começaremos agora a dar o espetáculo dos desastres em alto-mar, pela extrema usura do material.”

FONTE: Relatório do Ministro da Marinha Protógenes, de 1932 – História Naval Brasileira

FOTO (via NGB): Contratorpedeiro Rio Grande do Norte, representante da famosa “Esquadra de 1910” à qual o relatório faz referência.

Subscribe
Notify of
guest
29 Comentários
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
daltonl
daltonl
8 anos atrás

“The elephant is in the room…again!”

fsneto
fsneto
8 anos atrás

mosso não dá susto, não. Eu sei que a nossa esquadra precisa de suporte, mas pareceu que a coisa estava pior do que aparenta. Pena que a coisa estava lamentável na década de 1930.

jacubao
jacubao
8 anos atrás

Sei não heim… Acho que isso serve em parte para os dias de hoje.

FCGV
FCGV
8 anos atrás

Isso é uma ironia ao comentario do Sr. Temer dizendo que esta impressionadissimo com o extraordinario avanco tecnologico do Brasil.

Em 2027 lançarem nosso SSN. Porem, com um projeto de 2011. E la aposto que algum colarinho branco vai dizer: Estou impressionadissimo com o avanco tecnologico brasileiro!

luisnesbeda
luisnesbeda
8 anos atrás

Infelizmente a nossa marinha não ta longe disto, não temos navios, submarinos, e armamento suficiente, tudo que possuímos ta meia boca. O nosso sub nuclear, nem previsão tem de quando vai entrar em serviço, as previsões divulgadas nunca existiram.

marciomacedo
marciomacedo
8 anos atrás

No que diz respeito à defesa, a diferença entre tucanos e petistas é: para os primeiros, não merecemos nem os usados de oportunidade, muito bons para nós. Veja a luta que foi para comprar o antigo Foch. Quanto aos segundos, eles querem os novos, compatíveis com a nossa aspiração de uma assento permanente no CS da ONU, por isso repudiam os usados, mas também não compram os novos.

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
8 anos atrás

Vale a pena rever outros aspectos da história dessa época também quanto aos desdobramentos do relatório acima. Ao longo dos anos 1920 e, principalmente, anos 1930, a Marinha foi aos poucos (e depois com mais rapidez) construindo seu novo arsenal, na Ilha das Cobras (o atual AMRJ), numa empreitada digna de nota, embora recheada de percalços. Ao mesmo tempo, tentava adquirir alguns contratorpedeiros usados da USN, para poder dar baixa nos seus cansadíssimos pequenos CTs de 1910, e assim pelo menos diminuir a distância que os separava, quanto à qualidade dos meios, em relação aos da Armada Argentina. Não nos… Read more »

aericzz
aericzz
8 anos atrás

Relatório atualizadíssimo…jurava q se referia aos dias de hoje!!!!

daltonl
daltonl
8 anos atrás

Nunão… o negócio com os EUA referente aos contratorpedeiros que vc citou, só não foi adiante devido a objeçoes da Argentina. Os argentinos foram então mais rápidos que nós e encomendaram seus contratorpedeiros dos britanicos que puderam ser todos entregues antes do inicio das hostilidades na Europa. Em que pese o enorme esforço e criatividade do arsenal de marinha, os 3 CTs classe “M” só puderam ser construidos com grande ajuda americana e o mesmo ocorreu com os da classe A. No mais acho que a nossa situação estava pior nos anos 30 do que hoje em dia…até porque, invejavamos… Read more »

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
8 anos atrás

De fato, Daltonl, nas alegações norte-americanas estava o forte dedo das objeções argentinas – não esquecendo que também, nos anos 1920 e 1930, discutiu-se entre Brasil, Argentina e Chile um acordo para equilibrar os reequipamentos navais dos três países, na esteira do Tratado de Washington de 1922. Discussão praticamente inócua, mas que tem a ver também com a não aquisição dos CTs usados na década de 1930. Bem lembradas as aquisições dos CTs argentinos, junto à Inglaterra, à mesma época, e que eram praticamente da mesma classe que os nossos encomendados mas que não vieram. Valeria a pena pesquisar se… Read more »

Ozawa
Ozawa
8 anos atrás

“Estamos completamente desaparelhados, já não diremos para ações bélicas que possam por ventura se impor, mas até para retribuir as simples visitas de cortesia de nações amigas! (…) Mesmo após recentes e insistentes apelos das Nações Unidas para o envio de uma única escolta a fazer parte de força naval conjunta no Líbano, ‘raspamos o fundo do pote’, pois do contrário nada teríamos… Para apoio logístico a partir do mar, em auxílio às forças terrestres brasileiras em Haiti, assolado por terrível terremoto, fizemo-nos ao mar por navios alheios…” Resta saber quem assinaria tal texto hoje…, certamente o congênere do Ministro… Read more »

Mauricio R.
Mauricio R.
8 anos atrás

“Quem representaria a esquadra de 2011 ?”

A corveta “Caboclo” e a classe “Imperial Marinheiro”, estamos desde as “Inhaúmas” tentando substituí-las, mas tá difícil…
Os NAPA classe “Macaé”, absolutamente inúteis dado a exposição de nosso litoral ao Oceano Atlântico, no mínimo deveríamos estar construindo navios patrulha similares aos chilenos ou italianos.
Ou até mesmo similares a classe “Floreal”, de nossos diletos “parceiros estratégicos”.
A absurda insistência em restaurar o acervo de museu aeroespacial, que constitue nossa aviação naval de asa fixa.
E o eterno “sonho de consumo” da MB, o submarino nuclear.

juarezmartinez
juarezmartinez
8 anos atrás

Parece que aos poucos o atual CM e seu almirantado vão saindo do Wordeful world e vindo para o mundo real, e “butinadas” comom esta dos roylties deve faze-los mudar o rumo da “proza”.

Grande abraço

PS dias ruis estão por vir……..

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Dalton e/ou Nunão disseram: “o negócio com os EUA referente aos contratorpedeiros que vc citou, só não foi adiante devido a objeçoes da Argentina.” “Os argentinos foram então mais rápidos que nós e encomendaram seus contratorpedeiros dos britanicos que puderam ser todos entregues antes do inicio das hostilidades na Europa.” “De fato, Daltonl, nas alegações norte-americanas estava o forte dedo das objeções argentinas” Pois é, privilegiaram a Argentina e estes se negaram a colaborar com os aliados, permanecendo neutra no 2ª Guerra enquanto o Brasil, caso tivesse sido o priveliado, poderia ter contribuído melhor para o esforço aliado no Atlântico.… Read more »

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
8 anos atrás

Guppy, Até onde sei, privilegiaram quem pagava em dia… E os contratorpedeiros usados da USN que iríamos obter de quebra galho certamente eram melhores que os nossos, mas eram quase tão velhos e seu maquinário era fonte de constantes dores de cabeça. Cinquenta deles foram cedidos à RN para cobrir a lacuna até a entrada em operação de mais CTs antissubmarino. Na real, não creio que possamos nos queixar da qualidade do apoio da USN e dos EUA nos anos antes da IIGM e durante a mesma – apoio que, logicamente, teve seu preço. Os EUA queriam mesmo garantir o… Read more »

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Perfeito, Nunão.

Abraços

Observador
Observador
8 anos atrás

Caro Márcio Macedo: Menos, menos… Concordo que os tucanos e petistas são farinha do mesmo saco, mas eles têm grandes diferenças. O Tucano é um intelectual metido à comunista; já o Petista é um comunista metido à proletariado. Os primeiros são alienados. Os segundos, mentirosos. Os tucanos fizeram pouco porque não tinha dinheiro na época. E ainda por se ressentir da ditabranda, que os manteve afastados do seu projeto de poder por décadas. Já os petistas nunca pretenderam fazer nada sério na Defesa. Apenas apelaram para o ufanismo apresentando planos de um Brasil-Potência, só para ganhar o voto de um… Read more »

daltonl
daltonl
8 anos atrás

Nunão…

os 2 cruzadores argentinos a que me referi foram construidos na Italia e completados em 1931, com 9000 toneladas de deslocamento quando completamente carregados.

Belissimos navios batizados como Veinticinco de Mayo e Almirante Brown.

O cruzador de procedencia inglesa, o La Argentina, foi incorporado em 1939 mas foi iniciado em 1936, portanto aprovado antes disso o que denota a importancia que os argentinos estavam dando a marinha.

Guppy…

os EUA não privilegiaram os argentinos…os cruzadores eram europeus,
os contratorpedeiros britanicos e espanhois e os submarinos, como os nossos eram italianos, se bem que maiores que os nossos Tupys.

abraços

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
8 anos atrás

Dalton, De fato, você tem razão! É o que dá escrever de cabeça e misturar alhos com bugalhos. Em alguma conexão ruim aqui do meu cérebro, a lembrança de que os dois cruzadores (que de fato foram encomendados na Itália em 1926 e completados em 1931) empregavam armamento principal que à época não era mais comum, de 7,5 polegadas (190mm), me fez confundir com a classe Hawkins inglesa, completada na década anterior, e que se destacava justamente por empregar canhões desse calibre. Junte-se a isso o fato do La Argentina ser baseado na classe inglesa Arethusa e as conexões dos… Read more »

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Ok Dalton. Analisando os seus comentários e os do Nunão, achei que os ingleses, principalmente, privilegiaram os argentinos ao entregar a estes contratorpedeiros novos, às vésperas da 2ª GM e não fazer o mesmo com o Brasil. Mais o Nunão já esclareceu o motivo disto: Falta de pagamento. Aí, perdoo os ingleses. Os argentinos fizeram jus aos novos contratorpedeiros. Quanto aos americanos, nos negaram contratorpedeiros usados um pouco antes em nome do “equilíbrio regional”. Aí eu entendo que preferiam a Argentina mais forte que o Brasil na América do Sul. De qualquer forma o Nunão registra que antes e durante… Read more »

daltonl
daltonl
8 anos atrás

Guppy…vc escreveu… ” Os ingleses mantinham navios de guerra importantes nas Falklands? Porque?” na verdade não haviam navios da Royal Navy permanentemente baseados nas Falklands. O que ocorreu é que os britanicos estabeleceram diversos grupos de caça a navios de superficie alemães, entre os quais a Força G cuja area de operação era o sudeste da América do Sul ,que enfrentou o Graf Spee e a Força K com o HMS Ark Royal no nordeste brasileiro. Um dos integrantes da Força G, o HMS Cumberland, o mais poderoso da Força, estava passando por pequenos reparos nas Falklands e assim perdeu… Read more »

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Beleza Dalton. Grato pelos esclarecimentos.

Abraços

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
8 anos atrás

Guppy, Quanto às Falklands inglesas, a batalha do Rio da Prata teve um precedente na IGM, quando uma força de cruzadores pesados e leves liderada pelo Graf Spee (na época o almirante, não o navio…) foi batida pela pela força de cruzadores de batalha ingleses Invincible e Inflexible, mandados pra lá às pressas. Tal como ocorreu mais tarde na IIGM, conforme a discussão de você e do Dalton, esses cruzadores de batalha não eram navios baseados nas Falklands, mas eram uma força de ação rápida. E justificou esse papel na ocasião – o erro era colocar cruzadores de batalha na… Read more »

MO
MO
Reply to  Fernando "Nunão" De Martini
8 anos atrás

Ow Fernandinho eles na verdade começaram a se pegar em aguas chilecas

a treta terminou nas Falkands, como o Scharnorst e o Gneisenau indo pro saco (em tempo o Schar e o Gneise da IGM, claro, aonde o G(eraudo) Spee bateu as bota)

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Beleza Nunão. Dá até para entender mais porque os ingleses não vacilaram em 1982 e retomaram as Falklands dos argentinos. Estrategicamente estas Ilhas continuam muito importantes. E se lembrarmos que eles ainda tem a Ilha de Ascenção, a de Santa Helena no Atlântico Sul, Bases na Antártida e um Chile aliado e amigo no outro lado do Cone Sul, constatamos que a presença britânica por aqui continua nada desprezível. Agora, voltando um pouco, o fato do HMS Cumberland ter sido reparado nas Falklands sugere uma participaçāo mais importante destas Ilhas no apoio a Royal Navy durante a IIWW no Atlântico… Read more »

daltonl
daltonl
8 anos atrás

Guppy… a importancia das Falklands na II Guerra foi apenas até o fim de 1941, quando todos os cruzadores auxiliares alemães foram afundados ou obrigados a retornar a Alemanha e os navios de superficie regulares deixaram de frequentar o Atlantico. Também com a entrada dos EUA na guerra, o Atlantico Sul passou a ser bem defendido e os britanicos puderam concentar-se em outros teatros mais importantes. Na Primeira Guerra, os alemães tinham colonias no oceano Pacifico, e uma grande marinha e o Almirante Spee após sua vitória próximo ao Chile só poderia rumar para o Atlantico onde pretendia bombardear as… Read more »

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Dalton, MO e Nunāo (ordem alfabética):

Muito obrigado pelas informações/esclarecimentos.

Abraços

GUPPY
GUPPY
8 anos atrás

Às vezes fico congecturando sobre a postura argentina de antes e durante a IIWW… É notória a preocupaçāo dos argentinos, bem antes do início da Guerra, de possuir uma esquadra superior à brasileira, tanto em modernidade quanto em poder de fogo. Por que? Será se era uma precauçāo quanto a um possível ou eventual alinhamento do Brasil com a Alemanha/Itália/Japāo, já que alguns setores da ditadura de Getúlio Vargas tinham simpatias com o nazi-facismo? E nesse caso seriam os argentinos os guardiões da democracia por essas bandas e os americanos e ingleses estariam certos disso e aí eu vejo lógica… Read more »